Cidadania E Ética Na Escola Na Busca Da Formação Moral

21/10/2009 • Por • 16,651 Acessos

Introdução

            A palavra ética e moral costumam ser usadas quase como sinônimas, mas há diferenças entre elas, pois a moral se refere aos costumes que determinada sociedade possui e, portanto, se reveste de um sentido, digamos mais conformista, mais no rumo de adequar o individuo ao seu grupo social, já a ética, diria respeito as diferenças presentes em qualquer sociedade, onde cada individuo buscaria seu próprio caminho.

             Segundo Cabanas (1996), a questão central da ética é a de responder à pergunta sobre o que nos obriga a sermos bons? Ou seja, é a ética que nos possibilita critérios para definirmos o que é ser bom, correto ou moralmente certo e que nos fornece explicações para nosso senso de dever moral.

 

No entanto, lembremos que quando falamos de ética (ou moral), consideramos as ações humanas no contexto escolar. Essas ações devemos aprová-las, censurá-las ou moldá-las?

Segundo Piaget o método mais efetivo para a educação moral é o ativo, onde a criança participa de experiências morais através do ambiente proporcionado pela escola. Quanto a isso, o autor diz que a criança deve estar em contato com outras crianças e com situações onde possa experimentar a cooperação, a democracia, o respeito mútuo e, assim, construir paulatinamente sua moralidade.

Uma das questões cruciais, hoje, quando discutimos a moral ou a ética esta aqui: acreditamos que existe uma tábua de valores pronta e acabada, mas falhamos, pois tais valores são construídos de acordo com a relação do homem com o mundo, e esta relação pode ser aprimorada no ambiente escolar, quando podemos proporcionar a criança situações para ela vivenciar a partilha, a cooperação, o respeito mútuo, exercer a cidadania e assim construir a sua autonomia.

O convívio escolar é um espaço rico para que o aluno desenvolva o diálogo, aprenda a ser solidário, a ouvir e ser ouvido, a submeter suas idéias ao juízo dos outros. Assim o trabalho pedagógico terá sentidos e significados para quem aprende e para quem organiza o processo, e o objetivo principal de construção da cidadania se torna possível.

O resgate da cidadania significa assumir a causa dos direitos humanos como direitos de todos, pessoas educadas não manipulam nem são manipuladas, e o espaço escolar proporciona situações para que tudo aconteça.

 

Desenvolvimento

            A ética é elemento integrante de nosso ser e estar no mundo. Falar da essência da pessoa humana é falar do amor, da liberdade, da solidariedade, da prática da justiça, portanto é falar da cidadania.

            A luta pela conquista de espaço nessa sociedade competitiva e excludente tem desencadeado entre as pessoas alguns comportamentos preocupantes. As pessoas estão perdendo o respeito pelo próximo, o prazer e o diálogo, o sentimento de solidariedade e a humildade, daí a preocupação que desenvolver na escola um trabalho que possa desenvolver esses valores, buscando um comportamento mais ético dos alunos.

Sabemos que a educação tem como responsabilidade a formação de cidadãos autônomos, críticos e participativos, para tanto, as situações criadas na escola para tal formação pode também estar relacionada com as atividades que desenvolvem a ética moral. Essas trocas de experiências estão ligadas a atividades desenvolvidas em equipe, pois a criança não constrói sua personalidade num ambiente isolado, mas sim num espaço participativo, onde existe troca de opiniões, e discussões das idéias sendo aprovadas ou censuradas.

Para Piaget, a educação moral não constitui uma matéria especial de ensino, mas um aspecto particular da totalidade do sistema, dessa maneira, as crianças e os jovens não devem ter "aulas" de educação moral, mas vivenciar a moralidade em todos os aspectos e ambientes presentes na escola. Nesse sentido, os trabalhos em grupo (ou trabalho por equipes, como prefere Piaget) são uma atividade facilitadora para a construção da autonomia, pois as crianças, ao trabalharem juntas, podem trocar pontos de vista, discutir, ganhar em algumas idéias e perder em outras, enfim, podem exercer a democracia.

Portanto, cabe aos professores propiciar questões e atividades em que os educandos, agentes ativos no processo ensino-aprendizagem, possam dialogar, discutir, questionar, compartilhar informações e viabilizar um espaço para as transformações, as diferenças, o erro, o que é certo e o que é errado, as contradições, a colaboração mutua e a criatividade.

O desenvolvimento humano se constitui por meio das interações da criança com outras pessoas mais experientes, e é por meio das aprendizagens decorrentes que os indivíduos desenvolvem as funções psicológicas, com capacidade de abstrair, interpretar e criar. (KOHL,1995,p.60)

 

            Assim, o processo de desenvolvimento humano é decorrente das aprendizagens que o individuo internaliza a partir das interações com os outros indivíduos da sua espécie.

            Segundo Puig, a educação moral deve apresentar-se como um espaço de reflexão individual e coletiva que possibilite a elaboração autônoma de valores e que auxilie a:

· Detectar e criticar os aspectos injustos da realidade cotidiana e das normas sociais vigentes.

· Construir formas de vida mais justas, tanto nos âmbitos interpessoais como nos coletivos.

· Elaborar autônoma, racional e dialogicamente princípios de valor que ajudem a julgar criticamente a realidade.

· Conseguir que os jovens façam seus aqueles tipos de comportamentos coerentes com os princípios e normas que pessoalmente construíram.

· Fazer com que adquiram também aquelas normas que a sociedade, de

 

modo democrático e visando a justiça, lhes deu. (PUIG, 1998b, p.17 apud Lepre2001)

Para esse autor, a educação moral pressupõe uma tarefa construtiva e deve levar em consideração as diferenças e os valores culturais de todos os grupos sociais. É necessário, ainda, atentar para alguns elementos presentes na moralidade, como por exemplo, as emoções e os sentimentos.

"Por fim, a construção da personalidade moral conclui com a construção da própria biografia como cristalização dinâmica de valores, como espaço de diferenciação e de criatividade moral." (PUIG, 1998 a, p.75) Assim, o último momento da educação moral com vistas à construção da personalidade, seria o de tomar conhecimento de sua própria biografia moral, conhecer seus valores e ter as habilidades necessárias para viver uma vida que "valha a pena ser vivida e que produza felicidade a quem a vive." (PUIG, 1998a, p.75/76)

Severino (1994: 149) entende que:

Só se compreende educação enquanto forma de mediação histórica da existência humana, como uma luta de condições sempre melhores de trabalho, desociabilidade e de vivência da cultura simbólica, portanto ela só se legitima como mediação na construção da cidadania. Em relação ao indivíduo, a educação se propõe a construir e desenvolver a cidadania. Em relação à sociedade a construir a democracia, entendida como garantia a todos os indivíduos da efetivação universalizada dessas mediações.

 

Dessa forma, toda a escola deve estar engajada em seu programa de educação moral, caso tenha optado por ele de forma democrática. Esse trabalho não pode ser desenvolvido apenas na sala de aula, entre professor e alunos, mas em toda a escola, que deve constituir-se como um ambiente sócio-moral que permita a

 

construção da cidadania. ( Lepre,2001).

 

 

Conclusão

 

Devemos buscar soluções que atendam aos pressupostos da educação pautada nesta ética. Educar é uma tarefa dificílima e deve gerar compromissos sociais, preservando a identidade de cada um, sua consciência sobre si mesmo e sobre o mundo exterior.

Ter um modelo em que o próprio educando vá traçando seu caminho, para enfim chegar a um estágio onde sua moral, cidadania está interligada voltada a um sentimento que o leva a ser feliz. Trata-se de elaborar uma nova ética do sujeito consciente e livre buscando o que há de melhor para seres concretos e históricos, que somente tornar-se-ão plenamente humanos quando voltados para a transcendência.

Nesta perspectiva é interessante a preocupação de Paulo Freire, já no livro Educação como Prática da Liberdade, em redefinir tais conceitos: “De acordo com as teses centrais que vimos desenvolvendo, pareceu-nos fundamental fazermos algumas superações, na experiência que iniciávamos. Assim, em lugar de escola, que nos parece um conceito, entre nós, demasiado carregado de passividade, em face de nossa própria formação (até mesmo quando se dá o atributo de ativa), contradizendo a dinâmica fase de transição, lançamos o Círculo de Cultura. Em lugar de professor, com tradições fortemente “doadoras”, o coordenador de debates. Em lugar de aulas discursiva , o diálogo. Em lugar de aluno, com tradições passivas, o participante do grupo. Em lugar dos “pontos” e de programas alienados, programação compacta, "reduzida" e "codificada" em unidades de aprendizagem. (Freire. 1996. Nota 12, p. 11)

Mas, para primeiro destacar esta ética dentre os alunos temos que lembrar o papel da área pedagógica, que este é o responsável por desencadear este processo dentro da escola. A proposta dos Parâmetros Curriculares Nacionais referente ao trabalho com a ética é justamente evitar essa dicotomia entre “pregar valores” e “vivenciar valores”.

Sabemos que a escola, em outros tempos trabalhava com os conteúdos sobre valores na disciplina Moral e Cívica, no entanto, os alunos não desenvolveram o sentido moral e muito menos de civismo. Nesse sentido, o tema transversal “Ética” é sugerido para que seja trabalhada a construção da autonomia moral dos alunos.

A educação para a liberdade não pode reduzir-se a ensinar a ser comedidos nas reivindicações e sim respeitosos com os direitos dos outros.

Não podemos mais propor um rol do que é certo e do que é errado, a de que as pessoas simplesmente o repitam em suas vidas. Por isso mesmo, a ética não pode ser mais uma relação de condutas honestas, corretas; isso é bem pouco e não garante que uma pessoa haja bem.

            Uma conduta ética exige responsabilidade de todos, no sentido negativo de limpar o que está sujo, mas também e sobretudo, no sentido ( este, positivo) de construir uma sociedade que escolha determinados fins comuns.

 

 

 

 

 

Perfil do Autor

Cristiane Zandonadi

Professora da Rede Estadual do Estado do Espirito Santo, licenciada em Matematica, pós graduada em Matemática e Orientaçao Educacional.