Breve Exegese Sobre "A Sociedade Do Espetáculo"
"O espetáculo, que é o apagamento dos limites do eu [moi] e do mundo pelo esmagamento do eu [moi] que a presença-ausência do mundo assedia, é também a supressão dos limites do verdadeiro e do falso pelo recalcamento de toda verdade vivida, diante da presença real da falsidade garantida pela organização da aparência" (DEBORD: 1997, p140)
Em sua obra A Sociedade do Espetáculo, Guy Debord faz um laudo daquilo em que se transformara a vida social contemporânea, empreendendo um levantamento inventarial que decorre toda linha praxiológica da atual sociedade, na qual "reinam as modernas condições de produção" (Id.,p13), decalcando componentes indexais que apontam, em profundidade sistêmica, as articulações basilares que alicerçam e constituem as estruturas dessa mesma sociedade que ele designa pela metáfora, que é também a conceituação do modo próprio de ser dessas formações, do Espetáculo.
A conceituação de espetáculo em Debord adquire dimensionamento hiperampliado e, como expansão teórico-discursiva, carrega uma falha imanente que perfaz-se ao mesmo instante enquanto sinal sintomático, isto é, índice, e denúncia enunciativa da problemática encerrada no núcleo original de toda produção atual - sua abstração indefinida, sua evasão incontível, sua indisposição à delimitação praxíológica e discursiva, tal que essa abstração seja seu próprio "modo de ser concreto" (ibid., p23)
Ainda como indexação das formações da práxis social, o construto teórico de Debord deve ser considerado na totalidade sincronicizada de sua constituição, digo, a dupla operação ou circulação, se for mister, da relação dos campos substancial e formal de seu enunciado: a ampliação evasiva e ob-nublada da conceituação teórica e a composição estético-estilística da disposição tópica da narrativa - fragmentação, inversão, jogos de antíteses, alusões, elisão, metaforização, eis o modo como a atual sociedade estrutura sua irreconhecida linguagem oficial, que indica a escolha já feita (ibid.,p15) na origem da produção, a qual o teórico vem apontar analogamente. Essa linguagem, como via de mão-dupla, incide sobre formações marginais contrapostas, significando, pela organização tenaz da aparência, uma falsa verdade concreta subjacente, que é a verdade mais plena nessa linguagem oficial da falsificação. Sua mentira tecnicizada é a verdade cru de seu vazio fundamental.
O discurso sobre o espetáculo está assentado em três conceitos intercomplementares advindos do marxismo, do marxismo ortodoxo - alienação, reificação e fetichismo - categorias ordenatórias que designam, em sua dialética fundamental, continuidade e modificação qualitativa da ordem, e que permeiam toda linha evolutiva da produção social no seu atual estágio de desenvolvimento. Entretanto, a produção, que mantém sua lógica estruturante, adquire nova configuração, em que a sistematização abstrata da produção transforma-se em produção sistemática da abstração - toda produção converge fluidamente ao epicentro ermo de sua topografia, todo trabalho torna-se abstrato, todo produto subverte-se em imagem, sua reificação por excelência. A topografia social converte-se em topologia da representação.
O autor enxerga a atualidade com a sincronia das diversas técnicas especializadas e fragmentárias, como a época do domínio do que denomina espetacular integrado - este ele descreve, metodologicamente, como convergência subjacente de cinco esferas microcosmícas que se pregnam umas nas outras constituindo o modus operandi geral desse sistema: "incessante renovação tecnológica; a fusão econômico-estatal; o segredo generalizado; a mentira sem contestação; o presente perpétuo" (op.cit., p175 et.seq.)
O projeto possibilitado pelo aperfeiçoamento técno-científico aplicado ao sistema geral de produção, que é ao mesmo tempo seu paradigma e seu fim, digo, seu modelo finalizado que se encerra na contemplação imagística de si mesmo, realiza-se na autonomização autômata da produção, cujo produto reificado concretiza-se na abstração a que estava fadado desde o início do processo - a imagem do ser autônomo permuta-se em autonomização do ser-da-imagem. Ao mesmo tempo em que a imagem passa-a-ser independentemente de seu domínio, a imagem passa a ter o domínio do ser, a aparência torna-se o próprio ser das coisas, o espetáculo é a dominância que as contém, cujo momento histórico, inversamente, passa a determinar - seu cálculo de emprego do tempo-espaço na práxis, cujos critérios não são explícitos. É o próprio humano, agora, que fica recalcado na imagem, paradoxalmente, é o Homem que se tornou coisa (res) - a imagem da economia autônoma passa a ser autonomia de uma economia-de-imagens. O Sujeito declivado, regresssivo, tornou-se inconsciente de si. Sua práxis histórica deverá ser decalcada das representações que a moldam. "Tudo o que é consciente se gasta.O que é inconsciente permanece inalterado. Mas este, quando libertado, também não cai em ruínas? (Freud)" ( FREUD apud DEBORD: op.cit., p35). A idolatria fetichista do sagrado religioso revalida-se na ilusão do pseudo-sagrado, da narcisologia supérflua, celebrizada no espetáculo - uma visão disfuncional de mundo que se objetivou. Na telepraxiologia, como imagem densa do mundo, o mundo tornara-se ologramático.
Com a extensão do eu [moi]na imagem prodigiosa que se constitui idêntica à sua ilusão e, autonomamente, à revelia de seu referente, os limites desse eu determinístico [moi] são sumariamente suprimidos pelo cúmulo contíguo, indefinido, de seus contornos e seus aspectos mais proeminentes - é o próprio princípio de realidade que tende a sucumbir, socialmente, com o esmagamento do eu [moi], pela elisão da diferença "que a presença-ausência do mundo assedia" (loc.cit.).
"O espetáculo confundiu-se com toda a realidade ao irradiá-la"(op.cit.,p173) Nessa indistinção supressora do eu [moi], a própria noção do verdadeiro e do falso, que se fundam na diferença oposicional, se apaga. Isso pode ser alcançado por diversas vias cuja aparição reificada já não pode ser determinada nem como causa nem como efeito, mas apenas como perpétua hesitação.
A coisa abiogênica que se estabelece na "sociedade do espetáculo" só pode realmente ser qualificada como uma presença ultrassublime, hipóstata, pseudôntica. Sua qualidade não ultrapassa o nível da sideração instantânea que se pode fazer dela - a coisa é eminentemente pseudo-apodítica, seu fundamento é contemplativo. A apostasia da produção é sua natureza, apófase.
Marca do atual contexto, o presente perpétuo fundado nessa ordem se equivale ao apagamento da história que a supressão do tempo-espaço define identicamente ao esmagamento do eu [moi]. A elisão referencial funda uma abertura quase instantaneamente suturada. Nenhuma sentença pode especificamente durar muito para que não haja risco de que possa ser estabelecida como referente mais "denso" e mais estável, tudo deve errar-se. "Aquilo de que o espetáculo deixa de falar durante três dias é como se não existisse. Ele fala então de outra coisa, e é isso que, a partir daí, afinal, existe. As conseqüências práticas, como se percebe, são imensas" (op.cit, p182). À lacuna deixada por essa espécie de "amnésia-coletiva" da história é enxertada uma narrativa fabulosa, estabelecida como diretriz regressiva de toda significação, que repercute indefinidamente nas consciências, factualmente.
"O fato de já não ter contestação conferiu à mentira uma nova qualidade. Ao mesmo tempo, a verdade deixou de existir em quase toda parte, ou, no melhor caso, ficou reduzida a uma hipótese que nunca poderá ser demonstrada" (op.cit, p176).
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Ref. Bib.
1 - DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo. Ed. Contraponto, 1997. Rio de Janeiro, RJ.
Perguntas e Respostas
Palavras-chave do artigo:
guy debord espetaculo contemporaneidae pos modernidade falsificacao social representacao imagem pseudoconsumo fetichismo
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