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A Filosofia Hoje
Por: NERI DE PAULA CARNEIRO  | Publicado em: 06-05-2008 | Comentários: 0 | Acessos: 362 | Avaliação: (867) (?)
 A Filosofia Hoje
Vamos fazer um brevíssimo vôo sobre a Filosofia nos dias atuais.
Entendemos por filosofia a razão buscando maior compreensão do real. O Mito também é uma forma de explicação, mas com características simbólicas, fantásticas, religiosas e sem a racionalidade própria da filosofia. Esta, por sua vez, apresenta os enunciados com base na coerência, razoabilidade e lógica de raciocínio. A verdade de uma realidade do ponto de vista filosófico é atingida pela veracidade da argumentação e razoabilidade dos argumentos. Por isso podemos dizer que a filosofia se ocupa com uma explicação sistemática do real.
Entretanto não podemos deixar de dizer que o senso comum também é uma forma não só das pessoas se relacionarem com o real, como também uma forma de conhecimento. Assim sendo, se podemos falar em conhecimento mítico-religioso e conhecimento filosófico, podemos falar, também, em conhecimento do senso comum.
a- SENSO COMUM
Vamos partir de uma afirmação aparentemente simples: o cotidiano não se explica apenas pelo binômio filosofia-mito ou filosofia-ciência. Mesmo por que nem todas as pessoas se dedicam a criar mitos ou a análises filosóficas e poucos são os que se dedicam à pesquisa científica. Como, então, a maioria das pessoas se relaciona com as realidades? Já que não estamos mais em tempos de explicações míticas, o cotidiano das pessoas é preenchido com explicações do senso comum.
Mas o que é isso que chamamos de SENSO COMUM?
Existem várias respostas. Rubem Alves diz que prefere não definir. Apresenta, entretanto algumas noções. Começa dizendo que “senso comum é aquilo que não é ciência e isso inclui todas as receitas para o dia-a-dia, bem como os ideais e esperanças que constituem a capa do livro de receitas” (ALVES, 1982, p. 14. Grifo no original).
Primariamente pode-se dizer que senso comum é aquela explicação do povo para o povo. Ou seja, aquele que se baseia numa subjetividade que se generaliza: o que uma pessoa pensa ser a verdade, através do diálogo acrítico, passa a ser visto como "verdade" de um grupo de pessoas ou mesmo de uma coletividade. Também se pode dizer que senso comum é a compreensão popular de algum aspecto da realidade. Compreensão essa que se caracteriza por ser contraditória, parcial, preconceituosa, fragmentada, tende a absolutizar um ponto de vista. Essa tendência absolutizante empresta ao senso comum uma característica dogmática (CHAUÍ, 2001). Também se pode dizer que o senso comum é uma primeira impressão sobre uma determinada realidade.
O senso comum não possui uma elaboração lógico-sistemática. Pode conter verdades, pode ser parcialmente ou completamente verdadeira, mas não se fundamenta na comprovação nem na razoabilidade das argumentações, mas na opinião. São as informações e opiniões informais que ouvimos ou emitimos nas conversas do dia-a-dia, sem a preocupação lógico-comprobatória. Baseia-se, em geral, num consenso popular e nas opiniões.
Muitas vezes as afirmações do senso comum são sintetizadas nos ditados populares, que podem ou não possuir verdades: "Homem que é homem não chora"; "Filho de peixe, peixinho é"; "Tal pai, tal filho"; "Lugar de mulher é na cozinha".
O Senso comum também pode conter os saberes populares, como nestes casos: "chá de folha ou broto de batata doce desinfecciona dente"; "água com açúcar ajuda a acalmar, depois de um susto"; "chá de goiaba cura diarréia". Em razão disso podemos dizer que assim como a filosofia, “o senso comum e a ciência são expressões da mesma necessidade básica, a necessidade de compreender o mundo a fim de viver melhor e sobreviver.” (ALVES, 1982, p. 20)
Qual o interesse da filosofia, sobre o senso comum? Acontece que a afirmação vem do sendo comum, mas a análise do seu significado pode ser um trabalho filosófico. Esse é o papel da filosofia: buscar a veracidade de cada afirmação, tanto da ciência, como da religião ou, neste caso, do senso comum.
Portanto, cabe à filosofia questionar, por à prova as afirmações do senso comum, buscando entender seu significado, suas origens, sua verdade ou parcialidade. A partir da crítica filosófica ou científica pode-se confirmar ou desmistificar afirmações do senso comum. Afirmar o que é pertinente e desmistificar equívocos, mas isso sendo feito não como quem detém a verdade, mas com a finalidade de ampliar os horizontes, com novos conhecimentos e novas possibilidades.
Eis um exemplo de tentativa de superação de uma visão de realidade. Trata-se de entender a afirmação de que “passar debaixo de uma escada dá azar”. Em que se baseia essa afirmação? Pode ter acontecido que ao passar debaixo de uma escada, determinada pessoa tenha se acidentado e, ao comentar o fato, estabeleceu-se a ligação: escada-acidente-azar. Aí entra a filosofia: primeiro questionando a validade dessa ligação. Depois questionando até mesmo o conceito azar. O que é azar? Existe azar? Isso que se chama de azar, não se trata apenas de um conjunto de circunstâncias? Ocorrendo o inverso do azar, as circunstâncias levariam ao que se chama de sorte?
b- SENSO COMUM, FILOSOFIA E EDUCAÇÃO
Como então relacionar o senso comum e a filosofia, sabendo que a filosofia é um processo de busca de conhecimento e que o senso comum é um tipo de conhecimento do cotidiano? Talvez dizendo que enquanto a filosofia se pauta pela busca o senso comum se caracteriza pela posse de um saber cristalizado.
Além disso, todas as pessoas possuem conhecimentos do senso comum. Cabe à reflexão crítica da filosofia (ou à ciência) questioná-lo. Entretanto, no seu dia-a-dia tanto os filósofos profissionais como os cientistas falam e se expressam com "conceitos" do senso comum. O mesmo pode-se dizer com relação a qualquer atividade profissional, à escola e ao processo educativo: Todas as práticas pedagógicas têm pelo menos alguns aspectos de Senso Comum. Ninguém é isento disso. Não por negligência ou por maldade, mas por que ninguém é crítico o tempo todo em todos os aspectos da vida. E, baseado nisso pode-se afirmar que à prática pedagógica também se aplica esta premissa e que, conseqüentemente, em todas as práticas pedagógicas – ou no cotidiano escolar – está presente o Senso Comum.
A mesma afirmação vale para todas as outras atividades profissionais. “Funcionários, de empresas, empresários, especialistas de qualquer área, inclusive cientistas podem estar restritos a formas fragmentárias do senso comum quando se acham presos a preconceitos, a concepções rígidas, quando sucumbem à ação massificante dos meios de comunicação de massa” (ARANHA; MARTINS, 1997, p. 35).
Como se comprova isso? Tomemos um exemplo do âmbito da educação: Quando um professor que se assume como conservador e dá seus motivos, bem fundamentados, a partir de leituras e de estudos, justificando sua prática conservadora, ele está sendo mais crítico do que o "porra louca" que se diz libertador, ou que assume a “pedagogia de Paulo Freire”, ou que é construtivista ou isto e aquilo..., mas que não tem fundamentação teórica para suas aventuras pedagógicas. Não lê, não estuda, não evolui. Fala e age por ouvir falar ou por que está na moda essa ou aquela tendência, mas na verdade desconhece em suas particularidades teóricas. Assim sendo o conservador não está dentro do Senso Comum por que fala e age a partir de uma fundamentação teórica; mas o "libertador" está se baseando no senso comum, pois lhe falta fundamentação. Fala não por que sabe mas por outras motivações e modismos. Em outras atividades profissionais também ocorre o mesmo: um médico que não se atualiza, com cursos, congressos e estudo pessoal, com o transcorrer do tempo passará a agir não mais a partir de uma fundamentação científica, mas do senso comum.
Com isso dizemos que o Senso Comum não se encontra nesta ou naquela corrente ou prática pedagógica, nesta ou naquela postura profissional, neste ou naquele argumento, mas está na falta de fundamentação teórica, na falta de estudo, na falta de leituras. Da mesma forma a superação do senso comum não se dá pela passagem de uma corrente ou postura para outra, mas pela qualificação, pela fundamentação, pelo estudo, pela dimensão teórica e crítica da prática. A superação do senso comum ocorre pelo estudo, da mesma forma que a entrada no senso comum se dá pela falta de aprofundamento.
A superação do senso comum, segundo afirmam as professoras Martins e Aranha (1997) se dá quando desenvolvemos o bom senso. Esse processo não se dá somente pela racionalidade científica ou filosófica, dizem as autoras. “O primeiro estádio do conhecimento precisa ser superado em direção a abordagem crítica e coerente, características estas que não precisam ser necessariamente atributos de formas mais requintadas de conhecer, tais como a ciência ou a filosofia. Em outras palavras, o senso comum precisa ser transformado em bom senso, este entendido como a elaboração coerente do saber e como explicação das intenções conscientes dos indivíduos livres” (ARANHA; MARTINS, 1997, p. 35, grifo no original).
Neste aspecto também pode ser lembrado o conto “O Segredo de Bresa”, de Malba Tahan, que mostra um personagem obcecado por um tesouro que, segundo um antigo livro, estaria escondido. E para localizá-lo o leitor do livro precisaria decifrar todos os segredos do livro. Em sua desesperada busca o homem estudou todas as ciências e se tornou um sábio e, merecedor de altos postos de comando e, com isso, conseguiu muita riqueza. Ao final, depois de anos de leitura e de estudo chegou ao fim do livro sem descobrir o mapa do tesouro escondido. Consultou, então outro sábio para melhor orienta-lo e ouviu do guru: “o tesouro de Bresa já está em vosso poder, meu senhor. Graças ao livro misterioso é que adquiristes um grande saber, e esse saber vos proporcionou os invejáveis bens que já possuis. Bresa significa ‘saber’. Harbatol quer dizer ‘trabalho’. Com estudo e trabalho pode o homem conquistar tesouros maiores que os que se ocultam no seio da terra ou sob os abismos do mar” (TAHAN, 2006, p. 49)
Podemos dizer que todas as pessoas são possuidoras de saberes. E que muitos desses saberes são originários do senso comum. Sendo assim é inconcebível que alguém em nome de um saber, qualquer que seja ele, se coloque acima de outros pretendendo que esses outros aprendam de sua sabedoria. Como medida de superação contra essa falsa sabedoria é que encontramos na boca de Sócrates a afirmação célebre: “Sei que nada sei”. No diálogo com os sofistas teria dito: “Sou mais sábio que esse homem. É provável que nenhum de nós dois saiba algo de nobre e bom. Mas ele não tendo conhecimento pensa que sabe algo. Eu não tenho e não penso que tenho. Ele pensa que sabe e não sabe. E não sei e sei que não sei.”
Aquela pessoa que procura maneiras diversificadas para ajudar o outro a aprender e faz isso por que aprendeu que o seu aprendiz é uma pessoa que tem seus saberes que precisam ser respeitados, mas que podem ser ampliados, superou o senso comum com a sensatez. Age respeitosamente porque seu agir parte de uma fundamentação, de uma base teórica que o leva a entender que todo aprendizado é um processo. Aqui está presente a postura de quem sabe e sabe que tem algo a oferecer e por isso respeita aquele que ainda não aprendeu.
Em síntese: está no Senso Comum todo aquele que age sem estudo, sem saber conceituar as bases de sua ação; supera o Senso Comum aquele que busca fundamentação conceitual para sua prática. Mas, também é bom lembrar, que constantemente, em algum momento, em alguma postura ou afirmação, pode-se cair no senso comum. Um caminho para se saber quando se está no Senso Comum ou numa postura Critica é perguntar: baseado em quê se está tomando esse caminho?
c- FILOSOFIA: POR QUÊ
Aqui nos colocamos diante de uma característica diferenciadora, que faz com que a filosofia seja diferente tanto da ciência como do senso comum ou da religião.
Em geral se pergunta "para que serve" determinada realidade? A questão é pragmática, utilitarista. Coloca-se o critério da utilidade acima de tudo: tem utilidade? Então é algo bom que pode e deve ser preservado. Não tem utilidade? Então não presta e deve ser descartado, extinto.
Com base nisso a pergunta é feita à filosofia: qual é a utilidade da filosofia? E a constatação é imediata: a filosofia não tem utilidade prática nenhuma. Ao menos nenhuma aparente! E sendo assim, algo sem utilidade, o destino da filosofia é o lixo: tanto na escola como na sociedade.
E o bom disso é que a filosofia não se defende. Não sai, por aí, gritando suas virtudes. Apenas e humildemente pergunta: Por quê? Essa é sua defesa: a indagação!
Sobre a importância da filosofia podemos ler a comparação entre este saber e a ciência desenvolvida por R. Gomes (1982). Diz ele que a ciência, em nossos dias “assumiu um caráter pragmático: seu valor é o de seus resultados em termos de técnica. [...]. O cientista é, do ponto de vista do vigente, dispensado de defender a cidadania da ciência.” (GOMES, 1982, p. 29). Mas o autor continua ao dizer que “As coisas mudam quando tratamos da filosofia. [...]. Na filosofia nos deparamos com um modo de colocar a existência em questão” (GOMES, 1982, p. 30)
Por que existe essa forma de pensar sobre a filosofia? Por que há uma visão preconceituosa a respeito da filosofia? Por que existe aversão à filosofia? E, quando ela é assumida, ou defendida, dentro de um programa escolar, por exemplo, por que isso acontece? Por que é colocada no inicio de um curso de graduação?
O fato é que a filosofia põe a realidade em questão. Podemos dizer que a filosofia não se ocupa com as aparências nem com a utilidade (para que serve), mas com a essência (o que é) dessa realidade. Uma mesa é bem aceita por que é útil: sobre ela são colocados pratos e talheres; papéis e livros. A mesa é útil. Mas não é esse o interesse da filosofia. O cotidiano já definiu a praticidade, a utilidade... por isso a filosofia, só faz uma pergunta, que acaba gerando outras: o que é a mesa? Por que na mesa de alguns há pratos e talheres e noutras mesas isso não existe? Por que em algumas mesas há o que comer e em outras residências nem mesa existe, menos ainda alimento? Por que alguns têm mesa para estudar ou trabalhar enquanto outros não têm acesso ao estudo ou ao trabalho? Por que o que não tem estudo não tem as mesmas chances de trabalho e as mesmas condições de alimentação, que o outro que estudou?
Continuando a reflexão poderíamos dizer que a primeira preocupação da filosofia é a afirmação do real. Ao colocar a questão: o que é isso? a filosofia está afirmando que essa realidade existe – se não existisse não poderia ser colocada, como questão! A partir dessa afirmação-constatação, começam os questionamentos: o que é essa realidade? Qual o sentido de sua existência? O que faz com que isso seja assim e não de uma outra forma possível? Qual a relação dessa realidade com a vida sócio-político-econômica das pessoas? Por que essa realidade é vista dessa forma e não de outras formas possíveis? Ou não é possível ver essa realidade de outra forma? Por que não? Pessoas com formação e situação sócio-econômicas distintas podem ver a mesma realidade e tirar as mesmas conclusões?
Com isso já teríamos elementos para outra investigação: por que existe esse preconceito com relação à filosofia? Qual a razão de ter se formado uma visão contrária à filosofia? O que fez com que, num determinado período da história do país, a filosofia fosse banida da escola? E por que retornou à grade curricular nos vários níveis escolares? É verdade que a filosofia é privilégio de intelectuais? Por que se criou essa mentalidade?
O fato é que a filosofia, despretensiosamente, começa questionando a realidade imediata e manifesta. Não pela realidade em si, nem somente para evidenciar a nudez dessa realidade, negada pela acomodação – lembremo-nos do conto em que em que somente a criança viu a nudez do rei. E isso ocorreu por que a criança não tinha nenhum interesse a defender nem a esconder. Ela pode ser verdadeira e manifestar sua opinião, sem medos de reprimendas.
A filosofia questiona a realidade por que, simplesmente quer desvelar o que está por trás do evidente. Pode-se dizer, também, de outra forma: à filosofia interessa saber a quem interessa que a realidade seja vista dessa forma que se evidencia, ocultando outras, possíveis. Por exemplo, a maioria das pessoas aceita, passivamente a afirmação de que o trabalho dignifica o homem. Com isso as pessoas são levadas a desmerecer os que não trabalham. E, em geral, pára-se nessa constatação. Mas quantas pessoas já se deram ao luxo de parar para pensar sobre o por quê de algumas pessoas não poderem trabalhar? Se o trabalho dignifica o homem, quem não trabalha não é digno? Por que não existe oportunidade de trabalho para todas as pessoas de forma igualitária?
Assim as realidades são vistas de uma determinada forma por que essa forma de ver é a que interessa, no momento. E quando for vista de outra forma, a quem isso vai interessar? Basta ver nisso o exemplo de episódios corriqueiros que são superexplorados pela mídia enquanto outros, importantes, mal são mencionados. Quem se beneficia com esse tipo de informação? Quem é prejudicado?
d- INUTILIDADE DA FILOSOFIA
A partir do que foi dito podemos dizer que há uma tendência em afirmar a desnecessidade da Filosofia.
Na verdade o que se pretende é mascarar a real necessidade a partir de uma afirmação de inutilidade. Esse mascaramento manifesta-se de diversas formas: uma forma é caricaturizá-la (filosofia é como um cego, num quarto escuro, procurando por algo que não sabe se existe). A caricatura dessa visão preconceituosa se evidencia em sua contradição. Ninguém procura pelo que não existe. Se existe busca é por que há a convicção da existência daquilo que é buscado. Além disso, o cego no quarto escuro, não teria a noção de escuridão como têm os que vêem. Quem fala da escuridão é quem a vê. Esse, portanto, faz um juízo a respeito do que o outro está fazendo. E se é o outro quem procura, quem faz o juízo não tem como afirmar se o que é procurado existe ou não, pois não é o outro.
Outro mascaramento é ridicularizar a figura do pensador ou do cientista (veja-se o tipo de cientista representado, por exemplo, nos filmes: uma pessoa meio amalucada, trejeitado em um jaleco branco). O tipo, cinematográfico ou da literatura, não corresponde à realidade do pesquisador, que na realidade é uma pessoa comum, que se dedica a uma atividade profissional, como qualquer outra pessoa, com sonhos, qualidades e defeitos. Enfim, existem várias formas de mascarar e descaracterizar a real necessidade da filosofia.
O detalhe é que hoje não é só a filosofia que recebe um mascaramento. O sistema escolar também passa por esse problema. Embora haja um discurso em defesa do ensino, a realidade aponta para outra direção. O que ocorre, efetivamente é a negação da escola e da importância da escolaridade. Afinal a quem realmente interessa que a população não seja sábia e sem escolaridade? Ou alguém, em sã consciência e utilizando o bom senso, ainda acredita que, com tantas informações sobre comportamento, sobre processo de aprendizagem... nosso país ainda não tenha condições de sair das últimas colocações nas aferições internacionais? Será que alguém ainda acredita que está nos alunos ou nos professores a causa de muitos concluírem o ensino superior e permanecerem analfabetos? Será que alguém ainda acredita que mudar planos e metas, trocar ministro e redefinir rumos, assumir ou rejeitar esta ou aquela teoria educacional é solução para os problemas educacionais? Como encarar o fato de que os estudantes das faculdades estão saindo despreparados para o mercado de trabalho?
Todas essas, juntadas a outras, são questões atuais e dependem de uma resposta da filosofia. E a elas se pode acrescentar a indagação sobre o motivo pelo qual a filosofia é ridicularizada, caricaturizada, mascarada. E assim volta a indagação sobre quem é favorecido quando não se faz filosofia? Quem leva vantagem quando não se discutem os problemas? Quando algo não está bem, sempre há alguém que perde e outro que sai em vantagem. Quem está levando vantagem com o descrédito tanto do sistema escolar como da filosofia?
Vários pontos podem ser refletidos, entretanto vale a pena fazer, antes algumas afirmações: a filosofia não tem utilidade prática, imediata, entretanto ela é necessária por que permite um processo de pensar-analisar a realidade e as diversas situações. E precisamos pensar sob pena de progredirmos nas conquistas científicas e tecnológicas e regredirmos em nossas relações interpessoais ou na aquisição de novos valores. Como já foi dito a filosofia ajuda no processo de humanização. Uma das características definidoras do humano é o pensamento. Deixar de pensar, portanto, é desumanizar-se.
Noutras palavras: a filosofia é amada ou odiada na medida em que se pretende esclarecer ou confundir a população. Assim, se em um período da história a filosofia foi banida da escola era por que se pretendia que a juventude e os estudantes em geral permanecessem alienados, sem consciência de seus direitos. O que se queria era dar aos estudantes fórmulas prontas e que estivessem de acordo com as orientações do governo militar-positivista, daquela época. Entregando tudo pronto o estudante não precisava pensar. Não pensando o jovem era pensado, não precisava usar a própria cabeça e os próprios critérios. O estudante, então poderia ser conduzido para onde fosse conveniente aos governantes. A presença, hoje, da filosofia nas escolas, embora ainda deficitária, pode ser vista como uma tentativa de superação dessa deficiência. Mas quando há um processo e um trabalho filosófico bem fundamentado, o estudante é levado a pensar com a própria cabeça. O estudante é desafiado a buscar suas próprias convicções. E assim o estudante passa a ver criticamente as aulas, os professores, a escola... e disso poderá nascer um novo modelo escolar, ainda a ser engendrado...
Manter um processo filosofante é abrir-se para o novo e aplicar-se ao debate, em busca dos próprios critérios. Fechar-se à filosofia é manter-se alienado. Podemos retomar as palavras de K. Jaspers (1973): "muitos políticos vêem facilitado seu nefasto trabalho, pela ausência da filosofia. Massas e funcionários são mais fáceis de manipular quando não pensam, mas tão somente usam de uma consciência de rebanho. É preciso impedir que os homens se tornem sensatos. Mais vale, portanto, que a filosofia seja vista como algo entediante". Ou que a filosofia seja apresentada como algo sem sentido ou perda de tempo.
Resumindo podemos dizer que a filosofia não é útil, no sentido que as pessoas possam pegar, usar, manipular. No entanto a filosofia é necessária para mantermos um processo crítico sobre todas as informações e realidades que nos são apresentadas. A filosofia fornece instrumentos para que sejam superadas posturas dogmáticas ou visões estreitas sobre a realidade ou dimensões específicas do cotidiano ou da vida. A filosofia é uma importante ferramenta para gerar o novo e fazer o novo renovar-se num processo constante.
Referências:
ALVES, Rubem. Filosofia d Ciência, 3 ed. São Paulo: Brasiliense, 1982
ARANHA, Maria Lúcia de A.; MARTINS, Maria H. Pires. Filosofando, Introdução à filosofia, 1997.
CHAUÍ, M.. Convite à Filosofia. 5ªed. S. Paulo: Ática, 1995.
GOMES, Roberto. Crítica da Razão Tupiniquim, 5 ed. São Paulo: Cortez. 1982
JASPER, Karl. Introdução ao pensamento filosófico. São Paulo: Cultrix, 1973.
TAHAN, Maba. Os melhores contos. 22 ed. Rio de Janeiro: Best Seller. 2006.
Neri de Paula Carneiro – Mestre em Educação
Filósofo, Teólogo, Historiador
Outras reflexões do professor Neri:
http://falaescrita.blogspot.com/
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Fonte Artigos Gratuitos Online - Artigonal.com
Perfil o autor:Concluí mestrado em Educação (UFMS), especialização em Educação (UNESC-Cacoal-RO), especialização em Metodologia do Ensino Superior (UNIR-RO), especialização em Metodologia de Leitura Popular da Bíblia (CEBI-RS). Concluí os cursos de graduação em Filosofia, Teologia, História. Sou Professor de História e Filosofia pela rede pública estadual (R. Moura-RO); professor de Filosofia na Faculdade de Pimenta Bueno - FAP (Pimenta Bueno-RO), na Faculdade de Rolim de Moura - FAROL (R.Moura-RO), na UNESC (Cacoal-RO). Radialista e colaborador em jornais da região de Rolim de Moura – RO.
Publiquei alguns livros de circulação regional além de artigos em revistas científicas de Rondônia.
Meus textos são publicados regularmente no jornal Folha da Mata (Rolim de Moura-RO) nos blogs: http://falaescrita.blogspot.com e http://ideiasefatos.spaces.live.com e no site www.webartigos.com
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E aqui se manifesta o grande problema...
Local E Data: Quando E Onde Surge O Apocalipse Por: NERI DE PAULA CARNEIRO | 05/08/2008 | Religião Quando e onde foi escrito o apocalipse de João? Para essa, como para várias outras perguntas, não se tem resposta exata. Aliás, como tudo em história e na bíblia, o que temos são suposições e conclusões às quais chegamos a partir da análise de vários elementos do texto, da linguagem e dos indícios apresentados pelo autor, ao longo de seu discurso.
Apocalipse: Literatura De Resistência Por: NERI DE PAULA CARNEIRO | 05/08/2008 | Religião Vamos procurar entender porque o gênero literário Apocalipse é chamado de literatura de resistência. Trata-se de uma das formas que se utiliza, ou que foi usada pelos judeus e cristãos, para ludibriar os dominadores, fortalecer a fé, alimentar a esperança e superar as incertezas. E, no caso específico do livro do apocalipse de João, trata-se de uma mensagem bem específica que “visava animar os primeiros cristãos perseguidos e martirizados por causa da fé
Apocalipse No Antigo Testamento Por: NERI DE PAULA CARNEIRO | 05/08/2008 | Religião As raízes da apocalíptica são antigas e estão plantadas no Antigo Testamento, a partir da dominação persa e durante o domínio helênico. Nesse período a Palestina era agitada pela presença de invasores estrangeiros e, consequentemente, o povo, sua cultura e sua fé estavam ameaçados entre outros elementos pela penetração do helenismo. A partir de fim do cativeiro a Palestina foi dominada, sucessivamente pelos Persas (538-333 aC); pelo helenismo (333-63 aC) e pelos romanos, a partir de 63 aC.
Da Profecia À Apocalíptica Por: NERI DE PAULA CARNEIRO | 05/08/2008 | Religião A literatura apocalíptica está muito próxima da profética. Entretanto não se confundem.
A atuação dos profetas teve começo meio e fim, na história de Israel. “Desde o tempo dos juízes até o cativeiro, os profetas aparecem. Eles fazem parte da vida, da cultura e da organização do povo. Depois do cativeiro, o quadro mudou. O povo dizia ‘não há mais profetas’
A Palavra Apocalipse Por: NERI DE PAULA CARNEIRO | 05/08/2008 | Religião Em geral a simples menção à palavra APOCALIPSE já causa mal estar em muita gente: medo, fim do mundo, fim dos tempos, catástrofes... Nas artes, no cinema principalmente, apocalipse é sempre sinônimo de desgraça, destruição, fim catastrófico, desolação...
Existem pessoas que identificam alguns desastres naturais com aquilo que, segundo elas, estaria “previsto” no apocalipse: desastres ambientais, terrorismos, terremotos, epidemias...
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