Economia Tem A Ver Com Felicidade
ECONOMIA TEM A VER COM FELICIDADE
Marcus Eduardo de Oliveira (*)
O lado consumista do ser humano recomenda que a felicidade repouse na aquisição de produtos e serviços diversos, e, de preferência, em grandes quantidades. Somente por esse pormenor já bastaria para analisarmos a economia pelos seus dois lados mais influentes: a oferta e a demanda. Até mesmo porque tudo parece ser uma questão de oferta e demanda; não à toa esse é um dos principais conceitos da economia.
Evidentemente, junto à oferta e demanda, deve-se levar em conta à variável “preço”; condição essa essencial para deslocar (para cima ou para baixo) a quantidade procurada (demanda) em razão da quantidade fornecida (oferta); isso tudo, é claro, num lugar específico chamado “mercado”.
Utilizando a variável “preço” queremos, por sua vez, apenas para sintetizar essa discussão e não torná-la enfadonha, fazer um link com a variável “renda”, que aponta, essa sim, para a real possibilidade de compra ou recusa dos diversos bens e serviços dispostos nos mercados.
Portanto, pensando friamente dessa forma, ou seja, (no ato de consumir), quanto mais se consumir, mais a felicidade aumenta; ainda que seja não apenas sobre um consumo necessário.
Esse consumo excessivo, que vai além das necessidades básicas, encontra nas ciências econômicas amparo no conceito “conspícuo”, ou seja, aquele consumo supérfluo, típico do consumidor voraz pronto para alimentar com seu consumo sem limites a oferta. Ao economista Thorstein Veblen devemos esse conceito desde 1899.
Portanto, se a felicidade repousa no ato de consumir, como querem alguns, basta consumir cada vez mais para ser muito feliz. Afinal, consome-se de tudo (até mesmo coisas sem sentido) e, em geral, em quantidades que agradam muito aos ofertantes. Desse modo, como a sociedade, em geral, é muito consumista, pressupõe-se que há muita gente feliz. Portanto, nesse pormenor, a felicidade é igual ao consumo e o consumo leva a felicidade. Certo ou errado?
A diversificação da oferta – o poder da demanda
Tamanha é a diversificação da oferta – cuja demanda parece sempre disposta a responder aos estímulos -, que os economistas, além de calcularem a sensibilidade (elasticidade) da demanda e da oferta em relação aos preços, chegam até mesmo a definir certo tipo de mercadoria chamando-a de “mercadoria não rival”. Essa é aquela mercadoria cujo consumo feito por uma pessoa não impede que outra também a consuma, como um passeio pelo parque público nas manhãs de domingo, a leitura em público de um poema, assistir ao filme do momento no cinema lotado ou mesmo no DVD junto aos familiares.
Pela pura lógica do consumo, o poder parece então residir, de fato, nas mãos dos consumidores. John K. Galbraith, a esse respeito em The Economics of Innocent Fraud: Truth For Our Time nos diz que “O poder de última instância é o do consumidor. A escolha do consumidor dá forma à curva de demanda. (...) A curva de demanda confere autoridade ao consumidor”.
É dessa forma então que a teoria econômica foi esboçada desde seus primeiros passos. A prática do consumo é o determinante do vigor econômico. E vigor econômico é o que todos queremos, não é mesmo?
A economista Diane Coyle em Sexo, Drogas e Economia (leitura imperdível para quem gosta de ler economia fora do padrão acadêmico dos manuais) corrobora com essa afirmação apontando que “o vigor econômico tem a ver com consumo, não com produção”. Nós acrescentamos que o consumo tem a ver com trabalho, que tem a ver com renda...e, quanto mais renda, mais consumo, mais vigor econômico. Entendemos definitivamente que a variável “consumo” é a responsável por puxar qualquer economia para cima. Aqueles que querem que a felicidade esteja relacionada ao consumo certamente acrescentariam que, dessa forma, pela estrita lógica consumista, alargar-se-á a oportunidade de alcançar a felicidade.
Essa parece ser a estrutura econômica balizada pelo consumo. Enganam-se aqueles que pensam que a base do capitalismo é a produção. A base (fundamento) é o consumo. Alguém já disse que acabar com os consumidores é matar a galinha dos ovos de ouro do capitalismo.
Retornando à idéia de felicidade há algo ainda que precisa ser inquirido.
Será mesmo que a felicidade é apenas consumir, consumir e consumir? Será que a felicidade pode mesmo ser comprada qual fosse uma mercadoria disposta em alguma prateleira?
Maximização da utilidade esperada
Embora o dinheiro não compre felicidade, é um pré-requisito para isso. Assim como o trabalho é o pré-requisito para o dinheiro. Em geral, os economistas querem que todos sejam felizes, e não apenas ricos. Até mesmo porque os economistas caracterizam o comportamento das pessoas quando fazem escolhas com base na maximização da utilidade esperada (espera-se escolher a opção que lhe proporciona a maior utilidade média).
Para entramos nessa discussão, convém, antes, lembrarmos que a economia é construída em cima da estrutura da utilidade, como bem aponta Diane Coyle na obra acima citada.
Utilidade (utilitarismo) para os economistas só faz sentido se pensada em forma de benefício, de bem-estar. A base da Teoria do Consumidor passa pelo conceito de utilitarismo. Esse pode ser definido como o bem que se identifica com o útil.
Os utilitaristas – Jeremy Bentham e John Stuart Mill - são claros a esse respeito: “a felicidade está na aquisição daquilo que nos é útil”.
O útil, grosso modo, leva à satisfação, leva ao prazer, leva ao bem-estar. Essa é, em essência, o objetivo do economista: proporcionar oportunidades e escolhas disponíveis a todos no dia a dia, auxiliando o maior número de pessoas na busca de algo fundamental: o bem-estar.
Bem-estar, então, por sua vez, se liga de forma íntima à felicidade. Pelo menos é o que diz a ciência econômica quando recomenda a seus fiéis consumidores que maximizem a utilidade esperada, ou seja, que no ato de tomada de decisões (não somente no ato de consumir) cada indivíduo alcance o maior nível possível de utilidade.
Conquanto, nem sempre essa utilidade está relacionada apenas ao ato de consumir, como parece recomendar a lógica mercadológica. Posso perfeitamente obter utilidade ao encontrar alguém, ao falar com alguém, ao pensar em algo prazeroso, ao ler um poema agradável, ao respirar um ar puro, ao contemplar uma obra de arte ou um monumento público. Estou assim consumindo algo? Sem dúvida; no entanto, não estou tendo nenhum dispêndio para isso. Para desespero do capitalismo, nem sempre um consumo vem seguido de gastos.
Resultados sociais
Se a economia é uma ciência social, nada mais justo que seus resultados apresentem um significado social – e não apenas econômico, como quer a lógica econômico-consumista-mercadológica.
No entanto, esse lado social imerso nessa lógica econômica tem ficado à margem das decisões que priorizam, apenas, e tão somente, o lado econômico. O lado social sempre foi – e continua a ser – relegado a quinto plano.
Pelo lado econômico, o que tem validade são os ganhos financeiros, não os prazeres-utilitários que não envolvem somas de dinheiro. O que interessa, para o lado econômico, é o predomínio econômico-financeiro, não a abrangência social. Essa é a razão da existência de algumas discrepâncias que, em nosso entendimento, beiram a patologia.
O Human Development Report 1998 (p.37) atestava que “o mundo tem recursos mais do que suficientes para acelerar o desenvolvimento humano para todos e para erradicar as piores formas de pobreza do planeta”. Para tanto, a fim de universalizarem-se os serviços sociais básicos bastaria US$ 40 bilhões. Isso significa míseros 0,1% da renda mundial. Isso seria, portanto, o lado social sendo aflorado. Mas não é o que interessa aos grandes grupos que detém e dominam a cena econômica. Passados mais de dez anos do referido Relatório, nada mudou. A lógica econômica continua com a mesma recomendação: vender, vender, vender e, de preferência, excluir o lado social nessa vendas.
Nessa linha de análise as distorções continuam grotescas. Para assegurar educação básica para todos precisaríamos de US$ 6 bilhões, mas não se consegue esse valor. No entanto, os gastos em cosméticos apenas nos EUA são de US$ 8 bilhões ao ano, em média. Para assegurar água e saneamento para todos seriam necessários US$ 9 bilhões. Mas, não há “recursos” para isso. Preferem-se gastar US$ 11 bilhões em sorvetes na Europa. Saúde e nutrição básica para todos exigem cifras de US$ 13 bilhões suplementares por ano. Mas não há “dinheiro” para isso. Como o que predomina é a lógica do consumo sem sentido, a Europa e os EUA juntos gastam, ao ano, US$ 17 bilhões em ração para animais de estimação. Fora isso, apenas no Japão, os executivos se divertem em entretenimentos que “alimentam os desejos da carne” torrando por ano US$ 35 bilhões. Na Europa se gasta US$ 50 bilhões em cigarros e em bebidas alcoólicas todos os anos (em média) e o mundo literalmente “queima” US$ 400 bilhões em narcóticos.
Definitivamente, “o mundo não é uma mercadoria” como nos ensina o professor Henrique Rattner e, “nem tudo está à venda” (everything for sale) como alerta Robert Kuttner, para outra situação de desespero do sistema capitalista.
Logo, a felicidade, nesse sentido, não pode (e nem deve) repousar suavemente sobre o “nobre” ato do consumo exagerado que exige, por conseqüência, elevados dispêndios.
Há algo muito mais interessante que leva à felicidade, ainda que a publicidade nos bombardeie diariamente recomendando o consumo a qualquer custo.
E a economia tem tudo a ver com isso.
Basta atentarmos para o seguinte: onde a economia estará no futuro depende daquilo que milhões de nós faremos nesse meio tempo até lá. Cabe a nós decidirmos o futuro. O futuro nos pertence e a felicidade, certamente, há de nos esperar na próxima esquina abraçada a maximização da utilidade esperada.
(*) Economista, mestre pela USP e professor universitário. Especialista em Política Internacional pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP).
Contato: prof.marcuseduardo@bol.com.br
(Artigonal SC #1387061)
Palavras-chave do artigo:
consumo conspícuo
,utilidade
,utilitarismo
,felicidade
,maximização da utilidade esperada
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El crecimiento económico no es garantía de reducción de la pobreza, pero es absolutamente imprescindible para mantener a la larga la reducción de la pobreza. Además, debe beneficiar a los pobres, para lo cual tiene que generar más oportunidades de obtención de ingresos, de manera que los pobres puedan realizar trabajos productivos y bien remunerados.
Ladislau Dowbor nos diz que “a economia é um meio que deve servir para o desenvolvimento equilibrado da humanidade, ajudando-nos, como ciência, a selecionar as soluções mais positivas, a evitar os impasses mais perigosos”. Em nosso entendimento, a economia só faz sentido de ser e torna-se útil se, e somente se, agrupar em seu intento crescimento econômico (equilibrado), equilíbrio ecológico (meio ambiente sustentável) e progresso social (justiça e equidade).
A relação entre a ciência econômica e a ecologia tem sido cada vez mais, por conta da necessidade do crescimento (?), algo que intimamente não se desvincula. No entanto, essa relação, ao longo do tempo, não tem sido nada amistosa e tem separado, em lados opostos, por conseguinte, duas maneiras de pensar essa relação ao assunto crescimento da economia versus exploração de recursos naturais.
Manfred Max-Neef e Herman Daly são dois economistas que fogem do padrão tradicional das ciências econômicas. Suas análises em relação ao comportamento humano, no que toca a exploração dos recursos naturais são bem críticos. Ambos estão erguendo a voz contra o atual modelo econômico que preconiza um crescimento sem limites e exponencial. Ambos ressaltam as consequências dessa falta de limites, explicando a insanidade econômica que regula esse tipo de intresse: crescer a qualquer preço.
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Há que se pensar numa nova economia, mais solidária, com uma face mais humana, com o coletivo predominando no lugar do individual. Caso contrário, a ganância, expressa na individualidade, vai continuar ganhando esse jogo e estabelecendo, por primazia, sua conduta egoísta que em nada contribui para a prática da solidariedade. Contra a economia-individual, a favor da economia-social-coletiva. Contra uma sociedade desigual, em prol de uma sociedade de iguais.
A ciência econômica carece de verdadeira reformulação em alguns de seus propósitos econômicos. Isso porque a receita econômica tradicional “entende” o crescimento econômico de maneira equivocada; propõe medir a riqueza de uma sociedade erroneamente e, para o cômputo do produto interno bruto (PIB), chega até mesmo a levar em conta as externalidades negativas.

