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O Apelo Do Poder


Está se tornando cada vez mais comum cativar as pessoas com teorias de poder pessoal. O que são essas teorias e porque elas têm tanta popularidade?

 

Teorias de poder pessoal prometem que você governará sua vida com muita mais facilidade, e que o os males do mundo tem ocorrido porque as pessoas perderam o poder de influenciar suas próprias vidas, enquanto instituições ou poderes externos ao indivíduo tomaram esse poder de reger a vida das pessoas para si, para benefício de uma classe ou de uma ideologia.

 

Sabemos que há alguma verdade nisso, mas até que ponto o poder que as empresas, os governos, as religiões ou a ciência tomaram realmente derivam dos indivíduos? Minha teoria sobre as teorias de poder é que elas não criticam de onde vem esse poder, elas têm apenas a intenção de dar esse poder ao indivíduo, independente de qual seja sua verdadeira fonte. Religiosos poderiam dizer: a fonte desse poder é divina, e é uma blasfêmia que o indivíduo tente tomar esse poder para si. De forma parecida, naturalistas irão dizer: este poder vem da natureza, e o problema não é se temos o direito de tomar esse poder para nós ou não, o problema é que não temos a capacidade de administrar esse poder de forma não-destrutiva.

 

A maioria das novas teorias de poder se baseia na teoria holística. Trata-se de dizer que estamos todos conectados, somos todos um. Isso quer dizer duas coisas ao mesmo tempo: Em primeiro lugar o ego não existe, é uma ilusão. Quando se quebra essa barreira, esse véu de ilusão do ego, você percebe que não apenas você não está separado do resto da criação, mas você e deus são a mesma coisa. Em outras palavras, você é deus, a realidade é construída de acordo com sua vontade.

 

A premissa básica desta teoria é a conexão como essência o cosmos. Tudo que existe no mundo são conexões e conexões de conexões. Este texto, por exemplo, é uma conexão de átomos, que por sua vez é uma conexão de partículas, que por sua vez é uma conexão de energia, que por sua vez não se difere do pensamento. Este texto é, portanto, pensamento. Somos todos ondas de probabilidade, ondas de pensamento, não somos propriamente coisas físicas. Tudo isto é metafísica, por mais que os teóricos do poder afirmem isto e citem experimentos de física quântica. É apenas uma maneira de ver o mundo, não é “a grande verdade do universo”.

 

A percepção, por outro lado, também é vista como conexões ordenadas. Você percebe conexões de fótons, eles se organizam no seu cérebro, e isso faz emergir sensações visuais, por exemplo. A segunda premissa é que conexões ou relações são nada além de matemática. São padrões que podem ser previstos e reproduzidos, modificados de acordo com as leis de organização do universo.

 

Seguindo as duas premissas é possível concluir que o universo inteiro está sob nosso controle, porque controlar o universo é idêntico a controlar a si mesmo. A realidade se apresenta como uma rede dinâmica de experiências transitórias, e cada coisa no universo, não estando isolado, faz parte da rede de relações universal e não pode ter suas partes separadas. Cada coisa influencia todas as outras.

 

Agora a terceira premissa: Os seres humanos são auto-determinados. Isto quer dizer, agem por si sós. Eles negam a influencia externa, pois não há nada externo. Dizer que há algo externo seria, para eles, afirmar uma separação. Tudo é interno, porque está tudo conectado. Tendo esse poder, o ser humano pode interferir na rede de relações, pode fazer com que ela tome o padrão que ele desejar.

 

São os poderes transformadores da mente. O que é prometido é simplesmente a solução de todos os seus problemas sem ter que fazer nada a respeito da cultura, da política, da economia. Está tudo na sua cabeça, é só pensar positivo. Certamente pensar negativamente não ajuda, mas achar que tudo pode se resolver com soluções psicológicas é conformismo.

 

Há várias instâncias em que esta teoria de poder pode ser criticada. Primeiro, o poder da mente afeta apenas as percepções subjetivas, afeta apenas a própria mente. Isso muda o seu mundo perceptivo, mas não muda o mundo. O mundo continuará sendo destruído pela nossa ciência, por mais pensamento positivo e brilhante que se tenha.

Não é possível, com este método apenas, distinguir entre auto-engano e auto-ajuda. O sujeito não tem como saber se está se conformando com uma situação ou realmente a mudando se ele restringir sua análise ao que ele mesmo pensa. Deve haver intersubjetividade e comunicação entre mentes, ou o que você terá é um dogma.

 

É sempre possível, e bem mais fácil, eliminar os efeitos de um problema sem eliminar a causa. É evidente que se os livros que supostamente nos ajudam a resolver nossos problemas pessoais tivessem algum efeito nas causas, eles continuariam a crescer, e logo a venda desses produtos não cresceria. O que é interpretado como um sucesso de vendas é na verdade uma monumental falha em atingir os objetivos.

 

A auto-determinação do ser humano é discutível. É baseada na idéia do livre-arbítrio, que é um dogma religioso da idade média. Dizer que somos determinados pelo meio seria igualmente incorreto, mas o fato é que a auto-determinação contradiz a própria teoria da unicidade de todas as coisas. Se tudo afeta tudo, então eu sou afetado por todas as coisas na mesma medida. A não ser que você tenha uma hierarquia de relações, e relações que não são afetadas por nada, não é possível que algo seja auto-determinado.

 

As relações primordiais seriam as vontades, humanas, elas não seriam causadas por nada, mas são causadores de tudo. Por algum motivo a mente humana seria o motor imóvel de Aristóteles, a causa primeira. Este idealismo extremado é conseqüência da metafísica e do misticismo de Berkeley.

 

Também é possível criticar a idéia de que devemos encontrar os fundamentos ou as leis de organização da realidade para que possamos viver melhor, ou sequer saber quem somos nós. Pensar que essas leis são imutáveis ou cognoscíveis por completo é reduzi-las a um modelo unilateral e estático.

 

Essas relações são vistas como pura matemática, como se a matemática não fosse uma criação humana. A matemática não antecede essas relações, ela apenas as representa. Não podemos reduzir a realidade à sua representação mental.

 

Finalmente, a idéia de que tudo no universo são conexões é por si só criticável. O fato de que a solidez seja uma criação da mente não significa que seja inútil, ou que possa ser substituída por algo que não seja, por sua vez, outra criação da mente.

 

Uma última crítica às teorias de poder é que elas prometem controle, elas colocam a questão do aumento do controle da mente sobre o mundo, do homem sobre a natureza, de uma parte sobre a outra. Não há nessas teorias qualquer crítica das implicações desastrosas do poder, da hierarquia e do controle. Pelo contrário, o que há é uma redução de todas as relações à relações de poder humano.

 

A obsessão por poder jamais trouxe algo de bom. Não precisamos de mais controle sobre a natureza, nossas vidas parecem estar desgovernadas quando na verdade elas estão excessivamente governadas. É a estrutura que as governa, a civilização, que não funciona, e não a maneira como temos nos organizado nela.

 

Então, ao invés de buscar estabelecer mais controle sobre a vida, devemos deixar a vida fluir, e isso significa se opor à civilização e suas restrições. Certamente teríamos que ser deuses para continuar com a civilização, pois ela é insustentável. Mas há outras formas de viver que não nos exigem que sejamos mais do que realmente somos.

 

A visão fatalista da história ignora que nossos problemas são relativamente recentes na história da humanidade, e que controlar a natureza não é a natureza do ser humano. Controlar a natureza é aquilo que está nos matando.

 

“Temos apenas uma coisa para desistir: nosso domínio. Não somos donos do mundo. Não somos reis aqui, não somos deuses. Podemos desistir disso? É precioso demais, todo esse controle? É tentador demais, ser um deus?” – Fala de Ethan Powel no filme Instinto.

 

Janos Biro

Nascido em 1980. Filósofo e escritor.

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