O Mágico No Bar

27/08/2009 • Por • 4,603 Acessos

Um mágico sempre me impressionou. Não pelas mágicas que fazia, mas pelo efeito de crença que transmitia. Todos sabiam, digo os adultos, que nada daquilo era real, entretanto eles sempre, no final de cada apresentação, largavam aquela interjeição: owwwww.  Não sei no que acreditavam, talvez no poder da própria ilusão e isso me fascina de verdade. Já com as crianças não tinha nada disso. Éramos, realmente, impressionados com tudo, com a roupa do mágico, com a assistente dele, com os inúmeros lenços que tirava de sua lapela e todos coloridos. Tinha aquela do coelhinho na cartola, esta nos tirava o folego.

                                   Hoje, algumas coisas mudaram um pouco, ainda bem que os circos aboliram aos animais e David Coopperfield apareceu, assim, como num passe de mágica para dar um pouco mais de magia a esta arte, um toque mais moderno e se enquadrar no mundo das novas crianças que estavam chegando. Penso que isso veio, de certa forma, manter o mundo das ilusões funcionando.

                                   Engraçado, isso tudo foi lembrando porque um dia desses vi um mágico e quando o vi  meus olhos saltaram e senti uma alegria indescritível porque ele era um mágico de verdade.

                                   Resolvemos sair à noite, eu e mais duas colegas, aqui em Lisboa e fomos a um bar Irlandês, simplesmente, maravilhoso. Som de primeira qualidade, gente bonita, lugar de fumadores e não fumadores (como dizem aqui) e a melhor cerveja do mundo. Entramos e fomos para um canto esperar que uma mesa esvaziasse. Tivemos sorte, logo sentamos. Mas, antes de sentarmos, ainda no canto, avistei um senhor alto, pele bem clara, que estava curvado diante de uma das mesas lotadas.  Ele mexia com as mãos e tinha algumas cartas. No início fiquei meio confusa, não entendia a existência de um mágico em pleno bar. E comecei a observa-lo.

                                   Incrível, ninguém, nenhum atendente de mesa (como chamam aqui os garçons) pedia que ele se retirasse e o pessoal da mesa trocava olhares e observava com atenção. Bem, fomos, como disse, em seguida para uma mesa e nessa altura já não prestava mais atenção nele. Na verdade, entre uma conversa e outra, não percebi onde ele tinha ido e também me esqueci dele.

                                   Pois bem, sentamos, fizemos nossos pedidos, e de repente olhei pela janela, nossa mesa ficava na beira de uma janela, na verdade um janelão que dava para esplanada (lugar à rua, mas que é seguimento do bar) e esta dava para a beira do Rio Tejo. Todavia era assim: eles lá fora e nós aqui dentro. E quando olho, lá estava ele, na esplanada, em outra mesa, fazendo mil coisas. Então, comecei a observa-lo novamente, agora com mais atenção. Era o mágico que habitava o meu mundo criança.

                                   Elegante, todo de preto, com um lenço vermelho no pescoço e num fraque de dar inveja ao melhor noivo deste mundo. Fui aos detalhes, olhei sapatos, camisa, abotoaduras, lapela, porque pensei, deve ser mais um Russo, brasileiro, português, espanhol, tentando ganhar a vida em Lisboa. E essa gente não cuida muito dos detalhes, pensei comigo, ele deve ter uma falha. Vergonha passei com o meu pensar, porque ele não tinha falha em nada, inclusive a cartola tinha aquela fita acetinada e não estava amassada.  Era impecável.

                                   Não conseguia me concentrar nas mágicas dele, só tinha olhos para sua elegância.

                                   De mãos grandes fazia mágica de mesa em mesa e raramente ganhava algum cêntimo, entretanto sorria em cada mágica feita. Confesso que não entendia e a medida que a noite ia passando, entre uma cerveja, uma conversa, tinha a atenção voltada para nós e para o mágico. Parecia aquela menina dos circos atrás.  Teve uma hora que cheguei a dizer: é um mágico. E isso me emocionou muito, porque quando o reconheci, relembrei toda minha infância. E encantada com aquele mágico passei à noite.

                                   Em um momento qualquer, percebi que ele vinha em direcção, para dentro do bar e não deu outra, meus olhos o cobriram dos pés à cabeça. O senhor deve ter pensado qualquer coisa, menos que estava admirada com sua magia de ser um mágico  em pleno tempo actual.  

                                   E a noite se foi, já era madrugada, nós ali e o mágico encantando olhos nem tanto encantados.

                                   Todavia, foi quando ele ia embora que entendi tudo que se passava com ele e comigo.

                                   Virou-se e foi em direcção a rua, seguir, quem sabe em outros bares, já era tarde e depois de dar uns quinze passos, já um tanto longe das mesas, sem ninguém aplaudir ou chamar, ele vira-se, olha com a cabeça erguida com um olhar no todo e se curva levando a mão esquerda sobre o corpo e a direita acima, num cumprimento mágico a todos, mesmo que não o notassem.

                                   Essa era a função do mágico, fazer o que gostava, mesmo que isso não lhe rendesse nada durante um dia ou uma noite inteira.

                                   Pensamento utópico, porque bem sabemos das coisas práticas do dia a dia, entretanto o que nos faz sonhar é justamente o fato de acreditar que estamos fazendo o que gostamos e isso não custa nada, basta tentar, num passe de mágica, entre o viver e o sonhar, ser feliz.

                                   Bela magia essa arte de viver.

Perfil do Autor

Gislaine Becker

Natural de Santa Catarina, Jacinto Machado; Graduada em Letras pela Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL)- Língua Portuguesa ...