O Debate Da Relação Entre Desenvolvimento Econômico E Conservação Do Ambiente No Livro Didático De Geografia Na Década De 70
Uma breve análise sobre o livro didático de geografia da década de 70.
O livro analisado a priori, que fora publicado antes da emersão do desenvolvimento sustentável, denomina-se “O Espaço geográfico - Geografia Geral e do Brasil”, do autor Igor Moreira, com a 6ª edição publicada em 1976. Esse livro possui algumas características peculiares devido ao momento histórico do Brasil, (que encontrava-se em um regime de ditadura militar), e do momento das discussões preliminares em caráter global sobre a relação desenvolvimento-ambiente [1], (como a publicação do relatório “Limites do crescimento”, e principalmente com a realização da Conferência de Estocolmo).
Logo encontramos no conteúdo do livro intensas preocupações em se discutir o espaço urbano, o espaço agrário, a dinâmica populacional, e, sobretudo, estando implícito e as vezes explícito, a temática do desenvolvimento, logo, por serem essas as preocupações do governo ditatorial brasileiro (principalmente a obstinação pela idéia de desenvolvimento). Para exemplificar, trataremos de conteúdos levantados nas partes de “População e Espaço” e “Espaço Industrial Urbano” do livro.
A primeira grande discussão que levantaremos está na página 67, e relata o conflito população X alimentos e as soluções, onde por alguns momentos o autor se distancia das concepções neomalthusianas e em outros momentos o autor se aproxima, deixando transparecer o caráter neomalthusiano de sua análise. Assim, Moreira (1976) ressalta que há duas soluções, ou duas correntes que pretendem solucionar esse dilema. A primeira o autor chama de pessimista, onde se enquadraria os neomalthusianos, que, conseqüentemente, defendem o controle de natalidade, e culpam o crescimento populacional pela falta de alimentos do mundo, e pela fome. Assim, o crescimento populacional seria, na visão dessa corrente, responsável por um comprometimento do futuro da humanidade (toda essa preocupação e esse controle deveriam ser exercido nos países subdesenvolvidos ou periféricos, já que são nesses países os maiores índices de crescimento populacional).
A outra corrente é denominada pelo autor de “otimistas” ou “reformistas”, que segundo o próprio autor, se preocupariam com o aumento da produção, alegando que a dita “explosão populacional” não seria a causa principal, mas a conseqüência do atraso econômico e social dos países subdesenvolvidos. Logo, através das reformas econômicas e sociais [2], da distribuição e proliferação da tecnologia, a produção seria elevada e abasteceria a todos, sem nenhuma exceção.
Posteriormente, o autor afirma, sem clarificar e explicar a sua afirmação, “que ambas posições são defensáveis, cada qual segundo o seu ponto de vista”(MOREIRA 1976 p.68), o que concordamos parcialmente, na nossa interpretação, cada discurso tem seu interesse, sua intencionalidade. Todavia, nestes casos, os quais o autor discorre, há presente uma intencionalidade principal, o de atender aos desejos das elites dominantes, mesmo tratando-se de elites diferentes, logo, a elite brasileira defendia o progresso técnico e tratava o desenvolvimento como uma panacéia, e a elite dos países centrais queria, exatamente o contrário, a contenção do desenvolvimento nos países periférico, justificando-se essa proposta através das teorias neomalthusianas e de outras ferramentas ideológicas.
Moreira, que já deixara a lacuna aberta na afirmação anterior, deixa-se, sucumbir pelas idéias neomalthusianas e afirma posteriormente, reproduzindo essa ideologia, que: “Além disso, o elevado crescimento demográfico repercute não só no problema alimentar atual, como também na própria sobrevivência futura da humanidade, através das suas implicações no equilíbrio ambiental”.(1976 p.68) Não são as populações pobres as responsáveis pela maior pressão no ambiente, ou pelo desequilíbrio ambiental, são, pelo contrário, as populações ricas, que são minorias no globo, e que são as maiores responsáveis pelo “desequilíbrio ambiental”, na expressão de Moreira, ou na nossa visão, pela degradação, em larga escala do ambiente.
Outro ponto a ser destacado, é a abordagem feita pelo autor sobre os “problemas urbanos”, na quarta parte intitulada “Espaço Industrial e Urbano”, no capítulo III, que trata especificamente do Espaço Urbano, e ao seu final sobre os problemas existentes nesse espaço causados pelo homem (mais especificamente pela sociedade capitalista), e pela transformação da paisagem produzida pela a ação humana e suas inúmeras conseqüências. O autor propõe que o crescimento das cidades, a formação de metrópoles, a partir dos processos de urbanização e industrialização, provocou inúmeros efeitos, que se tornaram mais graves com o decorrer dos anos, e com a aceleração desses processos, provocando uma espécie de “efeito dominó” no espaço urbano. Logo, na visão do autor, os problemas de habitação, causariam a favelização, e a maior intensidade do que SOUZA (2007) denomina de movimento pendulário diário, que teria como conseqüência problemas no setor de transporte, como o congestionamento, e a própria circulação urbana no que se refere ao abastecimento de produtos.
Após essa relação, o autor adiciona na lista de problemas a “poluição ambiental”, afirmando que:
“Mas talvez mais grave seja o problema da poluição ambiental, em especial das águas e do ar, provocada principalmente pelas indústrias que buscam a proximidade dos grandes centros. Diante disso, urge que se discipline, através do planejamento urbano, a localização industrial, bem como se fiscalize a emissão de substâncias poluentes”.(MOREIRA 1976 p.224)
O autor parece muito crítico à proliferação das indústrias nos grandes centros, que por conseqüência, provocam a poluição das águas e do ar (e agravam todos aqueles problemas descritos anteriormente). Tendo em vista esses problemas, o autor apresenta como solução, ou como meta para amenizar esses problemas o planejamento urbano, e a fiscalização na emissão de poluentes.
A fiscalização de emissão de poluentes no Brasil mostrou-se uma tarefa bastante árdua, por basicamente alguns motivos, são esses: a própria negligência do governo em fiscalizar, (que se mostrou incapaz de regular as emissões), pelo desinteresse do próprio governo, (por não ser essa a prioridade do momento), pelas dimensões continentais do país, etc (sendo esses motivos divididos em: dificuldades reais ou discursos e justificativas pífias).
A outra idéia exposta pelo autor, é a do planejamento urbano, o que é basicamente uma das idéias centrais do governo brasileiro desse momento, “planejar o desenvolvimento do país “. Assim, Moreira, incorpora essa idéia produzida no governo ditatorial, e a reproduz por vários momentos no livro didático, como por exemplo: “Agora que o Brasil inicia sua arrancada para o desenvolvimento, é preciso planejar” (1976 p.242), ou através da enumeração e da explicação dos órgãos de planejamento regional do Brasil, como a SUDENE (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste), a SUFRAMA (Superintendência de Desenvolvimento da Zona Franca de Manaus)..., que viabilizariam, na visão do autor, e conseqüentemente do governo brasileiro, o desenvolvimento dessas regiões, e do país.
Discorrendo sobre o “desenvolvimento” da Amazônia, com a construção de grandes rodovias (como a Transamazônica), com a fixação de grandes estabelecimentos..., o autor prossegue na reprodução de discursos do governo, afirmando que o processo atual causava impacto no ambiente, como o desmatamento, e no próprio equilíbrio ambiental, porém, essas eram conseqüências do processo de desenvolvimento, que deveria ser entendido como meta principal, e justificativa de qualquer impacto (MOREIRA 1976).
[1] Outras discussões já eram feitas sobre a relação desenvolvimento-ambiente antes da década de 70, inclusive abordaremos, posteriormente, que a idéia embrionária do desenvolvimento sustentável procede do século XIX. Porém, em um caráter global, a Conferência (mundial) de Estocolmo foi o primeiro grande evento.
[2] Conclui-se que com a efetivação dessa reformas os países subdesenvolvidos passariam ao estágio de desenvolvidos, assim, aumentar-se-ia a produção nacional, e melhorar-se-ia as condições sociais e econômicas, o que é mais uma evidência de um discurso ilusório, pois o subdesenvolvimento não é uma etapa ou estágio para o desenvolvimento, que por sinal é restrito as elites dominantes, e não compartilhado a todas as classes.
Referências Bibliográficas
FURTADO, Celso. O Mito do Desenvolvimento Econômico. Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1974.
MOREIRA, I. O Espaço Geográfico - Geografia Geral e do Brasil. Editora Ática 6º edição São Paulo. 1976.
SOUZA, M.L.de O desafio metropolitano: Um estudo sobre a problemática sócio-espacial nas Metrópoles Brasileiras.Rio de Janeiro.Editora: Bertrand Brasil. 2005
_____ O ABC do desenvolvimento. 2007.
(Artigonal SC #1411695)
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