A Reforma Educativa e o seu impacto na disciplina de sociologia a nível do ensino secundário

28/09/2010 • Por • 4,603 Acessos

Introdução

 

O presente artigo faz parte de uma colectânea de temas relacionados ao Ensino da Sociologia nos vários subsistemas de ensino angolano, onde a nossa preocupação central cinge-se em Analisar a Reforma Educativa e o seu impacto no Ensino da Sociologia a nível do ensino secundário.

 

Este artigo nos permitirá entender as premissas que estão na base da implementação da Reforma Educativa em Angola, onde identifica-se as anomalias referentes ao fraco aproveitamento escolar dos estudantes e as fragilidades que o próprio sistema de educação possuía, sem por de lado, os impactos que a Reforma Educativa causou ao Ensino da Sociologia, realçando assim, as dificuldades que os professores de sociologia enfrentam no cumprimento das suas actividades laborais.

   

  1. 1.     A Reforma Educativa e o seu impacto na disciplina de sociologia a nível do ensino secundário.

 

            Ao falarmos em reforma a nosso ver, só estamos diante de uma reforma quando pretende-se mudar algo velho e substitui-lo por algo novo, desde que seja melhor que o anterior ou ofereça melhores garantias. Esta mudança ou substituição de algo velho por algo novo, reflecte-se na Reforma Educativa que Angola implementou recentemente e isto só foi possível, graças a um estudo realizado pelo Ministério da Educação que visava diagnosticar as dificuldades do anterior Sistema de Educação e identificar as anomalias referentes ao fraco aproveitamento escolar dos estudantes nos diferentes níveis de ensino. Posteriormente, constatou-se que "…Entre 1981 e 1984, 10 000 professores abandonaram o Ministério da Educação, tendo como causas: a situação político-militar, a baixa remuneração salarial e as péssimas condições sociais…" (MED.2009:7), quanto ao IIº e IIIº Nível que faziam parte do Ensino de Base constatou-se que ", …o ensino estava nas mãos de docentes estrangeiros, cuja língua de trabalho e preparação profissional era diferente, conforme a sua nacionalidade…" (Idem), sem esquecer o elevado índice de reprovação dos estudantes que estavam no Iº Nível, "…Em cada 1 000 alunos que ingressavam na 1ª Classe, somente 142 concluíam o Iº Nível do Ensino de Base, dos quais 34 transitavam sem repetições de classe, 43 com uma repetição e 64 com duas ou três repetições." (Idem). Além destas, ainda existem outras anomalias como:

 

"…a distorção da rede escolar, a exiguidade das infra-estruturas escolares, a insuficiente qualidade e quantidade do corpo docente, o deficiente fornecimento de equipamentos, de material escolar e de meios [de] ensino, a débil gestão administrativa e pedagógica das instituições de ensino e a consequente desvalorização da carreira docente." (GRILO.2004:99)

 

Face a estas fraquezas que começaram no Ensino de Base e que repercutiram-se noutros níveis de ensino, o Ministério da Educação viu-se obrigado a conceber uma nova estrutura no Sistema de Educação em Angola, uma vez que cada Estado, em determinadas circunstâncias da sua história, pode criar ou inovar o Sistema de Educação de que necessita para fazer fincar os seus ideais e objectivos, assim sendo, o Governo de Angola aprovou a Lei 13/01, de 31 de Dezembro, Lei de Bases do Sistema de Educação. Este novo Sistema de Educação foi aprovado em 2001 e implementado paulatinamente a partir de 2004.

 

Quanto ao impacto que a Reforma Educativa causou ao Ensino da Sociologia, afirmamos que a Reforma Educativa trouxe consigo mais impactos negativos que positivos à disciplina de sociologia a nível do Ensino Secundário. A exemplo, constata-se o seguinte:

 

1.1 Impactos negativos

 

a)      A disciplina de sociologia deixou de ser uma disciplina obrigatória a todos estudantes para ser um disciplina de opção, onde só alguns estudantes dos cursos de Ciências Humanas e Ciências Económicas-Jurídicas são os que estudam-na, em contrapartida, todos estudantes do curso de Ciências Físicas-Biológicas não estudam-na, assim sendo, estamos diante de uma descriminação porque alguns têm o privilégio de estudá-la e outros não;

b)      Quando se fala em disciplina de opção, subentende-se que o estudante tem a liberdade de optar se vai estudá-la ou não. Algo que na nossa pesquisa constatamos que o estudante não tem a liberdade de opção, porque, lhe é imposta a condição de estudar uma das duas, onde o critério de selecção obedece o seguinte principio: o estudante que no livro de ponto o seu número é par estuda psicologia, por outro lado, o estudante que no livro de ponto o seu número é impar estuda sociologia;  

c)      Com a entrada da Reforma Educativa, a disciplina de sociologia contínua em situação de desigualdade comparando com as outras disciplinas, porque, até ao momento não há manual de apoio referente a disciplina de sociologia para professores e estudantes do Ensino Secundário;

d)     O programa de sociologia da Reforma Educativa elaborado pelo INIDE, exige o uso de novos manuais de consulta, em contrapartida, isto dificulta significativamente o trabalho dos professores, porque, nem todos têm a possibilidade de obterem os manuais recomendados, por isso, extraem as matérias de qualquer manual de sociologia;

e)      Com a entrada da Reforma Educativa passou haver uma certa diminuição na carga horária da disciplina de sociologia, porque, antes da reforma as aulas eram administradas (2) duas vezes por semanas, compreendendo assim (4) tempos semanais; com a entrada da reforma, as aulas passaram a ser administradas apenas (1) uma vez por semana, compreendendo assim (2) dois tempos semanais.

 

1.2 Impactos positivos

 

a)      Com a entrada da Reforma Educativa a disciplina de sociologia passou a ser leccionada em (2) dois anos, a contar da 11ª classe até a 12ª classe, ao passo que, antes da reforma a disciplina de sociologia era leccionada em um ano, isto é, na 11ª classe;

b)      Com a entrada da Reforma Educativa, os estudantes de sociologia e não só, têm tido avaliações diárias ou semanais como condição necessária, ao passo que, antes da reforma as avaliações eram trimestrais.

 

Estes foram os principais impactos constatados que a Reforma Educativa, causou a disciplina de sociologia a nível do ensino secundário.

 

Conclusão

 

            A guisa de conclusão apraz-nos dizer que, o anterior sistema de educação e ensino possuía muitas lacunas e fragilidades, por este motivo, não adequava-se as metas que o País pretendia alcançar, razão pela qual, implementou-se um novo sistema de ensino através de uma reforma. Quanto ao impacto desta reforma ao Ensino da Sociologia, temos a dizer que, a Reforma Educativa trouxe consigo mais impactos negativos que positivos ao Ensino da Sociologia, assim sendo, a Reforma Educativa não trouxe melhorias significativas ao Ensino da Sociologia, porque os professores continuam a enfrentar os problemas antigos, como a falta de manual de apoio publicado oficialmente pelo Instituto Nacional para Investigação e Desenvolvimento da Educação, salas de aula superlotadas, políticas de ensino mal direccionadas, entre outras.

 

            Para terminar, considera-se este artigo como o alicerce de uma obra em construção, ou seja, considera-se como o trilho de um percurso a ser percorrido, onde cada um é chamado a intervir e a contribuir para o engrandecimento da ciência.

 

Referências Bibliográficas

 

            GRILO, Luisa Maria Alvez. (2004), Reforma do Ensino Geral In Colóquio sobre o Ensino em Angola. Luanda: Fundação Sagrada Esperança.

            LEMBE, Horácio Domingos. (2010), O Ensino da Sociologia no Ensino Secundário em Luanda: Estudo de Caso da Escola do IIº Ciclo do Ensino Secundário nº 3030-Ingombota (1992-2006). Trabalho Apresentado para a Obtenção do Grau de Licenciatura em Ciências da Educação, Opção Sociologia.

            MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. (2009) Informação sobre a Implementação do Novo Sistema de Educação: Reforma Educativa do Ensino Primário e Secundário. Luanda: INIDE.

            REPÚBLICA DE ANGOLA. (2001), Lei de Bases do Sistema de Educação In Diário da República. I Série – N.º 65. Luanda: Imprensa Nacional.

Perfil do Autor

Horácio Lembe

<html > Horácio Domingos Lembe, licenciado em sociologia pelo Instituto Superior de Ciências da Educação de Luanda.