Relações Familiares E Envelhecimento

Publicado em: 11/11/2009 | Comentário: 0 | Acessos: 313

Relações Familiares e Envelhecimento

A velhice tornou-se uma questão crucial no contexto da sociedade atual, uma vez que a mesma encontra-se em processo de envelhecimento. Devido ao aumento da expectativa de vida, o número de idosos é expressivo e continua crescendo. Assim, há uma mudança no perfil da população no terceiro milênio, transformando também todas as faces da vida humana: cultural, social, política, econômica, familiar, individual, entre outros (SOUZA, 2008).

Para muitos, a terceira idade começa após a aposentadoria, dos 60 anos em diante, depois que os filhos já se foram. Alguns idosos, por sua vez, afirmam que a velhice só começa quando a pessoa se sente velha. Tal afirmação ganha força ao constatarmos, tanto através da mídia como no dia-a-dia, o caráter negativo que acompanha as coisas consideradas “velhas”, ou seja, a sociedade é resultado de uma cultura que valoriza a juventude, somente o novo é bom, o que pode levar idosos a não aceitarem a sua idade.

É fundamental destacar que cada ser humano encara a velhice de uma forma diferente, pois esta etapa está relacionada e é vivida por cada um de acordo com sua história, relações familiares, cultura, visão de mundo individual, etc.

Segundo Miranda:

Assim como em outras fases da vida, como por exemplo, a adolescência, com o passar dos anos a pessoa se depara com algumas transformações físicas e psicológicas. Por exemplo, uma pessoa, ao se olhar no espelho pode constatar que seus cabelos tornaram-se brancos e mais ralos, sua pele está enrugada, a memória pode já não ser tão boa como antigamente, dentre outras mudanças. Ou então uma pessoa recém aposentada pode ficar satisfeita por ter mais tempo livre para se dedicar a tarefas às quais antigamente não possuía tempo, mas também pode se sentir frustrado e inútil (MIRANDA, 2008).

 

Entretanto, mesmo entendendo as várias formas de enfrentamento da velhice criadas por cada cidadão, um ponto é inquestionável: com o avanço da idade, o idoso necessita cada vez mais da proximidade de alguma outra pessoa, na maioria das vezes, alguém de sua família. “Estas relações entre o idoso e seus familiares, assim como todas as relações humanas, passam por alguns momentos de crise, independente de ser o idoso saudável e independente ou doente e extremamente dependente” (MIRANDA, 2008).

De acordo com Goldim (2004), em diversas culturas, as relações familiares sempre representaram um ponto de questionamento, visto que a família é apontada por estudiosos do envelhecimento como um importante elemento ao bem-estar dos idosos. Sendo assim, a discussão sobre relações familiares está cada vez mais atual, devido à redução do âmbito familiar, ao aumento da expectativa de vida da população, as crescentes demandas de trabalho e sobrevivência das famílias e ao surgimento de novos papéis de gênero.

Assim, segundo Castilho (2006), podemos afirmar que:

[...] o modo como os idosos vivem e são vividos por suas famílias está ligado à dinâmica das relações, à estrutura e organização da família, ao seu contexto cultural e social, à classe social e a questões como gênero, estado civil e saúde. Em suma, que cada família veio construindo e transformando a afetividade no decorrer de seu ciclo vital. Contextos amorosos que constroem a intimidade superam melhor seus conflitos.

 

Entende-se, portanto que superar conflitos quando a convivência não se dá e a conversa trava torna-se ainda mais difícil.

Também é importante destacar que nas últimas décadas a família tem sido pensada de forma fragmentada, desconectada nas suas relações interpessoais, intergeracionais. A segmentação da família em núcleos isolados (a criança, o adolescente, o idoso, a mulher) “fragmenta o olhar para o grupo familiar como um todo que interage, e não é simplesmente a soma de partes” (CASTILHO, 2006).

É possível perceber que a fragmentação da família é reforçada através de diversos programas, inclusos nas políticas públicas, voltados para os segmentos vulnerabilizados da sociedade, ou seja, a atenção é focalizada em um membro, enquanto o centro da ação deveria se concentrar na família como um todo.

De acordo com Castilho (2006):

[...] apenas começamos a construir políticas para a família. Nestes programas deveriam ser incluídas políticas para o idoso, porém não dissociadas das relações familiares e da rede social. Recuperar histórias trigeracionais de origem, de migração, enfim, narrativas que evoquem valores e crenças como parte da identidade, seria um item de extrema importância nesses programas. São reconexões de uma rede de afeto que vem se perdendo, através das gerações, pelo sofrimento.

 

Portanto, é fundamental que a rede de proteção social para o idoso, principalmente com relação à sua saúde física e psíquica, funcione a partir de “programas de fortalecimento de vínculos familiares e o resgate da história e da memória dos eventos e dos afetos” (CASTILHO, 2006). 

 

Em um passado não tão distante, encontrávamos os avós, em sua maioria as mulheres, como detentores da memória familiar, eram elas que cuidavam dos netos, hoje esse cuidado tem sido terceirizado, assim os encontro entre esses dois entes tem sido cada vez menos freqüentes. A terceirização dos cuidados também tem sido adotada quando falamos dos cuidados aos idosos, a família cada vez mais atarefada acaba deixando os idosos com babás ou em instituições. Com isso, esta etapa da vida torna-se frágil, por conta da nova moldura da família plural. Na família contemporânea pouco são os espaços que restam para os idosos, embora familiares vivam juntos, suas relações estão cada vez mais isoladas (CASTILHO, 2006).

 

É comum vermos o idoso tornar-se um empecilho, um problema sério para a família resolver. Além disso, não adianta ter tido muitos filhos, pois quando se chega nesse período da vida os cuidados necessários ficam, por vezes, a cargo daquele filho que tem um pouco mais de boa vontade ou que não se casou (BASTOS). Existem diversas pesquisas que desmistificam a idéia de que morar com filhos ou com uma família extensa é garantia para uma velhice segura e livre de maus-tratos.

Outra situação comum na etapa da velhice é a perda da autonomia. As pessoas que cercam o idoso, normalmente têm atitudes, com o pretexto de cuidar do bem estar do mesmo, que contribuem para que ele vá perdendo a sua autonomia. Buscando protegê-lo e poupá-lo, o impedem de participar das decisões e tiram sua liberdade de escolha chegando a decidir o que ele deve comer e vestir. Há casos em que a família assume a administração dos bens do idoso, desde a aposentadoria até a residência, criando assim uma dependência cada vez maior. “Ele passa a ter que justificar seus gastos, passa a ser controlado (...) alguns reagem a essa expropriação de autonomia, outros, no entanto, sentem-se frágeis demais para mudar a situação e tomar novamente as rédeas da própria vida” (BRAGA, s/d).

Ainda de acordo com a autora:

Com uma aposentadoria insuficiente, a grande maioria dos idosos brasileiros torna-se dependente dos "favores" (ou reconhecimento, o que é raro!) de seus familiares. Essa dependência financeira é mais uma contribuição para a perda da autonomia na velhice (BRAGA, s/d).

 

Compreende-se que todas essas mudanças na estrutura familiar, com as fragilidades que muitas vezes acompanham o processo de envelhecimento, freqüentemente surgem conflitos entre os filhos na medida em que a situação dos pais passa a lhes exigir novas responsabilidades e cuidados, ou seja, quando a relação de dependência é invertida. De acordo com Teixeira (2000), o filme “Parente é Serpente” de Mário Monicelli, 1993, Itália, aborda, entre outros aspectos, essa problemática quando a mãe, percebendo suas limitações físicas e senilidade do marido, delega aos filhos a decisão pelo futuro do casal.

A dependência entre gerações se revela de duas naturezas distintas: de um lado a dependência material dos filhos que por precisarem cada vez mais e por mais tempo da proteção dos pais, não hesitam em aceitá-la, até por entenderem como obrigação. Do outro lado a dependência emocional dos pais, fruto do modelo familiar estabelecido. Neste modelo a família é entendida como uma forma natural de organização da vida coletiva, uma instituição estável da sociedade, sendo a união entre seus membros a principal responsável pela integração e harmonia da vida familiar (TEIXEIRA, 2000).

 

A forma como se desenvolvem as relações familiares, incluindo essa dependência entre pais e filhos podem colocar o idoso, tanto emocional quanto materialmente, em situação de segurança ou de vulnerabilidade. Por isso, é importante ressaltar que a família, definida como um grupo enraizado numa sociedade tem uma trajetória que lhe delega responsabilidades sociais. Porém, não cabe somente a ela garantir o bem estar do idoso, esta tarefa compete também ao Estado. É preciso que o mesmo reconheça os novos paradigmas da sociedade, afinal, a família sofreu mudanças e atualmente apresenta uma composição diferente daquela relativa somente ao casamento, ela possui “integrantes que envelheceram e não morreram, ao contrário, continuam tentando assumir a plenitude de sua cidadania e lutando para preservar seu espaço social” (BRAGA, s/d).

Um dos instrumentos legais para a garantia de cidadania dos idosos é o Estatuto do Idoso, aprovado em setembro de 2003 e sancionado pelo Presidente da República no mês seguinte. Assim, está preconizado no Estatuto que:

É obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do Poder Público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária (art.3º).

Priorização do atendimento ao idoso por sua própria família, em detrimento do atendimento asilar, exceto dos que não a possuam ou careçam  de condições de manutenção da própria sobrevivência (parágrafo único, ponto V).

Nenhum idoso será objeto de qualquer tipo de negligência, discriminação, violência ou opressão, e todo atentado aos seus direitos, por ação ou omissão, será punido na forma da lei (art. 4º).

Dessa forma, a participação na comunidade, a defesa de sua dignidade e bem estar é preconizado como um direito do Idoso e como um dever da família, da sociedade e do Estado, de acordo com a Constituição Federal de 1988 (TEIXEIRA, 2000).

É certo que a família brasileira do terceiro milênio está cada vez mais distanciada do modelo tradicional, vive-se um período de transição e mudanças, porém, qualquer que seja a estrutura na qual se organizará a família do futuro, é necessário que se mantenham os vínculos afetivos entre seus membros e os idosos. . Entendemos que a velhice nem sempre é satisfatória e indolor e só reconhecem o drama do envelhecimento os que vivem tal realidade, por isso, “o que o idoso necessita é sentir-se valorizado, viver com dignidade, tranqüilidade e receber a atenção e o carinho da família” (TEIXEIRA, 2000).

Concluí-se que é necessário o entender as transformações sociais e culturais que vem se processando nas últimas décadas, para enfrentarmos o nosso próprio processo de envelhecimento dentro de expectativas condizentes com as novas formas de organização familiar (TEIXEIRA, 2000).

 

REFERÊNCIAS

 

BASTOS, Gilberto Costa. Envelhecimento e a família.

BRAGA, Pérola Melissa Vianna. Envelhecimento, Ética e Cidadania. CASTILHO, Tai. O idoso fragilizado e a família: representações, preconceitos, conflito e solidariedade.

GOLDIM, José Roberto. Bioética, Relações Familiares e Envelhecimento. 2004.

Lei 10.741, de 10 de outubro de 2003. Dispõe sobre o Estatuto do Idoso e dá outras providências. S Federal - Brasília (DF), 2003.

MIRANDA, Luciene C. O Idoso e sua Família. Cuidar de Idosos.

SOUZA, Samuel Rodrigues de. O Idoso na Família e na Sociedade.

TEIXEIRA, Fátima. O idoso e a família: os dois lados da mesma moeda. In: Revista Partes. Ano I, nº. 8. São Paulo, 2000.

(Artigonal SC #1447512)

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    Fonte do artigo: http://www.artigonal.com/casa-e-familia-artigos/relacoes-familiares-e-envelhecimento-1447512.html

    Palavras-chave do artigo:

    familia

    ,

    envelhecimento.

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