Ai Que Vida! O Filme

26/03/2010 • Por • 4,354 Acessos

AI QUE VIDA!, O FILME

(Por Cícero Rodrigues)*

Ficha Técnica:

TÍTULO ORIGINAL: Ai que vida!

ANO: 2207/Brasil

PRODUTORA: TVM filmes

DURAÇÃO: 100 minutos

DIREÇÃO: Cícero Filho

ELENCO: Irisceli Queiroz, Rômulo Augusto, Toinha Catingueiro, Feliciano Popô, Wellington Alencar, dentre outros.

O filme Ai que vida! é uma comédia da vida real do nordestino piauiense. O filme inicia-se mostrando  o que realmente acontece com as pessoas das pequenas cidades do Piauí, que distantes de grandes centros e desprovidas de boas condições de transportes como estradas e veículos adequados, locomovem-se de um povoado a outro, principalmente por ocasião das feiras e romarias a santuários, em carrocerias de caminhonetes, dividindo espaço com animais e artigos alimentícios. O filme também discute a prática da política nestes mini municípios, historicamente marcada pela corrupção, má formação dos políticos e enganação do povo. Zé Leitão é um político analfabeto e corrupto que juntamente com a vereadora Chica do Pote tenta se reeleger, usando de promessas ludibriantes e prática de superfaturamento das contas da prefeitura através das notas fiscais da funerária da cidade, de propriedade de um dos vereadores ligados ao grupo político de Zé Leitão.

O filme também abre espaço para as típicas estórias e histórias de traição, tradicionalmente contadas e vivenciadas nestes pequenos povoados, ao relatar o caso amoroso da mulher de Zé Leitão com Waldir, jovem rapaz, filho de D. Cleonice, esposa do vereador dono da funerária. Waldir é flagrado na cama com a mulher do prefeito e perseguido por este até chegar em casa. Além de relatar tais acontecimentos, como todo e bom filme, Ai que vida! conta uma bela estória de amor mostrando o triângulo amoroso entre Charlene, Valdir e Gerald. Valdir conhece Charlene num parque de diversões ao ter sua camisa manchada pelo vômito da jovem. No mesmo evento, Waldir envolve-se com o roubo de um perfume. Por causa disso é julgado a prestar serviços voluntários na Casa de Taipa, uma instituição que cuida de crianças carentes. Lá, reencontra Charlene trabalhando como instrutora de dança. Por ela se apaixona. O problema é que a garota está noiva com Gerald, um boy metido a granfino (o único que tem um carro), que trai Charlene com uma mulher de mais idade.

Toda a trama do filme se desenrola no município fictício de Passo Fundo e chega ao seu clímax quando D. Cleonice revolta-se com a situação de abandono em que está a cidade, sem atendimento médico, mergulhada em um mar de corrupção. A gota d'água para o descontentamento de Cleonice é a morte de uma criança pobre, cuja avó pediu auxílio ao prefeito, recebendo dele uma caixa de remédios vencidos, que piorou o estado de saúde do garoto, levando-o a óbito. Indignada, Cleonice rompe com o marido e resolve candidatar-se a prefeita pelo Partido das Viúvas Passofundenses. Apoiada pelos filhos e pela comunidade, vence as eleições com 99,99% dos votos. Zé Leitão acaba derrotado, na praça da cidade com sua mulher adúltera e a vereadora Chica do Pote, planejando mudar-se para outra cidade no intento de enganar as pessoas de lá  e reclamando: "oh vida desgraçada, meu Deus! Ai que vida!" Além deste desenrolar, o triangulo amoroso mencionado tem fim quando o casamento de Charlene com Gerald é interrompido pelos gritos de uma mulher acusando o noivo de tê-la abandonado, grávida. Charlene, desesperada, deixa a Igreja, arruma suas malas e intenta ir embora. Ao saber disso, Valdir imprime, com angústia, uma busca desvairada a sua amada pelas ruas da cidade. Os dois encontram-se na estrada, resolvem ficar juntos e presume-se que serão felizes para sempre

Este filme, nascido da coragem de seus idealizadores e produtores, mostra que é possível produzir o retrato da realidade de um povo através do cinema, mesmo que a qualidade tão exigida pela telona, devido aos poucos recursos e pouca formação cênica dos atores, não esteja presente. Ai que vida! é um presente para o Piauí e o cinema brasileiro. Vários aspectos culturais do povo nordestino, em especial do piauiense, podem ser observados através desta obra. Um deles é a maneira espontâneo de se expressar que tem o piauiense. Ditados populares, expressões e palavras típicas do piauiês estão presentes no filme, tais como mermã, nã, muier,mais notáveis na fala da personagem Mona. Nota-se, portanto, grande variação lingüística de características que priorizam o regionalismo, a linguagem coloquial e informal. Vários gêneros linguísticos também aparecem, como, por exemplo, discurso político, sermão, cantiga de roda, repente, conversação espontânea, ladainha, festival de dança, dentre outras. Enfim, o filme é uma verdadeira fonte de pesquisa e entretenimento para aqueles que quiserem conhecer, de forma divertida crítica, um pouco mais da história e da identidade do povo do Piauí.

*Cícero Rodrigues é professor de filosofia e Inglês da rede pública do Piauí e de Filosofia  e Metodologia da Unversidade Estadual do Maranhão, no Programa Darcy Ribeiro e especializando em PROEJA.

Perfil do Autor

Cícero Rodrigues

Cícero Rodrigues dos Santos é graduado em Filosofia e Letras/Ingles. Atua como professor de Filosofia e Inglês da redpública e d...