A proposta de educação profissional de Antonio Gramsci

Publicado em: 21/05/2013 |Comentário: 0 | Acessos: 67 |

A proposta de educação profissional de Antonio Gramsci

O dualismo sempre foi à característica principal da educação brasileira. Isto é, havia e há uma educação que prepara os filhos da classe dominante para o exercício de funções superiores e uma educação que prepara os filhos dos operários para funções subalternas. Esse modelo de educação, criticado por Antonio Gramsci (1891* 1937†), foi posto em prática, na Itália, durante a ascensão do regime fascista, por meio da Reforma Gentile segundo a qual "a escola formaria pessoas capazes de garantir o progresso econômico da nação, elevar o nível moral e cultural da massa e promover os melhores elementos para garantir a renovação contínua das camadas dirigentes".

O referido pensador criticava duramente tal proposta de educação profissional porque, segundo ele, a reforma proposta por Giovanni Gentile (1875* 1944†), ministro do Ministero della Pubblica Istruzione, estava ancorada no esvaziamento de conteúdos indispensáveis à formação geral e humanista do homem, objetivando uma formação imediata dos educandos para o mercado de trabalho e para a obediência cega a doutrina cristã transmitida pela tradição católica. Em outras expressões: esse modelo de educação pública não proporcionava e como não proporciona uma formação integral, considerando a parte técnica-filosófico-política, por intermédio da escola unitária.

Tal educador foi preso e mandado para a penitenciária Regina Coeli, em Roma, para aguardar Julgamento. Durante o processo, o promotor pediu sua condenação, argumentando que era necessário "fazer com que o cérebro daquele homem de pouca estatura parasse de trabalhar por, pelo menos, 20 anos". Ele foi condenado há mais de 20 anos de prisão (em Turi), por ser considerado uma ameaça para o regime fascista de Benito A. A. Mussolini (1883* 1945†), não porque possuísse força física ou armas para tal façanha, mas pelo poder imortal de amar a humanidade, um sentimento que sempre desespera os tiranos.

Após o julgamento, Gramsci iniciou uma longa jornada, passando por diferentes presídios, que terminaria oito anos mais tarde, apenas alguns meses antes da sua morte, porque morrer nas masmorras não era interessante para o regime fascista. Entretanto, durante os anos que passou na prisão, seu cérebro e seu corpo não pararam de trabalhar. Preso, ele produziu dois extraordinários conjuntos de obras de valor inestimável para o processo do pensamento crítico: as "Lettere" (Cartas) e os "Quaderni" (Cadernos), nos quais seu trabalho intelectual está, em grande parte, materializado.

Gramsci foi um pensador crítico do sistema educativo italiano. Ele asseverava que a educação deveria desempenhar um papel extremamente relevante tanto na consolidação da hegemonia (dominação ideológica da burguesia sobre o proletariado e outras classes de trabalhadores) quanto na formulação da contra-hegemonia. Para o já citado autor, a hegemonia é garantida pelos setores privados e não totalmente pelo Estado (governo). A escola, para Gramsci, é uma mediação que forma intelectuais para diferentes níveis de atuação.

Podemos resumir esse princípio da seguinte maneira: a escola vinculada à ideologia burguesa forma os intelectuais orgânicos a ela ligados, que quando formados irão trabalhar em vários setores da sociedade no sentido de manter a hegemonia. Porém, em confronto com os intelectuais vinculados organicamente à classe social burguesa, existem outros intelectuais vinculados oraganicamente à classe trabalhadora que, em confronto com aqueles, auxiliam na formulação da contra-hegemonia.

A formação dos intelectuais vinculados organicamente à classe burguesa é realizada na escola e, no que se refere aos intelectuais vinculados organicamente à classe operária, a sua consciência e construída fora do ambiente escolar, isto é, nos movimentos sociais, nos partidos políticos, nos sindicatos e em outras associações. Gramsci, ao analisar o sistema de ensino italiano, criticou a sua dualidade, haja vista a existência de dois tipos de ensinos: a escola humanística e a escola profissional.

A primeira destinava-se ao estudo da educação geral daqueles que faziam parte da classe hegemônica, enquanto a segunda preparava os filhos dos operarios para o desempenho de determinadas profissões. Gramsci propunha a escola unitária, uma escola onde devem ser iniciadas novas relações entre trabalho intelectual e trabalho manual, que se estenderia a toda a vida social. O autor afirma, ainda, que a criação de escolas profissionalizantes pode parecer democrática, mas esse tipo de escola acirra as diferenças sociais.

Ao invés de se criar cursos para a qualificação de trabalhadores para um determinado posto de trabalho, Gramsci defende a escola que habilite os sujeitos não só para o exercício de uma profissão, mas também os capacite para os cargos de direção. Entende os autores deste artigo que a educação não pode manter-se como acadêmica ou profissionalizante. Essas duas vertentes dicotomizadas formam o homem parcial, limitado e até anacrônico. A própria revolução técnico-científica supera rapidamente as especializações tradicionais, passando a exigir seres com sólida cultura geral e tecnológica, capazes de dominar processos produtivos complexos.

A escola unitária proposta por Gramsci caminha na direção de uma formação politécnica que viabiliza uma compreensão que vai além do trabalho (alienado ao capital) até o conhecimento do valor econômico, histórico, sociológico, filosófico e antropológico do trabalho. Dizendo de uma maneira: o trabalhador politécnico não sabe tudo, mas tem o conhecimento do todo. Esta concepção está de acordo com a dialética materialista histórica de que o ensino não deve ser orientado para uma profissão específica, o que reduz o homem a um mero apertador de parafuso, pois, na opinião de Karl H. Marx, o mais importante é utilizar o processo técnico para a formação total do homem, formação omnilateral.

Em outros termos: a formação politécnica é diferente da formação técnica porque supera a divisão técnica do trabalho que produz uma divisão da sociedade entre homens que pensam antes de executar qualquer tipo de trabalho (homo sapiens) e homens que executam quaisquer tipos de trabalho sem saber o que estão fazendo (homo fabber). Em síntese, essa foi a proposta de António Gramsci, cujo o trabalho e vida são um legado precioso para cada homem e mulher que, sob as mais difícieis circunstâncias, sob pressão violenta ou manipulação sutil, continuam a luta pelo advento de um novo mundo baseado na igualdade, na liberdade e na justiça para todos.

Para finalizar é interessante lermos o que escreveu Antonio Gramsci sobre a escola para os homens cujo trabalho produz verdadeiramente a riqueza: "o proletariado necessita de uma escola desinteressada. Uma escola que seja dada ao menino (e a menina) a possibilidade de formar-se, de torna-se um homem pleno, ou seja, de adquirir aquelas qualidades que servem para o desenvolvimento de um caráter comprometido com a vida de todos. Em suma, o proletariado precisa de uma escola humanista, como entendiam os antigos e, mais recentemente, os homens do Renascimento. Uma escola que não hipoteque o futuro do menino e da menina".

Infelizmente, a proposta de educação dos sistemas de ensino sempre teve como objetivo alienar os alunos e prepará-los para votar nos políticos que vivem da política e não para a política. Não esqueça prezado leitor, deste conceituado jornal, se 50% + 1 dos eleitores anularem seu voto nas próximas eleições para prefeito e vereador elas serão nulas segundo o artigo 224 do Código Eleitoral, e os atuais candidatos não poderão candidatar-se na próxima eleição. Caro leitor, sejamos patriotas, vamos banir da política aqueles que estão ansiosos param se locupletar com o dinheiro público. É claro que não estamos generalizando. Existem bons políticos e maus políticos.

Elizeu Vieira Moreira é Professor da SEDUC e do PARFOR/FACED/UFAM.

Rubens da Silva Castro é Professor da Faculdade de Educação da UFAM.

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    Fonte do Artigo no Artigonal.com: http://www.artigonal.com/educacao-artigos/a-proposta-de-educacao-profissional-de-antonio-gramsci-6603845.html

    Palavras-chave do artigo:

    antonio gramsci

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    dualismo

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    educacional

    Comentar sobre o artigo

    Elizeu Vieira Moreira

    O propósito deste texto é refletir sobre a história da educação desde o Período Colonial (1500-1822) até a Primeira República (1889-1930). O processo de reflexão usado pelos autores parte da premissa que toda relação de hegemonia é uma relação pedagógica, mas como tal, não pode se limitar às práticas escolares, a relação professor-aluno. Ela é muito mais ampla, implica num processo de direção política e econômica para toda a sociedade, e está vinculada às ações humanas ao longo da história.

    Por: Elizeu Vieira Moreiral Educação> Ciêncial 08/03/2011 lAcessos: 8,482 lComentário: 2
    Elizeu Vieira Moreira

    Reflete sobre o fazer pedagógico, o método e a metodologia circunscritos no conjunto das demais questões sociais que fazem parte do contexto sócio-cultural-econômico propugnado pelo capitalismo globalitarizado e neoliberalizado. Analisa os efeitos que o modelo racionalista de qualidade (e eficiência) da educação propugnado pelo Banco Mundial (apoiado pela UNICEF, UNESCO, PNUD) teve sobre o fazer pedagógico, o método e a metodologia...

    Por: Elizeu Vieira Moreiral Educação> Ciêncial 02/07/2011 lAcessos: 730
    Genilda Vieira Rodrigues

    Este artigo tem por objetivo apresentar estudos aprofundados sobre a educação inclusiva dando ênfase à questão envolvida no que se refere ao trabalho do professor com alunos portadores de deficiência. No decorrer da produção serão expostos conceitos de Educação Especial e Educação Inclusiva pontuando o saber fazer e o aprender diante das dificuldades encontradas em trabalhar com alunos portadores de necessidades especiais, ressaltando ainda mostrar alguns dos recursos e as estratégias utilizados

    Por: Genilda Vieira Rodriguesl Educaçãol 21/02/2015

    Propriedade vocabular é muito importante na hora de redigir o texto, uma vez que saber empregar as palavras mais adequadas no momento enriquece muito o conteúdo do texto e, além disso, torno-o mais clara e objetivo. Mesmo que o texto seja um mero exercício escolar, antes de construí-lo, pergunte-se: para quem escrevo? O tipo de receptor determina a forma de sua mensagem. Um panfleto dirigido a crianças precisa ter uma linguagem fácil, direta, sem rebuscamento.

    Por: Professor Leol Educaçãol 19/02/2015

    Quando se ouve falar em educação, pensamos em escola, em educação formal. E quando o assunto é família temos vários pensamentos. Educação e Família são dois temas bastante complexos, porque educação é muito mais que escolarização, letramento e formação, sendo que família é a instituição mais antiga da sociedade e sofre constantes transformações. Ambas tem a função de socializar e transformar o homem biológico em um ser social.

    Por: Alexandrina M. P. de Fariasl Educaçãol 16/02/2015

    Propostas Pedagógica e a Participação da Família no Resultado. A progressão escola é um instrumento que pode mudar a realidade desses estudantes que estão fora da faixa etária escolar. Determinadas escolas contemplam dentro do seu projeto político pedagógico, o sistema de progressão. Para que funcione a progressão em uma escola é necessário que haja engajamento por parte dos docentes, dos estudantes e da família. É importante ressaltar, que a família também tem um papel fundamental...

    Por: Elonir dutra terral Educaçãol 13/02/2015

    Diante dos agravos causados pela violência doméstica, tais entraves se estendem também ao processo educacional da criança e adolescente. Por outro lado, esta situação nem sempre é conhecida pelos seus educadores no campo acadêmico, causando assim uma lacuna no campo da avaliação pedagógica que, muitas vezes, abrangem somente o campo intelectual. Este trabalho tem por objetivo fazer uma análise sobre os impactos da violência doméstica no processo ensino-aprendizagem.

    Por: Jiane Martins Soaresl Educaçãol 12/02/2015
    ÁUREA MARIA SOARES LIMA

    A educação é um direito humano substancial, e como tal, precisa ser garantido universalmente. As conquistas das mulheres brasileiras em relação á educação, vêm crescendo consideravelmente e com isso, reduzindo significativamente o analfabetismo. O número de mulheres no mercado de trabalho cresceu gradativamente e isso ocorreu devido à determinação para conquistar seu espaço, milímetro a milímetro, dentro e fora de casa, e especialmente do empenho em subir novos degraus de instrução.

    Por: ÁUREA MARIA SOARES LIMAl Educaçãol 10/02/2015 lAcessos: 11
    ÁUREA MARIA SOARES LIMA

    O direito de trabalhar, obter formação intelectual e de atuar no cenário político do País, nem sempre foi concedido às mulheres. As mulheres que queriam reverter esta situação, buscando conquistar funções que tradicionalmente não lhes cabiam, devido à sociedade patriarcal, eram ridicularizadas e até difamada. A luta das mulheres brasileiras pelo reconhecimento de seus direitos políticos e civis é secular; a emancipação feminina nas ultimas décadas do séc. XIX era vista pelos mais diversos setore

    Por: ÁUREA MARIA SOARES LIMAl Educaçãol 10/02/2015 lAcessos: 16
    Carlos Henrique Araújo

    Não haverá uma educação de qualidade se não houver uma reforma do ensino no país. Um pacto entre a sociedade e os seus representantes políticos em prol de uma verdadeira reforma do ensino nacional deveria ser estabelecido. Na minha percepção, a reforma do ensino é a mãe de todas as reformas.

    Por: Carlos Henrique Araújol Educaçãol 03/02/2015 lAcessos: 12
    Elizeu Vieira Moreira

    Constituição de 1937. A Carta foi instituída durante o governo de Getúlio D. Vargas (1882* 1954†) inspirou-se nas constituições fascistas. Muitos dispositivos não foram implementados, posto que seu "segredo estava nas disposições finais e transitórias", que concedia amplos poderes ao Presidente da República para nomear os interventores nos Estados; demitir funcionários civis e militares; governar mediante expedição de decretos-leis; etc.

    Por: Elizeu Vieira Moreiral Educaçãol 28/01/2014 lAcessos: 78
    Elizeu Vieira Moreira

    No século 20, que pode ser considerado como o século das preocupações com as questões sociais advindas da necessidade de se manter certo consenso em relação à sociedade capitalista, burguesa, surge a Constituição de 1934..., a mais avançada de todas as constituições brasileiras, dentro da perspectiva da democratização da oferta da educação pública, o que fica claro pela quantidade de títulos de fundamental importância que não estavam contemplados nas Cartas anteriores.

    Por: Elizeu Vieira Moreiral Educação> Ciêncial 22/01/2014 lAcessos: 96
    Elizeu Vieira Moreira

    Apresentamos três concepções na análise das crises cíclicas no processo de desenvolvimento de um projeto educativo na Região Amazônica: o abandono da região e a aplicação de políticas incompetentes. Apresenta-se uma terceira concepção, que não é dominante: as crises cíclicas como conseqüências vinculadas a escolhas de políticas educacionais comprometidas com o acúmulo rápido e em alta escala de capitais, principalmente através da especulação e não do trabalho.

    Por: Elizeu Vieira Moreiral Educaçãol 15/01/2014 lAcessos: 44
    Elizeu Vieira Moreira

    Diferentemente da Constituição dos Estados Unidos da América, de 17 de setembro de 1787, que tem apenas 10 artigos e 10 emendas, formando a Carta de Direitos, o Brasil, com a Carta Magna de 1988, completou oito constituições. Três delas foram outorgadas (impostas pelo Executivo: 1824, 1937 e 1969). As de 1891, 1934, 1946 e 1988 foram promulgadas (votadas no Congresso Nacional).

    Por: Elizeu Vieira Moreiral Educação> Ciêncial 15/01/2014 lAcessos: 50
    Elizeu Vieira Moreira

    O livro "Novos comentários à LDB: 15 anos depois", produzido intencionalmente pelos professores amazonenses Jorge Gregório da Silva e Rubens da Silva Castro, é uma espécie de "magna scientifica opus" a serviço daqueles que se põem historicamente a enfrentar o estado de riqueza e pobreza em que se encontram homens e mulheres no século XXI e, também, um registro...

    Por: Elizeu Vieira Moreiral Educaçãol 09/01/2014 lAcessos: 39
    Elizeu Vieira Moreira

    Paulo Réglus Neves Freire (1921* 1997†) assevera que a esperança é a marca ontológica do ser humano. Ela não é uma doação. Ela não floresce na apatia. No momento em que você perde a esperança, você cai no imobilismo.

    Por: Elizeu Vieira Moreiral Notícias & Sociedade> Cotidianol 07/01/2014 lAcessos: 21
    Elizeu Vieira Moreira

    O que vem a ser esperança? Os judeus tiveram de ver os milagres realizados por Jesus para sentir a esperança entrar de modo abrupto no mundo. Não é que no mundo judeu a esperança fosse completamente inexistente..., havia a ideia da vinda do Messias, todavia, nunca qualquer otimismo poderia ser algo assim tão facilmente disponível às nossas mãos, como parecia a eles o que Jesus prometia.

    Por: Elizeu Vieira Moreiral Notícias & Sociedade> Cotidianol 31/12/2013 lAcessos: 25
    Elizeu Vieira Moreira

    Quando o povo esteve na festa da escolha da cidade de Manaus como uma das "cedes" dos jogos da Copa de 2014 ninguém parou para pensar que maioria dos hospitais, prontos-socorros, unidades básicas de saúde (a famosa "Casinha Branca") etc. não possuem quantidade (e nem qualidade) suficiente de médicos, enfermeiros e outros profissionais da área de saúde para melhorar a qualidade do atendimento...,

    Por: Elizeu Vieira Moreiral Notícias & Sociedade> Polítical 18/12/2013 lAcessos: 28
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