A Leitura E O Desenvolvimento Infantil

15/02/2010 • Por • 2,344 Acessos

A leitura favorece a remoção das barreiras educacionais de que tanto se fala, concedendo oportunidades mais justas de educação, principalmente através da promoção, do desenvolvimento da linguagem e do exercício intelectual, e aumenta a possibilidade de normalização da situação pessoal de um indivíduo (BAMBERGER, 2000, p 11)

Com isso, o aprendizado da leitura depende de habilidades como percepção, memória, consciência, para compreender que as letras do alfabeto simbolizam sons diferentes e de que sons podem ser agrupados para formar palavras.

A leitura também envolve o aprendizado das regras e suas exceções, além das deduções lingüísticas na leitura em contexto, assim, a leitura e a escrita, que são usos secundários da língua, não são competências adquiridas natural e espontaneamente como a língua oral, o que significa que tem que ser ensinadas.

A aprendizagem da leitura é um processo complexo e moroso que requer motivação, esforço e prática por parte do aprendiz e explicitação sistematizada por parte de quem ensina.

Aprender a ler deve ser um processo contínuo que não se esgota temporalmente no momento em que se domina a tradução dos sons em letras, característica das línguas de escrita alfabética. Saber ler significa ser capaz de extrair informação de material escrito, qualquer que seja o suporte, qualquer que seja o tipo de texto e qualquer quer seja a finalidade da leitura, transformando essa mesma informação em conhecimento.

Ler não é somente identificar as palavras, mas compreender o que foi lido, o indivíduo precisa adquirir informações gerais suficientes para que possa aplicar a muitos textos diferentes. Portanto, a leitura envolve a ativação e o uso da informação pala memória, num processo de interação das diversas habilidades.

Freire (1988, p.11) destaca que “a leitura de mundo precede a leitura da palavra”.

A leitura de mundo é significativa, podendo trazer experiências que se façam necessárias quando o individuo está na fase de escolarização. Todas as experiências de vida da criança, desde o nascimento até seu primeiro contato com a palavra escrita, expressa a primeira leitura. Estas experiências permitem que a criança tenha facilidade na compreensão da palavra escrita e  que dê significado a tudo que lhe é apresentado, facilitando a aprendizagem.

Faz-se necessário acreditar que a leitura de mundo caminha lado a lado com a leitura da palavra, direcionando o leitor para este ou aquele caminho da compreensão.

A compreensão de um texto não depende somente das características intrínsecas do mesmo, mas também do conhecimento prévio compartilhado entre o autor e o leitor.

O indivíduo tem dentro de si uma representação do mundo, e compreender um texto é relacionar elementos dessa representação com elementos do texto.

A leitura envolve uma série de requisitos como: conhecer, analisar, decodificar, entender, compreender, tirar conclusões, opinar etc. Assim os componentes da leitura são paralelamente a aprendizagem da decodificação e o aprendizado da compreensão.

Para Gadotti (in Zilbermann, 1991, p. 08) ler é interpretar por meio da leitura, ler é compreender o que está escondido por um sinal exterior.

Quando o indivíduo começa a conhecer o mundo, começa também a despertar o espírito de curiosidade e analisa tudo o que está a sua volta, tentando compreender o mundo e a si mesmo.

Por meio da leitura, há um desenvolvimento pleno do sujeito, uma vez que:

É na infância pré-escolar que se formam as atitudes fundamentais diante do livro. A criança que toma contato, costuma associar a leitura com a situação escolar, principalmente se não há leitura no meio familiar. Se o trabalho escolar é difícil e pouco compensador, a criança pode adquirir aversão pela leitura e abandoná-la completamente quando deixar a escola. É conveniente então que o livro entre para a vida da criança antes da idade escolar e passe a fazer parte de seus brinquedos e atividades cotidianas. (ZILBERMAN & SILVA, 1988, p. 07)

Ler é básico para o progresso na aprendizagem de qualquer assunto: a capacidade de ler está intimamente ligada à motivação.

Os autores Zilbermam & Silva (1988, p 07) mencionam o que diz Paulo Freire, “a leitura do mundo procede a leitura da palavra”.

É o que diz Moacir Gadotti (in Zilberman, 1991, p. 08), “ler é ver o que está escrito, interpretar o que está escondido por um sinal exterior, descobrir, tomar conhecimento do conteúdo de um texto pela leitura”.

Por isso, para saber o que é ler, tenho que saber, antes de mais nada, o que é um texto e o que é compreender um texto.

Valentini (1999, p. 72), salienta que a leitura é um processo no qual o leitor realiza um trabalho ativo de compreensão e interpretação do texto, a partir de seus objetivos, de seu conhecimento sobre o assunto, sobre o autor e de tudo que sabe sobre a linguagem; trata-se de uma atividade que implica seleção, antecipação, inferência e verificação.

Para o autor Valentini, o trabalho com a leitura deve estar ligado à realidade do aluno e essa postura deve passar a dirigir os planejamentos e a prática escolar do dia-a-dia. Para tanto, são necessários dinâmicas de leitura que:

 

Estimulem a prática de leitura em sala de aula;

Incentivem a criatividade, a organização e a expressão de idéias;

Auxiliem o desenvolvimento de habilidades, de atenção e observação;

Estimulem o aumento e a fixação de vocabulário;

E, diversifiquem atividades de ensino-aprendizagem. (VALENTINI, 1999, p. 72),

Desde a alfabetização até os níveis mais complexos de encontro com textos, a leitura é uma forma de atribuição contínua de significados, pois é através da leitura (seja ela verbal ou não-verbal) que o indivíduo entra em contato com novas informações que propiciará o desenvolvimento de suas habilidades, bem como a construção de seu conhecimento.

Assim, o leitor seja ele criança que inicia na alfabetização ou adulto já na universidade está num contínuo de atribuição de significados, de expectativas e de visão do que está sendo mostrado pelos diferentes tipos de textos.

A leitura não só desperta na criança o gosto pelos bons livros e pelo hábito de ler como, também, contribui para despertar a valorização exata das coisas, desenvolver suas potencialidades, estimular sua curiosidade, inquietar-se por tudo que é novo, ampliar seus horizontes e progredir.

O hábito da leitura constitui-se em preocupação dos professores. No entanto, eles encontram dificuldades para implementação, porque não dispõem de recursos bibliográficos. A própria formação de magistério é feita na maioria das vezes desprovida da prestação de serviços bibliotecários adequados, característica das escolas brasileiras". (Freitas et al., 1986, p. 37)

A leitura e a escrita são, portanto, construídas ao longo da vida escolar com respeito à individualidade, incentivo à narração pessoal, desejo de ser lido ou ouvido.

O hábito da leitura é essencial para a compreensão de todas as disciplinas, seja o enunciado de um problema de física, de química, de matemática e, é claro, nas aulas de Língua Portuguesa e Literatura, em que os alunos são preparados para a interpretação de textos, além de praticarem a linguagem escrita formal.

É preciso ser capaz de ler e compreender o significado da leitura para usá-la no dia-a-dia. Além disso, a leitura tem uma função social: a pessoa só se sentirá leitora se for capaz de se apropriar do que leu, ou seja, transformar as informações em conhecimento.

O aluno com hábito da leitura tem maior capacidade de argumentação, de produção de textos; possui um vocabulário vasto e sofisticado e, também, questiona os fatos e acontecimentos do dia-a-dia.

No mundo do conhecimento, caracterizado pela circulação na sociedade de um grande e diversificado volume de informações, a capacidade de ler e interpretar textos em múltiplas linguagens – formal, jornalística, publicitária, etc. – é fundamental. Sem ela torna-se mais difícil ter acesso às informações e, principalmente, estabelecer relações entre aquelas que já estão ao alcance.

Ler é essencial. Através da leitura, pode-se testar os próprios valores e experiências. No final de cada livro surgem novas experiências, novas idéias, novas pessoas. Eventualmente, conhece melhor o mundo e um pouco melhor de si próprio.

Ler é estimulante. Tal como as pessoas, os livros podem ser intrigantes, melancólicos, assustadores, e por vezes, complicados. Os livros partilham sentimentos e pensamentos, feitios e interesses. Os livros colocam os indivíduos em outros tempos, outros lugares, outras culturas. Os livros fazem com que as pessoas participem de situações e dilemas que nunca poderiam imaginar que encontrariam. Os livros ajudam a sonhar e fazem pensar.

Nada desenvolve mais a capacidade verbal que a leitura de livros. Na escola aprende-se gramática e vocabulário. Contudo, essa aprendizagem nada é comparada com o que se pode absorver de forma natural e sem custo através da leitura regular de livros.

A leitura pode exigir mais dos leitores: consciência das coisas implicadas em vez de meramente descritas, sensibilidade às nuances da linguagem, paciência com situações ambíguas e personagens complicadas, vontade de pensar mais profundamente sobre determinados assuntos. Mas esse esforço vale a pena, pois estes autores podem proporcionar-nos aventuras que ficam na nossa memória para toda a vida.

É a leitura compreensiva, isto é, ler e entender o que se lê, descobrir o propósito do escritor, que irá desenvolver a capacidade de aprender das crianças.

A aprendizagem da leitura depende, principalmente, do querer aprender a ler, o equivalente a uma formação de atitudes do educando de se dispor a ler. Esta disposição pode ser refletida nas formas de expectativas, interesses, motivação, atenção, compreensão e participação. Querer aprender a ler é o primeiro passo para se ler para aprender. Para se desenvolver em leitura é preciso, antes, envolver-se em leitura, gostar de ler, isto é, a obra está no centro de seu interesse (dentro do ser) em ler a obra.

Se há disposição para aprender a ler, há possibilidade de chegarmos à capacidade de aprender a ler, e sobretudo, do educando, considerar que pode aprender lendo. Aqui vale o ditado: querer é poder. A partir da leitura de uma obra regional ou nacional, uma criança pode desenvolver aptidões ou competências ou competências e habilidades de natureza intelectiva e procedimental. A aptidão intelectual ajuda a ler para aprender a pensar a prática social e aptidão procedimental a ler para aprender a atuar no mundo do trabalho.

Para aprender a ler, portanto, é preciso interagir com a diversidade de textos escritos, negociando o conhecimento que já se tem e o que é apresentado pelo texto, o que está atrás e diante dos olhos, recebendo incentivo e motivação.

Desta forma,  o educador precisa ter um olho novo para ver coisas velhas de maneiras diferentes, precisa ser protagonista do conhecimento, ser um eterno aprendiz, curioso e despertar isso no aluno, deve ser um provocador e não deve ter receio de ser provocado. Ele deve ser inquieto, um aguçador de nossa sensibilidade, um sujeito que amplia e torna mais complexa a nossa visão de mundo.

O professor protagonista orienta, conduz, mas também sabe se colocar no lugar do coadjuvante permitindo que seus alunos sejam protagonistas (construtores) de seus processos educativos enquanto seres íntegros (seres pensantes, sensíveis, sociais). Esse educador oferece instrumentos para que o aluno caminhe com autonomia. Ele pontua, interfere, ajuda a ver o que não se via antes.

Para tornar os alunos bons leitores, para desenvolver, muito mais do que a capacidade de ler, o gosto e compromisso com a leitura, os professores devem mobilizá-los internamente, pois aprender a ler, é também ler para aprender. Precisará, ainda, fazê-los achar que a leitura é algo interessante e desafiador, algo que conquistado plenamente, dará autonomia e independência, tornando-os confiantes, condição para poderem se desafiar a aprender fazendo.

 

 

BAMBERGER, Richard. Como incentivar o hábito de ler. 2 ed. São Paulo: Ática, 2000.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. 22. ed. São Paulo: Cortez, 1988.

FREITAS, Maria Terezinha N. et al. Educação pela leitura: uma experiência. Florianópolis, v.3, n. 7, p. 26-40, jun./dez. 1986.

VALENTINI, Nilza Guidini. Teoria e prática da educação. Contribuições de uma prática pedagógica para o aprendizado da leitura. Paraná, ISSN, 1999. Setembro de 1999.

ZILBERMAN, Regina (org) Leitura em crise na escola. 10. ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1991.

Perfil do Autor

SANDRA VAZ DE LIMA

Nascida no município de Telêmaco Borba - Paraná. Graduada em Letras/ Inglês/Espanhol e Pedagogia. Especialista em Educação Especial e Psicopedagogia Clinica/ Institucional. Atua na área de Educação Especial na Rede Municipal e Estadual, e na Formação de Docentes.