Da Deusa À Bruxa
por Géssica Hellmann
Nos artigos anteriores, tratamos sobre proibições e transgressões, principalmente no que se refere à sexualidade. Mas é importante entender como surgiram esses conceitos. Para tanto, nos baseamos no texto introdutório de Rose Marie Muraro ao livro "O Martelo das Feiticeiras", dos inquisidores Heinrich Kramer e James Sprenger - publicado originalmente em 1484 - em versão brasileira da editora Rosa dos Tempos, (1991).
Evolução da sociedade matriarcal para a patriarcal
Sabe-se que o ser humano habita o planeta há mais de dois milhões de anos. Por três quartos desse tempo o ser humano passou por uma "cultura de caça aos pequenos animais para a sobrevivência". Nesses grupos a mulher era personagem central, considerada um ser sagrado, não havendo divisões entre os sexos no poder. Neste perÃodo havia uma liberdade sexual maior e, por esse motivo, havia poucas guerras para a conquista de territórios.
A mulher era considerada um ser sagrado, pois só a ela era atribuÃdo à função de procriação. Os homens se sentiam marginalizados e tinham "inveja do útero", da mesma forma que, nas culturas patriarcais, a mulher sente inveja do "pênis".
Essa "inveja do útero" teria originado dois ritos importantes: o primeiro, o fenômeno do "couvade", em que a mulher começa a trabalhar dois dias depois do parto e o homem fica de resguardo com o recém- nascido. O segundo, a iniciação dos homens, em que os jovens eram arrancados da casa das mães, e faziam um ritual espiritual imitando um cerimonial de parto, declarando, a partir disso, que o a mulher poderia teria o poder biológico e o homem o espiritual.
Só nas regiões onde a coleta era escassa, que se inicia a caça aos grandes animais. A força fÃsica havia se tornado essencial, as guerras por territórios aumentaram, iniciando-se, assim, a supremacia masculina.
Mesmo neste perÃodo, o homem ainda não sabia da sua função reprodutora, crendo que a mulher ficava grávida dos deuses. Foi no decorrer do neolÃtico que, em algum momento, o homem começou a dominar a sua função biológica reprodutora. Apareceram, então, os casamentos em que a mulher tornava-se propriedade do homem.
Com as lutas por conquista de territórios e terras férteis para o plantio, começaram a surgir as primeiras aldeias, depois as cidades, cidades-estados, Estados, Impérios, e assim sucessivamente, criando-se as sociedades patriarcais, em que predomina a lei do mais forte. Nesse contexto quanto maior o número de filhos, mais soldados e mão-de-obra para arar as terras, ficando a mulher reduzida ao âmbito doméstico.
Nas primeiras civilizações, a criação do mundo era atribuÃda a uma deusa-mãe, sem auxÃlio de ninguém. Mais tarde, foi concebida a idéia de um deus andrógino ou um casal criador. Posteriormente, um deus macho toma o poder da deusa, ou cria sobre o corpo da deusa primordial.
Da primeira etapa, temos o exemplo grego de "Géia", a "mãe-terra". Dela originam-se todos os outros deuses gregos. Da segunda etapa, encontram-se exemplos de deuses andróginos no hinduÃsmo e no conceito filosófico de "Yin e Yang", em que o principio feminino e masculino governariam juntos. Da terceira etapa, encontramos a deusa sumeriana, "Siduri", que reinava em um jardim de delÃcias e cujo poder foi usurpado por um deus solar.
A partir do segundo milênio a.C., raramente se registravam mitos em que a divindade primária fosse uma mulher. Nesta época, Javé é deus único e onipresente, criando sozinho o mundo em sete dias, criando ao final desse perÃodo, o homem e, em seguida, a mulher a partir de uma de suas costelas. Ou seja, em poucas palavras, foi o homem quem pariu a mulher.
Ambos são destinados ao jardim das delÃcias mas, graças à sedução da mulher, o homem cede à tentação da serpente e o casal é expulso do paraÃso. Nesta época, o parto não está mais ligado ao sagrado, e é considerado uma vulnerabilidade, representando a passagem do matricentrismo para o patriarcado.
Então, é preciso usar controles mais rÃgidos para que o homem seja obrigado a trabalhar, surgindo as proibições e transgressões, principalmente no que se refere ao corpo e a sexualidade. A mulher passa a ser definida por sua sexualidade e, o homem, por seu trabalho.
Já não é mais o homem que inveja a mulher, invertem-se os papéis. A mulher agora, carente e vulnerável, torna seu desejo o centro da sua punição. Coloca-se no sexo o pecado supremo.
Na Alta Idade Média, a condição das mulheres melhora em certo sentido: elas têm acesso às Artes, às Ciências e à Literatura. Já no final do século XIV até meados do século XVIII, recrudesce a repressão sexual ao feminino, surgindo a "caça às bruxas" através da Inquisição.
Segundo a autora, no fim do século XV e no começo do século XVI, houve milhares de execuções, espalhando-se o terror pela Europa. Estima-se que 85% dos "bruxos" executados eram mulheres.
Mas por que tudo isso? Sabe-se que, desde a mais remota Antiguidade, as mulheres exerciam funções de "curandeiras" populares, parteiras e detinham saber próprio transmitido de geração em geração. Na Idade Média, as mulheres camponesas pobres não podiam pagar por médicos para cuidar de sua saúde e, portanto, através dos conhecimentos aprendidos sobre ervas, partos e outros cuidados com a saúde, tornaram-se verdadeiras "médicas populares". Deste modo, passaram a representar uma ameaça a comunidade Médica e ao Poder InstituÃdo porque, para transmitir suas experiências, elas formavam organizações nas quais trocavam segredos entre si.
A religião católica e, posteriormente a protestante, fizeram dos tribunais da Inquisição, uma caça em massa aos que eles julgavam heréticos ou bruxos. Nos quatros séculos de perseguição à s bruxas, segundo a autora, nada se verifica de histeria coletiva: ao contrário, o que se viu foi uma perseguição bem calculada e planejada pelas classes dominantes. De doadora da vida, sÃmbolo da fertilidade para as colheitas, a situação se inverte: a mulher torna-se a maior pecadora, origem de todas as ações nocivas ao homem. Como vimos anteriormente em Foucault, esse "poder de controle do corpo e da sexualidade", tornou-se essencial para dar inÃcio ao sistema capitalista.
Finalmente quando cessou a caça as bruxas no século XVIII, no que se refere à sexualidade, as mulheres tornam-se "frÃgidas", pois orgasmo era considerado "coisa do diabo", e elas são novamente reduzidas ao âmbito doméstico.
Recentemente, já no final do século XX, podemos observar um outro fenômeno surgindo: a mulher jovem liberta-se do controle da sexualidade e a reclusão do domÃnio privado, trazendo para o patriarcado pela primeira vez os valores femininos.
Através desta breve introdução histórica, podemos perceber como surgiu a articulação das idéias de "pecado, proibição e transgressão" no que se refere à sexualidade humana e os motivos porque persistem, ainda na atualidade, certos tabus e preconceitos. Nos próximos estudos, pretendo abordar "algumas variáveis" empregadas pela Inquisição para definir o que era "bruxaria" no âmbito da sexualidade.
Referência Bibliográfica:
MURARO, Rose Marie. Breve Introdução Histórica.In: SPRENGER, James. KRAMER, Heinrich.O Martelo das feiticeiras. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1991, 2a. ed.
Artigo publicado originalmente na Revista Sexualidade
(Artigonal SC #367168)
O objetivo deste artigo é abordar introdutoriamente uma lacuna apresentada em artigos anteriores, abordando "algumas variáveis" empregadas pela Inquisição para definir o que era "bruxaria" no âmbito da sexualidade.
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