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Sabedoria de vó

Por: Luciana Vidal Ranking do Autor Azul | Publicado em: 12-09-2008 | Comentários: 0 | Acessos: 18 | Avaliação:  (142) Ranking do Artigo Azul (?)

Minha avó foi uma pessoa que não passou em branco nessa vida. Em tudo o que fazia ou dizia havia sempre uma marca: a marca da sabedoria. Sabedoria esta que só quem viveu uma longa jornada aqui na terra poderia adquirir.

Dona Mafalda (sim, eu tive uma vovó Mafalda) era uma mulher faceira, cheirosa, que adorava a família e não saía de casa sem batom, sem estar com as unhas esmaltadas e as suas famosas "bijutirias". Era assim que ela definia sua coleção de "cacarecos": pulseiras, anéis, brincos e colares coloridos e extravagantes. Parecia uma rainha. Mas, na verdade, era a rainha da humildade. Apenas se sentia feliz assim.

Mesmo sem querer, por onde vovó passava era o centro das atenções pela sua beleza e jovialidade. Cansei de ouvir "como sua avó é linda" ou "ela é tão vaidosa, né?"

O cheiro dela, então... era indescritível. Um cheiro incomum, agradável. Não importava a fragrância que escolhia, o que havia feito ou a hora do dia: estava sempre cheirosa, como se tivesse acabado de sair do banho. Sabe cheiro de vó? Aquele que fica na casa, na roupa de cama, enfim, no ambiente todo? Pois é. O apartamento dela cheirava limpeza, cheirava frescor, cheirava vovó Mafalda.

Dia desses lembrei de uma frase que ela repetia sempre que estava diante de um novo desafio: "Pra tudo a gente dá um jeito nessa vida. Menos pra morte". E foi o que ela fez a vida inteira: dar jeito pra tudo.

Aos 7 anos de idade, "deu um jeito" de se conformar com a morte prematura da mãe, que um dia desistiu de viver, tomou todos os remédios que encontrou pela frente, dormiu e nunca mais acordou.

Ainda na infância, "deu um jeito" de aceitar as constantes mudanças de casa, que ocorriam sempre que um parente se cansava de cuidar da menina órfã.

Na adolescência, "deu um jeito" de entender que o pai, piloto de avião, havia morrido carbonizado num acidente aéreo, porque "precisavam mais dele lá no céu do que aqui na terra".

Já casada, "deu um jeito" de aceitar a perda da filha Araceli, um bebê lindo e desejado, que morreu poucas horas depois de nascer. Anos mais tarde, também "deu um jeito" de aceitar que o filho caçula havia nascido diferente: pesava menos de um quilo, cabia numa cestinha de pão e tinha de ser amamentado com um conta-gotas para sobreviver. E sobreviveu!

Algum tempo depois, vovó Mafalda "deu um jeito" de esquecer da irmã, que, seguindo o exemplo da mãe, se envenenou com remédios e se foi...

Há quatro anos, minha avó deu o maior jeito que poderia ter dado em qualquer outra coisa na sua vida: dizer adeus ao seu grande amor, o homem com quem conviveu durante mais de 60 anos. Aquele que nunca esquecia uma data, que andava sempre de mãos dadas com ela na rua, que lhe presenteava com flores no Dia dos Namorados, enfim, se existe alma gêmea, ele era a dela e ela a dele.

Analisando melhor a frase que minha avó costumava repetir, percebi que ela estava enganada. Pra tudo vovó Mafalda deu um jeito. Até pra morte. Foi exatamente isso que ela fez a vida inteira, convivendo com a morte de pessoas queridas sem perder a alegria, a esperança e a vontade de viver.

No dia 22 de abril de 2008, aos 83 anos, vovó Mafalda nos deixou. Acho que foi se encontrar com vovô Tinho, porque agora precisava "dar um jeito" na saudade que sentia dele.

E agora nós estamos tentando "dar um jeito" de viver sem ela.

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Tags do Artigo: Vida, Morte, Sabedoria, Avô

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