A aposentadoria do pedreiro

27/12/2010 • Por • 268 Acessos

Dentre meus amigos ararenses eu tenho um que faço questão de destacar, pela sua honestidade, profissionalismo e desprendimento, embora seja simplesmente um pedreiro humilde, mas que considero de grande valor como ser humano – ele é o meu amigo e colaborador Aparecido, a quem rendo aqui minha consideração.

Aproveitando-me deste gancho, lembrei-me do pedreiro João, que era um profissional  mão-cheia, sendo muito requisitado até por engenheiros, para esclarecerem dúvidas práticas sobre o andamento das obras. Como ele trabalhava há muitos anos, sempre na mesma empresa construtora, a sua função como mestre de obras era muito bem remunerada, pois a sua presença garantia ao patrão a certeza de que tudo estava sendo feito na mais perfeita ordem, sem riscos ou preocupações maiores, e sempre dentro dos prazos estipulados pelos cronogramas. A parceria patrão/empregado era muito amistosa, onde o chefe nutria respeito ao subordinado, ao mesmo tempo em que este mantinha um forte laço fraterno com seu patrão, por essa razão, toda vez em que João demonstrava desejos de se aposentar, o seu superior aumentava-lhe o salário e solicitava que tivesse um pouco mais de paciência, até que ele encontrasse alguém que estivesse à altura de substituí-lo. Chegou, então, um dia em que o João decidiu em definitivo que iria se aposentar mesmo, até contra a vontade de tudo e de todos, assim declarando ao patrão que ele iria parar de trabalhar, a partir daquele mesmo dia, e fim de papo.

O empresário, ao se convencer de que o pedreiro estava realmente determinado em seus propósitos de se afastar, fez-lhe uma proposta irrecusável – garantiu-lhe que, se ele aceitasse prestar apenas mais um serviço, que realmente seria o último da sua carreira dentro da empresa, ele iria pagar-lhe o dobro do salário e ainda com a promessa de uma polpuda recompensa, logo após o término da obra. Com isso, João, mesmo contrariado, não teve coragem de recusar a oferta, porém, no seu íntimo, começou a nascer uma certa revolta contra esse novo encargo, já que ele estava sendo "castrado" em seus objetivos de vida, mais uma vez. Não deu outra, ele resolveu então agir de forma atabalhoada, tratando de acelerar essa nova obra a toque de caixa, pouco se incomodando com a qualidade do trabalho e com a boa aplicação do material, pois a sua preocupação principal era a de terminar tudo aquilo o mais cedo possível, mesmo contrariando o cronograma e as medidas de segurança requeridas pela estrutura da construção, ainda mais que o chefe tinha plena confiança em seu trabalho, a ponto de deixar de lado quaisquer formas de inspeções periódicas.

No momento em que deu por terminada sua última missão, João imediatamente foi à procura do dono da empresa, já ansioso de passar-lhe as chaves do imóvel e a receber o prometido abono e a esperada liberdade, rumo à tão "justa" aposentadoria. Foi quando ele ficou totalmente aparvalhado com a atitude do empresário – este simplesmente devolveu-lhe a chave da casa, declarando que ela própria era a recompensa que havia sido oferecida pelo seu derradeiro trabalho!

Realmente, no momento em que o incentivo à autopromoção ou a ganhos maiores futuros deixou de existir, o pedreiro "relaxou a sua guarda" e tratou de agir como qualquer irresponsável com o bem-estar do próximo, de forma leviana, deixando com o futuro proprietário do imóvel os possíveis problemas de infiltração de água, rachaduras nas paredes, desnivelamento do piso ou das paredes, emperramento das portas ou janelas, entupimento de canos, goteiras, descascamento de pintura, descolamento de azulejos e demais "pepinos", além do desconforto da escassez de tomadas e de pontos de luz. Acontece que esse "mico" passou diretamente para seus próprios ombros e ele mesmo ficou impotente para consertar a sua atitude extremamente egoísta – nada mais a fazer, a não ser assumir o resultado da sua pequenez de espírito.

É por isso que o mundo está como está, pois são pouquíssimas as pessoas altruístas, que se propõem a fazer algo pela felicidade do próximo, porque o número daqueles que fazem qualquer coisa por conveniência, mesmo à custa da infelicidade de muita gente, é assustador e deprimente.

Perfil do Autor

Moacyr de Lima e Silva

Desde 1972, dedico-me ao estudo da Filosofia de Vida Oriental Moderna, tendo participação ativa como professor-dedicante em palestras sobre...