Breve Comentário Sobre "as Infinitas Realidades Virtuais"*

Publicado em: 10/11/2009 | Comentário: 0 | Acessos: 64

 

"Muitos intelectuais críticos criticam porque acham que o papel do intelectual é criticar. Para mim, o papel do intelectual é outro, compreender."

 

 Pierre Lévy  

 

(*Em entrevista ao jornal O Globo, 16 de Maio de 1998)

 

 Em entrevista concedida ao jornal O Globo, a respeito de novas mídias e plataformas de comunicação, ao ser defrontado com a afirmação de seu compatriota Paul Virillio de que "a tecnologia tem poucos analistas realmente críticos", o filósofo francês Pierre Lévy inicia sua réplica com um notável equívoco de justaposição, tropeçando em "pleonasmo vicioso": intelectuais críticos criticam. O que Lévy acredita que críticos fazem? Memorizam macetes de um novo game da rede?

Lévy continua sua lacônica “réplica-exegese” demonstrando sua posição a respeito do papel do intelectual. Para ele, Lévy, esse papel é outro - COMPREENDER.

 Poder-se-ía rememorar Lévy, sem dúvida um intelectual preparado e renomado mundialmente no que diz respeito à temática das novas tecnologias da comunicação, de qual é a proposta da práxis filosófica constituída desde o Iluminismo e em que bases estão assentadas tais proposições – estas se fundem no Esclarecimento. Não há dúvidas de que o papel, por definição, do intelectual é compreender. Mas o que seria isso então? Que seria compreender?

 Os pensadores da Escola de Frankfurt, Adorno e Horkheimer, abordam na Dialética do Esclarecimento[1], de modo bem proeminente, o papel do intelectual e seu vínculo com a teoria crítica que, diferente da mera contemplação sideracional de seu objeto, busca a compreensão exaustiva (pela clivagem cognitiva). Crítica, o pressuposto metódico de separação, crivo, filtragem, orientação paradigmática que incide sobre o objeto a fim de reduzi-lo ao modo fundamental de suas formações e seu comportamento para esclarecer a respeito das causas possíveis e efeitos desdobráveis, virtuais, de suas operações (em conjuntura, mas categorizada). “O programa do esclarecimento [é] o desencantamento do mundo. Sua meta [é] dissolver os mitos e substituir a imaginação pelo saber”[2]. De saída, o objeto da crítica e da teoria, portanto do intelectual, é a potencialidade do mal, cuja aparência fenomênica dá indícios. Como querem Adorno e Horkheimer, o objeto do conhecimento é e sempre foi o Mal. É ele, o mal, que, enquanto potencial ou virtualmente gerador do caos, é buscado pelo intelectual, na ordem putada, mesmo no mito como reminiscência da natureza suposta, ou no fetiche especular do tecnológico e do absoluto científico:

 

O esclarecimento ainda se reconhece a si mesmo nos próprios mitos. Quaisquer que sejam os mitos de que possa se valer a resistência, o simples fato de que eles tornam argumentos por uma tal oposição significa que eles adotam o princípio da racionalidade corrosiva da qual acusam o esclarecimento. O esclarecimento é totalitário. (...) Todas as figuras míticas podem se reduzir, segundo o esclarecimento, ao mesmo denominador, a saber, ao sujeito.[3] 

 

 

 Como é notável, os frankfurtianos da Dialética do esclarecimento, no capítulo inicial sobre o Conceito de Esclarecimento, indicam o exercício filosófico da compreensão como a busca pela iluminação, trazer à luz o que se encontra cerrado no profundo obscuro, ob-nublado pela aparência superficial do fenômeno. Assim, por questões óbvias, essa compreensão, crítica, só pode ser, de saída, Negativa, isto é, antitética - redução dialética (algo como que a maiêutica) - negação, oposição discursiva, síntese descendente, até encontrar o núcleo original do problema indiciado, o mal radical patente ao objeto analisado. 

 Desse modo a compreensão ou esclarecimento se dá num processo de total "desencantamento  do mundo", com isto deve-se entender não pessimismo, mas ceticismo. Livrar-se, ante seu escopo, de qualquer afeto prévio à depuração do analisado, das schematas  ilusório-apreciativas que, não raro, a catoptria do objeto logra induzir.

 O modo de lida com o fenômeno já apresentadamente afetado pelo relato interlocutório só pode ser, inicialmente, a negação na crítica. Superar o mito é a função do esclarecimento enquanto conhecimento profícuo do mundo. A crítica é o papel do intelectual frente seu problema. 

 

[1] - Adorno, Theodor W. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Jorge Zahar Ed., 1985(reimpressão, 2006.). Rio de Janeiro, RJ.

[2] - Idem (p 17). Grifos nossos.

[3] - Ibid. (p19).

 

(Artigonal SC #1443055)

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    Palavras-chave do artigo:

    PIERRE LÉVY; NOVAS TECNOLOGIAS

    ,

    INTERNET; TEORIA CRÍTICA; ADORNO;

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