Velho Demais

21/10/2009 • Por • 226 Acessos

VELHO DEMAIS

 

Tornei-me obsoleto e não sirvo mais.

 Meu filho já não precisa de mim e não vejo alegria em seu rosto quando me vê. Devo estar mais velho do que penso, minhas mãos estão tremulas e meus olhos  não enxergam como antes. O meu corpo dói e sinto frio.

O sono foi-se com a idade e fico na cama imaginando como deverá ser chato o novo dia, sem ter com quem conversar, não ter pra onde ir e continuar me sentindo como um móvel velho que ninguém mais agüenta ver na sala.

Devem conversar entre si o que fazer com o velho que não tem mais graça e serventia e estou em suas mãos aguardando o momento que me levarão para algum asilo dizendo que será melhor pra mim.

Meus netos querem brincar de vídeo game,  mas meus reflexos não me permitem participar e quando chego perto, ouço aquela frase terrível e dolorida.

- Agora não vovô, depois brincamos com o senhor

Esse depois nunca chega e eu tenho tantas coisas pra falar, tantas historias para contar e tanta experiência para compartilhar que dói só em pensar que ninguém precisa mais delas.

Peço todas as noites para Deus os abençoar, pois eu não preciso de mais nada, sou inútil, velho demais para sonhar.

 Estou com sede, mas estão todos na cozinha e não quero constrange-los com minha presença, posso esperar saírem de lá. Daqui a pouco me trarão um prato de comida para que eu coma na varanda, para não sujar o tapete da sala de jantar. Lembro-me de quando o comprei para agradar minha esposa, que Deus a tenha em um lugar sagrado, e dou-Lhe graças todas as noites por ela não ter tido tempo de ficar obsoleta também.

 Hoje vai ter passeio, irão todos para o sítio.

 Que saudades daquele lugar!

 Lembro-me como se fosse hoje o dia que o comprei e como minha esposa tinha um carinho especial por ele, plantando suas roseiras em volta da casa e eu cuidando tão bem do gramado.

 Mas eu não vou poder ir, lá é longe demais e estou velho para suportar uma viagem dessas.

  Já ouvi tantas vezes essa frase que acabei me convencendo que estão certos.

  Ficarei sozinho, somente com a empregada que me chama de velho e nem sabe o meu nome. Aliás, será que alguém ainda sabe o meu nome?

  Vou ficar aqui sentado na cadeira de balanço até que saiam e eu possa tomar o meu copo de água. E o meu remédio, que horas mesmo eu tenho que tomá-lo?

  Será que fará alguma diferença se eu não tomá-lo mais?

  Hoje estou sentindo-me estranho, acordei com saudades da minha esposa e sinto o seu perfume toda vez que fecho os meus olhos. Está um tanto frio aqui fora que vou voltar para o meu quarto.

  Perdi a sede, só quero minha cama.

  Sinto que já saíram e o engraçado é que se esqueceram de me dar o prato de comida, mas estou sem fome, talvez tenham adivinhado isso também.

  O silêncio é tão gostoso às vezes!

  O frio aumentou e estou todo coberto, mas ainda o sentindo..

  Que cheiro gostoso desse perfume, faz tempo que não o sentia.

  Sinto tocarem em minha face com as duas mãos.

  Mãos macias, abro os meus olhos e percebo que estou sonhando. Talvez a saudade me faz ver o rosto de minha esposa e os seus braços me chamando para me levantar e seguir, de mãos dadas com ela.

   Preciso me despedir do meu filho e dos meus netos, mas não tenho mais tempo, tenho que ir.

  Espero que eles não chorem quando voltarem.

  Sentirei saudades, mas estou partindo ao encontro de alguém para quem eu sempre fui prioridade.

 

Perfil do Autor

Anderson Balderrama dos Reis

Anderson Reis, paulista, pós graduado com especializaçao em Gerenciamento de Pessoas e autor do livro "Clareira, quando a amizade é...