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Para Fugir Do Pré-Conceito: Modernidade, Pós-Modernidade E Os Tempos Atuais Por: NERI DE PAULA CARNEIRO
Para fugir do pré-conceito: Modernidade, Pós-Modernidade e os Tempos Atuais
Neri de Paula Carneiro
Nas atuais discussões sobre filosofia, história, geografia, análise de conjuntura sociológica, dois termos são recorrentes: Modernidade e Pós-Modernidade. Discute-se a conceituação, datação, significação, e com isso, muitas vezes, foge-se à discussão do que realmente importa. E o que realmente importa não são os conceitos ou a denominação de um período histórico, mas o que esse período significou e/ou está significando. Noutras palavras o que queremos dizer é que a questão não é conceitual (modernidade ou pós-modernidade), mas existencial (em que se fundamenta o mundo atual?) e ético (quais os valores que norteiam a sociedade atual?). É um fato que para refletir sobre história se faz necessário, também, a datação e a periodização. Mas não se pode esquecer, nunca, que não passa de instrumentos auxiliares de análise; são muletas que ajudam a dar apoio à capenguice de nossa incapacidade de olhar a realidade como um todo e todas as realidades ao mesmo tempo. Razão pela qual compartimentamos o real a fim de tentarmos ver o todo a partir das partes, para, depois, tentar recompô-lo. O problema é que em alguns casos se pára na periodização e se estuda o período pelo período; nesses casos a data acaba sendo mais relevante do que os agentes e os processos produtores do fato; briga-se pela denominação do período, sem considerar os agentes históricos que viveram o período. Faz-se necessário estudar o que constitui o período tanto do ponto de vista dos fatos como do ponto de vista das implicações do fato a fim de perceber que ele não ocorreu por acaso nem está solto, mas é resultante de processos específicos.., e quase sempre complexos. Sem esquecer que em cada situação ou processo histórico estão presentes os grupos de pessoas que viveram os fatos. Além disso, toda leitura ou estudo histórico não é feito pela história ou na busca do passado pelo passado. O “retorno” ao passado ocorre por que se pretende entender o presente. Tendo isso presente, podemos dizer que os grandes ciclos da história, os grandes fatos, ou os grandes períodos iniciaram ou se encerraram em grandes crises ou grandes superações de crises. E todas foram crises realmente importantes; tão importantes que geraram grandes passos ou processos transitórios na história do desenvolvimento humano. E nisso se constitui a história a ser estudada: a percepção, a partir do olhar do estudante-pesquisador contemporâneo, dos processos que produziram os fatos a serem observados. Isso nos leva ao período que se convencionou chamar de Idade Contemporânea que tem como pondo de referência inicial a Revolução Francesa. Esse é um marco na história da humanidade. Entretanto, o marco não é o conceito ou o título “Revolução Francesa”, como normalmente aparece nos capítulos dos livros didáticos; o que importa da Revolução Francesa são os fenômenos, os processos, as contradições que estavam acontecendo na sociedade capitalista que estava nascendo e que, esses sim, produziram o processo que acabou recebendo o nome de Revolução Francesa. Entretanto não podemos esquecer que para entender esse episódio – ou esse período – precisamos mirar nossos olhos para o quer ocorreu antes e as circunstâncias dessa Revolução e, no nosso caso, procurar perceber as implicações que vieram depois. Ao observar tudo isso, perceberemos que os comportamentos, as posturas econômicas e políticas se alteraram tão profundamente que não deixam dúvidas sobre a descontinuidade que se verificou nesse fato. E veremos, também, que esse fato repercutiu para além de seu espaço-tempo localizado, mas continua interferindo na atualidade. Os estudiosos reconhecem que o fato simbólico da Tomada da Bastilha, que caracteriza a Revolução Francesa, não é estanque. Ele também teve um antes, que foi a tomada de consciência da Burguesia a respeito de seu papel na história. E, como conseqüência, mobilizou-se, organizou suas forças políticas e econômicas a fim de destituir a nobreza e se colocar no poder político. Para concretizar isso a burguesia se aliou a Napoleão que, por sua vez, instalou-se no poder colocando em risco a própria continuidade das aspirações da Burguesia. Neste ponto temos que considerar, também, que a consciência da burguesia se deu na medida em que, a partir do século XI, as relações econômicas começaram a se alterar, na Europa. O mundo medieval estava gestando o movimento comercial que culminou no Renascimento (realçando que esse momento histórico não se esgota nos aspectos artístico-cultural e urbano, italianos). Se quisermos resumir o movimento renascentista podemos dizer que foi o processo de gestação do modo de produção capitalista. Isso, entretanto, não se resume a uma mudança de conceito, pois a compreensão do processo é mais amplo do que o conceito que expressa o movimento ou o momento. A Revolução teve, também, um depois que pode ser entendido a partir das idéias econômicas, sociais e políticas que se difundiram a partir do que ocorreu na França. Em virtude disso podemos dizer que o mundo atual é conseqüência dos processos que produziram aquele mundo de 1789. O liberalismo, o iluminismo, os regimes totalitários, a disseminação do capitalismo, as sementes do socialismo, tudo isso e muito mais se orienta, em nossos dias, a partir do evento Revolução Francesa. Com isso, podemos perceber que o evento “Revolução Francesa” se alonga no passado e se arremete para o presente. Entretanto o problema do mundo atual não se esgota nem se limita ao conceito ou às suas origens. Não se limita à delimitação do eu vem a ser a Revolução Francesa. Como dissemos antes, uma das questões do mundo atual é, exatamente, saber em que se fundamenta isso que chamamos de mundo atual. Nosso problema é que somos guiados, em muitos casos, não pela racionalidade, mas pelos pré-conceitos que se foram formando em função de olharmos as realidades a partir do senso comum Nesse ponto nos vêm os pré-conceitos: modernidade e pós-moderidade. Entretanto isso nos arremeteria, novamente à elucidação conceitual. Em uma visão positivista ou da historiografia tradicional, veríamos que o conceito modernidade se aproxima do que se convencionou chamar de idade moderna. Entretanto não faltam exemplos mostrando que se fala em modernidade para mencionar os tempos autuais; os tempos que estão compreendidos posteriormente ou dentro daquilo que se chama de “idade contemporânea”. Podemos tomar como exemplo o filme de C. Chaplim, que tem o título de “Tempos Modernos” e se refere ao processo de industrialização já bem desenvolvido do inicio do século XX. Outros se referem à pós modernidade como sendo um período difuso em que se poderiam enquadrar os avanços da humanidade a partir do domínio da energia atômica, das viagens espaciais. Mas isso deixa de fora outro processo também dinâmico e profundo que foi a revolução da informática e da Internet. Assim sendo, a preocupação com os conceitos, ou pré-conceitos, podem nos desgastar e gastar tempo que, neste mundo vertiginoso, nos é precioso. Razão pela qual é importante entender não a periodização, mas o sentido do momento presente. Votamos, portanto à questão original: em que se fundamente o mundo atual? Quais os valores que norteiam a sociedade atual? Essas questões são importantes, como o mostra Hobsbawm, porque somos artífices deste tempo em que vivemos e ao qual queremos entende. Não para mostrar arroubos de ilustração, mas para poder participar dos eventos de forma ativa; ou para perceber até que ponto estamos sendo levados pela história, de forma passiva. Entender os tempos atuais é “comentar, ampliar (e corrigir) nossas próprias memórias. E falamos como homens e mulheres de determinado tempo e lugar, envolvidos de diversas maneiras em sua história como atores de seus dramas por mais insignificantes que sejam nossos papéis, como observadores de nossa época e, igualmente, como pessoas cujas opiniões sobre o século foram formadas pelo que viemos a considerar acontecimentos cruciais. Somos parte deste século. Ele é parte de nós.” (Hobsbawm, 2001, p. 13) O mundo atual, este em que estamos vivendo, como não poderia deixar de ser, é resultante dos processos sócio-econômico-político-científicos que se desenvolveram a partir do final do século XIX e XX. Se quiséssemos resumir as características desses períodos poderíamos dizer que esse tem sido um tempo de rápidas e profundas transformações. E se for possível sintetizar tudo numa palavra talvez a que mais explique o período atual seja a rapidez. Parece que nunca inovações tão profundas se sucederam num ritmo tão avassalador como as que ocorreram durante o último século adentrando o século XXI. Esse ritmo vertiginoso interfere no cotidiano das pessoas. A vida e as relações sociais passaram a ser não só dinâmicas como também fluídas. A economia é volátil e virtual. As relações políticas não se fundamentam no poder do Estado, mas no poder do capital que interfere nas ações do Estado e ultrapassa-lhe as fronteiras, aliás, eliminando as fronteiras, tornando-se fluído, por ser virtual. O mesmo se pode dizer das descobertas da ciência que, tão logo aparecem, ajudam na construção de novas tecnologias para, em seguida, se tornar obsoleta em virtude de outras inovações e descobertas. “A revolução técnico-científica tomou, assim, uma forma universal e com isso ultrapassou todas as fronteiras seja de países desenvolvidos, seja de países em desenvolvimento. Podemos categoricamente afirmar, como Marshal McLuhan, que vivemos hoje numa verdadeira ‘aldeia global’. Tudo que o homem realiza torna-se automaticamente objeto do conhecimento de todos” (Schweder, 1990, p. 159). As informações, os novos conhecimentos, os problemas e soluções... circulam o globo instantaneamente. Exemplo, macabro, dessa rapidez e simultaneidade, são as explosões teleguiadas, nas guerras tecnológicas. O mesmo se pode dizer da transmissão, ao vivo, das cenas finais em que se viu o segundo avião entrando no prédio do World Trade Center, em setembro de 2001. Sem contar que, como anunciava Orwell, (1996) perdemos a privacidade, pois o “grade irmão zela por ti”, como o autor mostra no seu ficcioso “1984”: “Por trás de Winston a voz da teletela tagarelava a respeito do ferro gusa e da superação do Nono Plano Trienal. A teletela recebia e transmitia simultaneamente. Qualquer barulho que Winston fizesse, mais alto que um cochicho, seria captado pelo aparelho; além do mais, enquanto permanecesse no campo de visão da placa metálica, poderia ser visto também. Naturalmente, não havia jeito de determinar se, num dado momento, o cidadão estava sendo vigiado ou não. Impossível saber com que freqüência, ou que periodicidade, a Polícia do Pensamento ligava para a casa deste ou daquele indivíduo. Era concebível, mesmo, que observasse todo mundo ao mesmo tempo. A realidade é que podia ligar determinada linha no momento que desejasse. Tinha-se que viver - e vivia-se por hábito transformado em instinto - na suposição de que cada som era ouvido e cada movimento examinado, salvo quando feito no escuro.” (Orwell, 1996, p.8) Tudo é dinâmico e fluído, virtual. Assim, também os valores, sociais, culturais, espirituais, morais. Modas e seitas surgem e se vão ao ritmo do interesse do mercado. O mesmo se pode dizer da cultura que deixa de ser uma marca de evolução humana para se tornar mercadoria a ser consumida e descartada. Produções artístico-culturais que aparecem como grandes fenômenos desaparecem tão logo surja outra novidade. Fenômeno esse que pode ser observado, principalmente, na música e nas artes cênicas: a produção é descartável. Dessa fluidez resulta uma ética também fluída. Os valores defendidos acabam não sendo os perenes, mas aqueles do momento, portanto, transitórios. Talvez isso ajude a explicar a facilidade com que a sociedade atual tolera os delitos morais e legais. Haja vista a passividade com que a população acata as falcatruas dos seus representantes. Delitos e deslizes ético-morais, na atualidade, não são capazes de indispor a população contra aquele que os cometeu. E, se esse delituoso ou imoral se apresenta na busca de cargos públicos a população o conduz ou reconduz, pelo voto, até onde ele deseja. Como exemplo disso podem ser mencionados os campeões de votos nas últimas eleições; ou o caso do presidente norte-americano com sua estagiária. Tudo isso mostra que os valores podem se alterar ao sabor das circunstâncias. E o ser humano acaba sendo volúvel e inconstante, como o sugere Nietzsche: “Em verdade, um rio imundo é o homem. E é realmente preciso ser mar, para absorver, sem sujar-se, um rio imundo” (Nietzsche, 1986, p. 30). Se quisermos lançar um olhar bondoso podemos dizer que essa é a característica não só de uma sociedade permissiva, mas tolerante. Assim é que podemos apresentar como uma das características do comportamento ou da moralidade atual, a permissividade e a tolerância. Podemos continuar com as palavras de Nietzsche que, embora tenham sido proferidas no final do século XIX, mostram como seu autor estava “antenado” nos acontecimentos, como que antevendo o mundo do século XX e XX1. Diz o pensador alemão, pela fala de seu personagem Zaratustra: “Eu vos ensino o super-homem. O homem é algo que deve ser superado. Que fizestes para superá-lo? Todos os seres, até agora, criaram algo acima de si mesmos; e vós quereis ser a baixa-mar dessa grande maré cheia e retrogradar ao animal, em vez de superar o homem? Que é o macaco para o homem? Um motivo de riso ou de dolorosa vergonha. E é justamente isso o que o homem deverá ser para o super-homem: um motivo de riso ou de dolorosa vergonha.” (idem, p. 29). Mais adiante o pensador continua ironizando as aspirações de grandiloqüência e supremacia, mostrando que o processo do desenvolvimento embora tenha sido grande, ainda tem muito para ser percorrido: “Percorrestes o caminho que vai do verme ao homem, mas ainda tendes muito de verme. Fostes macacos, um tempo, e, também agora, o homem ainda é mais macaco do que qualquer macaco” (idem, p. 30). Esse “ser macaco” representa a transitoriedade pois “o homem é uma corda estendida entre o animal e o super-homem”. Sendo que a grandeza do ser humano não está em si mesmo, mas em seu processo, ou em sua superação. Por isso, continua dizendo que: “o que há de grande, no homem, é ser ponte e não meta: o que pode amar-se, no homem é ser uma transição e um ocaso” (idem, p. 31). Esse “rio imundo”, “macaco”, “ponte”, que é o ser humano neste vertiginoso mundo moderno é a evidenciação de que os tempos são outros. Não só pelas conquistas científicas e da tecnologia, mas também pelos tropeços da política e da economia. Lembrando que também os valores, no mundo atual se atualizam – ou se transformam – constantemente. Isso implica dizer que a compreensão dos tempos que ora vivemos não pode ser resumida em conceitos, por vezes pré-conceituosos. Não somos apenas uma sociedade “pós-moderna”, somos, também um pouco de nossa antiguidade; não somos só o acúmulo de experiências, somos, também, a negação dos valores tradicionais, em virtude das conquistas modernas, Razão essa pela qual podemos reforçar a afirmação nietzschiana: o ser humano se humaniza na medida que se supera pois “o homem é algo a ser superado” Podemos, perguntar, agora sobre mais um elemento importante para nossa compreensão dos tempos atuais. A pergunta refere-se ao estado de espírito que move as pessoas. Vimos antes que estamos inseridos num mundo de velocidade. Onde se encomendam coisas “para ontem”. Vimos que a ética atual é, também, fluida e permissiva, pois, embora os valores tradicionais continuem sendo almejados e defendidos, não se é intolerante com os delituosos. E, no caso brasileiro, já se tornou parte de osso costume, o reconhecimento da “dupla moral”. Mais isso não diz tudo da sociedade atual. Somos uma sociedade que, talvez por causa dessa rapidez com que as coisas ocorrem e devido ao clima de permissividade, vive em agonia. A sociedade atual vive em um constante clima de descrédito de tudo. Desacreditou-se de Deus e hoje se desacredita do homem e da sociedade. Podemos dizer que, enquanto o século XX se caracterizou pela morte de Deus, o século XXI começou como o da morte do homem e da sociedade. E como conseqüência disso ou como causa do descrédito da sociedade e do homem se vê o descrédito em relação ao trabalho e o trabalhador. Diz Ricardo Antunes que “pode-se constatar que a sociedade contemporânea presencia um cenário crítico, que atinge também os países capitalistas centrais. Paralelamente à globalização produtiva, a lógica do sistema produtor de mercadorias vem convertendo a concorrência e a busca da produtividade num processo destrutivo que tem gerado uma imensa sociedade dos excluídos e dos precarizados, que hoje atinge também os países do Norte. Até o Japão e o seu modelo toyotista, que introduziu o ‘emprego vitalício’ para cerca de 25% de sua classe trabalhadora, hoje já ameaça extingui-lo, para adequar-se à competitividade que reemerge do ocidente” (Antunes, 2001, p. 14). Isso implica dizer, como o demonstram inúmeros estudos (Antunes, 1998; Hobsbawm, 2001) que o ser humano está sendo progressivamente substituído pela máquina. E, com isso, sobram trabalhadores. O discurso de que faltam pessoas qualificadas peara determinadas atividades, não é, completamente, verdadeira, visto que se todas as pessoas em idade de trabalho se qualificassem, mesmo assim haveria falta de postos de trabalho. As mudanças em ritmo violentamente rápidas estão ocasionando o surgimento de uma sociedade em crise: descrente de si mesma e do ser humano que a povoa. Retomando as palavras de Antunes reforçamos essa idéia de sociedade descrente de si mesma, por estar destruindo não só a força de trabalho (o ser humano), como também os locais de trabalho e o ambiente. Diz o autor: “Entre tantas destruições de forças produtivas, da natureza e do meio ambiente, há também, em escala mundial, uma ação destrutiva contra a força humana de trabalho, que se encontra hoje na condição de precarizada ou excluída. Em verdade, estamos presenciando a acentuação daquela tendência que István Mészáros sintetizou corretamente, ao afirmar que o capital, desprovido de orientação humanamente significativa, assume, em seu sistema metabólico de controle social, uma lógica que é essencialmente destrutiva, onde o valor de uso das coisas é totalmente subordinado ao seu valor de troca” (Antunes, 2001, p. 15). Tudo perde o valor, ou é sub-valorizado diante do valor do capital. O capital se impõe com tanta força que tanto o ser humano como o meio ambiente perdem sua significação. Só recebem alguma contemporização se isso representar meio ou instrumento de lucro. Exemplo disso é o que se observa em relação à Amazônia: incontáveis entidades e instituições se lançam no discurso de sua defesa, mas o avanço do capital só se retrai ou cessa de avançar nos casos em que respeitar a natureza significa criação de uma alternativa de lucro. Mas quando o lucro implica em agressão à natureza, a agressão se realiza mesmo que para isso seja necessário coagir órgãos governamentais ou atropelar entidades ambientalistas. Por sua vez Hobsbawm apresenta a sociedade caminhando para o fim até mesmo do trabalho. Superado o período que chamou de “era de ouro” o autor mostra que se entrou numa sociedade em que se constata a crescente diminuição dos postos de trabalho. Referindo-se ao período a partir da década de 1970, afirma o autor que “o crescente desemprego dessas décadas não foi simplesmente cíclico, mas estrutural. Os empregos perdidos nos maus tempos não retornariam quando os tempos melhoravam: não voltariam jamais” (Hobsbawm, 2001, p. 403). Isso porque, a mecanização, automação, robotização, informatização, baratearam cada vez mais qualquer produção que não fosse humana. “a lógica férrea da mecanização, que mais cedo ou mais tarde tornava até mesmo o mais barato ser humano mais caro que uma máquina capaz de fazer o seu trabalho” (Idem, ibidem), acabou se impondo. É claro que isso ao significa, como afirma Antunes (2001) o “fim da classe trabalhadora”, mas o que ocorre é “uma mudança qualitativa” na relação com o trabalho com extinções de postos de trabalho, surgimento de novas frentes, exigência de habilidades específicas e a permanência da situação de exploração do trabalhador, “pela intensificação levada ao limite das formas de exploração do trabalho, presentes e em expansão no novo proletariado, no subproletariado industrial e de serviços, no enorme leque de trabalhadores que são explorados crescentemente pelo capital” (Antunes, 2001, p. 24) Podemos dizer que, possivelmente, essas sejam algumas das mais marcantes características do mundo que se estruturou durante o século XX e se vem confirmando neste início de século XXI. Em razão disso podemos dizer que é necessária uma constante reflexão sobre algumas exigências do mercado de trabalho deste início de século. O perfil do trabalhador exigido atualmente é bastante diferente daquele que existia, e ainda existe, na maioria dos trabalhadores. As referências mudaram como se pode comparar no quadro seguinte:
Características SUPERADAS VALORIZADAS Habilidade Competência; Saber fazer Saber aprender; Disciplina Autocontrole; Obediência Iniciativa; Cumprir regras Lidar com surpresas; Reação Ação; Memorização Raciocínio; Execução Diagnóstico; Concentração Atenção; Formação Aprendizado contínuo; Individualismo Espírito de equipe; Isolamento Comunicação.
O mundo atual, que é dinâmico, faz essas e novas exigências aos trabalhadores. Essas exigências podem mudar e o perfil pode ser alterado. Mas até o momento são estas algumas características ou algumas dimensões do perfil do trabalhador para o século XXI. Ou seja, as empresas estão valorizando outras formas de comportamentos, que nem sempre foram desenvolvidas no mercado de trabalho, ou alimentadas no meio estudantil. Atualmente exige-se um perfil empreendedor. Não há mais espaço para o cumpridor de ordens. É necessário que o trabalhador seja dinâmico, eficiente e criativo. Tem que ser polivalente, flexível, com ampla capacidade e possibilidade de adaptação. O trabalhador para o mundo atual tem que ser versátil, culto, “antenado” em tudo o que está acontecendo. Neste mundo transformado e em transformação cabe ao trabalhador, ao estudante, ao sistema educacional, às pessoas sensatas que desejam entrar ou permanecer no mercado de trabalho, analisar as suas características pessoais tentando eliminar aquelas superadas e desenvolver as que são valorizadas pelo atual mercado de trabalho. A mesma afirmação vale para os empresários, pois os comportamentos dos consumidores também mudaram, sendo mais exigentes. Em síntese podemos dizer que a compreensão do mundo atual não passa ou não se limita aos pré-conceitos de idade contemporânea, tempos modernos ou pós-modernidade. É necessário que se fuja deles não porque não sejam importantes, mas porque as explicações e os caminhos para a compreensão da história atual se baseiam na leitura crítica dos fenômenos que estão ocorrendo. Tendo consciência que as leituras que se realizam são parciais ou feitas, e nem podia ser diferente, a partir de um ponto de vista ou a partir de alguns elementos, ficando outros sem serem considerados, pois as realidades são cada vez mais complexas. Parece-nos, portanto, que o estudo da história contemporânea tem, entre outras, esta dificuldade agravante: o fato de sermos partícipes dos eventos nos torna passiveis de leituras não só equivocadas, como parciais. Falta-nos distância cronológica para olhar os processos em maior extensão. Daí a necessidade da reflexão ser constante e cada vez mais crítica. A explicação-compreensão dos processos demandam não a conceituação estanque, mas a ampliação dos horizontes.
Referências:
ANTUES, Ricardo. Reestruturação produtiva e mudanças no mundo do trabalho numa ordem neoliberal. In. Políticas Públicas e Educação Básica. Dourado, Luiz, F; PARO, Vitor H. (orgs). São Paulo: Xamã, 2001. __________. Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. 6 ed. São Paulo: Cortez. 1998. HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: o Breve Século XX (1914-1991). 2ª ed. R. Janeiro: Cia das Letras. 2001 NIETZSCHE, F. Assim falou Zaratustra. 4 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1986 ORWELL, George.1984. 23 ªed. São Paulo: Cia Ed. Nacional, 1996 SCHWEDER, Sérgio. Filosofia e Tecnologia. In OLIVEIRA, A. Sarafim de, et. al. Introdução ao pensamento Filosófico. 4 ed. São Paulo: Loyola, 1990. p. 159-163.
Neri de Paula Carneiro – Mestre em Educação Filósofo, Teólogo, Historiador Outras reflexões do professor Neri:
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Tags do Artigo: GLOBALIZAÇÃO, Desemprego, Preconceito, Modernidade, Pos-modernidade, Revolução Francesa, Mundo Atual Fonte Artigos Gratuitos Online - Artigonal.com Perfil o autor:Concluí mestrado em Educação (UFMS), especialização em Educação (UNESC-Cacoal-RO), especialização em Metodologia do Ensino Superior (UNIR-RO), especialização em Metodologia de Leitura Popular da Bíblia (CEBI-RS). Concluí os cursos de graduação em Filosofia, Teologia, História. Sou Professor de História e Filosofia pela rede pública estadual (R. Moura-RO); professor de Filosofia na Faculdade de Pimenta Bueno - FAP (Pimenta Bueno-RO), na Faculdade de Rolim de Moura - FAROL (R.Moura-RO), na UNESC (Cacoal-RO). Radialista e colaborador em jornais da região de Rolim de Moura – RO.
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