Bem verdade que é difícil desassociar carros tunados, ou modificados e até envenenados, como queira, de um bando de moleques tiradores de corridas de rua que enchem de penduricalhos seus veículos, muitos de utilidade e gosto duvidoso, no melhor estilo consagrado pelo filme Velozes&Furiosos.
Mas o fato é que o universo de acessórios, ao menos nos Estados Unidos, está muito, muito além disso. Para ser exato, US$ 36,7 bilhões além. Ao ano.
Lá a indústria de acessórios para veículos é vista de maneira bem diferente e particular, especialmente por, em país acostumado a mensurar quase tudo pelo valor, movimentar tamanha quantidade de dinheiro, empresas e empregos.
A grande diferença do que acontece no Brasil e outros países para a realidade estadunidense no universo de acessórios, ou tuning, é fruto de simples substantivo feminino: organização. Para a qual a melhor representatividade atende por sigla de quatro letras – Sema.
Sema é entidade sem fins lucrativos, a Specialty Equipment Market Association, nascida em 1963 como Speed Equipment Market Association. Reúne hoje mais de 7 mil membros, fabricantes e distribuidores de acessórios dos mais diversos tipos, todos focados no aftermarket. É uma espécie de Sindipeças dos acessórios, para focar na realidade nacional.
E esta organização associativa faz toda a diferença. Juntos, os fabricantes naturalmente remam para onde a maré lhes favorece, carregando consigo milhares de empresas e consumidores. Ou, como prega a entidade, “o amor pelos veículos e seu desempenho e personalização”.
A força da Sema vai muito além do que se pode imaginar à primeira vista. Em 2003, por exemplo, estabeleceu-se no centro do poder estadunidense, Washington DC, com um grupo de lobby denominado Sema Political Action Commitee, ou simplesmente Sema PAC. E que já conta, dentre outros, com 12 senadores e 81 deputados – republicanos e democratas.
Em outras palavras a Sema tem atuação muito forte em tudo que pode representar benefício ou ameaça a ela e seus membros. Garante o CEO Christopher Kersting que o objetivo é lutar por regras claras no que se refere à segurança, aplicação e utilização de acessórios automotivos.
Trazendo novamente a equação à realidade brasileira, aqui a Sema estaria diretamente envolvida, por exemplo, nas recentes discussões a respeito de legalização de engates, liberação do uso de sistemas GPS no painel, obrigatoriedade do uso de rastreador e outras mais. E teria grande influência nas decisões do Denatran a este respeito.
A Sema também realiza programas e eventos relacionados à segurança automotiva e educação ao volante, inclusive para crianças – é radicalmente contra rachas ou pegas, por exemplo. Garante Kersting que “a Sema é um grande centro de desenvolvimento de negócios e tecnologia, para seus associados e para a sociedade. Seu objetivo é atender ao setor da maneira mais ampla possível, ajudando os membros a desenvolverem seus negócios e os consumidores a adquirir produtos seguros que melhorem a performance, aparência, conforto ou conveniência de seus veículos”.
Foi exatamente partindo deste raciocínio que a Sema conseguiu colocar na cabeça dos aficionados por veículos marcas que hoje são verdadeira referência, e que nasceram em sua maioria do sobrenome de seus criadores em negócios de fundo-de-quintal voltados às corridas: Brembo, Edelbrock, Foose, Mallory, Shelby, Simpson, Thompson, Weber...
E não exatamente por acaso hoje um dos comitês mais atuantes da Sema é o de negócios internacionais. É um dos enfoques aos quais a entidade mais se debruça, em esforço para que seus membros enviem seus produtos a outras partes do mundo afora Estados Unidos – por isso muitos estandes do Sema Show traziam placa multilingüe: Nós Exportamos. E para isso, mais uma vez, a entidade utiliza seus conhecimentos mercadológicos e políticos.
Pois sabe muito bem a Sema que em muitos países personalização ou alteração em veículos é simplesmente proibido pela legislação de trânsito, caso de Brasil, China e Itália, por exemplo – ainda que nos três não seja exatamente cumprido à risca. Mas a entidade tem visão clara de que este é importante obstáculo às suas pretensões de crescer internacionalmente, e parece disposta a fazer o necessário para reverter o quadro.
Linda Spencer, diretora de relações internacionais e governamentais da Sema, oferece prontamente “qualquer tipo de auxílio legal e político a outros mercados”, ou seja: o know-how da entidade para que países disciplinem uso de acessórios automotivos, o que, por tabela, significa abertura oficial de novos mercados internacionais a seus afiliados.
É por tudo isso e algo mais que o Sema Show, evento anual que na edição 2007 completou 40 anos, realizado sempre na primeira semana de novembro, é muito mais do que um mero salão de carros tunados, como à primeira vista pode parecer.
O Sema Show nasceu em 1967 em Los Angeles como vitrine para os produtos fabricados pelos membros da entidade. E hoje é o maior salão de acessórios e carros tunados do mundo, pelo qual inclusive montadoras fazem grandes esforços (veja box).
São cerca de 100 mil m2, 2 mil expositores e 125 mil visitantes de 100 países espalhados pelo Las Vegas Convention Center. Em 1967 foram parcos 98 expositores e 3 mil visitantes, apenas dos Estados Unidos. A diferença de números é espelho perfeito do crescimento da Sema e de sua exposição.
Os estandes são na maioria pequenos e simples – basicamente só carpete, mesas, peças e carros –, o que ajuda a explicar tamanho volume de expositores. Mas é necessário fôlego de atleta – e tênis – para percorrer todos os pavilhões, separados por setores: 4x4, acessórios em geral, áudio, celular e eletrônica, competição e performance, ferramentas e equipamentos, pneus e rodas e restauração. Os estandes das montadoras ficam, propositadamente, espalhados por estas áreas, forçando visita a todas. Lá estavam Chrysler, Ford, GM, Honda, Hyundai, Kia, Lexus, Nissan, Scion, Subaru, Suzuki, Toyota – patrocinadora oficial do evento – e Volkswagen. E fornecedores do garbo de 3M, Basf, Bosch, Continental, DuPont, Eaton, ExxonMobil, Firestone, Garrett, Goodyear, Lear, Mahle, Pilkington, Pirelli, PPG e Shell, dentre outros.
Impossível mensurar o tanto de veículos especiais na mostra: fato é que não cabem nos pavilhões e boa quantidade fica, ainda assim espremida, em área aberta – chuva em Las Vegas é raro, o que ajuda. Vão de picapes 4x4 de altura descomunal, de quase dois metros, a low-riders capazes de impedir que formiga passe sob eles.
Pela própria natureza da mostra terno e gravata não são exatamente bem-vindos, ou comuns. Perdem disparado para bonés tortos, tatuagens e piercings – mas vale a lembrança de que a entrada é fechada ao público, limitada a convidados envolvidos diretamente com o setor.
Publicado originalmente na revista AutoData no. 220, dezembro de 2007.