FORMAÇÃO CONTINUADA: um instrumento para atualização de docentes

14/06/2011 • Por • 1,270 Acessos

FORMAÇÃO CONTINUADA: um instrumento

para atualização de docentes

A FORMAÇÃO CONTINUADA de profissionais da educação está prevista no artigo 63, inciso III da LDB (Lei 9.394 de 20 de dezembro de 1996). E o que significa a formação continuada? A professora Isabel Alarcão, no livro Formação continuada como instrumento de profissionalização docente, diz que formação continuada é "um processo dinâmico por meio do qual, ao longo do tempo, um profissional vai adequando sua formação às exigências de sua atividade profissional". A formação continuada é um processo que faz parte da readequação da força de trabalho dos professores às novas exigências dos processos produtivos inerentes a manifestação flexível do capital.

Em outras expressões: a formação continuada deve ser vista como desenvolvimento das possibilidades de cada indivíduo, considerando o desenvolvimento do profissional como um processo inacabado, um processo que sempre se adequa as necessidades históricas inerentes à profissão; a autora ressalta, ainda, que a formação continuada deve se constituir numa reflexão na prática e sobre a prática, por meio de dinâmicas que envolvem a investigação, a ação, a investigação e a formação, valorizando os saberes de que os professores são portadores. Entendido por essa epistemologia, a formação continuada é o desenvolvimento de competências e habilidades relacionadas à forma e ao conteúdo do trabalho executado.

O que as condições concretas atuais tem nos mostrado que a formação continuada recebida pelos profissionais da educação, que atuam no ensino básico, não passa de cursos aligeirados e palestras promovidas por técnicos das Secretarias de Educação ou por entidades que promovem eventos educativos visando lucro. Essa perspectiva de formação continuada deixa de considerar a experiência do professor no sentido de refletir sobre a prática pedagógica desenvolvida no seu cotidiano escolar. É importante salientar que, muitas vezes, os professores ficam impossibilitados de participarem dessa formação, uma vez que a maioria tem dupla jornada de trabalho, a fim de atender às suas necessidades mais elementares (transporte, alimentação etc.).

É uma vergonha o salário pago àqueles que são responsáveis pela formação das pessoas que futuramente ocuparão diversos lugares no mercado de trabalho, mas que também deverão exercer sua cidadania compromissada com o Outro. Não se valoriza os trabalhadores do magistério somente oportunizando que esses profissionais do ensino ingressem em cursos de nível superior. A melhoria da qualidade do ensino passa, também, pela questão salarial, que, por sua vez, está relacionada à realização social do homem. Eis a razão do insucesso dos escolares do Ensino Fundamental e do Ensino Médio das escolas públicas brasileiras no processo de medição realizado pelo INEP (SAEB E ENEM).

Professor bem pago produz mais, mal pago produz menos. Queremos, ainda, registrar que as orientações dos Organismos Internacionais, principalmente as do Banco Mundial, direcionam a FORMAÇÃO INICIAL e a FORMAÇÃO CONTINUADA dos trabalhadores da educação para uma formação aligeirada (tanto no conteúdo quanto na duração) e, preferencialmente, na modalidade à distância. Na realidade, as ações governamentais para a formação dos professores objetivam atender às exigências do Banco Mundial e chanceladas pelo FMI, que são estratégias para ajustar a educação pública aos interesses do capital do que qualificar os professores para a realização de um trabalho de qualidade em sala de aula.

Nós que trabalhamos em cursos de graduação e pós-graduação que buscam formar o professor para atuar na Educação Infantil e, também, no primeiro segmento do Ensino Fundamental, entendemos que o acúmulo de informações passadas por intermédio de cursos rápidos de atualização ou aperfeiçoamento e outros não tem sido suficientes para que os trabalhadores da educação construam um arcabouço teórico, metodológico e prático consistente e essencial, objetivando a esse mesmo profissional a formação da capacidade de refletir e redefinir sua prática pedagógica. Uma prática pedagógica que deve estar direcionada para o esclarecimento, para o exercício da cidadania plena e para a construção coletiva de uma sociedade mais justa e fraterna.

Os cursos destinados à formação inicial e a formação continuada consubstanciadas ao qualificativo mínimo (mínimo de leitura, mínimo de conteúdo, mínimo de tempo, mínimo de reflexão etc.) não permitem que os profissionais da educação desenvolvam uma visão crítica qualificadamente revolucionária (que supera a crítica ingênua tão criticada pelo professor Paulo Freire) sobre a complexidade e a totalidade do processo educativo, nem sobre as mudanças que ocorrem na sociedade burguesa contemporânea. É, sem dúvida, um esquema tradicional, conservador e bancário que considera o profissional do ensino como uma coisa, ou seja, como alguém que nada tenha a dar, mas que muito tem a aprender.

Não temos dúvida que a FORMAÇÃO CONTINUADA deve, pois, proporcionar aos trabalhadores da educação não só atualizações tecnológicas, se apoiando numa reflexão enviesada sobre a prática educativa e focalizando a escola como lócus dessa formação. Esse é o conteúdo e a manifestação objetiva que compõem o discurso hegemônico dos gestores educacionais, reproduzindo tecnologias importadas de outras realidades, que geralmente não servem para os brasileiros. Portanto, é necessário que todos entendam que a formação continuada é um processo contínuo e permanente que deve privilegiar o espaço pedagógico da escola, fortalecendo e aprimorando as práticas educativas desenvolvidas dentro e fora da escola.

Elizeu Vieira Moreira é Professor da SEDUC e do PARFOR/FACED/UFAM.

Rubens da Silva Castro é Professor da Faculdade de Educação da UFAM.