Sobre o suicídio

15/09/2011 • Por • 123 Acessos

Sobre o Suicídio

 

 

Através da iniciativa da Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio, em parceria com a Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu-se o dia 10 de Setembro como o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio. Para essa Organização, o suicídio é causado por problemas psicossociais, culturais e ambientais e podem ser prevenidos através de ações internacionais, locais e nacionais.

Uma estatística apresentada pela OMS mostrou que, aproximadamente três mil pessoas se matam por dia, e que nos últimos 50 anos esse número cresceu 60%. Outros dados revelam que, atualmente, o suicídio já é uma das principais causas de morte entre os jovens e adultos de 15 a 34 anos. No Brasil, 9,5% da população urbana já teve pensamentos suicidas e 3,1% tentou tirar a própria vida.  O livro Prevenção do Suicídio: Manual Dirigido a Profissionais das Equipes de Saúde Mental traz dados de outras estatísticas: em 2003, cerca de 900 mil pessoas cometeram suicídio no mundo inteiro e em 2004, aproximadamente oito mil brasileiros tiraram a própria vida. Nada mais palpável para justificar a gravidade desse sintoma.

O fato é que culturalmente eternizamos um simbolismo nebuloso a respeito do suicídio e infelizmente ainda pendemos nessa direção. O que se tem feito para modificar esse registro emocional é muito pouco. Falta interesse e investimento, tanto por parte do governo, dos líderes religiosos quanto das instituições de ensino, no sentido de colaborar com a "desmistificação do suicídio". Precisamos entendê-lo, descobrir a sua origem, fazer o seu diagnóstico, prever as suas consequências, elaborar o prognóstico, trabalhar na prevenção, no tratamento e na cura. O que parece é que somos afetados por esse simbolismo sombrio e isso nos faz recear a própria busca do seu entendimento. 

Não há, necessariamente, enigmas no suicídio. Há na vida do indivíduo, em algum momento, um intenso sentimento de autodepreciação, impotência e desistência diante dos obstáculos da vida, coisas próprias da condição humana. O suicídio deve ser visto como um sintoma social ou psicológico e estudado com a objetividade científica. Não podemos continuar permitindo que esses episódios de "enfraquecimento vital" tomem conta da vida psíquica de grande parte da população e determine a nossa qualidade de vida e o limite da nossa existência, mas para isso é preciso conhecê-lo.

No Dicionário de Psicanálise, Ed. Zahar, suicídio é o termo cunhado a partir do latim sui (si) e caedes (matança), introduzido na língua inglesa em 1636 e na língua francesa em 1734, para expressar o ato de matar a si mesmo, no sentido de uma doença ou uma patologia, em oposição à antiga formulação "morte voluntária", sinônima de crime contra si mesmo.

O Dicionário Internacional de Psicanálise define o suicídio como "um ato sintomático que, na maioria das vezes, se insere no quadro das depressões e das melancolias. Sua etiologia é variada e complexa, visto que se caracteriza ao mesmo tempo por um desmoronamento do Eu, com autocensuras e uma diminuição ou até a perda total de autoestima, e por uma onipotência mágica que permite aniquilar os perseguidores internos, e um sentimento maníaco baseado na negação da própria morte". O suicídio é então o resultado de um estado de crise dominado pelo sentimento de que alguma coisa deve mudar.

Uma observação encontrada no Dicionário de Psicologia, Ed. Ática, é a de que embora não exista um perfil psicológico do suicida, toda alteração mental é mais ou menos suicidógena, principalmente a melancolia, onde o risco é maior. Na depressão neurótica, a passagem ao ato parece função da estruturação das defesas. Certos trabalhos neurobiológicos emitem a hipótese de uma vulnerabilidade à passagem ao ato – seja ele qual for – relacionada com uma disfunção serotoninérgica. É sabido que a serotonina age como neurotransmissor que toma parte na regulação do processo de tristeza e que a mesma é influenciada pela forma como percebemos a vida. Conclui-se que os contornos que damos aos acontecimentos da nossa vida têm ligação direta com a nossa tendência suicida. 

Os dados estimam que um suicídio afete de 6 a 10 pessoas próximas à vítima, entre parentes e amigos. Essas situações provocam graves danos emocionais também para as pessoas mais próximas, família e amigos. O impacto emocional provocado pela perda pode durar muitos anos, e pode ter, nas famílias, consequências que perduram por várias gerações. Sofremos todos, com esse ato que retrata a fragilidade do ser, porque somos espectadores e ao mesmo tempo atores nessa vida.

Perfil do Autor

Renner Cândido Reis

Renner Cândido Reis, psicólogo e psicoterapeuta, especialista em psicoterapia psicanalítica pela PUC-GO. Atendimento clínico em consultório...