Fo T O G R A F I A A B S T R A T A

20/04/2010 • Por • 161 Acessos

Para se entender a fotografia abstrata é preciso compreender a interpretação do real feita pelos fotógrafos através dos tempos. O olhar sobre o mundo, feito pela fotografia, em um primeiro momento, meados do século XIX, foi um continuísmo da maneira como a pintura representava não só a sociedade, seus personagens, a natureza, enfim, o mundo real.

Para se entender a fotografia abstrata é preciso compreender a interpretação do real feita pelos fotógrafos através dos tempos. O olhar sobre o mundo, feito pela fotografia, em um primeiro momento, meados do século XIX, foi um continuísmo da maneira como a pintura representava não só a sociedade, seus personagens, a natureza, enfim, o mundo real.

A fotografia nasce com sua linguagem atrelada à função social que a pintura desempenhava naquela época. Assim a linguagem, neste momento, não só se utiliza da composição oriunda da pintura, como também apresenta-se empenhada em representar a realidade tal qual ela se apresentava.

O movimento chamado pictorialismo é o maior exemplo dessa ligação inicial da fotografia com a pintura.

Por meio de várias formas de manipulação da imagem fotográfica, o fotógrafo procurava inserir a fotografia no universo das artes visuais, ao
mesmo tempo distanciando da então compreensão do que seria uma imagem fotográfica e, aproximando-a da linguagem pictórica.

Com o desenvolvimento da tecnologia, os equipamentos tornaram-se mais leves e as emulsões mais rápidas, permitindo uma maior mobilidade do fotógrafo, facilitando assim, a busca por ângulos inusitados e recortes que fugissem da intenção de representação fiel da realidade.

Um momento importante é movimento do construtivismo russo, já no início do século XX. Não por acaso, neste momento estava nascendo a pintura abstrata. Alexander Rodchenko, e László Moholy-Nagy, principalmente, ampliaram as possibilidades
da fotografia, incutindo no fotógrafo o desafio de mostrar o mundo de uma forma diferente e inusitada. Enriquecendo o imaginário fotográfico, Rodchenko e Moholy-Nagy, iniciaram, a meu ver, a história da fotografia abstrata, propondo novos ângulos em imagens que con contribuíram para o abstracionismo na fotografia.

Com os surrealistas, representados na fotografia principalmente por Man Ray, a fotografia abstrata conquista seu espaço. May Ray, inclusive assessorando Marcel Duchamp em alguns de seus trabalhos, propõe novos elementos estéticos na fotografia, fugindo do figurativo e mergulhando em um universo fotográfico descompromissado com a representação da realidade. May Ray retoma a técnica criada por Henry Fox Talbot, no início da história da fotografia, rebatizando-a de Rayografia, técnica hoje conhecida por fotograma. A idéia é colocar objetos diretamente sobre o papel fotográfico, no laboratório, sem o uso do negativo, pesquisando composições abstratas em ricas gradações de cinzas, luzes e sombras.

As fotografias aéreas, em alguns casos, são imagens abstratas, pois as referências do mundo real se dissolvem, assim como nas fotografias feitas por microscópios.

Interessante notar que, segundo Phillipe Dubois(1), El Lissistsky e Kasimir Malévitch, pintores do movimento artístico chamado Suprematismo, se inspiraram em fotografias aéreas para produzirem suas imagens abstratas.


Aqui quero fazer um pequeno paralelo entre a fotografia abstrata e a pintura abstrata. Para Meyer Schapiro(2), ao contrário do que alguns dizem sobre a pintura abstrata, esta não é fruto de um excesso de racionalismo e ausência de sentimentos, é sim, o
ápice da dimensão humana no processo criativo. É no abstrato que o artista
coloca todo o seu potencial para criar uma imagem que não traga em sua percepção referência de figurativo. Faço uma comparação com a fotografia abstrata, com a ressalva que sem o referente real a fotografia não existe.

A fotografia traz consigo, sempre, um rastro do real, definida por alguns como uma imagem de natureza indicial. Isto coloca a fotografia abstrata em uma situação de ambigüidade. Ao mesmo tempo que procura negar uma representação figurativa da realidade, por outro lado, até por sua gênese por projeção luminosa sobre a material fotossenssível, não pode nascer desassociada de algo real que esteve diante da câmera.

Há também um desafio que o fotógrafo se impõe de ser original, fruto do bombardeamento não só de fotografias mas também de todos os tipos de imagens, sempre na busca de ter em suas fotografia uma abordagem diferente nunca antes vista. Isto o instiga na procura por abstrair o real, e propor imagens que mesmo geradas a partir de referentes reais ao mesmo tempo negue este mesmo real.

O resultado é um conjunto de fotografias abstratas que ao mesmo tempo em que nos remetem ao digital, demonstram também as muitas possibilidades da fotografia explorando apenas o recorte da realidade que nos cerca. São imagens que partem de um mundo real e negam, ao mesmo tempo, sua ligação com referentes deste real.

Na exposição Composições, o abstracionismo está em uma total negação ao figurativo. As fotografias não têm foco, dificultando ainda mais o reconhecimento do referente. São massas de cor, com seus limites diluídos, distribuídas pelo retângulo em uma pesquisa estética de composições.

Não sei se interessa saber a partir de qual objeto foi feita uma fotografia abstrata. Mas para o espectador, em geral, isto é importante, pois a fotografia traz esta ligação indissociável com o real. Como é fotografia então há um objeto para onde a máquina fotográfica esteve apontada por um átimo de segundo que seja. É a ambigüidade do abstracionismo na fotografia. Prefiro que o julgamento do resultado não esteja condicionado ao conhecimento de qual porção do real aquela imagem partiu, mas espectador é livre em suas considerações e julgamento.

O abstrato nega o figurativo, e de certa forma nega o real, isto instiga o fotógrafo. Uma vez em exposição o fotógrafo quer mostrar do que foi capaz e faz um desafio ao espectador: Será capaz de julgar a imagem sem precisar saber a partir do quê foi feito aquela fotografia?

1 DUBOIS, Philippe. O ato fotográfico. Campinas, SP. Papirus, 1994.
2 SCAHPIRO, Meyer. Mondrian-a dimensão humana da pintura abstrata. São Paulo-SP, Cosac & Edições, 2001.

 

 

Perfil do Autor

Leandro Bertucci

Rinaldo Morelli