As Premissas Para A Crise Ecológica: A Relação Predatótia Do Capitalismo Com O Ambiente
“A problemática ambiental não é ideologicamente neutra nem é alheia a interesses econômicos e sociais.Sua gênese dá-se num processo histórico dominado pela expansão do modo de produção capitalista, pelos padrões tecnológicos gerados por uma racionalidade econômica guiada pelo propósito de maximizar os lucros e os excedentes econômicos a curto prazo, numa ordem econômica mundial marcada pela desigualdade entre nações e classes sociais.Este processo gerou, assim, efeitos econômicos, ecológicos e culturais desiguais sobre diferentes regiões, populações, classes e grupo sociais, bem como perspectivas diferenciadas de análises” (LEFF 2006 p.62).
O nosso principal objetivo é fazer um breve relato da exploração capitalista em uma análise histórico-geográfica, permeando as fases desse modo de produção insustentável, que desenvolveu-se com o decorrer dos anos, aprimorou o seu modo de exploração, que passou de uma escala reduzida á uma escala global; e analisar as pseudo-soluções contemporâneas que tratam dessa crise ecológica.
Então partiremos precisamente do período entre o final do século XV e das primeiras décadas do século XVI, o chamado mercantilismo, tratado também por Karl MARX como uma fase de acumulação primitiva pré-capitalista, que por sinal foi fundamental para o desenvolvimento da Europa, e assim nas palavras do autor “A descoberta de ouro e prata na América, a extirpação, escravização e sepultamento das minas da produção nativa, o início da conquista e saque das Índias Orientais, a transformação da África num campo para a caça comercial aos negros, assinalaram a aurora da produção capitalista.Esses antecedentes idílicosconstituem o principal impulso da acumulação primitiva.” (MARX apud HARVEY 2005 )
Temos nesse período a relação metrópole-colônia, onde a primeira explorava vorazmente os recursos naturais da segunda, já causando os primeiros impactos no ambiente. No Brasil, por exemplo, os portugueses concentravam-se em uma determinada área, quando os recursos dessa esgotavam-se eles a largavam e partiam para outras áreas, que tornar-se-iam improdutivas 20 ou 30 anos depois.Além dessa exploração dos recursos naturais foram relatados milhões de assassinatos aos povos das colônias (na sua maioria indígenas) da América e da escravização de negros da África, assim concentrando inúmeros genocídios nessas áreas sendo relatados inclusive por Guilhermo Foladori: “A pilhagem dos recursos mais valiosos, como o ouro e a prata, e dos vegetais e animais foi realizada passando-se por sobre as sociedades pré-capitalistas.O México perdeu cerca de 25 milhões de pessoas durante os primeiros cem anos da conquista; em quatro séculos (XVI –XIX) mais de 10 milhões de africanos foram escravizados ; os indígenas dos Estados Unidos, que estavam estimados em 1 milhão no momento da conquista, foram praticamente exterminados até o século XX.No Brasil, os 2 milhões de indígenas acabaram em 200 mil descendentes hoje em dia.Na Australásia, a destruição foi semelhante .Na Austrália, os aborígenes foram selvagemente exterminados e confinados”(FOLADORI 2001)
A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL E UMA MUDANÇA NAS RELAÇÕES SOCIEDADE-NATUREZA .
No século XVIII, com o advento da Revolução Industrial, primeiramente na Inglaterra, foram provocados antigos e novos impactos no ambiente. Há uma intensa exploração dos recursos energéticos, desde a madeira, passando pelo carvão mineral até a descoberta do petróleo.Além da nova fase de degradação, há uma maior exploração do trabalhador (por exemplo trabalhando arduamente nas recentes indústrias 14 ou 16 horas diárias), e acontece a diminuição e até mesmo a extinção da biodiversidade como propõe (FOLADORI 2001) “A Revolução Industrial do século XVIII e a revolução dos transportes e comunicação do último quarto do século XIX, que permitiu a expansão imperialista, colonização e conquista completa do mundo, provocaram um ponto de inflexão na relação do ser humano com a natureza.A pilhagem foi espetacular ao lado da destruição dos povos pré-capitalistas, com a exploração maciça de milhares de assalariados da industria nascente.Centenas de milhões de animais foram caçados para se obter deles as peles (martas, castores, lobos, lontras, ursos, focas, leões-marinhos [...] ); outros, pela carne (búfalos, bisontes, peixe-boi, tartarugas etc.), pelo marfim (elefantes,leões marinhos) pelas plumas de diversas aves, pelos chifres (rinocerontes etc.), pelo azeite (baleias, leões marinhos, elefantes-marinhos), ou outras partes do corpo (barbatanas de baleias[...] ); outros desapareceram porque seus hábitats foram transformados, ou foram caçados sistematicamente porque eram pragas para os cultivos, como foi ocaso de numerosas espécies de pássaros .As madeiras preciosas, demandadas pela rápida urbanização e pela indústria naval, foram saqueadas das selvas mas acessíveis ás metrópoles industriais, e os minerais sofreram um novo embate da civilização”(FOLADORI 2001)
Claramente a partir dessas mudanças nós temos uma nova relação da sociedade capitalista com o ambiente, é nesse momento que a Revolução Industrial expande-se para outros países do mundo, (principalmente a partir da segunda metade do século XIX e da primeira metade do século XX), tendo assim uma expansão desse modelo contraditório, e também pela necessidade do capitalismo de expandir-se, para evitar uma crise ou para acumular mais capital, e como propõe David HARVEY “O capitalismo apenas consegue escapar de sua própria contradição por meio da expansão.A expansão é, simultaneamente, intensificação (de desejos e necessidades sociais, de populações totais, e assim por diante) e expansão geográfica .Para o capitalismo sobreviver, deverá existir ou ser criado um espaço novo para a acumulação”(HARVEY 2005).
Porém esse espaço novo não se constitui de forma democrática, e sim de forma arbitrária, sendo refletidas as imagens dos países centrais, quase sempre de forma distorcida nos países periféricos.Essa expansão desse modo de vida dominante, teve o papel de padronizar as culturas, o consumo...,denomina-se americanização e europeização, pois na realidade são os costume dos países centrais da Europa (sendo a Inglaterra basicamente a grande potência dos séculos XVIII e XIX) e dos Estados Unidos (que seria basicamente a grande potência do século XX e do início do século XXI),que proliferaram no mundo, como uma “missão civilizatória da burguesia” (HARVEY 2005).Assim MARX explicita essa missão civilizatória da burguesia no seguinte trecho “A burguesia [...] atrai para a civilização até as mais bárbaras das nações; os baixos preços das suas mercadorias são a artilharia pesada que demole todas as muralhas chinesas,que fazem capitular a aversão obstinada dos bárbaros em relação ao modo burguês de produção ; força-os a introduzir em seu meio o que ela chama de civilização, isto é, para que eles também se tornem burgueses.Em uma palavra, cria um mundo à sua própria imagem “(MARX apud HARVEY 2005).
O processo de industrialização dos países da América, da Ásia e alguns países da Europa , favoreceram a construção do império norte americano (essas áreas tiveram investimentos norte americanos maciços no período de industrialização ), que também teve um impulso através do modelo vigente nos Estados Unidos, o fordismo.Esse modelo, por sinal, é datado simbolicamente por David HARVEY em 1914 “quando Henry Ford introduziu seu dia de oito horas e cinco dólares como recompensa para os trabalhadores da linha automática de montagens de carros ...”(HARVEY 1992), e foi importantíssimo para a proliferação da sociedade de consumo (sendo o próprio fordismo retratado como um modelo de superprodução e superconsumo), assim iniciando-se a era da sociedade do descartável e a ascensão da sociedade mais predatória de todos os tempos.
Essa hegemonia é econômica, política, social, cultural..., e é tratada por HARVEY como o “novo imperialismo”, pois segundo ele “[...]A burguesia norte-americana redescobriu aquilo que a burguesia britânica descobriu nas três últimas décadas do século XIX, redescobriu que, na formulação de Arendt, ‘o pecado original do simples roubo’, que possibilitara a acumulação original do capital, ‘tinha eventualmente de se repetir para que o motor de acumulação não morresse de repente’.Se assim é, o ‘novo imperialismo’ mostra não passar da revisitação do antigo, se bem que num tempo e num lugar distinto “(HARVEY 2004).
Um novo imperialismo com antigos e novos métodos de subordinação e dependência, são esses políticos, econômicos, culturais, psicológicos..., que fazem de reféns os países periféricos, ou melhor dizendo as populações pobres, que são realmente “o elo mais fraco” dessa história (usando a expressão de HUBERMAN).
Então, nos encontramos no período atual, de severa degradação e de uma grave crise ecológica, em uma nova fase do capitalismo, (denominado capitalismo financeiro), com um novo modelo:a acumulação flexível, conforme os ensinamentos de David HARVEY (1992), que nos relata a atual intensa compressão do tempo-espaço, ou seja, o mundo diminui devido a grande utilização de tecnologia, que encurta o espaço, e diminuiu o tempo.Porém, como o próprio autor salienta a compressão espaço-tempo é espacializada de forma desigual, pois nem todos tem acesso aos meio de transportes, de comunicação e de informação em geral.
Todos esses fatores propiciaram a globalização da degradação ambiental, fases deveras preocupante pela aceleração dos processos de degradação e por também ser o resultado de todas as outras fases.Um fator adicional que relaciona-se com a expansão geográfica é o crescimento do comércio exterior.Já nos alertava Karl MARX que : “O crescimento do comércio exterior, que, inevitavelmente, surge com a expansão da acumulação, apenas transfere as contradições a uma esfera mais ampla, dando-lhes maior latitude”(MARX 1967 apud HARVEY 2005).
Assim, países em processo de desenvolvimento capitalista estão experimentando tanto as contradições deste sistema quanto o seu modelo insustentável, de profunda exploração do ambiente (é a confirmação da responsabilidade do capitalismo na crise ecológica ), são os casos dos “Tigres Asiáticos”, dos “Novos Tigres Asiáticos”, da China e de outros países do leste europeu.
O NEOLIBERALISMO,O NAFTA E AS MUDANÇAS NO AMBIENTE NA DÉCADA DE 90
A partir da década de 70, mais precisamente no Chile, inicia-se o neoliberalismo no mundo, aliás em plena ditadura de Pinochet, o que seria uma grande contradição, pois o neoliberalismo dar-se-ia com o Estado mínimo.Logo essa é mais uma ideologia, pois se pensarmos no liberalismo, entenderemos que esse construiu-se com um Estado forte(Absolutista) e se pensarmos igual a HARVEY entenderemos que o Estado não diminui o seu poder, ele apenas transformou-se e assumiu novas funções na economia pós 70 (HARVEY 1992), além disso o Estado continua sendo uma agente desreterritorializador e de suma importância para a ação das multinacionais, por exemplo.
O modelo neoliberal aprofundou as diferenças sócio-econômicas nos países onde era vigente, assim aumentando o fosso entre os ricos e os pobres em todo o mundo.Além disso o neoliberalismo resgata todas as idéias de desenvolvimento, dando a ilusão de que os países periféricos tornar-se-iam centrais, através do desenvolvimento.
A partir de Celso FURTADO podemos entender toda essa magia do desenvolvimento, pelo “mito do desenvolvimento”, que dar-se-ia , em um horizonte empírico, através da instalação de multinacionais no território de um país periférico (esse também é um exemplo de desreterritorilização do desastre ecológico), que por sinal é acompanhado com um discurso de progresso, desenvolvimento..., e ainda é reproduzido principalmente por políticos dos países periféricos.No entanto essas empresas lucram, pelas diversas vantagens de se produzir no país periférico, e esse lucro volta para o país de origem da empresa, não tendo nenhum investimento para a população local do país periférico, sendo assim apenas um paliativo (no entanto veremos que esse processo não acontece apenas nos países periféricos) .
Através do NAFTA, que é um acordo de livre comércio entre os Estados Unidos, o México e o Canadá, observaremos novamente o mito do desenvolvimento e também a desigualdade dos acordos de livre comércio e principalmente a mudança no território dos países envolvidos no acordo.Esse acordo foi ratificado em 1994 e os privilegiados por esse acordo forma apenas as corporações multinacionais (na maioria as multinacionais norte-americanas), consequentemente tivemos graves impactos ambientais no México e no Canadá, lembrando que o Canadá é considerado um país central .Segundo Altamiro BORGES o caso particular do Canadá é impressionante pois esse país é “Um dos países mais ricos do mundo e há tempos na liderança entre as nações de melhores índices de desenvolvimento humano (IDH) da ONU, o quadro piora bem mais.Nos oito anos de vigência do acordo, o Canadá empacou no seu crescimento econômico, tornou-se mais dependente e vulnerável e assistiu a degradação social e do meio ambiente” (BORGES 2002).
Assim o Canadá perdeu sua autonomia a tornou-se praticamente um estado norte-americano, a parte sul do seu território foi invadida pelas empresas multinacionais, que causam não só impactos ambientais, mas impactos sociais, econômicos e culturais, que apenas prejudicaram a população do Canadá .
Maude BARLOW, líder da Council a Canadians, afirma que “Essa história de livre comércio é um mito.Dizem que promove a competição, mas, na verdade dá condições às grandes corporações de fazer as regras.Assim, elas podem comprar as empresas menores e tirar dos países o direito de proteger a industria local.Foi o que aconteceu com o Canadá no NAFTA.Os norte-americanos compraram nossas empresas de petróleo, gás, indústrias químicas.Para a América Latina, será pior ainda”(BARLOW 1999 apud BORGES 2002). Samuel Pinheiro GUIMARÃES compartilha da afirmação de BARLOW no que se diz respeito aos efeitos na América Latina “É possível saber com razoável precisão como será a ALCA.A ALCA será como o NAFTA.E naquilo que for diferente será diferente para ser mais favorável aos Estados Unidos”(GUIMARÃES apud BORGES 2002).
O México, outro membro do NAFTA experimentou conseqüências ainda piores desde a implantação do neoliberalismo, em 1987, onde o país enfrentou uma grave crise, com a assinatura do NAFTA a sua situação piorou, o seu relacionamento comercial com outros países atualmente quase não existe, sua economia é muito vulnerável, a pobreza e a miséria aumentaram consideravelmente, florestas foram devastadas e outros inúmeros impactos ambientais tornaram-se constantes, e como no caso do Canadá, apenas as multinacionais (novamente lembrando que na maioria são multinacionais norte-americanas) são beneficiadas com esse acordo de livre comércio.Um caso bem peculiar do México é na parte norte de seu território,onde há uma maior concentração das empresas multinacionais que são denominadas “processadoras de exportação” ou “maquiladoras” .Essas empresas violam muitas leis trabalhistas e ambientais, ficando claro através de BORGES “O crescimento vertiginoso das maquiladoras também acelerou a degradação ambiental na região fronteiriça em decorrência da supremacia absoluta dos interesses econômicos das corporações empresariais.Em Matamoros, na fronteira do Texas, onde estão instaladas multinacionais como GM e AT&t, são comuns denúncias de crime contra a ecologia.O nível de agentes químicos nas fontes de água potável subiu 50 mil vezes.Segundo a ONG Texas Center for Policy Studies, somente em 1996, as maquiladoras depositaram cerca de 8 mil toneladas de agentes poluentes na fronteira.No estado mexicano de Guerrero 40 % das florestas foram devastadas pela exploração predatória dos últimos anos, o que também provocou erosão do solo e destruição do habitat natural de inúmeras espécies”(BORGES 2002).
Assim podemos concluir previamente que os acordos de livre comércio, nos moldes do NAFTA, apenas beneficiam as grandes empresas multinacionais , como já abordado, e no caso particular do NAFTA através da desterritorialização das empresas, principalmente dos EUA e a reterritotialização dessas empresas nos territórios canadenses e mexicanos, há inúmeros impactos ambientais, comprovando assim a existência de uma desreterritorialização do desastre ecológico, e outros impactos de ordens econômicas,sociais, políticas,culturais ... .
I. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
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SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço. Técnica e Tempo. Razão e Emoção. São Paulo, EDUSP, 2002.
(Artigonal SC #897509)
Como o debate da relação entre desenvolvimento econômico e conservação do ambiente eram feitos na década de 70 no Brasil? Esse é o intuito desse pequeno artigo, discutir como o debate dessa relação, tida como fundamental hoje, era feita na década de 70, tendo como base empírica o ensino de geografia, especificamente o livro didático do autor Igor A. G. Moreira. Salientamos que essa discussão era pautada na ideia do mito do desenvolvimento, tão explorada por Celso Furtado, desde 1974.
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