O Ábaco e o Computador

11/11/2010 • Por • 448 Acessos

             

                                                    O Ábaco e o Computador

 . Ainda que os computadores não sejam mais do que complexos circuitos nos quais correntes elétricas fluem de acordo com instruções programadas, eles continuam como máquinas incapazes de pensar, sentir, amar, e odiar. Eles não fazem mais do que manipular cegamente dígitos binários – isto é, fileira de 1s e 0s, 1 sendo representado pela presença de um impulso elétrico e 0 por sua ausência. Em outras palavras, um computador nada mais é do que uma versão extremamente sofisticada de um antigo instrumento chamado ábaco, no qual "1s" são representados por bolas que deslizam ao longo de hastes metálicas, enquanto "0s" correspondem a vazios ao longo daquelas mesmas hastes. Em vez de componentes eletrônicos que passam ou bloqueiam correntes elétricas, dependendo de instruções programadas, os dedos de uma das mãos movem as bolas e deixam atrás locais vazios de acordo com certas regras precisas. Naturalmente, o poder computacional de um ábaco é severamente limitado pelo pequeno numero de bolas e hastes, como também pelo tempo exigido para os dedos moverem as bolas. Os supercomputadores podem fazer cálculos infinitamente mais rápidos do que um ábaco. Sua velocidade computacional fá-los possível resolver problemas matemáticos que simplesmente não podem ser manejados pela mão na escala de tempo de uma vida humana. Por exemplo, nenhuma mente poderia calcular o número pi com milhões de casas decimais do modo que um computador faz. Nenhuma pessoa poderia manipular tais imensos números com velocidade tão rápida como um raio de luz, precisão, e flexibilidade. Seja como for, um computador permanece como um ábaco gigante. Sua manipulação mecânica de 0s e 1s não pode ser comparada ao pensamento. Reivindicar que os computadores "pensam" seria equivalente dizer que as bolas do ábaco "cogitam" quando elas estão sendo movidas para efetuar uma adição.

       Em 1997, a imprensa fez um estardalhaço quando um supercomputador chamado Deep Blue derrotou o grande mestre Garry Kasparov num torneio de xadrez. Alguns jornalistas interpretaram o feito como evidência de que a supremacia da humanidade estava sendo ameaçada. Eu discordo totalmente com esta visão. O computador bateu o ser humano por causa de sua grande habilidade de rever todas os possíveis movimentos futuros consistentes com uma configuração inicial das peças de xadrez. Um jogador humano de xadrez pode antecipar somente uns poucos daqueles movimentos. Ele confia em grande parte na experiência e intuição para descartar aqueles movimentos que são provavelmente desvantajosos. O Deep  Blue, por outro lado, podia sistematicamente rever todas as possíveis combinações futuras pelo menos para os próximos dez movimentos. De fato, ele podia examinar 200 milhões de posições por segundo. Foi esta capacidade fenomenal que o possibilitou ganhar de Kasparov. Assim, o computador passou no teste de inteligência descrito por Turing. Não tivesse Kasparov conhecimento da natureza de seu oponente, talvez ele nunca poderia ter adivinhado que estava travando batalha com uma máquina. Entretanto, de modo algum significa que o Deep Blue tinha adquirido uma inteligência comparável a de um ser humano. Sua vitória sobre Kasparov foi completamente inconsciente. Na verdade, o computador não estava mais ciente que estava jogando xadrez do que um carro sabe que está a caminho para a cidade de Nova York. Ele não podia ter menos preocupação se ganhasse ou perdesse. Ele não fez nada mais do que "estupidamente" e estritamente seguir as instruções programadas em seus circuitos eletrônicos por seres humanos. A vontade de ganhar, a ansiedade, o nervosismo, a tensão, a frustração de ter feito um pobre movimento, ou o prazer de ter imaginado uma estratégia de ganho – tudo isto estava além da habilidade do Deep Blue. Talvez seja precisamente porque Kasparov experimentou todas estas emoções que ele perdeu o jogo. Mas existe um imenso abismo dos circuitos eletrônicos do Deep Blue ao cérebro de um pássaro capaz de usar as posições das estrelas para se orientar, e mesmo muito mais da inteligência e emoções de um ser humano. Como o funcionamento do cérebro humano permanece um mistério, o objetivo de fazer máquinas inteligentes continuará fora de alcance (continua).

Pensamento do dia: Morrer por uma idéia é muito bonito, mas por que não deixar a idéia morrer antes de você? (Wyndham Lewis, 1882-1957, escritor inglês).

Perfil do Autor

leopoldino dos santos ferreira

Físico e escritor. Tem cinco livros publicados. Mestre em Ciências pela COPPE-UFRJ. Doutor e Livre Docente em Física pela UFPA. Fo...