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A Curva J

Por: Janos Biro Ranking do Autor Bronza Autor nos TOP 100 | Publicado em: 29-07-2008 | Comentários: 0 | Acessos: 76 | Avaliação:  (93) Ranking do Artigo Azul (?)

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Nós somos educados para pensar que a população humana sempre cresceu exponencialmente, e se não crescia antes, é simplesmente porque não havia condições para fazê-lo. Ou seja, o destino da humanidade sempre foi ter um crescimento populacional exponencial, ainda que nenhum outro organismo faça isso. Se as bactérias, por exemplo, não tivessem um limite de capacidade para seu crescimento populacional, nem sequer haveria vida além das bactérias. Mas nossa resposta simplória é "As bactérias são burras demais para isso". E no caso, nós deveríamos agradecer à burrice delas, que permitiu a vida na terra. Devemos então escolher entre ser mais inteligentes ou permitir que a vida continue?

Bem, o que nossos brilhantes cientistas dizem sobre isso é que o limite de capacidade não se aplica à humanidade. Por quê? Boa pergunta. Eles dizem que a criatividade humana vai sempre ser capaz de lidar com o excedente populacional. Ela fez isso até agora, então vai fazer isso sempre. Não é um belo argumento? Pena que seja uma falácia. Qual o custo de deixar a população humana subir sem parar?

O fato é que a naturalidade desse crescimento é uma tese extremamente complicada de defender, significa que não só nossa população aumenta exponencialmente, mas que nossas técnicas também avançam exponencialmente. Isso é verdade? Em que sentido nossas idéias avançam cada vez mais rápidas? Ao ver a rapidez com que a telefonia celular, por exemplo, tomou conta do mundo, tendemos a achar que o homem sempre vai inventar algo melhor em menos tempo do que da última vez. Se o telefone levou, suponha, 50 anos para se espalhar, e o celular levou apenas 5 anos, o próximo passo é que 7 bilhões de pessoas adquiram a próxima tecnologia em 6 meses, depois 20 dias, depois 5 dias, 12 horas... E assim por diante. A população pode até se estabilizar nos países desenvolvidos. Mas a produção de bens de consumo não pode diminuir sem causar crise econômica global, e os países não podem se desenvolver sem produzir e vender mais.

Malthus estava preocupado porque em sua época era difícil imaginar uma tecnologia que pudesse produzir comida na mesma velocidade em que se produzia gente. Essa tecnologia foi criada, mas uma coisa continua certa: não podemos avançar nossas técnicas de produção exponencialmente para sempre, o que podemos fazer é reduzir o tempo e o custo imediato da produção, enquanto aumentamos o impacto ambiental. Quanto mais terras produtivas você tiver, menos terras disponíveis você terá, não importa quanta tecnologia esteja envolvida nisso.

No tempo em que nossa população levou para dobrar da última vez, nossas técnicas produtivas não dobraram sua eficiência. De fato, se contarmos apenas com a questão numérica, nós aumentamos a produção em MAIS que o dobro, mas não por eficiência das técnicas de produção, e sim por expansionismo. Isso não evitou que a fome crescesse, hoje culpamos a má distribuição. Mas aumento quantitativo de produção não é o único fator para se julgar o avanço de uma técnica. Por exemplo, não há dúvidas que podemos produzir 2 ou 3 vezes mais do que produzimos hoje. A dúvida é: podemos sobreviver às conseqüências dessa produção? Podemos manter criar uma distribuição eficiente para tamanha produção? Tendemos a achar que a distribuição é um problema distinto do crescimento de produção, mas não é. Quanto mais produzimos mais complexa se torna nossa rede de distribuição, exige mais e melhor transporte de carga, o que exige avanço de outras técnicas. Qual o impacto ambiental dessa produção e distribuição? Certamente podemos reduzir os nossos custos de produção, mas e quanto aos custos para o ecossistema? Não podemos aumentar a capacidade de absorção e regeneração de energia da Terra. Não podemos aumentar a complexidade do sistema urbano indefinidamente, sem aumentar o risco de colapso, guerras, conflitos. O ser humano está não naturalmente adaptado a mudanças cada vez mais rápidas de ambiente social.

Mas vamos ser otimistas. São apenas algumas leis físicas, biológicas e econômicas para quebrar. Suponha que nós consigamos. Nesse caso, há uma lista de coisas que deverão aumentar como em todas as outras vezes que aumentamos nossa produção: necessidade de qualificação, dependência tecnológica, toxidade, desperdício, desemprego, criminalidade e corrupção e controle coercitivo. No melhor dos casos, poderemos resolver os nossos problemas atuais, mas nada indica que não iremos criar problemas ainda maiores, como de fato temos criado em todos os outros estágios de desenvolvimento. É um otimismo incrível esperar que dessa vez possamos fazer a mesma coisa que sempre cria efeitos ouroboros, e ainda assim prometer que nada de ruim vai acontecer.

A questão é: Por que o limite de capacidade não se aplica à humanidade? Alguém pode dar uma explicação para isso, ao invés de uma crença dogmática no avanço tecnológico? É como crer que só porque o barco não afundou ainda, podemos continuar enchendo-o de buracos...

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Janos BiroPerfil o autor:

Nascido em 1980. Filósofo e escritor.

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