O Ensino de Geometria no Ensino fundamental

Publicado em: 25/06/2010 |Comentário: 1 | Acessos: 5,041 |

O ensino do Desenho permaneceu oficialmente por 40 anos consecutivos nos currículos escolares – de 1931 a 1971. Essa situação se manteve, apesar de que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1961 propusesse opções de currículo onde o Desenho não era disciplina obrigatória.

Os currículos escolares do ensino fundamental no Brasil sofreram grandes mudanças em 1971 com a promulgação da Lei n. 5692 – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Havia um núcleo de disciplinas obrigatórias e outros núcleos de disciplinas optativas, as quais poderiam integrar a parte diversificada do currículo. As escolas tinham a liberdade de construir a sua grade curricular apenas dentro da parte diversificada. As instituições escolares deveriam seguir as determinações da legislação escolar, que impunham a integração da Educação Artística, em todas as séries dos cursos de 1º e 2º graus do ensino básico. O Desenho tornara-se uma disciplina optativa da parte diversificada do currículo. Deste modo, após a promulgação da referida lei, muitas escolas aboliram o ensino das construções geométricas, ensinadas na disciplina Desenho Geométrico.

Outro ponto importante a ser destacado é que as construções geométricas com régua e compasso não mais seriam obrigatórias nos concursos vestibulares de Arquitetura e Engenharia na década de 70. Estes fatos se entrelaçam fortalecendo o abandono do Desenho Geométrico em escolas do ensino básico.

Este quadro permanece até a década de 80, quando algumas editoras lançam coleções de Desenho Geométrico, para serem utilizadas de 5a a 8a série do primeiro grau – o que nos aponta uma revalorização das construções geométricas e/ou a sua assunção pelas escolas de uma forma explícita. No entanto, oficialmente as construções geométricas continuavam ausentes dos currículos escolares, uma vez que o Desenho Geométrico deixara de ser uma disciplina obrigatória.

No final do século passado, temos a proposta dos PCN(s) que têm como finalidade orientar as políticas públicas e as práticas escolares do ensino básico brasileiro, estabelecendo

"... uma meta educacional para a qual devem convergir as ações políticas do Ministério da Educação e do Desporto, tais como os projetos ligados a sua competência na formação inicial e continuada de professores, à análise e compra de livros e outros materiais didáticos e à avaliação nacional. Têm como função subsidiar a elaboração ou a revisão curricular dos Estados e Municípios, dialogando com as propostas e experiências já existentes, incentivando a discussão pedagógica interna das escolas e a elaboração de projetos educativos, assim como servir de material de reflexão para a prática de professores." (PCN, v. 1, p.36).

Apenas em 1998, com a publicação dos Parâmetros Curriculares Nacionais de Matemática para o 3º e 4º ciclos do ensino fundamental, demonstra-se uma real preocupação com o ensino das construções geométricas neste nível de ensino. Este volume propõe os traçados geométricos com régua e compasso, reabilitando uma forma de trabalhar a geometria que estava esquecida em diversas instituições de ensino básico do país.

No Brasil, pesquisas mais recentes apontam a importância do ensino do ensino das construções geométricas, auxiliando a construção do conhecimento em geometria e/ou mostram as dificuldades encontradas pelos alunos, nos cursos superiores, nos quais a geometria e as construções geométricas são pré-requisitos imprescindíveis.

Os estudos iniciais sobre geometria abordam situações relacionadas à forma, dimensão e direção. O objetivo de ensinar geometria aos alunos do 1º ao 5º ano está ligado ao sentido de localização, reconhecimento de figuras, manipulação de formas geométricas, representação espacial e estabelecimento de propriedades.

Analisando pelo lado construtivista, o aluno estabelece seu espaço na medida em que o pensamento cognitivo seja colocado em ação. Dessa forma, os alunos que possuem um maior grau de habilidade se destacam, relacionando a geometria a outros contextos. É com base nesse caso que a escola deve acionar mecanismos, a fim de fornecer o conhecimento de forma gradual, atendendo a todos os alunos de forma igualitária.
O professor deve aproveitar os diferentes pontos de vista e opinião dos alunos, criando um ambiente de discussão de idéias, debates e formulação de novas definições. Trabalhos assim valorizam o aluno, pois ao utilizar conceitos particulares nas aulas, sua autoestima é valorizada. Alguns conteúdos possuem afinidade com a geometria, como os mapas, as figuras, os sólidos, as planificações entre outros. Com o auxílio dos mapas, o aluno utiliza de formas bidimensionais no estudo de situações tridimensionais. O sentido de localização é colocado em prática e termos como latitude, longitude e altitude são relacionados às coordenadas geográficas de países, estados e cidades. Essa seria uma boa oportunidade para a formação de uma parceria com o professor de Geografia, colocando em prática a interdisciplinaridade entre as ciências exatas e humanas. As figuras e os sólidos são primordiais para o sucesso do aluno nas séries seguintes.

Os conhecimentos em geometria e desenho se encontram entre, através e além de quatro disciplinas escolares desde o ensino fundamental: matemática, arte, geografia e ciências (física, química e biologia). É nesse sentido que a geometria e o desenho, na escola, sejam tidos como temas transdisciplinares. Entende-se, portanto, que a abordagem ou metodologia transdisciplinar pode contribuir para o avanço do ensino da geometria e do desenho, facilitando uma formação plena do aluno.

No PCN de matemática para os conteúdos do ensino fundamental de 1ª a 4ª série, observa-se que a expressão ‘espaço e forma' surge inicialmente utilizada pelo PCN de matemática como referência ao ensino da geometria e de sua representação gráfica. Em suas "considerações preliminares da caracterização da área de matemática", observa-se o tratamento inicial dado à geometria evidenciando seu caráter concreto, abolindo a abstração que dificulta a aprendizagem. Dentre os objetivos gerais da área de matemática para o ensino fundamental, percebe-se a necessidade de se "fazer ligação da realidade com o conhecimento matemático em suas várias linguagens (aritmética, geométrica, métrica, algébrica, estatística, combinatória e probabilística)" em busca de um pensamento crítico. Portanto, a geometria é apontada como necessária à formação básica do ser humano. Percebe-se o caráter transversal proposto pela matemática e evidencia-se a necessidade tanto do uso da tecnologia, quanto da interseção com outras áreas e da comunicação humana plena. O documento cita que os conceitos geométricos constituem parte importante do currículo de matemática, pois, por meio deles, o aluno desenvolve um tipo especial de pensamento que lhe permite compreender, descrever e representar, de forma organizada, o mundo em que vive. A geometria é um campo fértil para se trabalhar com situações-problema e é um tema pelo qual os alunos costumam se interessar naturalmente. (PCN Matemática, 1997, p. 39).

O PCN de Artes cita o lúdico, as brincadeiras infantis, em que o ‘brincar de desenhar' é uma das atividades prediletas das crianças (PCN Arte, 1997, p. 36). O desenho livre, as histórias em quadrinhos, as produções em informática; o contato com formas bi e tridimensionais, para o desenvolvimento de uma linguagem visual são alguns exemplos da aplicação do desenho na área de Artes. Em relação à dança e ao teatro, observam-se referências quanto à necessidade de se lidar livremente com o espaço e a forma, através da dualidade espaço-movimento e os espaços cênicos (p. 47-57). Outra referência é para que se faça a transversalidade com a área de matemática, em projetos na escola. (PCN Arte, 1997, p. 77).

Estudar o espaço, a percepção espacial, a imagem, a mídia, o dualismo entre o local-global e a Internet, são temas ligados ao visual e à representação gráfico-espacial, presentes no PCN de Geografia. O documento faz-se menção à espacialidade, à linguagem gráfica, ao espaço. Grande importância é dada à alfabetização cartográfica, bem como ao aprendizado de diferentes formas de representação com evidências para o desenho, seja pelos esboços (representação bidimensional), seja pelo uso e confecção de maquetes (representação tridimensional). Sistemas de representação projetiva (visão oblíqua; visão vertical), alfabeto cartográfico (ponto, linha e área); proporção e escala; rigor na representação (convenções, simbologia, normas técnicas); criatividade na abstração, são temas de destaque no documento.

No PCN de Ciências observa-se alusão ao modo de buscar conhecimento através do desenho de observação em ciências. O espaço e o tempo, a informática e as mídias, são da mesma forma citados. O lúdico gráfico-gestual e o desenho surgem como formas variadas de aprendizagem e estreitamento da relação professor-aluno. O desenho de observação volta a ser destacado como de suma importância às ciências naturais, enfatizando a escala, a precisão e o caráter lúdico da aprendizagem, a criatividade, a visão espacial. Um exemplo da representação do sistema solar reforça a importância da visão espacial e sua conseqüente representação gráfica. O PCN de Ciências faz referência à parceria entre áreas, especificando a área de matemática, pela necessidade do uso de medidas e representações variadas, pautadas através de conhecimentos da geometria.

Como é notório o desenho, presente desde a educação infantil e como ferramenta de várias, senão de todas as disciplinas escolares, mostra-se cada vez mais importante na formação dos indivíduos, pois utiliza-se do apelo visual, seja para divulgar informações e lugares, para vender produtos ou para se estimular o aprendizado. Aprender geometria e poder desenhar a natureza e as formas criadas pelo homem torna-se ferramenta imprescindível neste contexto, dando àquele que a detém facilidades na comunicação e na interpretação de vários códigos.

Constata-se que se deve incentivar a aprendizagem de conceitos geométricos e a continuidade dos estímulos para o desenho o mais precocemente possível; que o professor que atua na escola, em todos os níveis da educação, deve ter uma boa formação, pautada nesta consciência e na importância que isso tem para a formação integral dos alunos.

A transdisciplinaridade vem ao encontro deste ideário ao trazer à tona uma metodologia que aponta um caminho possível para a educação, centrada nos diferentes níveis de realidade, na lógica do terceiro incluído e da complexidade. Em outras palavras propõe-se que, em meio ao conjunto complexo da escola, não é necessário um novo conhecimento para dar conta de um ensino mais presente da geometria e o desenho. Com o que se tem instalado é possível desenvolver tais tópicos dentro da educação, trabalhando de forma lúdica, contextualizada e integrada (não fragmentada) com as disciplinas de arte, geografia, ciências e a própria matemática.

Assim, a realidade de um universo de várias disciplinas, como é a escola, e de tantos atores, como é a educação, desde seus dirigentes, até as famílias, com todos os seus membros envolvidos, deixa explícita a compreensão do todo complexo, que a transdisciplinaridade tão bem compreende e apazigua.

 

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    Fonte do Artigo no Artigonal.com: http://www.artigonal.com/ciencia-artigos/o-ensino-de-geometria-no-ensino-fundamental-2726919.html

    Palavras-chave do artigo:

    o ensino da geometria e do desenho e a interdisciplinaridade

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    1
    gerson 04/01/2011
    sem comentario
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