Uma Análise Do Capítulo 1 Do Livro: Documentos De Identidade – Uma Introdução Às Teorias De Currículo. Autor: Thomas Tadeu Silva
O principal objetivo desse primeiro capítulo do livro é produzir uma história do currículo, relevando os principais pontos do surgimento, da institucionalização, e das principais correntes ou teorias que abarcam como tema central o currículo.
Inicialmente o autor afirma que a existência das teorias do currículo está relacionada com a pesquisa, com os estudos, especializações e campos profissionais que tratam do tema, no entanto, não é nesse momento que surge a ideia de currículo, pois, esta se remete a antes da formalização do currículo como um campo da educação, ou seja, já existia na prática professores que tratavam do tema currículo, às vezes sem mencionar a palavra. Silva localiza “A didactica magna”, de Comenius, como um bom exemplo de antecedentes da história de preocupações com o a organização e método.
Adicionalmente o autor afirma, nessa pequena introdução, que em geral as teorias educacionais também são teorias de currículo, mas, ao mesmo tempo, essas teorias nem sempre falam estritamente sobre o assunto.
O termo currículo e seu respectivo significado passaram a ser usados nos principais países europeus recentemente, muito por influência norte-americana, e sua origem deve-se, segundo o autor, “as condições associadas com a institucionalização da educação de massa que permitiram que o campo de estudos do currículo nos Estados Unidos, como um campo profissional especializado.” (pág. 22) A obra que marca essa época é a de Bobbitt, intitulada “The curriculum”, situada no tempo e no espaço ideal para a sua propagação, já que nesse momento os Estados Unidos procuravam moldar as formas de educação em massa de acordo com suas visões. Logo, é importante responder algumas questões cruciais como: Quais os objetivos da educação escolarizada? O que se deve ensinar? Quais as fontes de conhecimento? O que deve estar no centro de ensino?
As respostas para essas questões e para outras poderiam indicar o caminho da educação, e consequentemente do currículo norte-americano, e pela tamanha influência dos Estados Unidos no mundo, o destino da educação de vários países e de seus respectivos currículos, já que a escolha de conteúdos, a organização desses conteúdos, a ordem desses conteúdos, e o objetivo de cada conteúdo, do método, e da organização definiriam o interesse de quem produziu, partindo da ideia assim, que há uma intencionalidade na produção de currículo.
Podemos ver a relação entre o currículo e a intencionalidade através das respostas dadas por Bobbitt a essas perguntas, destacadas por Silva, e que revelam os seguintes pontos introdutórios: [I] Uma concepção conservadora de educação [II] Uma comparação da escola com a fábrica [III] Uma grande influência da obra de Taylor, que lança 6 anos antes sua obra principal, analisando a produtividade na fábrica, e a segmentação da produção como um acelerador da produção e gerador de lucros [IV]Dentro dessa ideia de escola-taylorista a palavra chave de Bobbitt era eficiência.
Esse arsenal de ideias propagou-se por todo o mundo, e se consagrou com uma vertente dominante de currículo e de educação do século XX.
Analisando Bobbitt, Silva encontra outros fatores importantes que definem a concepção de currículo e educação desse autor. Assim, Silva destaca que o currículo de Bobbitt é um tanto quanto mecânico, além da ideia de desenvolvimento curricular está bastante presente, inclusive na literatura estadunidense sobre currículo até os anos 80, deste modo o currículo torna-se uma questão técnica, ou seja, nada de diferente da visão estadunidense sobre a economia.
As ideias de Bobbitt se consolidam no livro de Ralph Tyler, em 1949, marcando de vez a influencia dos Estados Unidos em outros países do mundo, inclusive o Brasil, principalmente por se tratar do fim da segunda guerra mundial, e da liderança dos Estados Unidos no mundo capitalista a partir de 1945, que se manifestava nos aspectos econômicos, políticos, militares e ideológicos.
Silva denomina a concepção de currículo de Bobbitt, e de Tyler como tecnocrático, contrapondo o modelo de currículo de Dewey, julgado pelo autor de progressista, pois responde as perguntas iniciais de forma diferente, privilegiando os aspectos qualitativos e da formação do cidadão.
Essas visões de currículos são criticadas apenas nas década de 70-80, ou seja, há um domínio dessas teorias por quase todo o século XX. Silva afirma assim que:
“Os modelos mais tradicionais de currículo, tanto os técnicos quanto os progressistas de base psicológica, por sua vez, só iriam ser definitivamente contestados, nos Estados Unidos, a partir dos anos 70, com o chamado movimento de reconceptualização do currículo.”
(SILVA p. 27)
O autor faz uma importante sinalização sobre a crítica da visão de educação e currículo, mostrando, como dito anteriormente, que essa crítica emerge com força na década de 70, porém tem uma base muito forte na década anterior, principalmente, devido a diversos movimentos sociais, movimentos de descolonização, movimentos contra guerras, entre outros, que, sobretudo, questionam a ordem existente e promovem intensas discussões, inclusive sobre o modelo de educação. Portanto, a partir dessa década, a estrutura educacional fica em xeque, e será de certa forma reformulada por vários estudiosos a partir da década de 70.
Temos nos Estados Unidos o movimento de reconceptualização, na Inglaterra a nova sociologia da educação, na França uma alavanca sobre estudos de educação gerada a partir das discussões de Pierre Bourdieu, Louis Althusser entre outros autores, no Brasil o surgimento de Paulo Freire, ou seja, há uma tentativa de revolução educacional praticamente ubíqua, partindo da crítica do modelo existente e procurando novos caminhos.
Silva salienta que as teorias críticas emergentes eram teorias de questionamento, que procuravam transformações radicais, e ainda possuíam uma enorme desconfiança em relação aos modelos existentes. Essas novas teorias tinham como objetivo central desenvolver conceitos que nos permitam compreender o que o currículo faz, fazendo-se entender que esse movimento não era algo homogêneo, apresentando variações de teorias gerais e específicas de currículo.
No bojo dessa transformação um trabalho que é peremptório e revolucionário é o de Louis Althusser, que propõe um debate sobre a ideologia, relacionando sobretudo o Estado e a educação. Assim, o autor destaca que há mecanismos de domínio, e estes são variados, promovendo um esquema entre classe dominante-ideologia - aparelhos ideológicos - sociedade (classe dominada).
Dentro desse esquema, a escola é um dos mecanismos e aparelho de domínio do Estado, tendo no currículo uma transmissão de ideologia, ou uma manifestação de ideologia, já que o que está expresso no currículo é a visão ou o que se pensa da educação, obviamente a visão do Estado, tendo em vista o currículo escolar. Destarte, a escola processa e mantém a estrutura do capitalismo, transmitindo a visão de mundo das classes dominantes através das matérias.
Pierre Bourdieu e Passeron desenvolvem críticas ao modelo de educação partindo do conceito de reprodução, afastando da análise marxista de Althusser. Analisando os trabalhos desses dois autores Silva afirma que: “Nessa análise, a cultura não depende da economia: a cultura funciona como uma economia, como demonstra, por exemplo, a utilização do conceito de capital cultural.” (SILVA p.34) Logo, é na reprodução da cultura dominante que se expande o domínio, o capital cultural, para isso, o currículo é voltado para os interesses da classe dominante, e de certa forma há uma naturalização desse domínio e dessa visão de mundo, como se fosse algo dado, estabelecido e imutável.
Silva aponta o desvio que se faz da teoria desses dois estudiosos, ressaltando que eles não propõem uma educaçãma educaç a o desvio que se faz da teoria desses dois estudiosos, ressaltando que eles n compreender o que o curro dos dominados, e sim, uma maior possibilidade de sucesso no campo da educação para os dominados do sistema capitalista, isto é, oferecer as mesmas condições dadas as crianças da classe dominante para as crianças da classe dominada, a partir da educação e da proposta do currículo.
Prosseguindo no panorama sobre as mudanças ocorridas nas teorias educacionais, Silva discorre sobre o movimento reconceptualista nos Estados Unidos, fixando como grande marco uma conferência de 1973 sobre currículo, tendo como liderança Willian Pinar.
Os reconceptualistas estavam dentro das mudanças promovidas pelo movimento de crítica dos Estados Unidos, onde se enquadrava diversas abordagens, todavia, esse movimento sofria mais influência das abordagens fenomenológicas, autobiográficas e hermenêuticas.
A abordagem fenomenológica de currículo é considerada a mais radical de todas, pois representa uma verdadeira ruptura com a pedagogia tradicional, reconhecendo muito pouco o currículo tradicional. A ênfase dessa perspectiva está no mundo vivido, nas experiências, e na oportunidade dos docentes e discentes examinarem, de forma renovada, os significados da vida cotidiana, muitas vezes, como já dito, tido como algo dado e natural.
Max Manem realiza uma espécie de hermenêutica-fenomenológica, combinando as estratégias da descrição fenomenológica com as estratégias interpretativas da hermenêutica.
A abordagem autobiográfica combina com uma orientação fenomenológica, ficando claro no trabalho de W. Pinar, quando o autor recorre à etimologia da palavra curriculum, para dar outro referencial, dando a ideia de movimento, algo inacabado na ação de “percorrer a pista” (significado de curriculum), e ampliando o conceito de currículo, extrapolando os limites da escola.
A crítica neomarxista às teorias tradicionais de currículo e ao papel ideológico do currículo é identificado no trabalho de Michael Apple, que de certa forma, é um autor que se dedica ao estudo do currículo, promovendo uma análise mais específica do que geral.
O autor recorre a ideia de hegemonia para mostrar o campo de força, e a relação de poder existente na sociedade, sendo o campo social um campo contestado, e de intenso e permanente ato de convencimento da classe dominante, através da ideologia, transformando a dominação econômica e hegemonia cultural. Deste modo, o currículo nunca pode ser considerado algo neutro, e descontextualizado, sendo a seleção que constituiu o currículo um processo que é reflexo de interesses particulares das classes dominantes.
Henry Giroux é outra figura importante nos Estados Unidos que produz uma teorização sobre o currículo. O autor foca nos seus últimos livros na problemática da cultura popular, e sua manifestação no cinema, na música, e na televisão, fazendo a sua análise cada vez mais cultural do que educacional.
Segundo Silva, Giroux:
- “Acredita que é possível canalizar o potencial de resistência demonstrado por estudantes e professores para desenvolver uma pedagogia e um currículo que tenham um conteúdo claramente político e que seja crítico das crenças e dos arranjos sociais dominantes. Ao menos nessa fase, Giroux compreende o currículo fundamentalmente através dos conceitos de emancipação e libertação.”o, fazendo a sua anular, e sua manifestaços que produz uma teorizaçsendo a seleçao na açao dos da vida cotidiana, muitas vezes (p. 55)
Dentro dessa perspectiva de currículo de libertação três conceitos são fundamentais, salienta Silva: a esfera pública, intelectual transformador, voz.
Continuando na ideia de libertação temos no autor brasileiro Paulo Freire uma perspectiva renovadora de educação, logo, com efeitos e influências na perspectiva de currículo. O autor parte da questão do que é conhecer, e sua teorização parte desde 1967 com o livro “Educação como prática da liberdade”, e em 1970 em “Pedagogia do oprimido”.
Este último livro por sinal é analisado por Silva pela sua originalidade, sendo distinta de todas as outras perspectivas já analisadas. Primeiramente, partindo de uma análise muito mais filosófica do que sociológica, e da economia política; analisando a dinâmica própria do processo de dominação; observando e revolucionando a educação de um país subdesenvolvido; utilizando conceitos humanistas, como amor, esperança, humildade; um diagnóstico da educação e uma proposta como ela deve ser, ou seja , Paulo Freire é um autor diferenciado dos demais. Paulo Freire inicia o que Silva denominou de uma perspectiva pós-colonialista sobre o currículo.
A partir da década de 80 o imenso predomínio da literatura de Paulo Freire foi questionado pela chamada “pedagogia histórica-crítica” ou “pedagogia crítico-social dos conteúdos”, desenvolvida por Dermeval Saviani.
Saviani separa a política da educação, restringindo essa relação quando as classes subordinadas de apropriam do conhecimento para gerar uma luta política. Além disso, o autor critica os conhecimentos universais, que são considerados como patrimônio da humanidade, e a pedagogia freireana libertadora e pedagogias liberais quando se preocupam mais com o método de aquisição do conhecimento do que com a própria aquisição do conhecimento.
Finalizando, temos a partir de um lançamento de um livro em 1971, a crítica do currículo na Inglaterra, através do movimento conhecido como NSE, nova sociologia da educação. Esse movimento tinha como características principais: Uma tradição de pesquisas empíricas sobre os resultados desiguais produzidos pelo sistema educacional; falta de problematização da natureza do conhecimento escolar ou o papel do currículo na produção e na afirmação das desigualdades;e implicitamente uma crítica a alguns pontos da filosofia educacional analítica.
Uma outra característica geral desse movimento era a preocupação de uma certa coerência entre currículo e avaliação, presente inclusive na obra de Basil Bernstein, a partir de 1975. O NSE teve muito prestígio até a década de 80, quando alterou um pouco sua estrutura fundindo outras tendências na sociologia da educação, multiplicando os campos de estudos.
(Artigonal SC #1598465)
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