Uma Concepção De Natureza Formulada Pela Ciência Moderna
A produção do conceito de natureza na ciência moderna
Para Carlos Walter Porto Gonçalves o conceito de natureza não é natural, assim: “Toda a sociedade, toda cultura cria, inventa, instituiu uma determinada ideia do que seja natureza. Nesse sentido o conceito de natureza não é natural, sendo na verdade criado e instituído pelos homens.”(GONÇALVES 2006 p. 23)
A concepção atual de natureza que temos, de forma geral, deriva da concepção de natureza da ciência moderna, instalada na revolução científica do século XVI e expandida séculos mais tarde. Essa ciência:
“É essencialmente mecânica, baseada na experiência e desenvolvida pela matemática. Propõe contra os aristotélicos um estudo da natureza que permite nela distinguir relações mensuráveis e calculáveis; como diz Galileu, a natureza é um grande livro escrito em caracteres geométricos.” (ARAÚJO 2003 p. 30)
A ciência moderna de Galileu, Newton, Descartes, entre outros, cria uma concepção de natureza matemática, mecânica, e acima de tudo, transformam a natureza em recurso natural, ou seja, a natureza vira objeto do capital. Além disso, a natureza é padronizada. Segundo Araújo “Dentre as consequências do novo modelo científico se destacam a nova imagem física e unitária do universo; a natureza não é um amontoado de seres heterogêneos, mas constituída por seres homogêneos.”(ARAÚJO 2003 p. 31).
Mais do que um simples conjunto de ideias, a ciência moderna produz e reproduz o seu paradigma, que é avassalador, segundo Boaventura Sousa Santos:
“A nova racionalidade científica é também um modelo totalitário na medida em que nega o caráter racional a todas as formas de conhecimento que se não pautarem pelos seus princípios epistemológicos e pelas suas regras metodológicas.” (SANTOS 2003 p. 21).
A natureza torna-se uma fonte de riquezas, junto com a exploração do trabalhador, logo, cada árvore destruída, cada ar poluído emitido por uma indústria, cada fonte de energia consumida, e cada trabalhador explorado, é sinônimo de lucro. O conhecimento científico será oportuno nesse momento, pois é preciso “conhecer a natureza para a dominar e controlar” (SANTOS 2003 p. 25) , além de , na perspectiva de Bacon, a ciência fará da pessoa humana “o senhor e o possuidor da natureza.” (BACON 1933 apud SANTOS 2003 p. 25)
É a partir dessa visão, que mais tarde virá a ideia de progresso, onde a ciência avança, a indústria avança, os burgueses avançam, logo, no raciocínio da classe dominante reproduzido por vários segmentos da sociedade, o mundo avança, um raciocínio um tanto quanto indutivista. Sabemos que no bojo da ideia de progresso, e principalmente, na prática, o progresso é uma condição restrita, pois os trabalhadores apenas alternaram a sua condição de explorados, ora com menos direitos, ora com algumas “concessões” da classe dominante. Essas “concessões” por sinal foram na maioria das vezes conquistadas, a partir de movimentos, greves, vidas, e situações limites, onde não havia nenhuma outra escolha prudente a se tomar.
Deste modo, Boaventura Sousa Santos afirma sobre a ideia de progresso:
“ Que ganha corpo no pensamento ocidental europeu a partir do século XVIII e que é o grande sinal intelectual da ascensão da burguesia. Mas a verdade é que a ordem e a estabilidade do mundo são a pré-condição da transformação tecnológica do real”. (SANTOS 2003 p. 31).
Outra característica marcante do conceito de natureza impregnado desde a emersão da ciência moderna, é a separação entre o homem e a natureza. É marcante a ideia de um homem dominador, possuidor da razão, o sujeito; e a natureza, o meio físico, que nada tem a ver com o homem, o objeto. Assim, o homem se desnaturaliza, como salienta Gonçalves, perdendo a ideia da physis, estrutura completa, um olhar do todo, trabalhado pelos pré-socráticos, e substituído paulatinamente, até a concepção de natureza da ciência moderna (GONÇALVES 2006).
Assim, fica mais fácil e prático explorar a natureza, pois se o homem está separado dela, a natureza se encontra externa a passível de destruição. A separação homem-natureza é uma das grandes justificativas da degradação ambiental, junto com a ideia de progresso, que implica a dizer que: “Se estamos destruindo é porque queremos o progresso, além da palavra-chave, o ‘desenvolvimento’, e podemos fazer isso porque a natureza foi feita para ser explorada, para servir o homem, vemos recursos naturais e não uma parte do homem.” Deste modo, durante o século XVI, por exemplo, as metrópoles exploravam as colônias, e, além de não imaginar a falta daqueles recursos no futuro, pois, se acredita no caráter ilimitado dos “recursos naturais”, não se via a natureza como parte do sujeito, logo, não tinha nenhum intuito de se preservar ou conservar aquele bem. Principalmente nas duas primeiras revoluções industriais se acreditava que os recursos energéticos eram inesgotáveis e infinitos, além de estar à disposição da sociedade industrial, entre outros exemplos.
Como a ciência social constrói a sua concepção de natureza?
Boaventura Sousa Santos utiliza o autor Ernest Nagel para promover alguns questionamentos e discussões sobre as ciências naturais e sociais. Logo, chega-se a suas ideias centrais: da ciência social como uma derivação das ciências humanas, ou seja, todo o arcabouço teórico das ciências sociais pertence às ciências naturais, e o mais agravante, as primeiras se concretizavam como ciências empíricas. Portanto, a concepção de natureza das ciências sociais é a mesma ou similar à concepção de natureza das ciências naturais. E a ideia de que as ciências sociais possuem um estatuto metodológico próprio, que as diferem das ciências naturais, lhe dando autonomia e autoridade.
Boaventura nos mostra a seguir que essa segunda concepção, de uma ciência social autônoma, continua sendo refém das premissas das ciências naturais, ou seja, não há um abandono, nem a perda de influência das ciências naturais nas ciências sociais. Uma comprovação disso, diz o autor, é que a ideia de natureza separada do homem e da natureza mecânica, por exemplo.
Referências Bibliográficas
GONÇALVES, C.W.P. Os (des) caminhos do meio ambiente.
__________ O desafio ambiental. Rio de Janeiro,Editora Record, 2004
KLOETZEL, K.. O que é meio ambiente. São Paulo, Ed. Brasiliense, Coleção Primeiros Passos. 1994
MOREIRA, I. O Espaço Geográfico - Geografia Geral e do Brasil. Editora Ática 6º edição São Paulo. 1976
________ O Espaço Geográfico - Geografia Geral e do Brasil. Editora Ática 43º edição São Paulo. 1999
SANTOS, B.S. Um discurso sobre as ciências. Editora Cortez. São Paulo, 2003.
ARAÚJO, I.L. Introdução á Filosofia da ciência. 3º edição. Editora UFPR. 2003
(Artigonal SC #1430227)
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