Confissões De Um Professor: Dom Ou Acaso Na Ação Pedagógica Em Sala De Aula?

31/05/2009 • Por • 1,815 Acessos

Uma das coisas mais difíceis de se fazer, com certeza, é a escolha da profissão. Muitas pessoas, ainda hoje, não possuem essa certeza. O que mais ouço é a premissa de que: até agora, tem dado certo.

Mas por que um tema como esse seria relevante? Muito se tem questionado sobre a forma como o professor em sala de aula tem atuado, e mesmo, se há uma forma fiel de separar o joio do trigo. O que mais se lê na mídia é se, pelo fato de ter sido empurrado ao magistério, por falta de opção, a relação professor x aluno não seria interrompida e muitas vezes, seria a mola propulsora para o desestímulo dos alunos, já que nos últimos tempos tem sido muito tumultuada essa relação.

Mas o que fazer para trazer um pouco de luz a esse tema? Creio que a única forma de fazer refletir essa situação é pensar nas palavras de outro professor, alguém cujas características se assemelham aos inúmeros leitores desse material.

Esse tema nos cativa, pois colecionamos notícias sobre um tema recorrente sobre vários são os casos de jornais e revistas, que citam ataques de alunos a seus professores. Alguns atribuem sua ação violenta aos comentários menosprezados de seus professores. Assim, vivemos, com certeza, um choque cultural, onde os valores familiares, segundo várias pesquisas: inexistente, bate de frente com os valores que o professor tenta ensinar em sala de aula.

Esse choque de valores, do aluno e do professor seria o verdadeiro motivo? Em entrevistas a alunos em escolas públicas mais retiradas, onde a falta de professor se tornou um estigma, vemos relatos de que a ação de alguns professores, mais propensos a relatarem episódios de sua vida, numa franca matação, do que o verdadeiro ensino de sua matéria. Precisamos então, de uma classe de professores que esteja preparado, frente a um novo desafio, o de ser professor, formado para esse fim, com vocação e profissionalismo, tal qual o médico que só opera se foi preparado para isso e tem convicção pessoal de que pode realizá-la e; educar nesse novo século, já que o professor estará em contato direto com seus alunos que não possuem maturidade para decidir qual o conteúdo da aula de hoje. Portanto necessita preparar-se para desenvolver e promover conhecimento.

Esse preparo acontece em virtude da necessidade desse profissional ter clareza que sua função é muito importante, pois auxiliará o aluno a sair da condição de depende até chegar a um estágio de autonomia.

Para que essa tarefa se cumpra, entendemos como necessário, que se discutam e debatam a respeito do ofício de professor. Destacamos como de grande valor: a preparação institucional universitária, a afetividade pessoal, o respeito a profissão, a sala de aula como um ambiente prazeroso e a vocação que o professor precisa ter para assumir esta desafiadora missão de ensinar a criança.

Para tanto, começo minhas considerações e assumo o papel de meu entrevistado, preservando sua identidade e respeitando seu passado de dores, escolhas e como veremos de busca pela vocação de ser professor. Assim, reescrevo, mesclando a sua e aminha história, no afã de construir uma estória digna de reflexão.

Que seu desabafo possa auxiliar outros a escreverem e assim, entenderem que a vocação, o dom, ou como quiserem chamar, faz sim uma diferença brutal. O fator complicante, creio, é que o aluno sabe disso.

 Como era a minha vida?

 A área de administração empresarial sempre me atraiu e foi meu primeiro objetivo. Para isso me preparei, para ser um administrador modelo, típico dos livros de Ricardo Sembler (2002) ou mesmo de Stephen Kanitz (2004).

Desde meu ensino médio investi intensamente em livros da área, buscando, inclusive, uma universidade em meu estado, de referência, para meus estudos na graduação.

Nessa jornada, o primeiro ano da faculdade foi difícil, algo não estava bem. Por ser minha personalidade irrequieta, não conseguia achar um sentido no curso que estava desenvolvendo, e isso me fez procurar outras opções. Foi nesse período que encontrei um anúncio sobre um curso preparatório para professores da área de ciências que o município onde residia estaria realizando. Como bom escoteiro, fui, me inseri e realmente foi uma surpresa para mim; era isso mesmo que eu desejava. Admitido em caráter temporário, decidi experimentar. Confesso que não foi uma experiência agradável. Continuava fazendo meu curso de administração, e dobrando os estudos em ciências para poder lecionar. Mas estava claro que uma coisa não tinha nada haver com a outra.

Foi na sala de aula que me descobri enquanto profissional. Foi desvendando os mistérios da ciência cotidiana, vendo o rosto iluminado a cada descoberta, vibrando com cada nova conquista que pude, realmente, me identificar, já que

Ser bom em ciência e no senso comum é ser capaz de inventar soluções... Pessoas que sabem as soluções já dadas são mendigos permanentes. Já as que aprendem a inventar soluções novas abrem portas até então fechadas e descobrem novas trilhas. A questão não é saber uma solução já dada mas ser capaz de inventar novas maneiras de sobrevive (ALVES, 2005, p.20).

Decidi fazer uma mudança em minha vida profissional. Voltei para minha cidade e comecei a fazer as cadeiras do curso de Biologia. Só que precisava trabalhar. Num concurso público para a Universidade Estadual fui aprovado e voltei a trabalhar com Administração.

 A reviravolta     

Para poder trabalhar com educação, ingressei no curso de história (noturno), mas fazia créditos na área de biologia durante o dia. Com o tempo, ficou nítido que tinha de escolher. Então veio o convite e comecei a trabalhar numa rede de escolas. Confesso que a mudança foi profunda, deixar a área de administração, de funcionário publico concursado, promovido a chefe de setor para ser professor? Muitos não entenderam, mas sei que fui movido por “paixão” pela educação.

Nesse caminhar têm havido momentos maravilhosos, mas também momentos difíceis, mas, olhando para trás, confesso: não me arrependo de ter escolhido esse caminho. Agradeço essa chance de poder fazer uma reflexão em que possa respirar meu passado, minhas lutas, sangue, suor e pó de giz.

Formei várias turmas e outras virão. Recebo cartas de todoo estado e mesmo de outros estados. São alunos de várias idades que dizem não esquecer os momentos passados em sala de aula, suas transformações e conquistas me anima, reforçam o ego e me impulsionam para o dia-a-dia, das 6 da manhã até as oito da noite. São conquistas das quais muito me orgulho, pois mostram que “tudo vale a pena, se a alma não é pequena” (PESSOA, 1999).

Foi nesse trabalho que senti a necessidade de ampliar meus horizontes. Foi nas definições de ciência, de como atingir objetivos, de colocar a pesquisa na sala de aula, de fazer ciência através do livro didático que me deparei com grandes desafios.

Minhas idéias a respeito da ciência, da vida foram sendo ampliadas, diversificando minha forma de ver o cotidiano de poder discutir novas formas de aquisição do conhecimento e, sinceramente, de me redescobrir de novo. A área de ciências, creio, é o coração de uma sociedade que utiliza muito a ciência, mas que pouco sabe sobre ela (SAGAN, 1997, p.11 a 53), a ponto de ignorar, quase que por completo, que caminhamos rumo a destruição total dos recursos que nos sustêm.

Dom não cabide

Mas por que nossa sociedade é tão mouca quanto a seu “coração”? Quem deveria estar “desmistificando”, problematizando, já que

Quando não há problemas, não pensamos, só usufruímos...Pensamos quando nossa ação foi interrompida. O pensamento é, em seu momento inicial, uma tomada de consciência de que a ação foi interrompida: este é o problema. Tudo que se segue tem por objetivo a resolução do problema, para que a ação continue como antes, (ALVES, ibdem, p. 34).

É sobre como nosso cotidiano funciona que nossos jovens precisam compreender, para que não sejam enganados por dosagens de vitamina C além do que nosso organismo pode reter. Por água imantada, capaz de fazer circular melhor a “energia” interna de nosso organismo. De engodos como a ciência espiritual e seus desdobramentos. Enfim, a quem cabe essa tarefa?

Creio que é no professor que todo esse questionamento começa. Acredito que é nessa figura, que possui o respeito de seus alunos e a anuência de seus pais quanto a explicar o mundo científico no qual vivemos, que esse papel é melhor desempenhado.

Como agente do fazer e pensar ciência, no âmbito escolar, o processo sofre desvios, seja nos maneirismos e filosofias (BORDIEU, 1996), seja na visão e concepção de mundo, seja inclusive no respeito a carga biológica que cada indivíduo carrega, como diz Rubem Alves, A aprendizagem da ciência é um processo de desenvolvimento progressivo do senso comum. Só podemos ensinar e aprender partindo do senso comum de que o aprendiz dispõe (op cit, p.12). Mas essa é só a ponta do iceberg, Inúmeros questionamentos podem ser feitos, desde os devidos incentivos governamentais ao papel da Universidade nesse processo. Questionamentos como: Será que a Universidade tem feito seu papel de formar o profissional? Seria o fator compreensão (ORLANDI, 1999, p.15) o elemento a ser considerado? Seriam os valores individuais?

Claro que essa é uma questão que mesmo no Doutorado seria de grande expansão. Por isso, nossa proposta é interagir com o universo do professor e/ou do livro didático, captar as influências que constroem o educador e perceber o quanto desse eu científico se sobrepõe ao método científico, propriamente dito, como régua eqüitativa. Sua relação com o material existente: o livro didático, que é citado por vários autores como norteador do processo ensino x aprendizagem (FREITAG ET alli, 1989, p.14), e se esse material, dito didático, é a ferramenta adequada.

Esse vem sendo o elemento chave nas discussões que, periodicamente, travamos na escola. Qual método? Qual plano pedagógico? Como explorar os conceitos científicos? Como permitir ao educando se apropriar do conhecimento respeitando o elemento cognitivo? Dentre várias discussões. Essas discussões tem se mostrado eficientes pois

A profissionalização do oficio de ensinar passa por aí: saber demonstrar a um interlocutor que as situações problemáticas foram analisadas e que não se fizeram milagres, mas o que outros profissionais competentes teriam feito, ou pelo menos considerado, diante dos mesmos alunos e nas mesmas circunstâncias (PERRENOUD, 2000, p. 161).

É nesse ínterim que esse tema muito pode colaborar para uma ação mais efetiva na discussão e promoção de questionamentos que visem ampliar a análise do discurso do mestre e o exame acurado do material por ele utilizado.

Tem sido gratificante as conversas com professores de vários estados através da web, em vários programas de capacitação, onde discutimos quanto desse silêncio e dessa praxis tem funcionado na prática. Nossa estrutura de ensino está

...muito atrasado, tanto na escola básica, quanto na universidade. Na escola básica, porque a escolaridade média da população é de apenas 5 anos e pouco mais da metade dos alunos completa a 8ª série e, quando a completa, sabe muito pouco. Na universidade, porque continuamos a cultivar o mero ensino, dentro da lógica ultrapassada e muito dispendiosa do currículo extensivo instrucionista (DEMO, 2001,p.54).

Então, faz-se mais do que necessário um momento, um artigo que discuta essa problemática, capaz de articular a estrutura de pensamento e mudar de direção um rio inteiro (MORAES & LIMA, 2002, p.22).

E então, para onde vai seu barco?

 

 

REFERÊNCIAS  

ALVES, R. Filosofia da ciência, introdução ao jogo e a suas regras. 9ª. edição, Edições Loyola, São Paulo. 2005. 

BORDIEU, P. A Economia das Trocas Lingüisticas. São Paulo: Edusp, 1996. 

DEMO, P. Professor/ Conhecimento. In: Conferencias UnB: 2001.

www.omep.org.br/artigos/conferencias/03.pdf.

FREITAG, B., MOTTA, V.R., COSTA, W.F. O livro didático em questão. São Paulo: Cortez, 1989. 

MORAES, R. & LIMA, V.M.R.(orgs). Pesquisa em Sala de Aula: Tendências para a educação em novos tempos. EDIPUCRS. Porto Alegre, 2002. 

ORLANDI, E. P. Análise de Discurso: Princípios e procedimentos. Pontes. Campinas; São Paulo, 1999. 

PERRENOUD, P. As dez novas competências para ensinar. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.

PESSOA, F. (Alberto Caeiro). Mar Portuguêz. In: Mensagem. Cultura. São Paulo. 1999. 

SAGAN, C. O mundo Assombrado pelos demônios:A ciência vista como uma vela no escuro. Cia das Letras. São Paulo: 1997. 

SEMLER, R. Virando a própria mesa: Uma história de sucesso empresarial made in Brasil. Rocco. São Paulo, 2002. 

KANITZ, S. Os 50 melhores artigos. Campus, São Paulo, 2004.

Perfil do Autor

Reginéa de Souza Machado

Licenciada em Pedagogia pela Uniderp Interativa, Professora de Ensino Fundamental I.