A ética entre alunos do ensino fundamental – a conexão necessária

18/04/2012 • Por • 821 Acessos

1. INTRODUÇÃO

Hoje vivemos em um mundo turbulento, um mundo em crise. Quando me refiro a crise, não estou somente me referindo a crise ou ao caos social, estou me referindo à grande crise socioambiental que a humanidade está atravessando. A uma crise que está na raiz de nosso modo de ser e de agir no planeta Terra. O homem desde a antiguidade sempre procurou tornar sua propriedade a natureza, os animais e o próprio homem. O começo desta epopéia de destruição é verificado no livro "A origem da propriedade privada, da família e do estado" de ENGELS (1995).

Assim, o homem veio estabelecer com seus pares e com a natureza uma relação em que o poder negativo, aquele poder, que é utilizado para a expropriação e exploração do outro, se torna o carro chefe de sua vida, em que o ter se sobrepõe ao ser. O ser humano não aprendeu a ser, apenas a ter. Isto é a base do sistema capitalista. Cada vez mais o capitalismo cria necessidades nas pessoas, alia produtos a realização pessoal para vender sempre mais. E produz muito lixo e caos social. Desta forma, esta história veio se construindo e reconstruindo durante todo trilhar da humanidade até desembocar na crise de proporções alarmantes que estamos vivendo.

Em decorrência desta crise muito se fala no papel da educação para solucionar este problema. Mais especificadamente, do papel da ética para a mudança de atitude do ser humano diante da sua realidade imediata. Assim, o objetivo deste texto é tratar da ética dentro do espaço escolar, no nível do ensino fundamental de 6° ao 9° Ano. Isto se deve a experiência que estou tendo em trabalhar com a educação ambiental, reconstruindo valores entre estes jovens, no projeto "Educação Ambiental de Corpo e Alma".

2. DEFINIÇÃO DE ÉTICA

Muitos dicionários definem a ética e a moral como "o estudo dos juízos de apreciação que se referem à conduta humana suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente à determinada sociedade, seja de modo absoluto" (CAMARGO; FONSECA, 2011).

Mas, será que a ética se confunde com a moral e vice-versa? Embora estas palavras tenham a mesma origem etimológica, os conceitos de ética e moral incorporam, em seu percurso histórico, significações diferenciadas. No âmbito da filosofia faz-se uma distinção entre eles, definindo moral como um conjunto de princípios, crenças, regras que orientam o comportamento dos indivíduos nas diversas sociedades, e a ética como a reflexão crítica sobre a moral. Assim, podemos notar que há um distanciamento entre o que seja moral e ética. Nossa sociedade construiu sua moral recebendo influências de vários sistemas filosóficos, diga-se de passagem, conservadores e utilitaristas, que implicavam, sobretudo, no paternalismo, na figura da mulher, da natureza e dos escravos como submissos a este chefe maior – o pater. No cerne desta figura maior estava, como já mencionei, o ter, o individualismo, a competição sem regras nenhuma (CAMARGO; FONSECA, 2011)

Esse modo de pensar o mundo é fruto não apenas do velho paradigma mecanicista pelo qual somos levados a negligenciar as tendências integrativas em favor das auto-afirmativas, isoladas, competitivas. É fruto da nossa história. Estas tendências não são apenas incentivadas, mas também recompensadas e reforçadas. É o que podemos notar se olharmos com mais atenção para a história da humanidade: o imperialismo, a degradação da natureza, a discriminação de povos menos desenvolvidos tecnologicamente, a opressão da mulher e a luta por poder econômico, são alguns exemplos de como o mundo foi organizado a partir de uma lógica funcional, paternalista e dominadora, que nós reproduzimos diariamente nas salas de aula (CAPRA, 1999; OLIVEIRA, 2010).

Por sua vez, este modo de conduta é reproduzido diariamente não só no ambiente escolar, mas em nossa vida cotidiana. Assim, esta luta pela conquista de espaço em nossa sociedade em que o ter prevalece sobre o ser, nessa sociedade competitiva e excludente, tem desencadeado entre as pessoas alguns comportamentos preocupantes. As pessoas não respeitam o próximo, o prazer do diálogo, os sentimentos de solidariedade e a humildade (ZANDONADI, 2011).

Daí então a necessidade de elaborar nas escolas, que devem ser encaradas como um dos pilares da mudança social, trabalhos que estejam permeados por um novo modo de pensar, em que o ser é valorizado e o ter é vinculado apenas as necessidades básicas das pessoas. Em que há um espírito crítico que permeia cada ação dos alunos, funcionários, professores e gestores escolares. É o que estamos desenvolvendo em uma escola da rede municipal de ensino de Dois Córregos/SP, um projeto denominado: "Educação Ambiental de Corpo e Alma"

3. EDUCAÇÂO AMBIENTAL DE CORPO E ALMA COMO CONDUÇÃO ÉTICA PARA UMA MELHOR QUALIDADE DE VIDA

Este projeto foi elaborado e esta sendo elaborado por professores da Escola EMEFEI Laura Rebouças de Abreu, da Rede Municipal de Ensino de Dois Córregos. Para iniciarmos este projeto uma pergunta não queria calar. O que deveríamos enfatizar em um projeto de educação ambiental que provocasse a mudança de valores e atitudes, criasse um novo espírito ético, entre os estudantes desta escola? Buscamos na literatura e, dado a degradação ambiental que o mundo está vivenciando, tínhamos que trabalhar não só com a mente das crianças, mas também com uma filosofia do corpo, da res extensa. Tínhamos que buscar uma união entre o corpo e alma, pois não há nada no corpo que pertença somente a alma e nada na alma que pertença somente ao corpo, ambos estabelecem uma relação.

Assim, começamos nossa encruzilhada com uma atividade denominada de "MURO DAS LAMENTAÇÕES", em que os alunos identificam quais são os seus problemas ambientais. Por nossa surpresa, neste mural, que ficou exposto no pátio da escola, os alunos escolheram vários temas relacionados não apenas com o bem estar mental, mas também com o bem estar físico. Temas como Bulliyng, Poluição Atmosférica, Práticas Sustentáveis, Resíduos Sólidos e sua disposição, Lealdade, Honestidade, Proteção à fauna e aos animais domésticos, Proteção da Biodiversidade, etc. Ou seja, identificaram muitos problemas. E, neste processo de identificação de problemas, criaram uma reflexão crítica sobre o cotidiano em que estão mergulhados, imersos, como sujeitos históricos. Passaram assim, a olhar de uma outra forma o mundo que estão vivendo, a levantar os problemas que a eles são relevantes e, principalmente, a agir com ética para solucioná-los. Segundo CAMARGO e FONSECA (2011):

A distinção que se faz contemporaneamente entre ética e moral tem a intenção de salientar o caráter crítico  da reflexão, que permite um distanciamento da ação, para analisá-la, constantemente, e reformulá-la, sempre que necessário. Por ser reflexiva, a ética tem sem dúvida, um caráter teórico. Isso não significa, entretanto, que seja abstrata, ou metafísica, descolada das ações concretas. Não se realiza o gesto da reflexão por mera vontade de fazer um "exercício de crítica". A crítica é provocada, estimulada, por problemas, questões limites que se enfrentam no cotidiano das práticas. A reflexão ética só tem a possibilidade de se realizar exatamente por que se encontra estritamente articulada a essas ações, nos diversos contextos sociais. É nessa medida que se pode afirmar que a prática cotidiana transita continuamente no terreno da moral, tendo seu caminho iluminado pelo recurso da ética (p.5).

Como parte das atividades que passaram a ser desenvolvidas na escola estão palestras referentes aos temas que as crianças levantaram por professores; ciclo de filmes pré-selecionados; passeios pelas localidades perto da escola, com o intuito de diagnosticar os seus problemas ambientais; confecção e colagem de cartazes pelos alunos em diversos estabelecimentos comerciais; e também palestras realizadas pelos próprios alunos, conscientizando seus colegas de escola, dos mais diversos problemas que o mundo está enfrentando.

Além disso, os próprios alunos estão desenvolvendo um jornal de Notícias, O Jornal Boas Notícias, com as manchetes que eles queriam que fossem reais e, partir destas manchetes, estão trabalhando para que elas ocorram realmente. Com o nono ano, além destas atividades, estamos tentando construir um livro que narre os problemas ambientais da cidade, que sirva como um documento crítico para análise das autoridades. Enfim, estes alunos estão aprendendo a reler sua realidade de forma crítica, com ética, em busca de fomentar uma melhor qualidade de vida, uma melhor relação entre seus pares e a natureza.

Referências Bibliográficas

CAMARGO, EC; FONSECA, LAJ. A ética no ambiente escolar: educando para o diálogo. Disponível em: http://www.ufsm.br/gpforma/2senafe/PDF/021e4.pdf Acesso em: [23/04/2011].

CAPRA, F. O ponto de mutação. São Paulo: Cultrix, 1999.

ENGELS, F. A origem da família, da propriedade privada e do estado. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995.

OLIVEIRA, M. B. Oficina de jogos filosóficos – pensar brincando. Disponível em: http://vsites.unb.br/fe/tef/filoesco/resafe/numero002/textos/oficina_marinesboliveira.htm Acesso em: [19/10/2010].

ZANDONADI, C. Cidadania e ética na escola na busca da formação moral. Disponível em: http://www.artigonal.com/educacao-artigos/cidadania-e-etica-na-escola-na-busca-da-formacao-moral-1364875.html Acesso em: [23/04/2011].

Perfil do Autor

Flávio Roberto Chaddad

Doutorando em Ciências.