EXPLORAÇÃO SEXUAL: Consequências Psicológicas

02/12/2010 • Por • 4,216 Acessos

RESUMO

A problemática da violência sexual é uma realidade existente na sociedade atual. Tem produzido conseqüências graves de exclusão como a vulnerabilidade e risco social, nas quais se encontram envolvidas crianças e adolescentes em situações de sofrimento de exploração sexual. A violência sexual contra crianças e adolescentes resultam de um fenômeno complexo levando em consideração o contexto histórico, econômico, cultural e político. Diante disso, alunos do Colégio Liceu Paraibano (PB), buscam entrevistar uma profissional da área da psicologia e educação sobre o assunto. Foram formuladas 10 questões sobre Exploração sexual. Conclui-se que o trauma do abuso sexual pode afetar o desenvolvimento de crianças e adolescentes de diferentes maneiras, uma vez que desenvolvem severos problemas emocionais, relacionais com prejuízos físicos, psicológicos e psiquiátricos. As vítimas de violência sexual são, ainda, mais vulneráveis a outros tipos de violência, de transtornos sexuais, uso de drogas, prostituição, estresse pós-traumático, depressão, sentimentos de culpa, ansiedade, isolamento, estigma, baixa auto-estima e suicídio. O resultado do abuso sexual está relacionado a diferentes fatores entre eles a vulnerabilidade e risco social.

Palavras-Chave: sexualidade, criança e adolescente, exploração sexual, psicologia e educação.

 

INTRODUÇÃO

Exploração sexual é um termo usado para nomear práticas sexuais pelas quais o indivíduo obtém lucros. Estamos também falando de violência e exploração sexual comercial. Porque ela ocorre? Pode ocorrer principalmente como conseqüência da pobreza e violência doméstica, que faz jovens, crianças e adolescente fugirem de seus lares e se refugiarem em locais que os exploram em troca de alimentos e moradia. A vulnerabilidade e exclusão social podem ser um dos fatores a ser considerado. Como acontece? Acontece em redes de prostituição, pornografia, tráfico e turismo sexual.

A exploração sexual infantil é a mais desleal, uma vez que não se trata de seres humanos maduros, mas de crianças e adolescentes com o mínimo de conhecimento tanto sobre sexo quanto sobre a própria vida. Qual ou quais seriam as soluções para o problema? Não se vislumbra uma solução, mas o importante direcionar o olhar para a intensificação das políticas socio-educativas, mais empregos, melhor qualidade de vida e saúde, etc.

Para Cabral, da equipe Brasil Escola, a prostituição é uma prática ilegal que busca oferecer prazeres carnais em troca de recompensa. Apesar de existirem leis que proíbam a indução de pessoas à prostituição com pena de até cinco anos de reclusão, tal prática cresce consideravelmente a cada ano aumentando o mercado e diminuindo as chances de que tais indivíduos que são submetidos às práticas se desenvolvam normalmente em questões morais, psicológicas e ainda intelectuais, pois os estudos e conhecimentos gerais lhes são negados.

A pornografia, por exemplo, é um mercado ilegal que utiliza imagens em fotografias ou filmagens de pessoas em cenas que induzem o sexo, são desde eróticas provocativas até de sexo explícito. A utilização de menores nesta prática incentiva a pedofilia que é a exploração sexual de menores. A pornografia é crime perante a lei que pune o explorador com até seis anos de reclusão.

Existe ainda o tráfico caracterizado como uma rede que exporta pessoas para outras localidades com a intenção de explorá-las sexualmente visando à geração de renda. É uma espécie de escravidão moderna que desenvolve significantemente a indústria do sexo e a distorção dos direitos humanos. Já o turismo sexual é a exploração de pessoas de um determinado local sofrida por visitantes de outras cidades, estados e países, essa prática tem crescido consideravelmente em locais turísticos que atraem pessoas de outros lugares por suas condições paisagísticas, culturais e/ou de lazer.

Violência sexual ou atividade sexual não consentida é um grave problema de saúde pública. Além de violar direitos humanos, pode acarretar graves prejuízos para a saúde das vítimas, como problemas físicos e psicológicos imediatos e/ou tardios. Aproveitamos, nesta pesquisa bibliográfica, transcrever alguns tópicos da entrevista com a psicóloga e professora Graça Martins realizada por alunos do Colégio Liceu Paraibano (PB):

Vou tentar contribuir com vocês nas perguntas. Esclareço que não é minha área específica de trabalho. Como profisisonais de psicologia nos deparamos, em nossos consultórios, com muitos casos de violência e entre elas a sexual, em nossa atuação como professores/educadores percebemos que nas escolas existe uma necessidade da realização de um trabalho direcionado à sexualidade com orientação a pais e educação de alunos visando a proteção de crianças e adolescentes frente à violência e abuso sexual e consequente exploração sexual (Graça Martins). Perguntas:

1. Michelle: Como identificar o abuso sexual?

Graça Martins: Não é fácil identificar porque geralmente a criança tem medo de falar. Um exemplo que posso dar é o caso de uma criança que chegava à escola ficava triste, não conseguia sentar-se direito, andava estranha. Procuramos conversar muito, então, ela falou que doia nas nádegas. Ao verificarmos percebemos marcas e hematomas semelhante a forte espancamento e outras coisas. Geralmente estava triste ou agressiva e não conseguia estudar direito. O abuso poderá ser identificado por marcas ou sinais físicos de violência como edemas, vermelhidão, escoriações, sangramentos, e outros componenets que devem ser feitos por especialistas. É preciso ter cuidado com as doenças sexualmente transmissíveis ou com uma gravidez não planejada. Na semana passada conversei com uma mãe de uma adolescente de 14 anos. Sua filha estava grávida e dizia estar muito feliz por estar grávida. É preciso conversar mais, explicar a maternidade, acolher, oferecer apoio etc. A filha demonstrava total aceitação da gravidez. É necessário ficar atendo às alterações súbitas no comportamento.

 2. Michelle: O que é a violência sexual contra crianças e/ou adolescentes?

Graça Martins: A violência sexual é uma ação realizada por um adulto sobre uma criança ou adolescente para atividades sexuais inapropriadas para a idade. O agressor sexual pratica essa violência procurando seduzir ou com chantagem, ameaça ou forçadamente. A criança ou adolescente abusado fica com seqüelas para o resto da vida. É uma violência física e psicológica. É uma marca que não se apaga.

 3. Janderson: Qual a diferença entre abuso sexual e exploraçao sexual?

Graça Martins: O abuso sexual pode se manifestar dentro ou fora da família, ocorre pela utilização do corpo de uma criança ou adolescente para a satisfação sexual de um adulto. Pode ocorrer com ou sem o uso da violência física. Abusar sexualmente significa desnudar, tocar, acariciar as partes íntimas.  Levar a criança a assistir ou participar de práticas sexuais de qualquer natureza também é abuso. O adulto submete a criança ou adolescnte impondo força física, seduzindo com dinheiro ou presentes e até com ameaças e violência física e psicológica. É crime esta prática.

 Graça Martins - A Exploração Sexual que é considerada uma atividade com fins comercial consiste na utilização de crianças e adolescentes em atividades sexuais remuneradas. Por meio de relação sexual, filmes pornográficos, shows eróticos e outros vários meios ocorrem a exploração sexual. A exploração no comércio do sexo é muito presente no país. Temos a pornografia infantil ou a exibição de crianças em espetáculos sexuais públicos ou privados.

 4. Janderson: Como denunciar anonimamente um caso de abuso sexual na vizinhaça?

Graça Martins: Não precisa se identificar. Deve-se denunciar ao conselho tutelar porque ele fiscaliza e monitora, além de defender os direitos da criança e do adolescente. Denunciar também às delegacias que investigam e fazem diligências, É importante denunciar também, acredito, à curadoria da infancia e da juventude, a escola e professores, é muito importante. Existe uma rede de proteção para as crianças e aolescentes. Na escola a prevenção é importante por isso precisamos orientar pais e crianças. Enfim existe vários órgão aos quais se podem denunciar.

 5. Miclelle: Por que é importante falar do abuso sexual sofrido?

Graça Martins: Porque além das sequelas físicas ficam as psicológicas e relacionais. As crianças abusadas ficam com medo de falar, silenciam e muitas vezes são ameaçadas pelo agressor. O abuso na maioria das vezes ocorre na própria casa, com pessoas da família, da vizinhança e a criança é ameaçada fortemente pelo agressor caso venha a falar. Há estudos que demonstram que grande parte das agressões acontece dentro do ambiente doméstico.

 6. Michelle: Um rapaz de 25 pode se relacionar sexualmente com uma adolescente de 13 anos?

Graça Martins: Na verdade, hoje a adolescência está muito precoce. Não se percebe mais meninas de 12 ou 13 anos brincando com seus bichinhos de pelúcia, nem crianças de sete anos brincado de bonecas, ao contrário é comum a presença em programas de Tv exibindo o corpo e dançando. Minha experiência no Hospital Frei Damião trabalhando com mães primíperas no parto, há mais de 6 anos, me fez perceber que jovens adolescentes de 13, 14 e 15 anos estavam dando a luz eram mães muito cedo. Não tinham seu corpo preparado nem estavam preparadas para a maternidade.

 7. Janderson: A senhora tem algum dado estatístico a respeito da ocorrência de abuso sexual em João Pessoa, na Paraíba ou no Brasil?

Graça Martins: Não no momento eu não tenho. Posso pesquisar e informo a vocês posteriormente. Como falei não é minha área. Minha contribuição é apenas no campo da psicologia e educação. Há muitas violências sexuais. Existe muito presente na atualidade o turismo sexual, a violência e exploração nas rodovias, tráfico de menores. A rede de exploração é muito grande no país conforme estudos realizados. Há uma vulnerabilidade sócio econômica das vítimas como a pobreza e desigualdade social.

 8. Janderson: Quais os primeiros sintomas ou marcas que são deixadas e desenvolvidas após um abuso sexual?

Graça Martins: Sentimento de culpa, dor, tristeza, medo, stress que podem levar a depressão. Varios comportamentos podem estar presentes tais como, queda do rendimento escolar, forte medo de falar com as pessoas, mudança no apetite, no sono, isolamento social, instabilidade emocional, baixa auto-estima, irritabilidade, agressividade, pesadelos, dificuldades na aprendizagem escolar, medo de ir à escola, etc. A criança abusada fica confusa, aterrorizada e temerosa.

 9. Michelle: É fácil tratar ou minimizar os traumas ocorridos durante o abuso sexual?

Graça Martins: Não é fácil. É um fenômeno complexo. As marcas de uma violência são para o resto da vida. O papel do psicólogo, entre outras ações, busca acolher, minimar a dor e o sofrimento a fim de reduzir o dano psicológico sofrido. É preciso estabelecer a confiança, saber ouvir e entender, buscar aceitar e proporcionar segurança a vítima no ambiente de atendimento.

 10. Michelle: Qual a importância do psicólogo (a) no que se refere ao apoio fornecido as vítimas que sofreram essa agressão?

 Graça Martins: O papel do psicólogo é muito importante. As crianças necessitam de um conjunto de mecanismos de proteção. A família, a escola e a comunidade precisam orientar as crianças e adolescentes. O abuso e a exploração trazem graves conseqüências. Trabalho em uma escola da rede pública e se percebe o quanto é importante trazer a família para dialogar e orientar. É importante que a escola aborde a questão da sexualidade em sala de aula. A psicologia precisa estar presente em todos os contextos porque a violência é toda e qualquer forma de opressão, de maus tratos, de agressão, tanto no plano físico como emocional, que contribuem para o sofrimento de uma pessoa. Quando ocorre no período da infância e da adolescência pode acarretar dificuldades no desenvolvimento físico e psíquico com prejuízos emocionais profundos.

 

NOTAS FINAIS

 A Violência é toda e qualquer forma de opressão, de maus tratos, de agressão, tanto no plano físico como emocional, que contribuem para o sofrimento de uma pessoa. Quando manifestada no período da adolescência pode acarretar dificuldades no desenvolvimento físico e psíquico. O atendimento psicológico a vítimas de violência sexual possui características próprias, que o diferenciam do processo terapêutico. Trata-se de um fenômeno complexo, com múltiplas variáveis, portanto, é imprescindível que os profissionais que atuam na área tenham formação continuada e específica, bem como apoio e supervisão freqüente. Para fazer frente às situações de risco, e consequentemente à exploração sexual, as políticas públicas de assistência social precisam do trabalho de profissionais de várias áreas, tais como saúde, educação, assistência social e sistema de Justiça. Nesses contextos se insere a psicologia como fator de importância.

Atuar nesta área é, geralmente, alta fonte de estresse para os profissionais. Assim, é muito essencial que estes possam discutir e analisar suas atitudes e sentimentos em supervisões e discussões freqüentes conforme nos esclarece Habigzang & Caminha (2004). Dessa maneira, não podemos deixar de registrar que a violência sexual é uma agressão à liberdade do indivíduo, sobretudo, à criança e ao adolescente, é uma manifestação extrema do domínio de uma pessoa sobre outra. A violência sexual, na atualidade, é uma realidade no âmbito familiar. O mito da família "feliz, segura, protetora e inviolável" não está tão presente na sociedade atual.

As estatísticas no Brasil, da exploração e abuso sexual, foi uma das perguntas não respondida aos entrevistados. Portanto, considero pertinente esclarecer que de acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), a cada ano, cerca de um milhão de crianças em todo o mundo sofrem abuso sexual (Agência de Notícias dos Direitos da Infância – ANDI, 2003).

A Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e Adolescência (ABRAPIA) identificou, entre 1547 denúncias de abuso contra crianças e adolescentes, que em 76% dos casos as vítimas eram do sexo feminino, 52% tinham entre 7 e 14 anos, 37%  tinham menos de seis anos e 11% eram adolescentes com idade entre 15 e 18 anos conforme nos assevera LAKS, WERNER, & MIRANDA-SÁ (2006).

Para as crianças e adolescentes vítimas de violência e exploração sexual, as conseqüências podem ser múltiplas. Incluem comprometimento da saúde física e mental, traumas físicos (ex. ginecológicos), gravidez indesejada, risco de adquirir doenças sexualmente transmissíveis (DST) e AIDS. As vítimas de violência sexual são, ainda, mais vulneráveis a outros tipos de violência, de transtornos sexuais, uso de drogas, prostituição, estresse pós-traumático, depressão, sentimentos de culpa, ansiedade, isolamento, estigma, baixa auto-estima e suicídio de acordo com a posição de RIBEIRO ET AL. (2004); INOUE & RISTUM (2008) -Temas em psicologia.

Entre os problemas experimentados pelas crianças que passaram por abuso sexual temos a dificuldade para discriminar e responder adequadamente a estímulos; distinguir entre afeto positivo e negativo ou condutas sexuais e não-sexuais; agressão; problemas de comportamento como enurese, encoprese, birras e choro; comportamento hipersexualizado; retraimento e dificuldades escolares conforme descreve HABIGZANG & CAMINHA (2004) E INOUE & RISTUM (2008).

            Na área jurídica, alguns autores, entre eles Silva (2003) afirma que a função do profissional, principalmente, o psicólogo jurídico consiste em interpretar a comunicação do que ocorre na dinâmica familiar e pessoal. Deve ter por objetivo, destacar e analisar os aspectos psicológicos das pessoas envolvidas como, por exemplo, questões afetivo-comportamentais da dinâmica familiar que estão encobertas. 

A entrevista concedida aos alunos, representantes da escola Liceu Paraibano, Michelle e Janderson teve como objetivo organizar um trabalho acadêmico. Parabens à Michelle, Janderson e seu grupo pela iniciativa na busca de informações importantes sobre o tema exploração sexual.

 

 NOTAS

Material organizado a partir da entrevista com Graça Martins*. Entrevistadores: Michelle Barbosa de Lima e Janderson Barbosa, representantes do Colégio Liceu Paraibano (JP-PB).

 SOBRE A ENTREVISTADA:

*Graça Martins é Mestre em Saúde Coletiva (UNIFESP), Mestre em Educação (ULHT), Psicóloga clínica e hospitalar, professora e profissional liberal, participante do corpo de especialistas na Clínica INTERSER-Especializada no ser Humano.

 

FONTE DE REFERÊNCIAS

 AZAMBUJA, Maria Regina F.. Violência sexual intrafamiliar: é possível proteger a criança? Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2004.

 BALTIERI, D. A.; SAADEH, A. e ABDO, C. H. N.. Pedofilia – uma perversão. Revisão bibliográfica. J. Bras. Psiquiatria. 48(5), São Paulo: Editora Científica Nacional,1999. Disponível em Http://www.bireme.br Acesso em: 10 de novembro de 2010.

 BRASIL. Lei 8.069, de 13 jul. 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências.

 BRASIL. Rede Nacional Feminista de Saúde e Direitos Reprodutivos. Dossiê

violência contra a mulher. 1999.

BRAUN, Suzana. A violência sexual infantil na família: do silêncio à revelação do segredo. Porto Alegre: AGE, 2002.

 CAMINHA, R. M. A. Violência e seus danos à criança e ao adolescente. In: AMENCAR (org.). Violência doméstica. Brasília: Unicef, 1999. p.43-60.

 DIÊGOLI, C. A. et al. Abuso sexual na infância e adolescência. Revista de

Ginecologia e Obstetrícia, vol.7, n.81, São Paulo, 1996.

DREZETT, J. Aspectos biopsicossociais da violência sexual. Jornal da Rede Pública, n. 22, p.18-21, 2000.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Prevenção e tratamento dos agravos resultantes da

violência sexual contra mulheres e adolescentes. Norma Técnica. Brasília, 1999.

Outras Fontes:

http://pt.wikipedia.org/wiki/ExploracaoSexual

Exploração Sexual . disponível em http://www.brasilescola.com/sexualidade/exploracao-sexual.htm Acesso: 10.11.2010

Sexualidade: Exploração Sexual. Disponível em: http://sexualidade.netsaber.com.br/index.php?c=174. Acesso: 15.11.2010

 

Perfil do Autor

MARIA DAS GRAÇAS TELES MARTINS

*Graça Martins é Mestre em Saúde Coletiva (UNIFESP), Mestre em Educação (ULHT), Psicóloga clínica e hospitalar, professora e profissional liberal, participante do corpo de especialistas na Clínica INTERSER-Especializada no ser Humano.