Concepções De Leitura

15/02/2010 • Por • 4,603 Acessos

De acordo com Adam e Starr (apud COLOMER, 2002, p.29): entende-se por leitura a capacidade de entender um texto escrito.

O significado de um texto não está na soma de significados das palavras que o compõem, nem coincide somente com o que se chama de significado literal do texto. Portanto, durante a leitura de uma mensagem escrita, o leitor deve raciocinar e inferir de forma contínua, captando significados que não aparecem diretamente no texto.

Adam e Starr (apud COLOMER, 2002, p.31) afirmam que o texto proporciona apenas uma das fontes críticas de informação. É preciso que o restante provenha dos conhecimentos prévios do leitor.

Assim, ler é mais do que um simples ato de decodificar, é antes de tudo um ato de raciocínio.

Ler significa ser questionado pelo mundo e por si mesmo, significa que certas respostas podem ser encontradas na escrita, significa poder ter acesso a essa escrita, significa construir uma resposta que integra parte das novas informações ao que já se é. (FOUCAMBERT, 1994, p. 05)

Diante deste contexto, o leitor une as novas informações com aquelas que já possui armazenadas na mente e projeta uma nova idéia à escrita.

Colomer (2002, p. 36-37) apresenta como o leitor construirá o significado em um processo que pode ser dividido em:

A formulação de hipóteses. Quando o leitor se propõe a ler um texto, uma série de elementos contextuais ativa alguns de seus esquemas de conhecimento e o leva a antecipar aspectos do conteúdo. Suas hipóteses estabelecem expectativas em todos os níveis do texto, são formuladas como suposições ou perguntas mais ou menos explícitas para as quais o leitor espera encontrar resposta se continuar lendo.

A verificação das hipóteses realizadas. O que o leitor antecipou deve ser confirmado no texto mediante os indícios gráficos. Inclusive as interferências têm de ser confirmadas, já que o leitor não pode acrescentar qualquer informação, mas apenas as que se encaixem segundo regras bem-determinadas que também podem ser mais ou menos amplas em função do tipo de texto. Assim, o leitor buscará indícios em todos os níveis de processamento, de modo a comprovar a certeza de sua previsão. Para fazer isso, terá de fixar-se em letras, marcas morfológicas ou sintáticas (como a separação de palavras, os sinais de pontuação, as maiúsculas, os conectivos etc.) e inclusive em elementos tipográficos e de distribuição do texto.

A integração da informação e o controle da compreensão. Se a informação é coerente com as hipóteses antecipadas, o leitor a integrará em seu sistema de conhecimentos para continuar construindo o significado global do texto mediante diferentes estratégias de raciocínio.

Para entender o significado do texto, o leitor tem de elaborar uma interpretação global deste ao longo de sua leitura. A compreensão é a finalidade natural de qualquer ato habitual de leitura, não é fácil para ninguém ler um texto sem conseguir construir uma interpretação.

Durante toda a vida, as pessoas constroem representações da realidade, valores, ideologia, procedimentos etc. com isso compreendem as situações, uma conferência, uma informação e, evidentemente, um texto escrito. Para que alguém possa se envolver na atividade que o levará a compreender um texto escrito, é imprescindível verificar que esta tem sentido. Para poder atribuir sentido à realização de uma tarefa, é preciso que se saiba o que se fazer e o que se pretende com ela, que a tarefa em si resulte motivação.

A leitura é um fator importantíssimo na construção do conhecimento, ela não se configura como um processo passivo. Longe disso, pois exige a descoberta e recriação, pois o leitor além de partilhar e recriar referenciais de mundo, transforma-se num produtor de acontecimentos em função de sua compreensão e consciência crítica. (VALENTINI, 1999, p. 63)

Assim, vê-se a importância da leitura como um processo contínuo, que precisa ser praticado para ser aprendido. Ler é compreender, é um processo de construção de significados sobre o texto que pretendemos compreender. Pois, se um aluno a ler compreensivamente e a aprender a partir da leitura, ele estará aprendendo a aprender, de forma autônoma em uma multiplicidade de situações.

Valente (1999, p.34) destaca que ninguém lê hoje porque leu ontem, assim como ninguém ama hoje porque amou ontem.

O autor ressalta que a leitura tem uma dinâmica que é instável, sentimos necessidade de ler sempre e as necessidades nos impulsionam a procurar diferentes tipos de leitura, na tentativa de encontrar soluções para as situações que se apresentam no cotidiano.

Para Silva:

Ler em si não é viver. Ler é conseguir o devido combustível de idéias para viver em sociedade. E essa conquista passa necessariamente pela objetividade do ensino e pela qualidade da escola. Isso não é uma inferência, mas um fato real ou, uma previsão do que se acerta. (SILVA apud NOVA ESCOLA, mar. 2003, p. 49)

A formação de leitores tem como finalidade aproximar as pessoas dos livros, oferecendo-lhes recursos para que possam interpretar e compreender os textos lidos; ampliar a capacidade expressiva através de atividades literárias e artísticas em que possam manifestar sentimentos e opiniões e desenvolver a capacidade crítica estimulando-os a reflexão sobre o que lêem, confrontando diferentes pontos de vista, principalmente quando estiverem envolvidos temas polêmicos que expressem anseios e preocupações da comunidade em que estão inseridos.

A leitura é o meio de que dispomos para adquirir informações e a desenvolver reflexões críticas sobre a realidade. A leitura de textos permite-nos depreender esquemas e formas da língua escrita que, como já sabemos, tem normas próprias, diversas daquela da língua falada. (INFANTE, 1999, p. 69)

Quanto mais atividades, recursos diversificados forem propostas para a leitura, mais estimulada estarão as crianças. Propostas lúdicas e desafiadoras despertam o interesse pela leitura, assim a literatura deve ser também um ato de entreterimento.

Franco (1997, p.46) menciona que cada tipo de leitura pede uma metodologia especifica.

Dentre elas estão:

A busca de informações

Buscar informações em um texto exige que se tenha perguntas a serem respondidas, dúvidas a serem esclarecidas. É necessário o “querer saber mais” e o “querer esclarecer”.

 

Estudo do texto

A leitura estudo do texto é a que faz, quando se quer aprender alguma coisa, ir além de onde já se está, e/ ou para confirmar ou não certos posicionamentos.

Ela se dá a qualquer momento.

Na escola está intimamente ligada ao ato de estudar que, normalmente, tem sido considerado como de responsabilidade do aluno e da família.

É um tipo de leitura que deve ser introduzida nas salas de aula. O aluno deve ter à sua disposição diferentes tipos de materiais informativos, que lhe possibilitem estudos. É importante que se reserve um horário, em sala de aula, para a leitura estudo do texto, onde cada aluno (ou grupos de alunos) fará a leitura/ estudo de acordo com seus interesses  e necessidades.

 

Leitura Pretexto

A leitura pretexto é a que permite a paráfrase, a reprodução sinonímica, a reescrita.

É através dela que a dramatização, a pantomima e o teatro acontecem. É a leitura, por excelência, para se trabalhar a expressão corporal e a linguagem verbal, em sua forma sistematizada, através da representação.

Não basta reescrever um texto, dando-lhe nova forma, nova roupagem. É essencial que se vivencie o texto, mas que o texto permita ser pretexto.

Há de se ter cuidado ao se usar um texto como pretexto para discussão de questões sintáticas: descobrir como funciona a sintaxe do texto. Dissecar a sintaxe de um texto é tratá-lo como coisa morta, discutir a sua sonoridade e descobrir os seus segredos é torná-lo vivo e parte do processo ativo de aprendizagem.

 

Leitura fruição (literária)

A grande preocupação em se formar “hábitos de leitura”, em formar “bons leitores” tem muito a ver com este tipo de leitura.

Se tem a oportunidade de ler por prazer provavelmente o hábito e o bom leitor se concretizarão.

É importante que o professor seja um leitor que privilegie a fruição, que leia histórias com todas as cores que elas carregam.

A escola deve proporcionar uma leitura que leve à compreensão dos textos e à participação de forma crítica na dinâmica do mundo da escrita, bem como posicionando os alunos frente à realidade em que está inserido. Está aí implícita a idéia de que os professores lançam mão de determinados textos, produzidos por determinados autores, para instigar e esmerar a compreensão, a crítica e o posicionamento dos seus alunos.

São três os verbos que definem as funções essenciais da leitura: a)transformar, b) compreender e c) julgar.

Transformar, em leitura, se dá quando o leitor  converte a linguagem escrita em linguagem oral. Compreender se efetiva quando o leitor consegue captar ou dá sentido ao conteúdo da mensagem. Julgar é a capacidade que o leitor tem de analisar o valor da mensagem no contexto social.

Os processos básicos da leitura são também chamados de “processos de nível inferior”. Sua finalidade é o reconhecimento e a compreensão das palavras. Dentro destes se encontram a decodificação  e a compreensão de palavras.

Os processos superiores ou de nível superior têm por finalidade a compreensão de textos.Os dois processos, isto é, os básicos e os superiores, devem ser considerados no ensino do português e na aprendizagem da lectoescrita uma vez que funcionam de modo interativo ou interdependente.

Os processos básicos, isto é, que se voltam à decodificação e à compreensão de palavras, são particularmente importantes nas primeiras etapas da aprendizagem da leitura (ou leitura inicial na educação infantil) e devem ser automatizados ou bem assimilados no primeiro ciclo do ensino fundamental (até a quarta série), já que um déficit em algum deles atua como um  nó de gravata que impede o desenvolvimento dos processos superiores de compreensão leitora.

Processos preceptivos - O leitor atinge a  decodificação através dos processos perceptivos e dos processos léxicos. Os processos perceptivos referem-se à percepção visual.

A percepção visual permite a extração de informações sobre cosias, lugares e eventos do mundo visível. Portanto, a percepção é um processo para aquisição de informações e conhecimentos, guardando estreita relação com a memória de longo prazo (MLP) e a cognição.

A percepção é uma das primeiras atividades que  tomam parte do processo leitor e a forma mais específica da percepção visual. Aprende-se a ler com o poder do olhar.

Ao engajar-se numa leitura, o leitor fixa o olhar, inicialmente, nos símbolos impressos, isto é, nas palavras e nos seus grafemas, e se não analisar em profundidade o que realmente ocorre pode parecer que os olhos percebem as palavras de uma linha ou de um texto de forma contínua. Diante deste contexto, entende-se que ler, a rigor, não é apenas ler as palavras nas linhas, na sua dimensão linear sintagmática, mas ler as entrelinhas, o subjacente, o paradigmático, o ausente, o dito não explícito no texto.

Segundo Franco (1997, p.46), “Ler é prever, pensar, interagir”.

A leitura é um processo de interação entre autor e leitor a inferir dados e situações e a pensar, refletidamente, após o ato de ler.

Sendo a leitura uma ação interlocutiva, é necessário identificar, na sala de aula, a finalidade da leitura. A pergunta básica é: “Para que se lê, o que se lê?

Vai-se ao texto em busca de respostas. É a leitura busca de informações. Deseja-se saber mais, conhecer posicionamentos, outras propostas condizentes, ou não, com as que se detém.

É o que se chama de leitura informativa. Vai-se ao texto para escutá-lo. Não se buscam respostas a perguntas previamente elaboradas, mas busca-se retirar dele tudo o que for possível e perceptível, o que o texto deixa entrever e o que o leitor possa perceber.

 

A compreensão não é uma questão de compreendê-lo todo ou não compreender nada, mas que, como em qualquer ato de comunicação, o leitor realiza uma interpretação determinada da mensagem que se ajusta mais ou menos à intenção do escritor. Saber que condições influem no grau de compreensão da leitura é de grande interesse para o planejamento educativo dessas aprendizagens, já que a capacidade de entender um texto e a possibilidade de ensinar a fazê-lo passaram a ser considerados os aspectos-chave da leitura e de seu ensino. Os fatores que condicionam a compreensão relacionam-se com os dois elementos que interagem no processo de leitura: o leitor e o texto. (Colomer, 2002, p. 47)

 

 

Desta forma percebe-se que a compreensão é a captação do sentido ou conteúdo das mensagens escritas. Sua aprendizagem se dá através do domínio progressivo de textos escritos cada vez mais complexos. 

Zilbermam & Silva, alinha oito componentes necessários para a compreensão:

 

Conhecimento das palavras;

Raciocínio na leitura;

Capacidade para focalizar a atenção em proposições explícitas do autor;

Capacidade para identificar a intenção do autor;

Capacidade para identificar proposições detalhadas num trecho;

Capacidade para seguir a organização de um trecho e identificar os antecedentes que se referem a ele;

Conhecimento especifico dos recursos literários;

Capacidade para selecionar o principal pensamento de um trecho. (ZILBERMAM & SILVA, 1988, P. 09),

 

Com isso, percebe-se a necessidade de proporcionar aos alunos uma leitura que além de lhe dar prazer, leve-os a adquirir compreensão sobre o que está lendo. Uma vez que a escola promove o intercâmbio entre a criança e a leitura, e ela tem a oportunidade de estimular o gosto e o hábito de ler.

Torna-se essencial que o professor tenha uma concepção de leitura que realmente busque o desenvolvimento dos alunos e que ofereçam oportunidades positivas de contato com diversos tipos de textos, uma vez que o ato de ler é muito importante, como agente de aquisição de conhecimento de todas as disciplinas.

Por este motivo, o professor deve introduzir na sua prática pedagógica, metodologias e estratégias criativas, utilizando a leitura para estimular a emancipação pessoal e para buscar o desenvolvimento integral do aluno.

Perfil do Autor

SANDRA VAZ DE LIMA

Nascida no município de Telêmaco Borba - Paraná. Graduada em Letras/ Inglês/Espanhol e Pedagogia. Especialista em Educação Especial e...