O papel do coordenador pedagógico da atualidade escolar

17/04/2011 • Por • 4,891 Acessos

Atualmente se faz necessário discutir a função da coordenação pedagógica dentro das escolas, no momento que se tem observado que o papel da coordenação pedagógica não está refletindo a necessária importância que exige a práxis.

Ao discutir o trabalho do coordenador pedagógico, ressalta-se que o mesmo não consegue ser exercido efetivamente na prática, visto que, em sua maioria, esbarra no trabalho administrativo das escolas e na rejeição do professorado em trabalhar em conjunto com a coordenação.

O trabalho pedagógico somente se desenvolve de maneira eficaz se envolver o coletivo, a fim de facilitar o conhecimento dos professores. Revisar e refletir sobre as práticas pedagógicas leva o educador e, conseqüentemente, a escola, a assumirem um papel diferenciado frente ao educando.

Essa pesquisa pretende auxiliar no entendimento de como nossas escolas estão vivenciando a prática do trabalho coletivo e pedagógico no cotidiano escolar.

Quem é o coordenador pedagógico?

A sociedade atual vive um processo de constantes mudanças, tanto no âmbito econômico e político quanto no campo social, ideológico, bem como educacional. A escola, como instituição de ensino e de práticas pedagógicas, enfrenta muitos desafios que comprometem a sua ação frente às exigências que surgem. Assim, os profissionais que nela trabalham precisam estar conscientes de que são agentes partícipes e promotores da mudança na educação.

Historicamente, a coordenador pedagógico era mais conhecido como o supervisor, aquele que tem uma "visão sobre". Segundo Ferreira (2007), a supervisão tem sua origem na administração e faz ser entendida como a gerência de controlar o executado. Desta forma, essa idéia foi absorvida pela educação como medida de controle do processo educacional.

Assim, o supervisor passou a ser conhecido como um especialista policial do professor a serviço da burocracia, um tarefeiro dentro da escola, a serviço do diretor e dos professores. Neste contexto, o papel do supervisor seria observar e condenar os erros do professor e não trabalhar conjuntamente na busca de solucionar os problemas encontrados e possibilitar um ensino de qualidade para a população presente na escola.

Atualmente, percebe-se que as novas teorias da educação já não defendem profissionais com esse perfil centralizador e detentor único do saber. E procuram romper com o paradigma da "super" visão para uma "nova" visão.

Nesse sentido, percebe-se o aparecimento de um novo especialista, o coordenador pedagógico, que é o supervisor com uma nova visão, um profissional que coordena as ações do grupo. Este tem como função específica mediar e favorecer o processo de construção de saberes, numa visão democrática na qual atua como articulador da pedagogia institucional e de sala de aula.

A coordenação pedagógica teve um caráter profundamente controlador e, por isso, ainda se percebe certa desconfiança quanto à atuação desse profissional no interior das escolas. Torna-se necessário que o coordenador pedagógico conquiste a confiança dos educadores para que seja bem sucedido em seu papel.

Esse novo paradigma educacional vê-se contemplado na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB 9394/96), artigo 64, destacando que a formação de profissionais de educação para administração, planejamento, inspeção, supervisão e orientação educacional, para a educação básica será feita em cursos de graduação em pedagogia ou em nível de pós-graduação, a critério da instituição de ensino, garantida, nesta formação, a base comum nacional.

Nesse sentido, com habilitação específica e com esses novos conhecimentos adquiridos em cursos de pós-graduação, o coordenador pedagógico assume a responsabilidade de direcionar sua ação para atender as especificidades sociais, culturais e políticas da escola contemporânea. Ele deveria fornecer as condições e os meios para uma prática de ensino significativo, favorecendo a reflexão critica na comunidade escolar.

Assim, torna-se necessário ressaltar a importância da presença de um coordenador pedagógico consciente de seu papel, que possa acompanhar o projeto pedagógico da escola, formar professores, além de manter a parceria entre pais, alunos e direção. O coordenador é o mediador da construção e o estabelecimento de relações entre todos os grupos que desempenham o fazer pedagógico, refletindo e construindo ações coletivas.

Para coordenar e direcionar suas ações o coordenador pedagógico precisa estar consciente de que seu trabalho não se dá isoladamente, mas no conjunto, mediante a articulação dos diferentes atores escolares, no sentido da construção do projeto político pedagógico da escola.

Para Freire (1982), o coordenador pedagógico é, primeiramente, um educador e como tal deve estar atento ao caráter pedagógico das relações de aprendizagem no interior da escola. Ele deve levar os professores a ressignificarem suas práticas, resgatando a autonomia sobre o seu trabalho sem, no entanto, se distanciar do trabalho coletivo da escola.

O coordenador pode ser um dos agentes de mudança nas práticas dos professores mediante as articulações externas que realiza. Ele medeia o saber, o saber fazer, o saber ser e saber agir do professor, na busca de uma prática inovadora. Essa tarefa do coordenador é desafiadora, porque conduz a um momento de criação conjunta. Assim, a mediação do coordenador pedagógico implica também em um compromisso com a formação continuada dos professores.

Essa medição pedagógica, de acordo com Orsolon (2003), auxilia o professor na dimensão de sua ação, para que ele perceba quais os relevos atribuídos a cada uma delas, bem como cria condições para questionar a prática do professor disponibilizando recursos para modificá-la com uma proposta curricular inovadora.

André e Vieira (2006) defendem que é preciso relacionar os saberes com o trabalho, mostrar que eles têm origem social, são plurais, evoluem ao longo da carreira e que são saberes humanos sobre humanos. Esses aspectos constituem fios condutores de suas reflexões sobre os saberes docentes. O trabalho do coordenador pedagógico revela grande capacidade de articular diferentes tipos de saberes para solucionar os desafios do cotidiano.

A parceria do coordenador com o professor traduz um processo formativo contínuo, em que a reflexão e os questionamentos do docente quanto a sua prática pedagógica encontram e se confrontam com as teorias invocadas pelo coordenador em uma troca em que ambos se formam e se transformam.

O coordenador pedagógico precisa focar seu olhar nessa relação entre professor e aluno e entender que, às vezes, alguns professores não sabem como se constrói o conhecimento. Torna-se fundamental então que o coordenador aja como professor, ajudando os professores na compreensão de sua práxis educativa. Por isso uma das principais funções da coordenação pedagógica é o processo de Formação Continuada dos docentes.

Segundo Christov (2003) a Formação Continuada é importante, pois os conhecimentos se atualizam a cada instante e é preciso que existam momentos para reflexão sobre a prática docente, oferecendo subsídios para que os professores consigam, por sua vez, facilitar a aprendizagem de seus alunos.

O trabalho da coordenação pedagógica se faz em atender necessidades e prevê ações que possam garantir o bom andamento do processo de ensino e aprendizagem. Esse trabalho pode utilizar recursos como a formação continuada dos professores.

O coordenador pedagógico atua em um espaço de mudança, é visto como agente de transformação, precisa estar atento às brechas da legislação e da prática cotidiana, para atuar, para inovar, para provocar nos professores possíveis inovações e para transformar a escola e modificar as práticas pedagógicas e melhorar os resultados de aprendizagem dos discentes.

Segundo Orsolon (2003), algumas atitudes do coordenador são capazes de desencadear mudanças no professor. São elas:

  • Promover um trabalho de coordenação em conexão com a gestão escolar. Quando os professores percebem essa integração, sentem-se sensibilizados para a mudança, já que o planejamento do trabalho se dá de forma menos compartimentalizada.
  • Realização de trabalho coletivo. A mudança só acontece se todos se unirem em torno de um objetivo único, pois será mais fácil compartilhar concepções e dúvidas, buscando uma construção coletiva.
  • Mediar a competência docente. O coordenador pedagógico deve considerar o saber, as experiências, os interesses e o modo de trabalhar dos professores, criando condições para questionar essas práticas e disponibilizando recursos para auxiliá-los.
  • Desvelar a sincronicidade do professor e torná-la consciente. O coordenador tem que propiciar condições para que o professor análise criticamente os componentes políticos, humano-interacionais e técnicos de sua atuação, para que perceba a necessidade ou não de uma mudança em sua prática.
  • Investir na formação continuada do professor na própria escola. A formação continuada possibilita, no interior da escola, que o professor faça de sua prática objeto de reflexão e pesquisa, transformando-a sob a direção do projeto de transformação da escola.
  • Incentivar práticas curriculares inovadoras. É importante que o coordenador proponha aos professores uma prática inovadora e acompanhe-os na construção e vivência de uma nova forma de ensinar e aprender. No entanto, é preciso que essas práticas sejam compatíveis com as convicções, anseios e modo de agir do professor, pois é preciso que ele acredite na importância dessa inovação para que seu trabalho, de fato, se modifique.
  • Estabelecer parceria com o aluno. O aluno deve ser incluído no processo de planejamento do trabalho docente. Criando oportunidades para que os estudantes participem com opiniões, sugestões e avaliações do processo de planejamento do trabalho docente, o coordenador possibilita que a aprendizagem seja mais significativa para alunos e professor, pois os alunos ajudarão o professor a redirecionar a sua prática.
  • Criar oportunidades para o professor integrar sua pessoa à escola. É necessário que sejam criadas situações para que o docente compartilhe suas experiências, se posicionando de forma integral enquanto pessoa, cidadão e profissional, aprendendo com as relações no interior da escola.
  • Procurar atender às necessidades reveladas pelo desejo do professor. O coordenador precisa estar sintonizado com os contextos sociais, educacionais e o da escola onde o professor atua para que capte essas necessidades e possa atendê-las.
  • Estabelecer parceria de trabalho com o professor. Esse trabalho possibilita tomada de decisões passíveis de serem realizadas pois, se sentindo apoiado, o professor se compromete mais com o seu trabalho, com o aluno e consigo mesmo.
  • Propiciar situações desafiadoras para o professor. As expectativas dos alunos em relação ao curso, uma nova proposta de trabalho ou as ações do coordenador podem provocar uma desinstalação do professor, que irá despertá-lo para um processo de mudança.

Considerando a função formadora, o coordenador precisa programar as ações que viabilizem a formação do grupo para qualificação continuada desses sujeitos. Consequentemente, conduzindo mudanças dentro da sala de aula e na dinâmica da escola, produzindo impacto bastante produtivo e atingindo as necessidades presentes.

Assim, muitos formadores encontram na reflexão da ação momentos riquíssimos para a formação. Isso acontece à medida que professores e coordenadores agem conjuntamente observando, discutindo e planejando, vencendo as dificuldades, expectativas e necessidades, requerendo momentos individuais e coletivos entre os membros do grupo, atingindo aos objetivos desejados.

Considerações finais

A relação entre professor e coordenador à medida que se estreita, ambos crescem em sentido prático e teórico, concebe a confiança, o respeito entre a equipe e favorecem a constituição como pessoas.

Assim, é papel do coordenador favorecer a construção de um ambiente democrático e participativo, onde se incentive a produção do conhecimento por parte da comunidade escolar, promovendo mudanças atitudinais, procedimentais e conceituais.

Apesar das inúmeras responsabilidades desse profissional, já descritas e analisadas aqui, o coordenador pedagógico enfrenta outros conflitos no espaço escolar, tais como tarefas de ordem burocrática, disciplinar, organizacional.

Assumir esse cargo é sinônimo de enfrentamentos e atendimentos diários a pais, funcionários, professores, além da responsabilidade de incentivo a promoção do projeto pedagógico, necessidade de manter a própria formação, independente da instituição e de cursos específicos, correndo o perigo de cair no desânimo e comodismo e fatores de ordem pessoal que podem interferir em sua prática.

Muitas vezes, a escola e o coordenador se questionam quanto à necessidade desse profissional e chegam à conclusão que esse sujeito pode promover significativas mudanças, pois trabalha com formação e informação dos sujeitos. O espaço escolar é dinâmico e a reflexão é fundamental a superação de obstáculos, socialização de experiências e fortalecimento das relações interpessoais.

O coordenador pedagógico é peça fundamental no espaço escolar, pois busca integrar os envolvidos no processo ensino-aprendizagem mantendo as relações interpessoais de maneira saudável, valorizando a formação do professor e a sua, desenvolvendo habilidades para lidar com as diferenças com o objetivo de ajudar efetivamente na construção de uma educação de qualidade.

Referências

BRASIL, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996.

CHRISTOV, Lúcia Helena da Silva. Educação continuada: função essencial do coordenador pedagógico. In: GUIMARÃES, Ana Archangelo et al. O Coordenador Pedagógico e a Educação Continuada.6 ed. São Paulo: Loyola, 2003.

FERREIRA, Naura Syria Carapeto (Org.) Supervisão Educacional para uma Escola de Qualidade. 6ª.ed.- São Paulo: Cortez, 2007.

FREIRE, Paulo. Educação: Sonho possível. In: Brandão, Carlos Rodrigues (org). O Educador: Vida e Morte. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Graal, 1982.

ORSOLON, Luzia Angelina Marino. O coordenador/formador como um dos agentes de transformação da/na escola. In: ALMEIDA, Laurinda Ramalhode; PLACCO, Vera Maria Nigro de Souza (Orgs). O Coordenador Pedagógico e o Espaço de Mudança. São Paulo: Loyola, 2003

Perfil do Autor

Missilene Magalhães

Graduada em Licenciatura Plena em Pedagogia pela UFPA (2007). Especialista em Docência na Educação Superior-UFPA (2008) e em Planejamento,...