Após meses de expectativa a Anfavea apresentou em setembro seu estudo da competitividade da indústria nacional de veículos, encomendado pela entidade e realizado pela PricewaterhouseCoopers.
Que, a esta altura, já circula de mão em mão pelos corredores de Brasília, DF, especialmente nos ministérios do desenvolvimento e fazenda, do BNDES e também da Receita Federal.
O estudo traz dados para lá de interessantes, e ao contrário do que se possa imaginar não festeja o crescimento registrado em 2007. É verdadeira água no chope, ou tapa na cara dos animados pelo forte crescimento. Razão: estamos crescendo, sim, mas outros países estão crescendo ainda mais – e gerando condições melhores para atrair investimentos globais do setor.
Segundo o estudo o setor automotivo como um todo, contando do fornecedor primário ao seguro do veículo, já representa 6,4% do PIB brasileiro. E somente fornecedores e montadoras recolhem 8,1% do total de impostos diretos – IPI, ICMS, PIS e Cofins.
Mas nosso ritmo de crescimento está muito atrás de outros países. O estudo criou uma TACC, Taxa Anual de Crescimento Contínuo, para os números de produção de veículos de 1997 a 2006. Enquanto a China cresceu 18,3%, a Índia 14%, a Rússia 2,9% e o México 4,6% o Brasil evoluiu no mesmo período apenas 2,6%.
E, o que dá mais medo, a previsão de aumento da capacidade instalada de 2007 a 2012, em total de 10,7 milhões de unidades, aponta a Índia crescendo 21,2%, China 19,4% Rússia 13%, México 10,8% e o Brasil míseros 3,8%. O que, por tabela, transformaria o grupo Bric em Mirc – com os mexicanos tomando nosso lugar.
O estudo é taxativo ao afirmar que “o País está perdendo investimentos no aumento de capacidade para os demais membros do Bric e para o México”.
O presidente da Anfavea, Jackson Schneider, afirma: “Não podemos perder relevância no cenário internacional. Este é o momento de tomar decisões sobre investimentos de longa maturação, que só serão feitos caso os investidores enxerguem o retorno no horizonte. Vivemos um bom momento, mas queremos olhar para frente”.
É o que se chama bater na mesma tecla, mas pelo menos agora há dados concretos do estudo que servem – e servirão – como ótimo argumento. A conclusão do estudo é assustadora, para dizer o mínimo.
Calcula a Pricewaterhouse Coopers que, caso mantido o cenário de movimentos globais no setor, e também o perfil e atual momento de investimentos aqui, em 2013 produziremos 3,72 milhões de unidades, com 1,86 milhões de empregos e crescimento médio na produção de 5,2% ao ano.
Parece bom, mas caso os investimentos em busca da competitividade tanto solicitados sejam realizados os números mudam para produção de 5,10 milhões de unidades, 2,55 milhões de empregos e crescimento de 10% ao ano até o mesmo ano 2013.
O que poderá separar um cenário do outro, segundo Schneider, será a capacidade de agir do governo. E por isso a importância do estudo, de dar mais subsídios aos grupos técnicos de Brasília responsáveis por formular políticas industriais.
Conclui o estudo que “a indústria automotiva brasileira necessita atrair maior volume de investimentos globais direcionados ao setor, no sentido de assegurar sua capacidade tecnológica e de crescimento da produção em relação aos atuais patamares, mantendo no mínimo seu peso relativo, sua importância e capacidade de competir no cenário mundial”.
Também acrescenta: “O Brasil necessita manter e ampliar sua competitividade na exportação no sentido de assegurar a escala de produção necessária e nível tecnológico adequado para fazer frente aos competidores não só nos mercados internacionais mas também no doméstico”.
E, como se ainda não fosse suficiente, avisa: “É preciso manter o crescimento sustentável da demanda interna, de forma a obter sucessivos ganhos de escala e conseqüentemente assegurar a competitividade de nossos produtos, inclusive em relação à atualização tecnológica”.
Publicado originalmente na revista AutoData no. 218, de setembro de 2007.