O Poder Destrutivo De Uma Sociedade Sexualmente Doente
Reich alerta sobre a peste emocional e suas conseqüências arrasadoras. Pensamos agora em todos os crimes contra a humanidade provocados por seres como nós, "Zés Ninguéns".
DestruÃmos o belo, o natural, o divino em nome de nosso próprio egoÃsmo. Voltamos um pouco ao passado. No genocÃdio do povo judeu, o holocausto. "E quando arrastas milhares de homens, mulheres e crianças para as câmaras de gás, mais não fazes que cumprir o que te mandam, não é assim, Zé Ninguém? És tão inofensivo que nem sequer te dás conta do que se passa. És um pobre diabo que nada tem a dizer, sem opinião própria; quem és tu para te meteres na polÃtica?" (Reich, 1982:77).
Voltemos ainda mais um pouco no tempo, quando a mulher era a personagem central, numa sociedade matriarcal em que não havia divisão entre os sexos no poder. "Neste perÃodo havia uma liberdade sexual maior e, por esse motivo, havia poucas guerras para a conquista de territórios" (Hellmann, 2007a). Foi somente mais tarde no perÃodo neolÃtico que os homens descobriram o seu papel biológico na função reprodutora. Começaram então a exercer "seu poder" escravizando e dominando a mulher e, posteriormente, começaram as lutas pelo poder, guerras por território, a lei do mais forte.
O que era natural, a sexualidade, transforma-se em "dominação": inicia-se a transformação do natural em perverso.
Reich grita nossa responsabilidade, nossa mediocridade, nossas barbaridades concebidas por uma sexualidade doentia: elegemos genocidas e criminosos e crucificamos quem poderia nos libertar.
O autor afirma ainda:
"Foi-te oferecida a escolha entre a exigência de superação do Übermensch de Nietzsche e a degradação do Üntermensch em Hitler. Berrando "Viva", escolheste o Üntermensch.
Foi-te dado a escolher entre a constituição genuinamente democrática de Lênin e a ditadura de Stálin. Escolheste a ditadura de Stálin.
Tiveste a escolha entre a elucidação de Freud da origem sexual das tuas perturbações emocionais e a sua teoria da adaptação cultural. Escolheste a sua filosofia cultural, que não te trazia qualquer apoio, e esqueceste a teoria sexual. Pudeste escolher entre a magnificente simplicidade de Cristo, e Paulo, com o seu celibato para os padres e o seu casamento indissolúvel. Escolheste o celibato e o casamento indissolúvel esquecendo a mulher simples que pariu seu filho, Jesus, apenas por amor" (Reich, 1982:62).
DestruÃmos o que é natural, aprisionamos a "alma", o espÃrito, num corpo. DeverÃamos, sim, perceber que um reflete o outro, é conseqüência de nossas decisões. Não se pode separá-los.
Vivemos em um "lusco-fusco", nem totalmente nas sombras e nem totalmente na luz. Temos a mesma capacidade para fazer o bem e para fazer o mal. O que nos nos leva a ser bons ou maus? Nossa teimosia na escolha de um dos lados. Sim, a persistência em caminhar mais próximo à luz que às trevas nos difere de seres maus, e vice e versa. O Homem Ético pode distorcer os conceitos mais belos e transmutá-los em ferramentas de opressão. Enquanto um homem aparentemente sem ética pode, na verdade, agir como uma força libertária.
Vamos agir direito, tentar ser bons uns com os outros, não porque alguém mandou, porque o livro sagrado disse, ou porque Nietzsche isso ou aquilo. Vamos agir direito, tentar ser bons uns com os outros, porque é a única saÃda. Porque é bom ser bacana com os outros e é bom quando alguém é bacana com a gente.
Em nossa luta, a maior dificuldade é aprender a não odiar o ódio, não odiar os que odeiam, para não nos tornarmos um deles. Nossa proposta é de sensibilizar, mostrar a beleza da diferença e deixar que o ódio se dissolva diante do Belo, como Ares, o deus da guerra, somente pode apaziguar-se em sua relação com Afrodite, a beleza encarnada em deusa, a sexualidade no ápice de sua expressão artÃstica.
Do que você tem medo? Da mulher? Do gay? Do homem que te olha no carro ao lado? De viver e agir? De se envolver e amar?
Nós não temos medo de dizer - não ao preconceito. Não temos medo de buscar os fatos. Neste paÃs que se orgulha de se dizer cordial e tolerante, batemos tristes recordes de violência contra minorias. Ódio de quê? Por quê? O que teme, homem brasileiro? Teme perder sua identidade? Teme ser rotulado; por isso rotula antes que alguém o faça? Por que você simplesmente não pode olhar a diferença sem classificar em "melhor" ou "pior", "superior" ou "inferior"?
Acordemos! "Nada há a temer senão o próprio medo". Somos uma gota no oceano. Mas, sem essa gota, o oceano estaria incompleto. Fazemos a nossa parte dando o grito de alerta, expondo fatos e a conclusão é sua.
Lembramos de mais uma afirmação de Reich "O teu 'chauvinismo' decorre naturalmente da tua rigidez, da tua prisão de ventre mental, Zé Ninguém. E não o digo com sarcasmo, porque te estimo, embora seja teu hábito esmagar os que te estimam e dizem a verdade" (Reich, 1982:49).
Os seres humanos conseguem distorcer o belo, transformando o natural em perverso. Reich (1991) afirma que a 'moralidade' é ditatorial quando confunde com pornografia os sentimentos naturais da vida.
Do pouco que podemos perceber ao revolver a ponta desse iceberg de lama negra, é que o diabo - a sexualidade reprimida extravasando-se por meios tortuosos - adora uma "boa causa". Infiltra-se na Igreja, santifica-se e dá rédea solta aos seus verdadeiros asseclas, os apóstolos da "pureza da fé", do "socialismo real", do "nacional socialismo", do "livre mercado". A sexualidade sublimada logo é substituÃda pela perversidade pura e simples; os parasitas do sistema aboletam-se para tirar suas "casquinhas"; os corações repletos de ódio encontram um objeto jurÃdica e ideologicamente despido de quaisquer direitos para dele se aproveitar e punir como bem entenderem.
"Na tua mente tudo se perverte. Aquilo a que eu chamo um ato de amor, é, na tua vida, um ato pornográfico" (Reich, 1982:57).
No inÃcio, era o corpo, e o corpo era divino. Depois vieram os discursos sobre o corpo e o debate perdura. Divino é o verbo e, o corpo, satânico? Ou o contrário? Discursos, verbais e não-verbais, exaltam, divinizam, demonizam, mortificam o corpo a um ponto em que não é mais sentido: torna-se os sentidos que a ele se atribuem.
A despeito de toda a abertura e liberalidade conquistadas a duras penas durante o século XX, vemos, ainda hoje, mentes fossilizadas em conceitos sem fundamento outro que não o medo e a ignorância.
Um outro exemplo citado por Reich (1982:56) que demonstra a forma como destruÃmos nossa liberdade: "Tu sabes e eu sei e todos sabemos que vives num estado de permanente frustração sexual; que facilmente encaras com avidez qualquer membro do outro sexo; que as conversas que tens com os amigos sobre temas sexuais se resumem ao repertório de anedotas obscenas; que, em suma, a tua imaginação é, sobretudo, pornográfica".
Por isso, este site não deixa de dizer o sexo. Com palavras e imagens, exercendo seu papel de educar olhos e ouvidos humanos, abrindo espaço para que Arte cumpra sua missão de encantar os humanos com o deleite do Belo, participando com sua "vassoura" da árdua mas sempre alegre faxina de ambientes mentais empoeirados e cheios de mofo, ou como diz Reich, "prisão de ventre mental".
Nossa cultura ensina que a imagem do corpo humano nu e, particularmente, experimentando prazer sexual, é "pornográfica". Ou será pornográfica nossa maneira de ver?
Desta forma não seria "pervertido" e até "proibido" os belos corpos nus pintados na Capela Sistina? O próprio corpo semi-vestido de Cristo na Cruz? O corpo nu é belo, é natural, é divino. Porque não poderia ter sua beleza perpetuada na arte? Quem pervete tal beleza possui uma mente doentia, uma sexualidade doente.
Abordamos a sexualidade, a corporalidade a arte e o nu. "Mas qual o limite entre arte e pornografia? Arte na minha opinião é uma forma de expressão cultural da beleza. O que inclui o corpo e o ato sexual em si. Já a pornografia, reduz o corpo e o ato sexual a um simples objeto com a única finalidade de masturbação". (Hellmann, 2007b).
Reich (1982:91) mais uma vez mete o dedo na ferida fétida: "Acusa de pornografia a vida sexual sã, que tem em mente intenções pornográficas. Já te topamos, Zé Ninguém; vais-te tornando transparente sob a tua fachada de desgraça e submissão. O que te é pedido é que determines o rumo do mundo com o teu trabalho e a tua realização - substituir uma forma de tirania por outra é que nunca. O que se te exige é que te submetas às leis da vida tal como quererias que os outros fizessem; que te modifiques à medida que os vais criticando. Cada vez é mais óbvia a tua predisposição para a tagarelice a tua avidez, a tua irresponsabilidade - o mal de ti que conspurca toda a beleza da Terra".
Liberdade? Queremos realmente a liberdade? Elegemos tiranos que nos mantém submissos, e por quê? Por medo da responsabilidade? Uma sociedade sexualmente doente, reprimida e frustrada: não seria esta a resposta para nossas escolhas?
Você é mais do que você pensa, você pode mais do que dizem, você é importante demais para prender-se a rótulos, preconceitos e idéias discriminatórias que não permitem que você exerça a plenitude de seu potencial. Você deve ser livre porque tem o direito de ser livre, porque, não importa de que nomes o chamem, você é, acima de tudo, um ser humano.
Sabemos amar? Amamos ao outro como gostarÃamos de ser amado? "Amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo: eis toda a Lei e os Profetas".
Você sofreu mais que aquele cara na cruz? Ser cristão não é ser passivo, é preciso agir com vontade férrea para expulsar o Mal de nosso convÃvio. Mas, antes, amemos a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. Amemos as vÃtimas do Mal mais do que os praticantes do Mal.
Sexualidade ainda é um tabu. Depende somente de nós conquistar a liberdade, um corpo e mente são. Sexo é essencial para a saúde fÃsica e mental mas, sem cuidados, pode até prejudicar sua saúde. Você se incomoda de passar adiante suas doenças? Sejam elas fÃsicas ou mentais?
Sim, falemos agora da ignorância humana em relação a tantas doenças sexualmente transmissÃveis. "Isso só acontece com os outros". Acorde! Isso pode acontecer com você, com seu filho, com sua mãe, com seu vizinho!
A ignorância mata. A AIDS por exemplo, a guerra contra este mau está longe de ser vencida, e a maior vitória que poderemos conseguir será, sempre, evitar que ainda mais uma pessoa se infecte com esse demônio chamado HIV. Sim a ignorância é a melhor amiga da AIDS.
A quantos comerciais de marcas de preservativos você assistiu na TV nos últimos meses? Bom, eu não consigo me lembrar de nenhuma! Agora, a quantos comerciais de laxantes você assiste todos os dias na TV? Este fato me faz citar novamente Reich (1982:37):
"Como nunca aprendeste a criar felicidade, a gozá-la e a protegê-la, não conheces a coragem do indivÃduo reto. Queres saber o que és, Zé Ninguém? Ouve os anúncios publicitários dos teus laxantes, das tuas pastas de dentes e desodorizantes... Já alguma vez prestaste atenção à s piadas que o intelectualóide larga a teu respeito nas revistas? Piadas sobre ti e sobre ele, piadas de um mundo reles e desgraçado. Escuta a tua publicidade aos laxantes e saberás o que és".
Sim o preservativo pode te salvar da AIDS e de tantas outras doenças sexualmente transmissÃveis. Há inúmeros fabricantes de preservativos, a concorrência existe. Há dinheiro para isto, então metam a mão no bolso empresários, contratem "celebridades" para promovê-los, assim como fazem os fabricantes de "cerveja" e os de "laxantes".
Por que, no Carnaval, não vemos camarotes de marcas famosas de preservativo? Divirta-se saudavelmente! Nossos estilistas, designers e artistas famosos poderiam fazer campanhas, obras-de-arte, estilos de moda, designs arrojados, utilizando a saudável camisinha como suporte.
Libertemo-nos da peste emocional, da ignorância, da doença de massa, dessa doença que nos leva à autodestruição. Viver a sexualidade não vai contra a natureza humana, muito pelo contrário. Faz bem, melhora nossa auto-estima, nossa saúde fÃsica e mental.
"Sentes-te infeliz e medÃocre, repulsivo, impotente, sem vida, vazio. Não tens mulher e, se a tens, vais com ela para a cama só para provar que és 'homem'. Nem sabes o que é o amor. Tens prisão de ventre e tomas laxantes.... Não sabes envolver o teu filho nos braços, de modo que o tratas como um cachorro em quem se pode bater à vontade. A tua vida vai andando sob o signo da impotência, no que pensas, no teu trabalho. A tua mulher abandona-te porque és incapaz de lhe dar amor. Sofres de fobias, nervosismo, palpitações. O teu pensamento dispersa-se em ruminações sexuais. Falam-te de economia sexual. Algo que te entende e poderia ajudar-te. Que te permitiria viveres à noite a tua sexualidade e que te deixaria livre durante o dia para pensar e trabalhar". (Reich, 1982:41)
Podemos vivenciar nossa sexualidade de forma extremamente benéfica e positiva para um desenvolvimento sadio, desde que feito com muito amor. Reprimir é anular a si próprio. Respeitar, aprender a sentir e escutar as mensagens que seu corpo transmite proporcionará uma elevação da auto-estima. É preciso saber se amar para aprender a amar o outro. Amar o outro é doar-se. Quem não tem amor a si mesmo, não tem amor para dar.
Não podemos negar esta "energia vital" que existe dentro de nós. Não podemos separar o corpo do espÃrito, é preciso fazer esta higiene mental. Arte, sexualidade e corporalidade: é desta forma que caminhamos nesta missão, com o intuito de fazê-lo pensar. Diga não à ignorância, diga não ao preconceito, diga sim ao belo e ao que é natural. Viva plenamente a sua sexualidade. Eduque seus filhos como você gostaria de ter sido educado, e não como o fostes. Ame como gostaria de ser amado. Liberte-se!
Bibliografia:
Hellmann, Géssica. Da deusa à bruxa. DisponÃvel em: http://www.gehspace.com/sexualidade26a30.htm#27 . Acessado em 23/05/2007a.
Hellmann, Géssica. Pornografia, Erotismo e Arte: onde estão as fronteiras? DisponÃvel em: http://www.gehspace.com/sexualidade21a25.htm#22. Acessado em: 23/05/2007b.
Reich, Wilhelm. A função do orgasmo - Problemas econômico-sexuais da energia biológica. São Paulo: CÃrculo do Livro, 1991.
_____________. Escuta, Zé Ninguém! Portugal: Martins Fontes Editora, 1982. 10a ed.
Publicado originalmente na Revista Sexualidade
(Artigonal SC #361075)
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