LIMITES E POSSIBILIDADES DA AVALIAÇÃO NA EDUCAÇÃO

27/06/2010 • Por • 2,228 Acessos

Toda ação educativa não é e não pode ser entendida como algo pronto e definido, pois é uma ação que provoca muitos questionamentos, planos e realizações e um repensar da prática educativa. Somos fruto de um processo educativo rígido, inflexível empírico e por vezes desumano.

Apesar de atualmente estar bastante disseminada a idéia de mudanças e inovações, existem ainda grandes resistências em aperfeiçoar o processo de ensino aprendizagem, dando maior ênfase a avaliação quantitativa do que a qualitativa. Este modelo tradicional ainda existente é um tanto preocupante, apesar de haver uma grande vontade de se implantar atitudes inovadoras.

Para alguns teóricos medir é um processo descritivo, avaliar é um processo interpretativo que supõe julgamento a partir de uma escala de valores, onde muitas vezes o professor é desprovido de  conhecimento para exercer tal processo avaliativo. O termo Avaliação é associado a outros como: exame, nota, sucesso e fracasso, promoção e repetência.  No entanto, nesta nova concepção pedagógica, pressupõe-se que a avaliação assuma dimensões mais amplas. A atividade educativa não tem por meta atribuir notas, mas realizar uma série de objetivos que se traduzam em termos de mudanças de comportamentos dos alunos.

Avaliar significa, para o novo Dicionário Aurélio "determinar a valia ou o valor, apreciar, estimar o merecimento, fazer a apreciação, ajuizar" (Ferreira,1910-1984). Nesta perspectiva, o avaliador coloca-se no papel de juiz a quem compete a tarefa de apreciar, determinar o valor, estimar. Obviamente, não se trata de tarefa simples, pois exige ponderação, discernimento, reflexão.

Para Luckesi, o termo Avaliar também tem sua origem no latim,  provindo da composição a-valere, que quer dizer "dar valor a ...". O conceito "avaliação" e formado a partir das determinações da conduta de "atribuir um valor ou qualidade a alguma coisa, ato ou curso de ação..." que, por si, implica posicionamento positivo ou negativo em relação ao objeto, ato ou curso de ação avaliado. Isto quer dizer que o ato de avaliar não se encerra na configuração do valor ou qualidade atribuídos aos objetos em questão, exigindo uma tomada de posição favorável ou desfavorável ao objeto de avaliação, com uma conseqüente decisão de ação.

É preciso uma reflexão educacional sobre a contradição existente entre a ação de educar e a concepção de avaliação como resultado e como julgamento.

Na visão de Hoffmann, é preciso refletir sobre a prática avaliativa: "Nessa tarefa de reconstrução da prática avaliativa, considero premissa básica e fundamental a postura de "questionamento" do educador. A avaliação é a reflexão transformada em ação. Ação, essa, que nos impulsiona as novas reflexões. Reflexões permanente do educador sobre sua realidade, e acompanhamento, passo a passo, do educando, na sua trajetória de construção do conhecimento. Um processo interativo, através do qual educandos e educadores aprendem sobre si mesmo e sobre a realidade escolar no ato próprio da avaliação" (Hoffman, 1994, P.18).

O processo de construção de conhecimento ocorre a partir da assimilação do objeto de conhecimento vinculado e transformado por vivência e conhecimentos construídos anteriormente, por isso, não devemos considerar uma avaliação única e igual para indivíduos com conhecimento e vivências diversificadas.

A avaliação deve ser contínua, onde são avaliados não só os resultados dos objetivos propostos em cada atividade, mas também, as hipóteses que os alunos constroem e as reflexões que fazem sobre elas.

Na reflexão transformadora o professor faz o papel de facilitador do processo de construção do conhecimento, promovendo situações de "desequilíbrio", desafiando, instigando a dúvida, criando sempre situações desafiadoras e encorajando o aluno a caminhar diante delas como um ser ativo e participativo.

Segundo a teoria Vigotskyana, o professor deve priorizar as interações entre os próprios alunos e deles com professor, e daí fazendo com que os conceitos espontâneos, que as crianças desenvolvem na convivência social, evoluam para o nível dos conceitos científicos. A avaliação neste ponto de vista servirá para estimular os alunos, orientá-los nas tarefas, inclui-los no processo e não para exclui-los, oferecendo-lhes novas leituras e explicações, instigando-lhes, provocando-lhes para a investigações.

Neste processo social, cabe portanto ao professor ensinar o aluno apreender, a avaliar-se e a criticar-se. Trabalhando assim, significa o fim do "conteúdo" pelo "conteúdo", para que isto ocorra os profissionais da educação tem que estar atentos ao planejamento, como: O que planejar, e como planejar. "Sem planejamento ninguém vai alugar nenhum", afirma Kátia Smole.

A escola de hoje deve valorizar o diálogo como palavras-chave para se compreender e colocar em prática a interdisciplinaridade. As aulas são baseada no cotidiano dando ênfase nos movimentos da prática social, aspectos políticos, sociais, econômicos e tantos outros.

"Isto é, o diálogo é uma espécie de postura necessária, na medida em que os seres humanos se encontram para refletir sobre sua realidade tal como fazem e refazem(...)Através diálogo, refletindo juntos sobre o que sabemos, podemos, a seguir, atuar criticamente para transformar a realidade" (Freire, 1986, In: Hoffman, 1.994: p. 23 e 24).

A escola tradicional transmitia conhecimentos de forma acumulativa, o professor dominava os conteúdos a serem transmitidos aos alunos. Hoje, é diferente, o conhecimento não é algo estático e transferido para os alunos, tem sim, a finalidade de pensar o seu contexto. É o diálogo que dá sustentação a interdisciplinaridade, pois neste processo as pessoas precisam olhar nos olhos, ouvir e serem ouvidas, manifestar suas opiniões e respeitar a opinião alheia para que a interdisciplinaridade aconteça. E isso vale tanto para professores quanto para alunos.

O processo ensino-aprendizagem atual vem sendo influenciado por alguns estudos e pesquisas sobre o construtivismo, sócio-construtivismo e outros.

Segundo Piaget (1980), o conhecimento é construído através da interação do sujeito com o objeto. O desenvolvimento cognitivo se dá pela assimilação do objeto de conhecimento, a estrutura anteriores presentes no sujeito e pela acomodação do que vai ser assimilar. Para Piaget, a criança se apodera de um conhecimento se "agir" sobre eles, pois aprender e modificar, descobrir, inventar. Neste enfoque, a função do professor e propiciar citações sistema de significação, o qual, uma vez organizado na mente, será estruturada no papel ou oralmente.

Vigotsky (1934), enfatiza a importância da interação e da construção do conhecimento. Nessa concepção o papel do professor é interagir com os alunos através da linguagem num processo dialógico.

O sócio construtivismo, traz hoje, uma convergência das idéias piagetianas e vigotskyanas, enfatizando a construção do conhecimento numa visão social, histórica e cultural. Piaget trabalhava com os níveis com maturacionais, Vigostsky trabalha com relação aprendizagem-desenvolvimento.

O sócio construtivismo apresenta o conceito de zona de desenvolvimento proximal como a distancia entre o nível de desenvolvimento real e o nível de desenvolvimento potencial. Diferencia nível de desenvolvimento real (aquele que se caracteriza pelas etapas já alcançadas, resultado de processos de desenvolvimento já completados) de nível de desenvolvimento proximal (capacidade de desempenhar tarefas com a ajuda de adultos ou de companheiros mais capazes).

A zona de desenvolvimento, segundo Vigotsky proximal e um domínio psicológico em constate transformação que mostra que aquilo que uma criança seja capaz de fazer hoje com a ajuda de alguém, conseguirá fazer sozinha amanhã.

Entendemos não ser fácil romper com uma coisa com a qual estamos tão habituados. Vencer a fragmentação dos conteúdos organizados tradicionalmente exige mais do que competência: pede uma postura política corajosa no sentido de arriscar, desmistificar crenças e práticas  cristalizadas e experimentar novas formas de trabalhar. Esse novo fazer passa por algumas transformações bem práticas. Para tanto, é necessário atividades que tomam como referencial o conhecimento evidenciado pelos alunos e o conhecimento já sistematizado.

No atual processo avaliativo, ainda se vive um momento de transição, no entanto, é preciso avançar rapidamente no sentido de colocar a avaliação como um meio de incluir o educando, de ajudá-lo a permanecer na escola aprendendo.

A confiança mútua entre educador e educando quanto às possibilidades de reorganização conjunta do saber pode transformar o ato avaliativo de um momento prazeroso de descoberta e troca de conhecimento.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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GUTIERREZ, Francisco Péres. Linguagem total: uma pedagogia dos meios de comunicação. São Paulo: Summus, 1997.

HOFFMANN, Jussara. Avaliação: Mito & Desafio. Uma perspectiva construtivista. Porto Alegre: Educação Realidade, 1994.

______.Avaliação mediadora: Uma Prática em Construção. Da pré-escola a Universidade. Porto Alegre: Educação Realidade, 1993.

LEÃO, Denise Maria Maciel. Paradigmas Contemporâneos de Educação: Escola Tradicional e Escola Construtiva. IN: Cadernos de Pesquisa da Fundação Carlos Chagas. São Paulo: Ed. Autores associados. Julho 1999. nº 107.

LUCKESI, Cipriano Carlos. Avaliação da Aprendizagem escolar: estudos e proposições.   ed. São Paulo: Cortez, 1999.

MATO GROSSO. Secretaria de Estado de Educação. Escola Ciclada de Mato Grosso: Novos tempos a espaços para ensinar: aprender a sentir, ser e fazer. Cuiabá:  educ,2000.

______. Secretaria de Estado de Educação. Avaliação da Aprendizagem Escolar: Possibilidades e Limites. Cuiabá: Seduc, 1998. (Ciclo Básico de Aprendizagem).

SAN'ANNA, Ilza Martins. Por que avaliar? como avaliar?: critérios e instrumentos. Petrópolis- RJ: Vozes, 1995.

VIGOTSKI, Lev Semenovich. A formação Social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

______. Pensamento e linguagem. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

Perfil do Autor

Andréa Aparecida Gouvêia

Andréa Aparecida  Gouvêia - Licenciada em Matemática Educadora em Mato Grosso.