Educação Sob Um Determinado Ponto De Vista

Publicado em: 23/06/2008 | Comentário: 2 | Acessos: 2,127

A Educação

 

 

“Fundamentos de educação” começa por explicar o conceito de “Educação”. Não é tarefa das mais fáceis, visto que há, pelo menos, dezenas de definições, cada qual tomando “educação sob um determinado ponto de vista”.

No sentido Etimológico educar é “tirar para fora”as capacidades do aluno , ou seja, aquelas coisa que ele tem em germe no seu espírito. A educação não opera milagres, não faz qualquer indivíduo se transformar num gênio, mas apenas pode desenvolvolvêlo até o limite de suas próprias capacidades. Mas a definição etimológica se apresenta

falha e insuficiente, porque não diz o que e é nem como se processa a educação.

A educação como formação num sentido muito mais preciso, é a formação do indivíduo em todos os seus aspectos e possibilidades. Dupanloup, o admirável educador católico, há cem anos  já dizia: “Educação é a formar o homem inteligente, o homem bom, o homem com suas faculdades gerais e suas faculdades especiais e individuais...” Também BACKHEUSER, o grande líder da educação cristã no Brasil, diz: “Educar é fornecer ao homem elementos de aperfeiçoamento pessoal... Formar o indivíduo é, assim, o escopo definitivo de todo processo educativo: formar o homem, o homem completo, o homem integral”. Em suma: educação é o pleno desenvolvimento da personalidade humana.

A educação como socialização

Acabamos de ver que educação é a formação do individuo. Queremos imediatamente acrescentar que ela não é apenas isso, mas também o ajustamento do indivíduo ao meio. O homem vive em sociedade, e, por isso, tem que se ajustar às idéias, às atitudes, às normas dessa sociedade. Nesse sentido podemos dizer que educação é a socialização do individuo, isto è sua integração na vida social. LOURENÇO FILHO afirma: “a escola é órgão de reforçamento e sistematização de toda ação educativa da comunidade”.

“A educação, diz DURKHEIM  é a ação exercida pela gerações adultas sobre as gerações que não se  encontrem preparadas para vida social; tem por objeto suscitar e desenvolver na criança certo número de estados físicos, intelectuais e morais reclamados pela sociedade política no seu conjunto, e no meio especial a que a criança particularmente se destina.

Esse aspecto social da educação vem sendo acentuado por todos tratadistas modernos. PIO XI, sobre a educação diz: A educação é obra necessariamente social, e não singular”. DUPANLOUP proclama: “  O lado social é o grande lado do problema educativo “. DE HOVRE salienta : “ Para a comunidade, por ela e dentro dela, a educação seguir os novos caminhos”. BACKEUSEUR acrescenta : Não pode a escola descurar a educação social ; Cumpre ao contrário, desenvolve-la tão largamente quanto possível...”

A educação integral
Chega-se, pois a uma primeira conclusão muito importante : a educação tem que ser integral , ocupar –se com o homem todo, o homem como ser físico , intelectual e moral, o homem social ,político,econômico , artístico , religioso .Com efeito diz PIO XI: Nunca deve  perder-se de vista que o sujeito da educação cristã é o homem, o homem todo ,espírito unido ao corpo em unidade de natureza ...  Toda educação ou é integral ou não é educação. A educação compreende, pois:

1-      educação física e da saúde.

2-      educação moral ou do caráter.

3-      educação intelectual ou instrução

4-      educação social.

5-      educação política cívica.

6-      educação econômica e profissional.

7-      educação artística.

8-      educação religiosa

 

INSTRUÇÃO NÃO É EDUCAÇÃO

Infelizmente a escola  tem se descuidado muitíssimo da educação, limitando-se, na maioria das vezes, a dar instrução. Ora, educação e instrução não se confundem de maneira nenhuma: instrução é apenas “Transmissão de conhecimentos” desta ou daquela matéria; e educação, como vimos, é a formação da personalidade humana, simplesmente fornecendo “conhecimentos” de Português, Matemática, Geografia...

Lamentavelmente, a escola, que deveria ser “a casa da educação,” passou a ser quase sempre apenas “o lugar onde se ensina”.

A instrução faz parte, sim, da educação: é a educação intelectual. Mas é apenas uma parte mínima que, para ser útil e eficiente, deve estar sempre ligada as outras citadas acima. – “Há portanto”, diz BACKHEUSER, “um acordo absoluto entre todos na necessidade de que não se cuide apenas da instrução da criança, mas principalmente da sua educação, da sua educação integral”. E DEWEY acrescenta: “Personalidade e caráter são muito mais importantes que as matérias de estudo. O ideal não é a acumulação de conhecimentos  mas o desenvolvimento das capacidades”. E rematamos nós: mais importante do que aquilo que o aluno “aprende” na escola é “o que faz ele” fora da escola. Os homens não valem tanto pelo que sabem quanto pela maneira como agem. De pouco adianta a soma de “conhecimentos” que o indivíduo ganha na escola se com isso, não se torna um homem melhor para si mesmo e para a sociedade.

EDUCAÇÃO COMO TRANSMISSÃO DA CULTURA

Já em outro sentido, podemos definir a educação como sendo o processo de transmissões da cultura das gerações adultas as novas gerações. Nesse sentido, diz ANÍSIO TEIXEIRA: “Educação é o fenômeno social através do qual a geração adulta transmite à geração nova as conquistas da sua civilização. A vida social se perpetua através da educação”. Se não fosse a educação, cada geração teria que recomeçar a vida social quase no período selvagem... O progresso resulta exatamente  dessa série de conquistas culturais que cada geração realiza e entrega à seguinte.

EDUCAÇÃO COMO RECONSTRUÇÃO

Mas não pensemos que uma geração possa entregar à geração mais jovem a cultura acabada e pronta, como se entrega um edifício pronto para ser habitado. Podemos , então, definir a educação como sendo o processo de reconstrução da experiência, visto que cada criança nasce sem saber nada e tem que aprender tudo. Nesse sentido é  luminosa a definição de DEWEY: “Educação é o processo contínuo de reconstrução da experiência, destinado a dotar a vida do indivíduo de um conteúdo sempre mais rico e mais largo”. E BAGLEY acrescenta: “Educação é o processo pelo qual o indivíduo adquire experiência que lhe tornará mais eficiente a ação futura”.

DEFINIÇÃO DE EDUCAÇÃO

Educação é o desenvolvimento harmônico de todas as capacidades do indivíduo, com o duplo objetivo de permitir a plena expansão da personalidade humana e concorrer para a organização de uma vida social melhor.

 

Educação e vida

 

Alguns autores costumam dizer que “educação é a preparação para vida”. Esta definição, A primeira vista muito agradável, encerra um grave  perigo: o de pensarmos que é possível o indivíduo se preparar para a vida primeiro e depois ir viver. Não é assim!  A educação se processa enquanto o individuo vive e durante toda sua vida. Naturalmente na escola a educação é (ou deveria ser) mais intencional, mais metódica, obedecendo a programas e técnicas especiais. Mas a educação não se separa da vida e viver é educar-se.

Começamos a nos educar quando nascemos e só interrompemos a educação quando morremos.

A propósito diz DEWEY: “Educação é processo de vida, educação é vida, não preparação para a vida. Educar-se é crescer, não já no sentido puramente fisiológico, mas no sentido espiritual, no sentido humano, no sentido de uma vida cada vez mais larga, mais rica e mais bela, em um mundo cada vez mais adaptado, mais propício, mais benfazejo para o homem”. Igual pensamento é  expressado por SPALDING, S.J.: “Vida e educação são idéias gêmeas e o objetivo da educação se confunde com o objetivo da vida”.

No entanto a educação intencional, isto é, a educação dada na escola, não deve ser a simples repetição da vida e bem mais do que isso, a reprodução com o objetivo de melhorar a vida. Nesse sentido diz BACKHEUSER: “A escola não é, não pode ser, uma simples reprodução da vida, mas a própria vida retocada em vista de torná-la melhor”.     Também ANÍSIO TEIXEIRA afirma: “Educação é o processo de assegurar a continuidade do lado bom da vida e de enriquece-lo, alarga-lo e ampliá-lo cada vez mais”.

Existe, pois, uma imperiosa obrigação de manter a escola ligada com a vida. E todo movimento da Escola Nova e de Educação Renovada se fundamenta nesse desejo de conciliar a escola com a vida. DECROLY definiu-o maravilhosamente quando criou o seu famoso lema:”A escola da vida para a vida pela vida”.

 

 

Os fins da educação

 

Examinando o que é a educação, passaremos a ver quais são os seus fins. Como todos sabem, fim significa objetivo, finalidade, aquilo para o qual se tende.

O fim da educação não é, de maneira nenhuma, obter indivíduos “mais preparados”, “mais cultos”, “mais instruídos”. Esses objetivos também entram na educação. Mas sua finalidade vai muito além. Para THORNDIKE, por  exemplo “O fim, último da educação é realizar a mais plena satisfação dos desejos da humanidade”.

SPALDING afirma: “o fim da educação é o ideal da perfeição humana”. É nosso grande mestre MARITAIN explica: “A educação deve ter em mira o grupo social e o papel que o homem nele desempenha. Formar o homem para uma vida de cooperação útil e normal na comunidade, orientar o desenvolvimento da pessoa humana na esfera social, despertando a fortificando seus sentimentos de liberdade, obrigação e responsabilidade, constituem objetivo essencial. Mas o fim último da educação está na vida pessoal e no progresso espiritual do homem”.

Sentimos aí, nitidamente, a diferença de posição filosófica entre o agnosticismo e o espiritualismo: Para o primeiro, o fim da educação é a “satisfação dos desejos da humanidade”; para o segundo é “o ideal da perfeição humana” e o “progresso espiritual do homem”.

Podemos estabelecer os fins da educação no seguinte quadro:

Desenvolver harmonicamente todas as capacidades ou estruturas do indivíduo;

Desenvolver atitudes morais do educando perante si mesmo e perante a sociedade;

Proporcionar conhecimentos e habilidades;

Proporcionar cultura geral;

Encaminhar o indivíduo para o seu progresso espiritual;

Socializar o educando, isto é, ensina-lo a viver melhor em comunidade e a Trabalhar pelo bem e pelo progresso da sociedade.

Será possível determinar um sistema de prioridades para todas as necessidades educacionais dos países subdesenvolvidos sob a luz do presente conhecimento?

A segunda pergunta, pelo menos se pressupondo uma resposta parcialmente afirmativa á primeira, é que parte destas necessidades seria coberta pelo auxílio externo?

A primeira pergunta traz, imediatamente, o confronto com problemas complexos e realidades penosas. A maneira lógica de se calcularem todas as necessidades dos países em desenvolvimento, comum todo, seria por meio de um levantamento dos objetivos determinados por planos educacionais, associado ás estimativas das necessidades do potencial humano futuro já estabelecidas pelos paises subdesenvolvidos. Infelizmente, apenas uma pequena minoria de países em desenvolvimento tem planos educacionais completos ou estimativos dos requisitos de potencial humano. Considerando que um certo número de necessidades – alunos e estudantes a serem inscritos, professores a serem treinados, escolas a serem construídas, dinheiro a ser gasto – permite avaliação quantitativa, muitas outras necessidades de novos currículos de planos educacionais, de reformas de várias espécies – podem, dificilmente, ser transformadas em algarismos.

Apesar destas dificuldades, pelo menos uma visão geral e preliminar das necessidades educacionais do mundo em desenvolvimento é imprescindível no princípio deste estudo. Segue-se um sumário de três documentos que se tornaram, até certo ponto, mapas básicos, internacionais, do desenvolvimento educacional: o Plano Karachi, o Plano Adis-Abeba e o Plano Santiago, todos eles preparados pela UNESCO em colaboração com órgãos regionais das Nações Unidas e aprovados em conferências realizadas nas três cidades.

As análises e as estimativas das necessidades educacionais apresentadas nestes planos não devem ser tomadas como definitivas. Os planos foram considerados por alguns como inadequados, por outros com ambiciosos demais. Ás vezes, talvez com justiça, foram criticados por conterem simplificações em excesso e perigosas. Certos países em desenvolvimento estiveram inclinados a adotar os objetivos e as metas destes planos como sendo suas próprias soluções específicas, quando é óbvio que apenas um plano nacional, baseado num estudo minucioso das condições e das necessidades internas, pode fornecer uma resposta.

No entanto, a importância psicológica e política dos três documentos da UNESCO é incontestável. Por causa deles muitos países tornaram-se mais cônscios de sua situação verdadeira e da necessidade de esforços educacionais aumentados. Os planos tem ainda o mérito de serem os únicos documentos disponíveis de grande alcance. Eles abrangem mais de 70 países subdesenvolvidos do mundo, com a população total de, aproximadamente, 1.150 milhões (em 1960). Este número representa entre 80 e 85% da população de todos os países não-comunistas subdesenvolvidos.

Sejam quais forem suas falhas, os planos Karachi, Adis-abeba e Santiago permanecem como documentos básicos realmente dignos de estudo. Embora não representem soluções finais ou receitas imediatas, eles dão um primeiro avanço, já de grande importância, a caminho do desenvolvimento internacional e universal, no campo da educação.

Trabalhos resumidos também dão seqüência a três documentos, que constituem complementos ou ampliação dos três planos originais; o Relatório da Reunião de Ministros de Educação de  Estados-Membros da Ásia sobre o desenvolvimento da Educação na Ásia, realizada em Tóquio, em abril de 1962; as conclusões e Recomendações da conferência sobre o Desenvolvimento da Educação Superior na África, realizada em Tananarive, Madagascar, em setembro de 1962; o Relatório do grupo de trabalho em Educação, da Organização dos Estados Americanos, publicado em Washington, em março 1963.

O Plano Karachi:

Objetivos:

Dobrar a média de expansão de educação primária, existente entre 1959 e 1960; proporcionar um sistema de educação primário gratuito, obrigatória e universal, de sete anos de duração mínima, antes de 1980.

O plano abrange 15 países asiáticos, com uma população total, em 1960, de 774 milhões e uma população prevista de 1.185 milhões, em 1980 (um quarto da população do mundo).

 

Em primeiro lugar, pode ser argumentado que tal ajuda é indispensável com uma condição para a eficiência de toda assistência ao desenvolvimento: As novas indústrias e comunicações, assim como as administrações nos estados recentemente independentes, precisam de potencial humano competente. Então, falando-se em termos econômicos, investimento de capital requer investimento humano. Investimento de capital, seja vindo de dentro ou fora, mais cedo ou mais tarde será desperdiçado, se não encontrar, no próprio país em desenvolvimento, pessoas capazes de mante-lo e dirigi-lo.

Naturalmente, não se pode dizer que a educação deva preceder à expansão econômica Alguns exemplos históricos, particularmente a Grã-Bretanha, mostram o contrário. Não obstante, as condições atuais para um desenvolvimento acelerado, como nos casos do Japão e da Rússia, indubitavelmente exigem, pelo menos, uma ênfase paralela sobre a expansão econômica ou educacional. O que não se pode negar é a existência de uma ligação íntima entre o elevado nível de desenvolvimento econômico e educacional.

Daqui a alguns anos, as organizações dirigentes internacionais e nacionais terão reconhecido a importância desta ligação.

Por exemplo, o Banco Mundial em Washington (IBRD-Bando Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento), com o objetivo principal de dar assistência à reconstrução e ao desenvolvimento de seus países-membros, tem fornecido empréstimos educacionais desde 1962. Isto não é feito para satisfazer a nenhuma exigência de teoria econômica e sim porque o Banco compreendeu que o número de projetos puramente econômicos, preenchendo todas as condições normalmente ligadas a seus empréstimos, estava diminuindo. A diminuição era óbvia, não porque os países em desenvolvimento necessitassem menos de assistência econômica, mas simplesmente porque um dos maiores fatores que contribui para o sucesso dos projetos de ajuda – potencial humano competente – não era viável.

A experiência das organizações estabelecidas com objetivos puramente econômicos mas forçadas a empreenderam ajuda educacional depois de muitos poucos anos, parece prova irrefutável da ligação entre desenvolvimento educacional e econômico. É uma resposta pragmática à pergunta: “O auxílio externo à Educação é necessário?”

Naturalmente, podem ser dadas outras razões: a educação (pelo menos, a de nível primário) é um dos direitos humanos fundamentais ; A educação sozinha pode contribuir para a assimilação de valores democráticos básicos, Um mínimo de educação é uma condição sine qua non de melhor nutrição e de melhor higiene. Tudo isto deve ser tomado em consideração pelos países adiantados, não só em benefício da solidariedade internacional e humana, como, como pelo benefício deles próprios, para evitar crises cada vez mais freqüentes em cada campo.

No entanto, podem ser empregados argumentos contra o auxilio externo, mesmo se a necessidade de ajuda em geral for aceita. Em outras palavras, é possível considerar a educação nos países em desenvolvimento um assunto impróprio para a assistência externa. Quatro tipos de objeções podem ser antecipadas, todos concernentes mais ao mérito do que ao princípio.

Em primeiro lugar, pode-se dizer que a educação, seu teor, seus métodos e suas organizações são tão específicos e particulares para cada nação que mal podem ser transferidos de um país para outro. Além disso, a educação é um dos mais essenciais domínios da soberania nacional, onde a intervenção pode dar origem a grandes dificuldades políticas. A segunda objeção diz respeito à numerosas dificuldades práticas enfrentadas pelo auxílio externo à educação. Uma compreensão suficiente do meio cultural e social do país em desenvolvimento, de suas tradições de ensino, de sua psicologia, de sua língua (às vezes, mais de uma) – tudo isso apresenta ao doador, ou a seu agente incumbido da administração da ajuda educacional, problemas muito mais complicados do que os enfrentados por um engenheiro, que tem de terminar uma estrada ou uma fábrica. Como já foi declarado, a evolução da educação depende mais da existência de esforços internos do que de qualquer outro setor do desenvolvimento – alguns podiam mesmo dizer “depende exclusivamente”.

A terceira dificuldade da ajuda educacional concerne à atual situação da maioria dos países adiantados. Também no caso desses a expansão da educação representa um dos maiores obstáculos na evolução social e econômica. Professores, vagas em universidades e recursos para educação constituem sempre itens de carência. Freqüentemente é feita uma pergunta: “Se nós temos de contribuir para o desenvolvimento de outros, por que deveríamos faze-lo num campo que representa um de nossos próprios pontos mais fracos?”

Um argumento final e importante deveria ser mencionado. Dez a 15 anos passados, a expansão da educação foi extremamente rápida em quase todos os lugares no mundo em desenvolvimento. Não há razão para se acreditar que essa evolução não continuará no futuro, com ou sem ajuda externa. A pergunta, então, é: por que deveriam os países adiantados favorecer o que agora parece um movimento quase automático e espontâneo?

Todas estas objeções, assim como outras, são bastante reais. Todas foram levadas em consideração na compilação deste estudos, e espera-se que resposta convincentes sejam fornecidas.

Toda a teoria de educação de Dewey insiste, como ponto principal, na restituição da aprendizagem ao caráter natural que ela tem na vida.

Educação é vida, não preparação para a vida.   –Muito antes que houvesse escolas houve educação. E mesmo havendo escolas, e educação que alguém recebe antes de ir para a escola, a que recebe fora da escola, quando a freqüente e a que recebe depois de deixa - lá sem dúvida, são bem mais importantes que a que nos fornecem os curtos ou longos anos escolares.

Temos, portanto, que nos voltar para a vida para ver como o que aprendemos nos auxilia a refazer a reorganizar a nossa própria vida.

Há dois modos de aprendizagem na vida: aquele pelo qual aprendemos a fazer alguma coisa que antes não sabíamos (aprendizagem motora); e aquele pelo qual resolvemos uma dificuldade ou um problema (aprendizagem intelectual). Geralmente, o que aprendemos encerra uma combinação desses dois tipos. Nem se esqueça que a um e outro acompanham várias aprendizagens associadas.

Demos um exemplo de uma dessas aprendizagens comuns na vida de qualquer criança.

Tomemos a ilustração de Kilpatrick e os cinco pontos para os quais este chama nossa atenção.

Suponhamos uma criancinha que tenha, sido, até hoje alimentada por mão alheias. Ela quer agora alimentar-se por si mesma. Dá-se, mais ou menos, o seguinte:


  1. A criança tenta alimentar-se por si mesmo com uma colher.

  2. Encontra dificuldade. Falta-lhe a habilidade necessária. Seu organismo não tem o “comportamento” necessário aquele ato. Tem várias outras habilidades e hábitos. Sabe segurar a colher, sabe apanhar o alimento. Falta-lhe, porém, alguma coisa para poder alimentar-se por si.

  3. Experimenta novamente, sob a direção da babá ou da mãe. Experimenta, depois, sozinha, de um modo, depois, de outro.

  4. Afinal acerta, acha e aplica a habilidade que lhe faltava.

  5. A atividade começada em 1, detida por uma dificuldade em 2, prossegue agora seu caminho. A criança alimenta-se por si mesma.


Nessa ilustração vê-se como aprender é indispensável à vida (Vida em progresso); b) como estudo é o esforço para achar a solução de uma dificuldade ou um modo de agir apropriado à situação, esforço que pode ser ajudado por quem saiba facilitar ou estimular o progresso (professor); c) como aprender, nesses casos, importa em uma atividade criadora, mesmo que seja auxiliada por outrem; d) e finalmente, como a aprendizagem tem na própria situação a prova que se efetivou, uma vez que a atividade pode prosseguir o caminho interrompido pela dificuldade que se lhe interpôs.

Tal aprendizagem é, na frase de Kilpatrick, intrínseca à vida, funcionando no seu lugar real no processo de viver.

A aprendizagem escolar é geralmente extrínseca à vida. Não tem relações com ela, nem visa resolver uma dificuldade percebida que detenha a atividade em que o aluno esteja voluntariamente empenhado.

Daí o critério de Kilpatrick, para julgar o ensino: “No grau em que a aprendizagem escolar for ‘intrínseca’, sendo as outras condições as mesmas, nesses graus a aprendizagem é boa e sã”.

Resta salientar como o que a criança aprende, reorganiza e reconstrói sua vida. Continuemos com a ilustração. Ganhou a criança através daquele processo de aprendizagem um novo “comportamento”; Ao que sabia antes ajuntou mais um conhecimento: sabe alimentar-se por si mesma. Que quer isso dizer? Que várias coisas, que não lhe eram possíveis, tornaram-se possíveis: ficou menos dependente de outros; a sua responsabilidade é maior; é, sob certo aspecto, mais gente do que antes; o modo de se alimentar e aquilo com que se vai alimentar estão, agora, mais em suas mãos.

A sua pequenina vida se alrgou; graças a isto vai aprender várias outras coisas; a sua vida ganhou um plano mais alto

E isso a “reconstrução da experiência” que, segundo Dewey, define a educação.

Não avancemos sem considerar um ponto importante, que poderiam parecer abertos a crítica: a escola é a instituição pela qual a sociedade transmite a “experiência adulta” à criança.

Como por esse processo, que defendemos, se poderão criar as oportunidades para essa aquisição da experiência da espécie humana? Onde ficam as “matérias” de ensino?

Conhecimento ou saber, nessa nova escola, tornar-se-a esporádico, incerto e desaticulado?...

Antes do mais, vejamos na ilustração citada, como entrou ali a “experiência atulta” e qual a sua função.

A colher e o seu uso são aquisições da experiência humana. O uso pessoal da colher pela criança é que é o elemento novo. A experiência de espécie lhe serviu para a estimular a alimentar-se sozinha, por aquele modo, e lhe forneceu, no exemplo do adulto, o modelo de imitação pelo qual guiou os seus esforços.

O saber acumulado da espécie estimula pois, a aprendizagem e fornece os meios e modelos pelos quais pode vir a ser adquirida.

A teoria da escola que vamos expondo, longe de banir, portanto, a experiência da espécie, faz dela seu ponto de apoio fundamental. Mais. Não julga que ela deva ser adquirida exclusivamente pela atividade espontânea da criança. O professor é elemento essencial da situação em que o aluno aprende, e sua função é, precisamente, a de orientar, guiar e estimular a atividade através dos caminhos conquistados pelo saber e experiência do adulto.

Apesar de tudo isso, fica de pé, entretanto, a crítica de que a escola organizada pela teoria aqui exposta não será econômica não levará ao máximo de aprendizagens, porque a aquisição do saber, devendo ocorrer em um processo natural de vida, será inevitavelmente acidental. A condenação da escola velha já está tão cediça, exatamente neste aspecto de quase nada ensinar, que se poderia pedir-lhe contas, neste passo, da autoridade com que levanta essa acusação contra a escola nova.

O saber que se ganha ali é tão duvidoso, tão livresco, tão isolado da vida, que não seríamos exagerados em repetir que é antes prejudicial do que vantajoso.

Não seria pois essa a razão por que não havíamos de tentar a reorganização escolar.

Mas, há mais do que isto. As experiências com escolas novas já vão bem adiantadas no mundo. Já existem Escolas em que “o currículo não é organizado por “matérias”, mas como um processo de vida, uma sucessão de experiências, em que cada uma se desenvolver da anterior, permitindo uma contínua e frutuosa reconstrução da experiência”, . Apesar do seu caráter experimental e tateante, as conclusões são, até agora, todas favoráveis. Mesmo sob o aspecto da simples aquisição de conhecimento e de saber, elas sobrelevam em muito a velha escola tradicional.

Todo o problema está na seleção das atividades infantis que vão constituir o programa. Se as atividades forem escolhidas com inteligência, a criança nunca virá a correr o risco de aprender menos na escola nova do que na escola trandicional.

 

O indivíduo e a sociedade, são fatores e produtos, simultaneamente. No processo educativo, o indivíduo e o meio social são, portanto, dois fatores harmônicos e ajustados. O meio social ou o meio escolar, se bem compreendidos, devem fornecer as condições pelas quais o indivíduo liberte e realiza a sua própria personalidade. Não podemos, assim, considera-los antagônicos.

Todos as idéias de oposição entre a sociedade e o indivíduo se originam de conceções isoladas e estáticas da sociedade ou do indivíduo. Se notarmos, porém, que não existe indivíduo sem sociedade, nem sociedade sem indivíduos, que uma e outra são produtos e fatores de uma situação única – vida social – e que essa situação, por isso mesmo que é o resultado de uma constante interelação de elementos diversos, é essencialmente móvel e dinâmica, logo percebemos que não existe o problema do indivíduo versus sociedade.

Pode haver, aqui e ali, circunstancialmente, antagonismos entre tal indivíduo e tal sociedade, o que significa desadaptação e desajustamento transitórios. Não há, porém nenhum comflito essencial entre as duas realidades – indivíduo e sociedade – porque elas não são mais que termos de um mesmo processo em constante desenvolvimento.

Logo, a escola não deve ser a oficina isolada onde se prepara o indivíduo, mas o lugar onde numa situação real de vida, indivíduo e sociedade constituem uma unidade orgânica.

Esta concepção importa na atribuição da qualidade progressiva ao indivíduo e á sociedade.

Educação não é preparação, nem conformidade. Educação é vida e viver é desenvolver-se, é crescer. Vida e crescimento não estão subordinados a nenhuma outra finalidade, salvo mais vida e mais crescimento.

O processo educativo, portanto, não tendo nenhum fim além de si mesmo, é o processo de contínua reorganização, reconstrução e transformação da vida. O hábito de aprender diretamente da própria vida e fazer que as condições da vida sejam tais que todos aprendam no processo de viver, é o produto mais rico que pode a escola alcançar.

Graças a esse hábito, a educação, como reconstrução contínua da experiência, fica assegurada como o atributo permanente da vida humana.

 

 

 

(Artigonal SC #458737)

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    Fonte do artigo: http://www.artigonal.com/ciencia-artigos/educacao-sob-um-determinado-ponto-de-vista-458737.html

    Palavras-chave do artigo:

    Educação sob um determinado ponto de vista

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    Por: Eliaquim Barbosa Pereira l Educação > Ciência l 27/02/2010 l Acessos: 221
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    Por: SANDRA VAZ DE LIMA l Educação > Ciência l 15/02/2010 l Acessos: 129

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    1. marilandi April 20, 2009
    Passei os olhos buscando tirar certa dúvida a respeito da educação & socialização; não resistindo a curiosidade voltei ao começo e li, li, li e me apaixonei pelo seu texto, escrito com tamanha singeleza...e clareza de pensamentos. Muito bom!!! Agradeço por ter sanado parte de minhas dúvidas.
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    2. Manuela June 18, 2009
    sou estudante de gestao e estou a estudar um modulo de psicopedagogia gostei de ter lido este texto e gostaria de saber sobre os limites da educaçao sob o ponto de vista do agente externo e interno.OBRIGADO POR TER ESCLARECIDO AS MINHAS DUVIDAS E AGUARDO OUTRA EXPLICAÇAO.
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