A Escola Regular e a Educação Especial

Publicado em: 27/11/2010 |Comentário: 0 | Acessos: 7,246 |

INTRODUÇÃO

 

A educação de crianças com Necessidades Educacionais Especiais é uma realidade presente nas escolas públicas e particulares do Brasil, porém o que se vê são crianças que necessitam de atenção especial em seu processo de ensino sendo matriculadas nas redes regulares de ensino público e privado, com professores e demais profissionais despreparados para atender às necessidades específicas destes alunos, ou seja, a Constituição Federal de 1988 e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei 9394/96) determinam que alunos com de necessidades educacionais especiais sejam matriculados em escolas regulares, o que de fato está acontecendo, porém, os profissionais da educação, incluem-se aí, professores, equipe administrativa e operacional da escola, se sentem despreparados para atender a alunos com necessidades educacionais especiais. Neste contexto, é preciso verificar, pesquisando na literatura científica, até que ponto as escolas, os professores, as famílias e todos os que estão envolvidos no contexto escolar estão preparados para atender a esta nova demanda.

Esta pesquisa teve como objetivo verificar as condições da escola regular em atender a legislação e, principalmente, ao aluno portador de necessidades educacionais especiais, através de pesquisas bibliográficas a cerca do tema, traçando um panorama sobre o tema.


DESENVOLVIMENTO

A educação é ato fundamental para o desenvolvimento e socialização do indivíduo, uma vez que, além de conteúdos formais, a escola promove a interação entre alunos, professores e demais profissionais do contexto escolar, o que é de fundamental importância para o crescimento e desenvolvimento cognitivo e social da criança. CARVALHO (2010) entende a educação como tarefa complexa, abrangente que se destaca devido a sua profundidade e influência na existência humana.

Severino (1992, in CARVALHO, 2010) diz que "o processo educativo, desde o surgimento do homem, é a prática fundamental da espécie, distinguindo o modo de ser cultural dos homens com o ser natural dos animais", uma vez que, a principal diferença entre o ser humano e o animal é a capacidade de usar sua inteligência de forma racional e planejada sem, necessariamente, ter relação com atos biológicos.

 

A maior parte dos atos humanos não se baseia em inclinações biológicas. Ao contrário, de modo geral, a ação do homem é motivada por complexas necessidades, tais como: necessidade de adquirir novos conhecimentos, de se comunicar, de ocupar determinado papel na sociedade, de ser coerente com seus princípios e valores, etc. (REGO, 1995, p.45)

 

CARVALHO (2010) concorda com Severino (1992) e acrescenta que "a educação é ato pedagógico e político, que o traço mais marcante nas correntes teóricas atuais, a valorização da pessoa do educando como aprendiz e como ser histórico, político e social, isto é, como cidadão".

Neste sentido, é preciso lembrar que cidadãos são pessoas e que pessoas são diferentes, o que nos remete a pensar que no ambiente escolar "alguns alunos demandam, em seu processo de aprendizagem, de auxílios ou serviços não comumente presentes na organização escolar", é o que Souza e Prieto (2007) classificam como "especial" na educação.

A Constituição Federal de 1988 (CF88) e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN 9394/96) tratam das especificidades de "educandos com necessidades especiais" (LDB).

O Artigo 208, inciso III da CF88, garante o "atendimento educacional especializado aos com deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino", reiterando aqui o direito de todos à educação.

Na LDB, as disposições sobre educação especial estão no capítulo V, artigos 58 a 60.

 


CAPÍTULO V

Da Educação Especial

 

Art. 58º. Entende-se por educação especial, para os efeitos desta Lei, a modalidade de educação escolar, oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, para educandos com necessidades especiais.

§ 1º. Haverá, quando necessário, serviços de apoio especializado, na escola regular, para atender às peculiaridades da clientela de educação especial.

§ 2º. O atendimento educacional será feito em classes, escolas ou serviços especializados, sempre que, em função das condições específicas dos alunos, não for possível a sua integração nas classes comuns de ensino regular.

§ 3º. A oferta de educação especial, dever constitucional do Estado, tem início na faixa etária de zero a seis anos, durante a educação infantil.

Art. 59º. Os sistemas de ensino assegurarão aos educandos com necessidades especiais:

I - currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organização específicos, para atender às suas necessidades;

II - terminalidade específica para aqueles que não puderem atingir o nível exigido para a conclusão do ensino fundamental, em virtude de suas deficiências, e aceleração para concluir em menor tempo o programa escolar para os superdotados;

III - professores com especialização adequada em nível médio ou superior, para atendimento especializado, bem como professores do ensino regular capacitados para a integração desses educandos nas classes comuns;

IV - educação especial para o trabalho, visando a sua efetiva integração na vida em sociedade, inclusive condições adequadas para os que não revelarem capacidade de inserção no trabalho competitivo, mediante articulação com os órgãos oficiais afins, bem

como para aqueles que apresentam uma habilidade superior nas áreas artística, intelectual ou psicomotora;

V - acesso igualitário aos benefícios dos programas sociais suplementares disponíveis para o respectivo nível do ensino regular.

Art. 60º. Os órgãos normativos dos sistemas de ensino estabelecerão critérios de caracterização das instituições privadas sem fins lucrativos, especializadas e com atuação exclusiva em educação especial, para fins de apoio técnico e financeiro pelo Poder Público.

Parágrafo único. O Poder Público adotará, como alternativa preferencial, a ampliação do atendimento aos educandos com necessidades especiais na própria rede pública regular de ensino, independentemente do apoio às instituições previstas neste artigo.

 

Neste capítulo, temos a exposição sobre o entendimento legal a cerca da educação especial contemplando as diretrizes para o atendimento de crianças portadoras de deficiência na escola regular incluindo currículo, técnicas pedagógicas e a formação do profissional que atuará na educação especial, direcionando responsabilidades para tal modalidade, porém, mesmo com as bases legais da educação da especial, segundo CARVALHO (2010):

 

(...) certamente não são poucas as resistências, sejam as dos familiares, dos professores da educação especial e dos próprios alunos (...) a resistência dos professores e de alguns pais é por eles explicada em razão da insegurança no trabalho educacional escolar a ser realizado nas classes regulares com alunos com deficiência (...) familiares referem-se ao temor que a inserção de seus filhos nessas classes não contribua, da maneira, na intensidade desejada, para sua aprendizagem (...) os professores alegam que em seus cursos de formação, não tiveram a oportunidade de estudar a respeito nem de estagiar com alunos de educação especial.

 

O que se percebe, então, é que a legislação garante o atendimento de alunos com necessidades educacionais especiais preferencialmente na rede regular de ensino, o que acarreta numa demanda cada vez mais crescente nas redes regulares de ensino público e privado de alunos que possuem algum tipo de necessidade educacional especial.

Por outro lado, o que se vê, são escolas regulares recebendo estes alunos sem estrutura física e profissional que lhes possa oferecer uma educação adequada. Esta falta de preparo tem sido o grande dilema do corpo docente e administrativo de escolas públicas e particulares e também das famílias que não sabem se seus filhos terão uma educação adequada.

De acordo com Mantoan (2006, in Arantes, 2006), atender a lei não garante o direito de todos à educação, é preciso um entendimento mais profundo das questões que envolvem especialmente a família tais como a fragilidade e a ignorância em lidar com a deficiência de suas crianças, pois algumas famílias tem dificuldade em aceitar a deficiência de seu filho e de procurar atendimento e encaminhamento adequados.

O que nos remete a considerar como naturais os temores a cerca da educação especial, uma vez que se trata de um assunto relativamente novo na escola regular e segundo CARVALO (2010), "o novo assusta e mudança é um processo lento e sofrido", acrescentamos a este pensamento as palavras de Paulo Freire que, em sua Pedagogia da Autonomia, diz que "ensinar exige risco, aceitação do novo e rejeição a qualquer forma de discriminação", afinal o professor é um dos principais pilares da educação especial e ele precisa ter o discernimento de perceber que este novo perfil de aluno que entra em sua sala de aula precisa receber sua atenção sem discriminação, assim como os demais alunos de sua sala.

Um dos mecanismos para o sucesso da educação especial está na formação do professor, cursos de licenciatura regulares não possuem em seus currículos a formação específica na área de educação especial, daí boa parte da insegurança por parte dos professores em trabalhar com alunos deficientes. Com relação a esta questão, CARVALHO (2010) observa que "em vez de má vontade há temor de não poderem ser úteis aos alunos".

A LDB em seu artigo 59, inciso III dispõe sobre o profissional da Educação Especial afirmando que o professor deve ter especialização adequada em nível médio ou superior.

Segundo Sousa e Prieto (2007, p. 125):

 

Tal constatação causa estranheza quando se trata de um profissional que, para além do domínio de habilidades exigidas para o exercício profissional no ensino comum, deverá ter a qualificação para realizar o ‘especial' da educação.

 

O professor que trabalha com educação especial precisa ser um pesquisador, uma vez que deficiências são distintas e podem se apresentar em diferentes níveis, por isso a estranheza com relação ao entendimento do inciso II do artigo 59, afinal a formação em nível médio e as licenciaturas não contemplam, como já dito anteriormente, o estudo sobre a educação especial.

A formação profissional do docente pode ser considerada como um dos fatores de maior importância quando se fala em educação especial ou inclusiva, pois:

 

O professor, quando se sente pouco competente para facilitar a aprendizagem dos alunos com necessidades educativas especiais, tenderá a desenvolver expectativas mais negativas (...). O aluno, por sua vez, terá mais dificuldades em resolver as tarefas propostas, o que reforçará as expectativas do professor. (COLL et al, 2004, p.44)

 

Neste sentido, observa-se que um dos caminhos para eliminar o desconforto causado pela insegurança em trabalhar com alunos com necessidades educacionais especiais é a formação e pesquisa por parte do profissional que atuará com este aluno, tendo em vista que a formação regular é deficitária neste aspecto, deve-se recorrer aos cursos em nível de pós-graduação e especialização para um entendimento e pesquisa mais específicos para a área.

É necessário ressaltar também que as políticas públicas acerca da Educação Especial são uma realidade já vivenciada nas escolas regulares do Brasil, não basta apenas que as autoridades competentes criem mecanismos de inclusão, se faz necessário que o professor e a organização escolar se apropriem dessa realidade e busquem formas de vivenciar essa nova situação, pois, mais uma vez lembrando Paulo Freire, "ensinar exige pesquisa".

Segundo Cartolano (1998, p. 04):

 

O profissional que trabalha com educação especial deve ser, em primeiro lugar, bom professor: qualificado, dono de um saber reconhecido socialmente, e competente no seu métier. Além disso, há de ser também um profissional voltado para as práticas sociais vigentes, dotado de uma consciência lúcida de sua realidade histórica e dos problemas dela emergentes.

 

De acordo com CARVALHO (2010), se faz necessária a compreensão das redes de habilidades e competências dos professores para que possam analisar as ações pedagógicas da escola num trabalho conjunto de interdiscidisciplinar.

A interdisciplinaridade está presente na maioria das propostas pedagógicas das escolas que passam a ter um papel diferenciado no contexto da inclusão de crianças com necessidades educacionais especiais, pois se deparam com a necessidade da implantação de sistemas e propostas educacionais interdisciplinares que considerem as necessidades dos alunos, das famílias e apoiando o corpo docente para que o trabalho seja realizado da forma satisfatória a todos os envolvidos no contexto da educação especial, além de garantir a convivência e a interação entre todos os alunos tenham eles ou não necessidades educacionais espeiciais.

 

O fundamento ideológico das escolas inclusivas não procede principalmente das vantagens que pode ter para os alunos com problemas de aprendizagem uma educação comum, nem da necessidade de uma reforma da educação especial. Sua base situa-se na declaração universal dos direitos humanos. (COLL et al, 2004, p. 26)

 

Mantoan (2006, in Arantes, 2006) salienta que algumas escolas já adotam ações que propõem mudanças no sentido de reconhecer as diferenças sem discriminar ou segregar seus alunos realizando trabalhos não apenas pedagógicos, mas também voltados para a inclusão destes alunos no contexto escolar não contemplando apenas a criança portadora e deficiência como também os demais alunos no sentido de reconhecer e aceitar o diferente, o que se mostra bastante válido, uma vez que o convívio entre as crianças e delas com os adultos auxilia no desenvolvimento afetivo, cognitivo e social da criança.

É preciso lembrar que, conforme Sousa e Prieto (2007) que nem todo aluno com deficiência requer condições diferenciadas das existentes para dos alunos comuns, ou seja, estes podem ser bem atendidos mediantes aos processos regulares de educação.

Mazzotta (1982, in Souza e Prieto, 2007), ressalta que as características dos alunos e principalmente as condições gerais do atendimento prestado na escola comum é que indicarão a necessidade ou não de serviços educacionais especiais.

 

(...) o problema não está em analisar em que condições os alunos com necessidades educativas especiais podem ser escolarizados na escola regular; o compromisso é garantir uma educação de qualidade a todos eles e realizar as transformações que sejam necessárias para conseguir isso. (COLL et al, 2004, p. 26)

 

Neste contexto, a necessidade de recursos especiais na escola comum depende não apenas das necessidades do aluno, mas também da estrutura física e pedagógica da escola, da formação do professor que trabalhará diretamente com este novo alunado e dos demais profissionais que trabalham na escola fora da sala de aula.

A preparação de todos os envolvidos no contexto escolar é importando no sentido não apenas do atendimento adequado aos alunos sejam eles portadores ou não de necessidades educacionais especiais, como também no sentido de perceber que as deficiências são distintas e podem se apresentar em diferentes estágios. Desta forma, a escola se torna um importante elo da corrente que deve estar conectado aos demais, tais como a família e os profissionais que atendam a estes alunos e o poder público, num trabalho consistente e sério que garanta a real educação a todas as crianças.


CONCLUSÃO

Os mecanismos legais que garantem acesso da pessoa portadora de necessidades especiais existem em todas as esferas da sociedade, inclusive na escolar, porém atender a legislação vigente não garante uma educação de qualidade para os alunos com necessidades educacionais especiais, é preciso um trabalho sério e consciente.

Uma das principais idéias de Vygotsky afirma que para o desenvolvimento de sua inteligência o ser humano necessita interagir com seu meio social e cultural, desta forma, entende-se que a proposta de educação especial é válida, uma vez que tais interações podem ser extrema riqueza não apenas para o aluno portador de necessidades especiais, como para seus colegas e professores, mas para que estas interações aconteçam de forma favorável a todos, o professor precisa estar preparado para conduzi-las.

Portanto cabe ao professor buscar a formação específica para que possa saber como trabalhar com este novo aluno que entra em sua sala de aula regular, pesquisando sobre as especificidades daquele aluno e de outros que virão para a escola regular.  Da mesma forma, a organização escolar precisa oferecer subsídios para o trabalho e pesquisa deste professor que terá alunos portadores e não com necessidades educacionais especiais.

Conclui-se então que a educação especial não é uma coisa estática, uma vez que deficiências e necessidades são específicas e podem se apresentar em diferentes níveis e estágios. Para um real atendimento a esta crescente demanda no ambiente escolar, se faz necessário um trabalho conjunto de todos os níveis envolvidos no contexto escolar, ou seja, poder público, família, escola pública ou privada, de forma a tirar a educação especial da esfera legal e a transferir para a esfera educacional de forma a garantir plenamente o direito de todos à educação.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ARANTES, Valéria Amorim (org.). Inclusãoescolar: pontos e contrapontos. São Paulo; Sumus, 2006.

 

BRASIL. Congresso Nacional. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado Federal/ Centro Gráfico, 1988.

 

________. Lei 9.394 de 20 de Dezembro de 1996. Estabelece Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília, 1996. Disponível em: <http//www.soleis.adv.br>. Acesso em 14 de outubro de 2010.

 

CARTOLANO, Maria Theresa Penteado. Formação do educador no curso de pedagogia: a educação especial. Campinas: vol. 19 n. 46 set. 1998. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-32621998000300004&script=sci_arttext&tlng=es> Acesso em: 19 de out. de 2010.

CARVALHO, Rosita Edler. Educação inclusiva: os pingos nos is. Porto Alegre: Mediação, 2010.

 

COLL, Cesar; MARCHESI, Álvaro (et al). Desenvolvimento psicosociológico e educação: transtornos de desenvolvimento e necessidades educativas especiais. 2 ed. Porto Alegre: Artmed, 2004.

 

FRIERE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

 

OLIVEIRA, Romualdo Portela de; ADRIÃO, Theresa (orgs.). Organização do ensino no Brasil: níveis e modalidades na Constituição Federal e na LDB.São Paulo: Xamã, 2007.

 

REGO, Teresa Cristina. Vygotsky: uma perspectiva histórico-cultural da educação. 17 ed. – Petrópolis: Vozes, 1995.


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    Fonte do Artigo no Artigonal.com: http://www.artigonal.com/educacao-artigos/a-escola-regular-e-a-educacao-especial-3743865.html

    Palavras-chave do artigo:

    especial legislacao escola familia atendimento

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