As Duas Fridas (1939) - Frida Kahlo

30/09/2009 • Por • 8,292 Acessos

AS DUAS FRIDAS (1939)

FRIDA KAHLO

Edevânio Francisconi Arceno

Prof.ª Regina Küster Moraes

Curso de Pós-Graduação em História Cultural – AUPEX

História e Artes Visuais

16/09/09

http://1.bp.blogspot.com/_FZsBYyXgvEA/SiRLlhdsNyI/AAAAAAAAA9E/pyvUVT347w0/s400/Frida_AsDuasFridas.jpg

Las dos Fridas, 1939.  ( As duas Fridas )
Lienza em óleo 173,5 X 173 cm. ( Tira de pano = Tela em Óleo)

"pensavam que eu era uma surrealista, mas eu não era. Nunca pintei sonhos. Pintava a minha própria realidade[1]”. (Kahlo, Frida. O diário de Frida Kahlo: p. 287).

Filha do fotógrafo judeu-alemão Guillermo Kahlo e de Matilde Calderón e Gonzalez, uma mestiça mexicana, Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderón nasceu no dia 6 de julho de 1907 em Coyoacán, na Cidade do México. Em 1914 sofre de poliomielite. Em 1922, na escola onde estuda, conhece Diego Rivera, que lá estivera pintando um mural. Em 1925 estuda pintura com o pintor comercial Fernando Fernández, amigo de seu pai. No mesmo ano, em 17 de setembro, ao retornar da escola sofre um acidente de trânsito no qual quebra a bacia e a coluna dorsal, além de graves ferimentos. Começa a pintar durante a convalescença. Em 1928 quando Frida Kahlo entra no Partido comunista mexicano, revê o muralista Diego Rivera, com quem se casa no ano seguinte. Entre 1930 e 1933 passa a maior parte do tempo em Nova Iorque e Detroit com Rivera. Entre 1937 e 1939 Leon Trotski vive em sua casa de Coyoacan. Frida sofre vários abortos, submetendo-se, ainda, a duas cirurgias: uma no pé e outra para retirar o apêndice. Ao longo da vida, a pintora será submetida a mais de 35 cirurgias, numa das quais teve amputada a perna direita. Depois de algumas tentativas de suicídio com facas e martelos, em 13 de julho de 1954, Frida Kahlo, que havia contraído uma forte pneumonia, foi encontrada morta.

A vida e obra de Frida Kahlo são impossíveis de resumir em um simples enredo. Uma Mulher à frente de seu tempo, que lutou contra a debilidade física de seu corpo e social do seu gênero. Afinal quem era Frida Kahlo? Um vulcão preste a entrar em erupção que nunca se preocupou com o puritanismo hipócrita que a cercava, mulher de muitas paixões, apaixonados e apaixonadas. Assim como era apaixonada pelo México e o partido comunista, esta dualidade de sentimentos fez deste ícone mexicano uma mulher diferente. Alguns a definem como bi-sexual ousamos dizer que Frida estava, além disso, pois nem Ela própria sabia o que era e tão pouco queria saber, e quem disse que temos que ser Homem ou Mulher!A moral, os bons costumes?E quem diz que os costumes são bons ou ruins? Quem ousaria dizer a Frida o que fazer!Tudo isto ela retrata em sua obra, sentimentos conflituosos, desesperanças, saudades, frustrações, mas ainda assim ela deixa bem claro: “Frida está no domínio de tudo”.

Esta forma irreverente de ser, viver e pintar fez com que o galanteador e eternamente infiel muralista Diego Rivera se apaixonasse por ela. Da mesma forma Frida viu em Rivera o parceiro perfeito para suas aspirações políticas, seu desejo de liberdade e principalmente a companhia perfeita para sua arte. Frida e Diego escandalizariam muitos casais liberais do século XXI. Um casamento onde a fidelidade foi substituída pela lealdade, pelo menos esta era a vontade de Frida, sabendo que seria impossível esperar fidelidade do insaciável Rivera.

Os encontros com amantes eram comum para o casal. Diego sabia de todas as variações e desejos sexuais de Frida, porém ela não sabia de todos os desejos de Rivera. Entre idas e vindas o casamento foi resistindo, até o dia em que Diego seduz e conquista sua irmã mais nova Cristina. O pacto de lealdade não resistiu a este golpe, então Frida separou-se de Diego. Mesmo separados, ele procura Frida como companheiro pedindo ajuda para exilar Leon Trotski, um dos líderes da revolução Russa, com quem ela se envolve sentimentalmente, porém logo Trotski se vê obrigado a mudar de endereço novamente.

Frida aceitou um convite para expor suas obras em Paris na galeria Renón et Colle, em 1939.Ao retornar para o México recebeu dois grandes golpes. O primeiro foi o pedido de separação judicial de Diego Rivera, que iria para os Estados Unidos e o segundo foi a notícia da morte de Trotski, mais que um amigo era símbolo do autêntico comunismo de Frida. Neste contexto Frida Kahlo pintou em 1939 o quadro: “As duas Fridas”, o qual será objeto de análise neste trabalho.

ANÁLISE DO QUADRO

O quadro mostra duas Fridas sentadas sobre um sofá de cordas sem encosto, uma ao lado da outra de mãos dadas. Ao fundo temos um céu muito escuro e talvez tempestuoso dando-nos a idéia de que naquele instante a autora não vislumbrava um horizonte claro, um futuro, mas sim uma eminente tempestade. O piso parece sem vida, sem cor, somente areia e mais nada. Nem uma grama, flor ou canteiro, nenhuma cor vibrante, apenas barro, quase tão sem vida ou apenas com meia vida como uma das duas Fridas.

As duas Fridas olham para o mesmo lugar, com olhar altivo, concentrado e enigmático. Suas peles se diferenciam através da tonalidade, uma é um pouco mais escura do que a outra, assim como suas expressões faciais. A de pele mais clara tem um rosto mais suave e feminino, enquanto que a outra não.

Outra vez Frida usou um vestido como diferencial em sua obra, os vestidos sempre foram peças importantes na composição dos seus quadros. Em seu diário está relatado que no dia do seu casamento, ela optou por um vestido verde com uma capa vermelha, cores da bandeira do México. Em outra obra ela delimitou as fronteiras do México e Estados Unidos com um vestido no varal.

Agora ela aparece sentada duplamente em um banco vestida com diferentes vestidos. Um deles veste a Frida de pele mais clara com expressões mais femininas e este é diferente de todos outros que ela pintou. Um vestido branco, com detalhes florais em vermelho, gola alta, com peitoral e mangas trabalhadas, talvez influência da recente viagem da autora a Paris. A outra Frida veste um cotidiano, com cores fortes, poucos detalhes e uma barra enfeitada, tipicamente um vestido “Fridiano”.

Um detalhe marcante no quadro é a exposição do coração em ambas Fridas, que se interligam por uma artéria. O coração da Frida tipicamente vestida aparece inteiro, ainda que fora do corpo, mas inteiro, enquanto que a outra está com o coração partido. A autora mostra o coração do lado externo do corpo, fazendo referência do que Diego falou de suas obras, quando disse que pintava o que é aparente, enquanto Frida externa o que se passa por dentro. Diante disto acreditamos que ela quis demonstrar e Diego compreendeu o que estava sentido.

O detalhe das mãos demonstra quem estava apoiando quem. A Frida de coração inteiro é quem segura à mão da outra, e na mão esquerda ela segura um pequeno retrato de Diego, que em muitas obras e por muito tempo foi retratado como seu terceiro olho, apesar de reconhecer que a recíproca não existia. Com a expressão menos feminina e queimada pelo sol, arranca este terceiro olho, mas quem rompe a ligação com o coração é a sensível Frida, pois ela é quem está com o instrumento cirúrgico na mão para romper as lembranças de Diego. As marcas de sangue que salpicam o vestido branco demonstram o quanto foi difícil e dolorosa esta ruptura.

Mesmo com o coração partido, a parte feminina e delicada de Frida Kahlo, não está morta. A forte, masculinizada através de expressões e o modo de sentar-se de pernas abertas, ainda mantém uma artéria ligada e levando vida ao coração partido da doce Frida. E a mesma mão que desligou a artéria da imagem de Rivera, ainda está ali, bem como a imagem. Apesar da autora não vislumbrar um futuro no horizonte, no céu ainda há nuvens brancas e esperança de que tudo pode ser religado.

Diante disto concluímos que a porção feminina de Frida está momentaneamente abalada. Esta foi nossa análise superficial da obra: “As duas Fridas”. Ainda que não seja nada disso que a autora quis nos dizer, arriscamo-nos sem medo de errar, ousamos e talvez, contradissemos muitas outras análises acadêmicas. Porém como revolucionários vislumbramos a possibilidade de esperança e dias melhores mesmo em céus tempestuosos. Também acreditamos que uma ruptura por mais dolorosa e sofrida que tenha sido, pode ser apenas momentânea. Por tudo isto, cremos que agindo desta forma, fomos um pouco, FRIDA KAHLO.

REFERÊNCIAS

FRIDA. Direção: Julie Taymor. Produção: Salma Hayek, Lindsay Flickinger, Sarah Green, Nancy Hardin e outros. Roteiro: Clancy Sigal, Diane Lake, Gregory Nava, Anna Thomas. Intérpretes: Salma Hayek como Frida Kahlo, Alfred Molina, Antonio Bandeira. Distribuidora: Miramax Films / Lumière. Drama, 2002. 1DVD (123 min)

Kahlo, Frida. O diário de Frida Kahlo: um auto-retrato íntimo. Introdução Carlos Fuentes; comentários Sarah M. Lowe; tradução Mário Pontes. - 2ª. ed. - Rio de Janeiro: José Olympio, 1996. p. 287.

WIKIPÉDIA. Frida Kahlo. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Frida_Kahlo. Acesso em 10/09/2009.

[1] Kahlo, Frida. O diário de Frida Kahlo: um auto-retrato íntimo. Introdução Carlos Fuentes; comentários Sarah M. ..Lowe; tradução Mário Pontes. - 2ª. ed. - Rio de Janeiro: José Olympio, 1996. p. 287.

Perfil do Autor

Edevânio Francisconi Arceno

Acadêmico de História UNIASSELVI; e Policial Militar.Catarinense, Casado Com Viviani e Pai de Giovanni e Fernanda.Um Garuvense Feliz e...