A INDISCIPLINA NO CONTEXTO ESCOLAR: Intervenção Psicopedagógica

Publicado em: 21/10/2011 |Comentário: 0 | Acessos: 2,339 |

INTRODUÇÃO

 

Um dos principais obstáculos enfrentados nas escolas é a indisciplina, isto tem sido a preocupação de muitos educadores. Estes perdem muito tempo da aula tentando controlar o "mau comportamento dos alunos". Desta forma, procura-se abordar o tema da indisciplina no contexto escolar, mostrando os fatores sociais que contribuem para a mesma, fazendo uma relação entre teoria e prática utilizadas em sala de aula, e qual a postura do psicopedagogo diante de tamanhos desafios.

Os pontos à serem discutidos foram desenvolvidos de forma reflexiva e referem-se mais precisamente ao cotidiano da sala de aula, que é onde ocorrem mais freqüentemente ações indisciplinadas dos alunos. Realiza-se uma análise comparativa entre teoria e prática, com o intuito de compreender o pensamento dos teóricos estudados, como está sendo desenvolvida a prática docente e do psicopedagogo na instituição escolar, para amenizar esta realidade diária da sala de aula.

 

Contexto histórico da discussão sobre a indisciplina

 

          A indisciplina escolar como os impasses fundamentais vividos no cotidiano escolar, discutindo sobre os "alunos-problema" como uma das principais justificativas empregadas pelos educadores na atribuição das causas de tal impasse. Em seguida, tenta-se rastrear e desconstruir as explicações mais comuns sobre as supostas causas da indisciplina escolar, tais como: a estruturação escolar no passado, problemas psicológicos e sociais, a permissividade da família, o desinteresse pela escola, o apelo de outros meios de informação etc. Este certamente é o maior problema enfrentado pela escola brasileira nos dias de hoje.

           Com a existência de "alunos-problema" que é tomado, em geral, como aquele que padece de certos supostos "distúrbios psicopedagógicos"; distúrbios estes que podem ser de natureza cognitiva (os tais "distúrbios de aprendizagem") ou de natureza comportamental, e nessa última categoria enquadram-se um grande conjunto de ações que chamamos usualmente de "indisciplinadas". Não podendo generalizar, pois, é muito comum imaginarmos que "criança mal-educada em casa" converte-se automaticamente em "aluno indisciplinado na escola". Alertar que isso nem sempre é necessariamente verdadeiro. Não é possível generalizar esse diagnóstico para justificar os diferentes casos de indisciplina com os quais deparamos. Há uma evidência irrefutável de que os mesmos alunos indisciplinados com alguns professores podem ser bastante colaboradores com outros. Daí surge a necessidade de uma intervenção psicopedagógica para a partir da observação e registro de comportamentos diários do aluno em questão fazer um diagnóstico para detectar a causa do problema.

 

Uma vez detectada a problemática do aluno, realiza-se um diagnóstico, usando as mesmas estratégias empregadas no consultório: entrevistas com os pais, entrevista livre com o aluno, técnicas gráficas e verbais, testes de inteligência, avaliação do nível de pensamento, observação das produções escolares, avaliação dos conteúdos escolares, entrevistas com professores e outros profissionais, etc. (VINICOUR, 1998, p. 93).

 

 

A indisciplina e o baixo aproveitamento dos alunos seriam como duas faces de uma mesma moeda, representando os dois grandes males da escola contemporânea, geradores do fracasso escolar, e os dois principais obstáculos para o trabalho docente e psicopedagógico, que fazer seu diagnóstico precisa da colaboração de professores, país, alunos e demais profissionais da instituição escolar.

              A indisciplina desde muitos anos existe no contexto escolar pois ao afirmarmos que "o aluno de hoje em dia é menos respeitador do que o aluno de antes, e que, na verdade, a escola atual teria se tornado muito permissiva, em comparação ao rigor e à qualidade daquela educação de antigamente". Esse primeiro entendimento, mais de cunho histórico, da questão disciplinar precisa ser repensado urgentemente. E a primeira coisa a admitir é que essa escola de antigamente talvez não fosse tão "de excelência" quanto gostamos de pensar hoje em dia.

                É muito comum nos reportar-se à escola de nossa infância com reverência, admiração, nostalgia. Pois bem, na verdade, essa escola anterior aos anos 70 era uma escola para poucos, muito poucos. Uma escola com exclusão, pois, é um processo que já estava lá, nessa escola de antigamente, hoje tão idealizada. Eram elas escolas militares ou religiosas, que atendiam uma parcela muito reduzida da população. Pergunta-se, por exemplo, se nossos pais tiveram escolaridade completa de oito anos. Lembre-se então de nossos avôs, se eles sequer chegaram a freqüentar escolas! Quanto mais recuarmos no tempo, mais veremos como escola sempre foi um artigo precioso.

             É curioso comparar o contingente da população efetivamente atendido pelas escolas hoje e aquele de antigamente. A porcentagem efetiva de aproveitamento escolar é ainda semelhante àquela de antes. Poucos são aqueles que conseguem permanecer na escola até o final do segundo grau, e menos ainda freqüentar uma universidade. É tarefa de todos nós (principalmente os educadores) garantirmos uma escola de qualidade e para todos, indisciplinados ou não, com recursos ou não, com pré-requisitos ou não, com supostos problemas ou não. A inclusão passa a ser o dever "número um" de todo educador preocupado com o valor social de sua prática e, ao mesmo tempo, cioso de seus deveres profissionais.

 

Possíveis causas da indisciplina na escola

 

Ao começar sua vida escolar a criança muitas vezes não se dá conta que a instituição escolar é uma organização regida por regras e normas, e que estas devem ser obedecidas pelo aluno. No entanto nem todos os alunos se comportam de acordo com as normas estabelecidas, rejeitam os objetivos dos procedimentos valorizados pela escola e acabam sendo vistos como indisciplinados.

Nos corredores escolares são facilmente encontrados professores que taxam seus alunos como indisciplinados, e as reclamações são sempre as mesmas: Não fazem a tarefa, atrapalha quem faz, bagunçam na sala de aula, não obedecem ao professor, desrespeitam os colegas e também o professor, querem sair da sala constantemente, brigam na hora do intervalo, não vão de uniforme, pintam as carteiras, entram sem pedir licença, faz pouco caso da autoridade do professor. Tendo em vista todas essas situações indisciplinares, é chegada a hora de refletir sobre o que está errado nas relações estabelecida no cotidiano escolar, e quais as principais causas desse tipo de comportamento.

 

A agitação dos alunos em classe é uma realidade. Orientar a movimentação é uma arte a ser desenvolvida pelo docente. Mas, para que a tal aconteça é necessário que se conheçam e se detectem as causas possíveis da indisciplina em aula. (TOSI, 2006, p. 47).

 

Com base na realidade vivenciada nas escolas e no referencial teórico estudado, expõe-se as possíveis causas da indisciplina no contexto escolar, enfocando o que poderia amenizar essa situação, pois "cada caso é um caso",  e em cada realidade os motivos podem ser diferentes, assim como suas soluções. Dentre as principais causas estão:

• A prática docente, se o professor não consegue manter a autoridade sem autoritarismo, dificilmente os alunos o obedecerão. É necessário que o professor demonstre segurança em sua prática, expondo seu modo de agir e o que pretende da turma, e principalmente que mantenha uma relação professor-aluno de companheirismo e afetividade, onde o aluno não tenha receio de expor suas dúvidas e dificuldades. De acordo com Libâneo (2008), é por meio do planejamento que o professor deve saber lançar pontes de ligações entre as tarefas escolares e as condições prévias dos alunos para enfrentá-las;

• A construção escolar, muitas escolas não tem estrutura para acomodar o grande número de alunos, e acaba por alugar prédios vizinhos à escola, este é um problema, pois as localizações em ruas muito movimentadas causam a agitação dos alunos, que querem a todo o momento estar na porta olhando para a rua, sem contar que todo barulho lhes chamam a atenção;

• O currículo escolar, trabalhar conteúdos que fogem da realidade dos alunos não lhes despertam interesse nenhum, muitas vezes professores se deparam com alunos lhes perguntando: Para que estudar isto? E a resposta quase sempre é: Por que tem que estudar e pronto. Então trazer o conteúdo ao alcance da realidade do aluno é uma maneira de estimular o interesse do mesmo, o que conseqüentemente diminuirá a indisciplina;

• A equipe pedagógica, a maioria das escolas possui sua equipe pedagógica defasada, não há o trabalho integrado, coletivo, o que se espera de uma equipe é no mínimo um trabalho em equipe, se não há este trabalho fica difícil o professor conseguir sozinho atender a necessidade de trinta ou mais alunos;

• As questões sociais, que estão ligadas a mudanças na estrutura econômica, desestruturação familiar, religião, comportamentos gerados pela mídia, todos esses são fatores que interferem na construção de valores dos alunos. Trabalhar em parceria com a família promovendo a construção de um pensamento crítico reflexivo sobre a realidade em que se vive, é a ponte para que o aluno descubra que além de direitos de cidadão, ele também possui deveres, e que entre esses deveres destaca-se o respeito ao próximo. Segundo Arroyo (2000), a educação moderna vai se configurando nos confrontos sociais e políticos, às vezes como forma de aquisição da liberdade, ora como mecanismo de repressão.

Pode-se perceber que a indisciplina escolar é gerada por inúmeros fatores, que podem e devem ser superados, o que falta é o trabalho coletivo, escola-família, com o objetivo centrado no aluno, como ser capaz de construir conhecimentos, mas que também precisa de uma mediação seguida da orientação de valores que podem ser revistos levando em conta o mundo informacional que vivemos, porem que devem ter a essência preservada, para que o respeito não seja banalizado.

 

A indisciplina no contexto escolar e a intervenção psicopedagógica

 

             A indisciplina escolar vem sendo um dos maiores desafios enfrentados pelas instituições de ensino, a maioria não sabe como administrar os atos indisciplinados dos alunos, o que torna o problema ainda mais difícil de ser resolvido, ou pelo menos amenizado.

             O resultado disso é uma aprendizagem muito carente, pois com a falta de disciplina dos educandos, o professor acaba por não dar uma aula de qualidade. É preciso verificar quais as causas dessa indisciplina, às vezes, o professor reprime seu aluno sem que antes entenda o porquê daquele ato indisciplinado. É preciso ter cuidado nessa hora, pois o aluno pode está agindo assim por ter medo de enfrentar a sala de aula, os colegas e também por medo de não saber resolver as tarefas. E aí, cabe ao educador juntamente com o psicopedagogo da escola intervir e tentar modificar essa situação.

O psicopedagogo tem como objetivo de estudo a aprendizagem humana de si e para com os outros, isto se traduz nas dificuldades de aprendizagem. A pessoa humana enquanto ser social e interativo é capaz de ações e atitudes que possibilitem uma melhor relação com as outras pessoas e ambientes que freqüenta, entrando em conflitos diários até que se chegue ao equilíbrio, proporcionado pela busca de conhecimentos teóricos e práticos. Portanto, o psicopedagogo tem que ter a sensibilidade para poder detectar o problema, isto necessita de uma visão holística das situações vivenciadas pelos alunos.

Importante e desafiante é repensar as práticas educativas, envolvendo não só os alunos, mas também professores, coordenadores, diretores e todos que fazem parte do processo, um recorte para uma intervenção psicopedagógica. Portanto, na atuação do professor, existe uma fragilidade em relação ao aluno que não se sustenta pela psicologia nem pela pedagogia, principalmente nos dias atuais. (PORTO, 2007, p. 97).

 

 

              É importante lembrar que as escolas também precisam estar preparadas para acolher todos os alunos. Ter uma boa estrutura física, uma boa coordenação pedagógica, um bom planejamento das aulas e das atividades extra-escolares, que levem em conta as peculiaridades e as especificidades dos educandos, pois quando a instituição pensa, em primeiro lugar, na "clientela" que irá atender com certeza a indisciplina será menor, as crianças sentirão gosto de ir à escola, já que a mesma estará atendendo suas necessidades e tendo significado para elas.

 

É preciso construir práticas organizacionais e pedagógicas que levem em conta as características das crianças e jovens que hoje freqüentam as escolas. A organização do ano escolar, dos programas, das aulas, a arquitetura dos prédios e sua conservação não podem estar distantes do gosto e das necessidades dos alunos, pois, quando a escola não tem significado para eles, a mesma energia que leva ao envolvimento, ao interesse, pode transformar-se em apatia ou explodir em indisciplina e violência. (AQUINO, 1996, p. 81).

 

             Desse modo, é fundamental que a escola e todos os seus funcionários estejam preparados para atender as necessidades dos alunos, pois só assim a indisciplina será controlada. Nesse caso o papel do psicopedagogo é detectar causas da dificuldade de aprendizagem, interagir com os sujeitos do processo, orientar metodologicamente docentes, considerando sempre a realidade de cada indivíduo. Porto (2007, p. 149), reforça: "... o psicopedagogo atua intervindo como mediador entre o sujeito e sua história traumática, ou seja, a história que lhe causou a dificuldade de aprender."

Além de trabalhar com as ações dos alunos, o psicopedagogo precisa ouvir conversar com os alunos informalmente para compreender o que se passa em sua vida que possa influenciar em seu comportamento na escola. Portanto, conclui-se que, para resolver o problema da indisciplina é preciso estar preparado para lhe dar com os alunos, pois muitas vezes eles só querem chamar atenção, agindo de forma "errada" e o professor tem que dar atenção a todos para que esses atos não se tornem freqüentes em sala de aula.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Atualmente a indisciplina tornou-se um "obstáculo" ao trabalho pedagógico e os professores ficam desgastados, tentam várias alternativas, e já não sabendo o que fazer, chega mesmo em algumas oportunidades a dizer que, não suportam mais tal aluno e que tudo estaria bem na sala de aula se aquele aluno não existisse.

Com base em todos os estudos percebe-se que, um mesmo aluno indisciplinado com um professor nem sempre é indisciplinado com os outros. Sua indisciplina, portanto, parece ser algo que desponta ou se acentua dependendo das circunstâncias, das relações afetivas dentro e fora da sala de aula, assim como também pode haver dificuldades físicas de aprendizagem que acabam por frustrar os alunos. Por isso, faz-se necessária a atuação do psicopedagogo na instituição escolar, observando, diagnosticando e intervindo no comportamento dos sujeitos escolares.

Compreende-se que existem inúmeros fatores que são possíveis causadores da indisciplina no cotidiano escolar, diante disto, cabe ao psicopedagogo distinguir qual fator corresponde ao comportamento de tal aluno, para tomar iniciativas que amenizem essa situação. Para isto acontecer, é necessário que haja uma união entre escola e família, porque essa não é uma responsabilidade unicamente escolar. Só assim será possível conseguir fazer a grande tarefa educacional, fazer com que os alunos permaneçam na escola e que progridam tanto quantitativa quanto qualitativamente nos estudos.

Concluindo, destaca-se a enorme satisfação em desenvolver este trabalho, que proporcionou não apenas suporte teórico, mas também experiências práticas, que servirão de subsídios para a vida profissional, engrandecendo o pensamento reflexivo e crítico a cerca das diversas situações problema enfrentadas na rotina diária de uma sala de aula.

 

REFERÊNCIAS

 

AQUINO, Júlio Gropa. Indisciplina na escola: Alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summus, 1996.

 

ARROYO, M. G. Ofício de mestre: imagens e auto-imagens. Petrópolis: Vozes, 2000.

 

ESTRELA, Maria Teresa.   Relação pedagógica, disciplina e indisciplina na aula.  3. ed.  Portugal: Porto, 1992. 

 

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários a prática educativa. 6 ed. São Paulo: Paz e terra, 1997.

 

______. Pedagogia do oprimido. 25. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998.

 

GARCIA, Joe.  Indisciplina na Escola.  Revista Paranaense de Desenvolvimento, Curitiba, n. 95, p. 101-108, janeiro/abril 1999.

 

LIBÂNEO, José Carlos. Didática Coleção magistério. 28ª ed. São Paulo: Cortez, 2008.

 

MOÇO, Anderson. Editora Abril. Revista nova escola,São Paulo, ano XXIV, n. 226, p.83-89, Outubro 2009.

 

PORTO, Olívia. Psicopedagogia Institucional: teoria, prática e assessoramento psicopedagógico. 2ª ed. Rio de Janeiro: Wak: 2007.

 

TOSI, Maria Raineldes. Didática Geral: um olhar para o futuro. Campinas, SP: Alínea, 2003.

 

VASCONCELLOS, Celso.  Disciplina.  São Paulo: Libertad, 1995.

 

VINOCUR, Sandra. Contribuições para o diagnóstico psicopedagógico na escola. Rio de Janeiro: Vozes, 1998.

 

 

 

 

 

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