Jack DelaVega é um dos editores da Tribo do Mouse um blog sobre o dia-a-dia em ambientes de escritório que tem como objetivo discutir aqueles detalhes que ninguém comenta. A vida no escritório serve como pano de fundo para textos, que cobrem tópicos como desenvolvimento de carreira, aspirações pessoais e a rotina das grandes corporações, com visões pouco ortodoxas e bem-humoradas.
Jack pode ser contatado através do e-mail jack@tribodomouse.com.br
Esses anos de vida profissional já deixaram seqüelas no lado pessoal. É verdade que sempre fui uma pessoa objetiva, mas de uns tempos pra cá a coisa ficou bem mais complicada. O fato é que sofro demais com a sensação de que estou perdendo meu tempo. Sintoma disso, é que simplesmente não consigo mais participar de reuniões onde as pessoas ficam apenas jogando conversa fora. Reunião de condomínio é meu inferno astral. Em poucos lugares as pessoas se reúnem com menos objetividade. Na última que tive a coragem de participar, uma senhora apresentou uma longa reclamação sobre a mocinha do 602, que costumava desfilar com trajes íntimos em frente à janela aberta. O síndico prontamente solicitou a formação de uma comissão para investigar melhor o caso. Passamos o resto da noite votando os integrantes da dita comissão, porque havia uma lista grande de nobres voluntários. Divertido, mas definitivamente, perda de tempo.
Pois é, estou virando um animal selvagem, um eremita que não consegue mais conviver em sociedade. E meu problema tem se agravado ao ponto de gerar efeitos colaterais. Um deles, o mais proeminente, é minha obsessão por multitarefa. Me sinto culpado se estou fazendo apenas uma coisa de cada vez, considero desperdício de um tempo precioso. Em algumas situações essa obsessão funciona bem, por exemplo, costumo correr ouvindo audio-books. Genial, exercito a mente e o corpo ao mesmo tempo. Em outras, tenho que conviver com um incômodo déficit de atenção. Torno-me superficial, sabendo nada de tudo. Já é impossível ver TV sem ter uma revista aberta na frente. Isso quando não é o notebook, com suas 12 janelas de e-mail e MSN. E isso se aplica também ao nível pessoal. Quantas vezes me pego no meio de uma conversa respondendo o famoso "ahã, ahã, ahã", quando na verdade minha cabeça está na escalação do jogo de domingo. Dia desses, estava assistindo a uma entrevista sobre o perigo da multitarefa. O entrevistado, que agora não me recordo o nome porque estava checando meus e-mails com a TV ligada, descreveu uma experiência pessoal. Estava dirigindo na neve enquanto recebia fotos picantes da namorada no seu celular, a conseqüência, praticamente óbvia, foi um acidente que quase lhe custou a vida. É senhores, a multitarefa pode matar.
E meu caso não é exceção, ao meu redor vejo muitas pessoas com os mesmos sintomas. O resultado me parece claro, a necessidade de informação aliada à falta de tempo nos torna mais superficiais. Vejo isso nas revistas que assino, que hoje raramente tem reportagens que excedem uma página. Na televisão a realidade é a mesma. E é inevitável que isso se propague para o texto que produzo. Quantas vezes tive que passar o facão em trechos de meus textos, apenas para torná-los mais palatáveis para os nossos leitores. Não estou reclamando, esse é o estilo da web enquanto mídia, textos rápidos para pessoas sem tempo. Infelizmente eu também tenho a mesma necessidade enquanto leitor. Que saudades de quando eu ainda sonhava ler Guerra e Paz.
Porém, a boa notícia é que existe terapia para isso tudo. Hoje mesmo estava dando papinha para o meu mais novo, que está com cinco meses. Durante praticamente vinte minutos lutei bravamente contra todas as minhas neuroses. É simplesmente impossível ser multitarefa dando banana amassada para um bebê, impossível também acelerar o coitado. Foi um bom começo, o baixinho comeu tudo rindo e pedindo mais, e no final até eu estava mais tranqüilo. É bom saber que no superficial mundo de hoje algumas coisas ainda merecem a nossa atenção total.
p.s: Desculpem as eventuais falhas gramaticais, a música no meu iPod estava alta pra caramba.


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