O Paradigma da Educação Brasileira nas Décadas de 70, 80 e 90

14/02/2011 • Por • 9,328 Acessos

Anos 70: A Pedagogia tecnicista:

 

"... na primeira metade da década de 70, sob influência da psicologia comportamental e da demanda educacional a maioria dos estudos privilegiava a dimensão técnica de formação de professores e especialistas em educação" (pg. 16)

 

A formação docente tomou destaque a partir dos anos 70, nesse período o educador era visto como transmissor de conteúdos; portanto, técnico em educação.

Nesse ínterim, a grande preocupação disponibilizada a formação do educador era instrumentalização técnica, conforme a citação acima.

Essa tendência caracterizava-se por uma organização racional e mecânica, alicerçada pela eficiência e produtividade, fase essa de forte repressão do Governo, período da ditadura militar.

Dessa forma, através desse ensino rígido e passível, o espírito critico e reflexivo esteve ausente nas instituições de ensino, conforme enfatiza Libâneo (1994):

 

"Assim é muito comum os professores utilizaram procedimentos e técnicas como trabalho de grupo, estudo dirigido discussões, estudo do meio, etc., sem levar em conta seu objetivo principal que é levar o aluno a pensar, a raciocinar cientificamente, a desenvolver sua capacidade de reflexão e a independência do pensamento." (pg. 66)

 

O aluno e o professor que encontravam-se envoltos a Pedagogia tecnicista, ocupavam uma posição secundaria, visto que o elemento principal era o sistema técnico de formulação dos cursos e aulas.

Submetidos a essa concepção mecanista, os docentes entendiam seus planejamentos como centrados em objetivos específicos, fazendo parte desse contexto o uso de diversificados recursos tecnológicos, com intuito de "modernização" e "reciclagem" do ensino brasileiro.

 

"... por influencia de estudos de caráter filosófico e sociológico, a educação passa a ser vista como pratica social em intima conexão com o sistema político e econômico vigente" (pg.17)

 

Ao fim dos anos 70, em decorrência do estopim do regime militar educadores mobilizaram-se em prol do ensino e vão buscam de uma educação critica de cunho social, econômico e político, que tem como objetivo a superação das desigualdades vigentes no interior da sociedade brasileira do período, segundo a citação acima.

A partir dessa pedagogia libertadora, a escola passa a ser vista como local para discussão e reflexão, onde novas ideologias podem surgir, consoante o destaque de Libâneo (1994):

"O trabalho escolar não se assenta, prioritariamente, nos conteúdos de ensino já sistematizados, mas no processo de participação ativa nas discussões e nas práticas sobre questões da realidade social imediata. Nesse processo, em que se realiza a  discussão, os relatos de experiência, a pesquisa participante, o trabalho de grupo etc., vão surgindo temas geradores que podem vir a ser sistematizados para efeito de consolidação de conhecimentos." (pg. 69)

 

Em síntese, observa-se que no período da década de 70, a educação brasileira inicia sua ascensão. Visto que no inicio da década tínhamos uma pedagogia de cunho tecnicista, onde alunos e educadores desempenhavam um papel secundário, suas idéias e opiniões não tinham espaço, nem validade. Já, ao fim desta década constata-se que a escola é aberta a pluralidade de discursos e opiniões e é neste espaço que a discussão e a reflexão tornam-se objeto social.

 

 

Anos 80: A pedagogia social e o descontentamento com a profissão docente:

 

"... esse regime de trabalho, somado aos baixíssimos geram insegurança e desmotivação." (pg. 24)

 

A insatisfação por parte do educador é pertinente, e deve-se tal fato ao descaso por parte do Governo perante a educação, visto isso pelos baixos salários e a falta de incentivo a educação.

Sendo inúmeras vezes necessário que professores exerçam a profissão em diferentes horários e instituições para que assim, possam suprir suas necessidades. Dessa forma, tornam-se sobrecarregados, esgotados e diversas vezes com problemas de saúde devido ao excesso de trabalho, e reflexo disso é visto na queda da qualidade de ensino.

Sabe-se que melhores condições de trabalho e salários são questões que devem ser consideradas pelo Governo, como também, por outro lado, os professores não devem se sentir injustiçados e desmobilizados frente aos seus salários, condições de trabalho e situação da educação no país.

 

"... a importância do professor em seu processo de formação conscientizar-se da função da escola, na transformação da realidade social dos sues alunos." (pg.27)

 

Conforme a citação, observa-se que é de fundamental importância que o professor engaje-se ao seu papel de forma social, na luta por melhores condições de assistência a seus alunos. Para isso, antes de tudo devem conhecer a sociedade onde atuam, e o nível social, econômico e cultural de seus discentes, ou seja, o ambiente em que estão inseridos, pois somente através da educação poderemos "criar" alunos críticos e cientes perante a sociedade.

            Assim, Severino (2001) destaca:

 

"A educação é considerada o único instrumento apropriado para a construção de uma sociedade laica e justa, gerenciada por um aparelho estatal que se inaugura a partir de um projeto político iluministicamente concebido e juridicamente implementado." (pg 122).

 

 

É possível analisarmos que no tange a educação na década de 80 é a caracterização de um professor preocupado com a sua prática pedagógica e, que nesse período assume compromisso com o social, vai ao encontro de uma política que privilegie e estabeleça melhores condições a sua profissão, bem como a seus educandos.

Por outro lado, temos um educador descontente pelos seus baixos salários e o descaso do Governo perante a falta de assistência ao meio educacional.

Sintaticamente, podemos conceituar o professor da década de 80, como centrado em um trabalho conscientizador, enquanto agente sócio-político, inerente a realidade social de seus alunos, que luta por uma política que privilegie e estabeleça melhores condições a sua pratica pedagógica.

 

 

Anos 90: "Professor-investigador":

 

"... formação do "professor investigador", com objetivo de articular teoria e prática pedagógica, pesquisa e ensino, reflexão e ação didática." (pg. 44)

 

Diniz (2000) destaca que é de extrema importância que o professor enquanto educador, disponibilize tempo hábil para exercer atividades de pesquisa, e também que tal fato deve ser contemplado por uma ação prática que mostre efetivamente a repercussão de tais teorias.

Refletir sobre a teoria que o educador carrega e a prática que realiza, na construção da

própria concepção e aplicação da pesquisa, é ao mesmo tempo, repensar o professor e recriá-lo, para que, ao assumir a atitude de pesquisador e compreender a importância da pesquisa para a educação, deixe de ser um "repassador" de conteúdos, para tornar-se um mestre, uma pessoa capacitada e qualificada profissionalmente, em consonância com a responsabilidade que carrega e com a importância de sua profissão. 

            Consoante a isso Libâneo (1994), enfatiza:

 

"A formação do professor abrange, pois, duas dimensões: a formação teórica – cientifica, incluindo a formação acadêmica especifica nas disciplinas em que o docente vai especializar-se e a formação pedagógica que envolve os conhecimentos da Filosofia, Sociologia, História da Educação e da própria Pedagogia que contribuem para o esclarecimento do fenômeno educativo no contexto histórico-social; a formação técnico – pratica visando a preparação profissional especifica a docência, incluindo a Didática, as metodologias especificas das matérias, a Psicologia da Educação, a pesquisa educacional e outras" . (pg. 27).

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

 

Em síntese, a abordagem educacional histórica apresenta-se como a mais apropriada para o desenvolvimento  de uma educação democrática e eficaz, porque parte do princípio de que a educação é social e historicamente construída pelo educador. Capaz ainda de nos mostrar as mudanças qualitativas a respeito da educação no país.

Conforme se pôde observar, que de mero técnico em educação na década de 70, o professor torna-se um agente sócio-político, preocupado com o social nos anos 80 e na década de 90 temos o professor pesquisador, que concomitantemente realiza atividades de pesquisa, teoria e atividade docente, pratica pedagógica. Assim, temos o professor, que exerce um papel imprescindível e insubstituível para a construção e socialização dos saberes que são intrínsecos à construção do conhecimento.

Portanto, para que a escola cumpra o seu papel de socializar saberes e produzir conhecimentos, os professores precisam estar em processo constante de aperfeiçoamento, construindo a gestão do ensino e da aprendizagem com o debate, a mediação e a intervenção crítica, visando uma escola aberta, democrática e mediadora de aprendizagens.

Sabe-se ainda, que diversidades no modo de pensar a pratica e a formação docente não trazem mudanças imediatas ao exercício do magistério. Porém, munidos de saberes elementares, a efetivação de mudanças nesse âmbito pode ser construída.

 

REFERÊNCIAS:

 

DINIZ-PEREIRA, J. E.  "Debates e pesquisa no Brasil sobre formação docente"in Formação de professores: Pesquisas, representações e poder. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. 

 

LIBÂNEO, José Carlos. Didática. São Paulo: Cortez, 1994.

 

SEVERINO, Antônio Joaquim.  "Identidade e tarefas da filosofia da educação", in Educação, sujeito e história, São Paulo: Olho D'água, 2001.