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O espetáculo da miséria e a miséria como um espetáculo

Por: PAZ DE LIMA, Paulo Junior Ranking do Autor Azul | Publicado em: 24-09-2008 | Comentários: 0 | Acessos: 93 | Avaliação:  (270) Ranking do Artigo Azul (?)

O espetáculo da miséria e a miséria como um espetáculo

 Paulo Junior Paz de Lima*

A ex-BBB e atual atriz Grazi Massafera, a jornalista e apresentadora Fátima Bernardes e outras celebridades, em seus discursos durante a apresentação do “espetáculo do show Criança Esperança” e beneficente, em prol dos órfãos e abandonados, chamados crianças do projeto social – “Criança Esperança” referem-se a essas como “nossas crianças”.

A expressão “nossas crianças” levou-me a fazer uma reflexão: se são nossas, somos todos os pais e mães delas. Logo, somos responsáveis pelo seu bem estar e segurança. No entanto, isso não acontece na prática. Com isso, não deveríamos todos nós, ou pelo menos aqueles que as consideram como suas, sermos processados e/ou denunciados por abandono e maus tratos a essas crianças? Assim, pergunto-me, onde estão as mães das milhares de crianças órfãs, abandadas nos faróis, nas esquinas e vítimas de abuso sexual e prostituição? Somos pais e mães em um único dia do ano, no caso esse, em que se faz a abertura da campanha do projeto Criança Esperança? Se formos pais e mães dessas crianças não deveriam assumir a paternidade e maternidade durante todos os dias do ano? Ou são consideradas como nossas e assumimos como tal apenas diante das câmeras e dos holofotes dos flashes dos Parapazzos e das câmeras televisivas?

Enquanto isso, um donatário doa uma quantia de 1.200 mil panelas e talheres. Pergunto-me, do que servem as colheres e talheres à mesa sem o prato principal, a comida e o pão de cada dia dos excluídos? Na mesma direção, vem outro questionamento. Falam-se dos 60 anos de Direitos Humanos (Marcelo Antony). De que direitos estão falando?

Assisto atentamente ao espetáculo televisivo com um olhar crítico. Ouço frases e palavras proferidas com uma profundidade de um filósofo preocupado com as injustiças sociais. Os textos e as falas são belíssimos, porém, assemelha-se um discurso no vazio, no vácuo. Daí, tudo se perde e se perceber assim, a capacidade do ator de representar. No mesmo sentido e com o mesmo olhar atento, assistimos a crianças, jovens e adultos dividindo o palco do show “Criança Esperança” com várias celebridades. Já que estamos aqui falando em direitos humanos e igualdade entre os homens, pergunto-me, qual foi o cachê dessas crianças e jovens anônimos comparados com os das celebridades? Será que são cachês de mesma proporção? Imagino que sim, caso contrário há alguma coisa desconexa neste reino.

A miséria e a pobreza são realmente espetáculos de público e de audiência televisiva que todo ano ocupa um espaço no horário nobre da Rede Globo. O mais interessante é que, mesmo após 23 anos do projeto “Criança Esperança” e de tanto empenho de várias celebridades em prol de uma causa nobre, o combate à miséria, ao abandono, à exclusão social e ao preconceito racial e de classe, a miséria persiste. E o mais estranho: à miséria e o número de miseráveis aumenta em uma escala progressivamente inversa, apesar dos esforços e intenção dos organizadores do espetáculo de arrecadação e da divisão dos donativos captados pelo projeto “criança esperança”.

Um fato curioso e mais interessante ainda, em meio a todo esse espetáculo que é o show do projeto “criança esperança”, é vermos que os convidados a contribuírem com seus depoimentos de sofrimento, superação e miséria quase sempre, ou sempre, são pretos e pardos observados por olhar de um branco. Os pobres, pardos e pretos estão sempre sob “a lâmina” e sob a óptica do “microscópio branco”, no intuito, de demonstrar, o óbvio.

Mais curioso ainda foi observar que durante todas chamadas para o “espetáculo do show criança esperança” não assistimos e/ou vimos um único negro anunciando a programação e a abertura para o programa exibido no horário nobre e nem mesmo durante o evento (com exceção de um ator negro que só veio aparecer uma semana depois, a exibição do programa). Será que não havia nenhum negro disponível? Ou fora convidado e não aceitou o convite? Ou será que todos os negros famosos estavam todos com problemas vocais, ou seja, disfônicos e não tiveram como participar do espetáculo? Ou será que não temos uma boa dicção? Sinceramente, para mim, este foi um fato dos mais curiosos, para não dizer bizarro.

Acredito não ser necessário assistir anualmente ao espetáculo do show “criança esperança” para constatar a realidade brasileira. É só abaixar o “vidro fumê” do seu carro brindado, quando estiver se deslocando pelas ruas e sempre que o sinal vermelho do semáforo lhe obrigar uma curta parada no farol. Aproveite para olhar para os lados e para constatar a dura realidade, se isso não lhe causar asco ou risco, é claro. Verão que do lado de fora do seu carro brindado quase sempre, ou sempre, haverá um não branco fazendo malabarismo, vendendo balas, flanelas, águas, biscoitos ou uma jovem mãe (também negra) com uma criança de colo pedindo esmola. E algumas vezes, em dia de não muita sorte – para você é claro, porque a dele é construída diariamente – encontrará um cidadão com uma arma na mão dizendo: “perdeu vacilão, assalto, passa tudo”. Não se esqueça que essa arma fora colocada nas mãos deste cidadão por um não branco.

Não quero aqui justificar a violência e, sim, levar o leitor a uma reflexão e um pensar crítico de sua causa. Neste sentido, destaco que o cidadão que lhe abordou, apenas porta a arma e pode até puxar o gatilho dependendo da sua reação. Arma essa, colocada nas mãos dele pela exclusão social, pelo racismo brasileiro disfarçado pela política de cultura de paz e multiculturalismo, pela falta de oportunidade e pela falta de políticas públicas voltadas para a população carente e miserável, abandonadas a própria sorte e ao caos social.

“A vida é muito simples”, diz o apresentador e humorista Renato Aragão durante o espetáculo em prol das crianças vitimizadas pela miséria, exclusão social e pelo racismo disfarçado que acomete o povo pobre e negro brasileiro.

Isso me leva a pensar na belíssima música “Haiti” de Caetano Veloso e Gilberto Gil. A vida é simples para quem a final? Para o apresentador? Para as celebridades presentes no espetáculo? Para os políticos desse País? Ou para a Burguesia nascida em berço de ouro? Resta saber a que custo foi tal enriquecimento. Nem precisa ser bom conhecedor e historiador para conhecer a procedência dela. Para esses grupos não tenho dúvida que seja, já para os trabalhadores que levantam 4 ou 5 horas da manhã, todos os dias, para trabalhar e que  enfrentam um transporte coletivo lotado e precário, não é? Seria a vida simples para os moradores de rua e os detentos, como diz Caetano e Gil “quase pretos. (E são quase todos pretos). E aos quase brancos pobres como pretos. Como é que pretos, pobres e mulatos. E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados. E não importa se os olhos do mundo inteiro... Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres. E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos”?

Não esqueçamos que o caos social e a violência que hoje atinge a todos nós brasileiros, já há muito tempo faz parte da paisagem, da vida cotidiana e da realidade do povo pobre, que na sua maioria é composta por pretos e pardos.  Porém, todo esse caos social e de violência era quase que invisível, sendo compartilhados apenas por seus pares e vítimas da violação do estado de direitos. Atualmente, sua visibilidade é geral, equivale não mais somente à classe pobre, é claro, uma vez que todos nós somos vítimas e as conseqüências disso foram os vários anos de miopia coletiva da burguesia e dos lideres políticos brasileiros que trataram o povo pobre, pretos e pardos como coisa e/ou massa de manobra, sem lhe dispensar um olhar como deveria. Daí, o preço a ser pago.

E para finalizar, resta-nos saber se o Brasil irá continuará com essa política assistencialista e distribuindo migalhas para aqueles aquém, na verdade, deveriam receber o todo, principalmente, dignidade e respeito.

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Perfil o autor:

Mestre em Saúde Pública, pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, Psicólogo, Psicanalista, Especialização Saúde Mental – Teoria Psicanalista, pela FSP/USP, Aprimoramento em Saúde do Trabalhador, pelo CEREST/SP. Estágio: Bolsa Sanduíche – Psicologia da Saúde, na Universidade do Minho – UMinho, Portugal. Ex-Bolsista do Programa Internacional de Bolsas de Pós-Graduação da Fundação Ford – IFP

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