Cotas Para Negros? Quem Precisa Disso?

27/07/2009 • Por • 2,879 Acessos

Apesar do pseudo louvor e engrandecimento aos homens e mulheres negras de sucesso no mundo que obtiveram sucesso sem terem usado um sistema de cotas para ingressar na Universidade, a exceção não tem o poder de superar a regra. Eu também não seria escritor, psicólogo, não falaria vários idiomas, não teria viajado pelo mundo se não tivesse tido na infância:

a)  pai militar com recursos para me proporcionar uma boa escola, livros e oportunidades de desenvolvimento.

b) incentivo permanente através de recompensas para me manter estudando e obtendo bons resultados escolares;

c) nascido em uma comunidade de negros onde o bom caráter, a honradez, a ética e os bons  costumes eram valores permanentemente reforçados pelo exemplo dos mais velhos.

Se não fosse assim, quais  teriam sido as minhas chances? Quais as chances de milhares de outros meninos e meninas negras nascidas no mesmo bairro que eu, da  Liberdade (maior bairro de população negra do mundo), filhos de pais favelados, netos e bisnetos de ex-escravos incultos e sem meios de sobrevivência?

Resolver dizer a eles: lutem, busquem a melhoria, saiam das favelas, abandonem as palafitas e venham a ser meninos e meninas decentes? O discurso dos dominadores (em geral brancos e letrados) sempre foi e será esse. Mas na hora de dar um emprego, escolhem o mais qualificado (e de preferência de " boa aparência"), neste caso os negros nunca tiveram boa aparência. Os brancos, de pele clara e cabelo liso são escolhidos.

Quando ando pelas capitais brasileiras, especialmente no bairro negro onde nasci, fico consternado com tamanha miséria onde vivem meus irmãos de cor, meus irmãos de raça, meus irmãos de vida. Eles não escolheram a miséria em que vivem. Dependem dos poderes públicos, de escolas, de livros, de professores capacitados, de saúde, de comida, de habitação. Onde eles irão obter estas coisas? A opção mais humana possível quando não se tem condições apropriadas para sobreviver é ROUBAR ou MATAR . Não há escolha.

Assim, dos milhões de afrodescendentes que sobreviveram ao vergonhoso holocausto da escravidão e que foram, mentirosa e ardilosamente libertados por uma dita Princesa Isabel, fantoche dos latifundiários e comerciantes do Império, lançados à própria sorte, sem direito de indenização, sem direito sequer a ter escola pública, a sequer andar nas calçadas onde os brancos pisavam, ou votar e serem votados.

Onde estavam os defensores das NÃO-COTAS quando os negros eram impedidos de estudar? O que fizeram para ajudá-los? Hoje é fácil dizer que os negros não precisam de cotas, porque são competentes, inteligentes, tanto quanto os brancos são. Chegam a dar exemplos de negros de sucesso no mundo. Maravilha. Não discordo de que muitos negros possuem potencial para se desenvolverem.  Mas a realidade dos milhões que não tiveram chances é outra. Veja os números vergonhosos:

- 75% da população carcerária brasileira é de origem negra.

- 70% dos homens e mulheres em idade produtiva no Brasil, que estão desempregados, são negros, pardos ou mulatos;

- Apenas 10% dos médicos, engenheiros, e outros profissionais de ponta no Brasil, são negros;

- As mulheres negras brasileiras ganham 20% menos que as mulheres brancas;

- Apenas 10% dos executivos de grandes empresas do Brasil são negros;

- Apenas 2% dos militares de alta patente no Brasil são negros;

- Apenas 20% de professores universitários com doutorado no Brasil são negros;

- Menos de 10% de parlamentares brasileiros são negros (temos apenas um senador mulato, e poucos Deputados Federais e Estaduais são negros);

- Apenas 20% dos cargos do primeiro-escalão brasileiro  são ocupados por negros;

- Menos de 10% dos Ministros de Estado do Brasil são negros;

E somos 180 milhões de brasileiros, segundo  dados do IBGE  em 2008. Sendo 50% formados por homens afrodescendentes e 90 milhões de homens e mulheres que ficaram sem receber as benesses de uma educação digna, de oportunidades iguais e da devida correção dos crimes praticados contra os antepassados - contra a brutal escravidão que sofreram por séculos!!

Os negros pobres precisam sim de oportunidades de estudo e meios que lhes facilite o acesso à Universidade. Se eles aproveitarão a chance que está sendo dada, é um problema individual. Os resultados mostram que os alunos negros cotistas estão com desempenho igual ou melhor que os demais alunos das Universidades Públicas. Ciosos da grande chance que estão tendo, se dedicam mais e buscam, por todos os meios, superar as dificuldades que tiveram na formação deficiente do Ensino Básico e Médio das Escolas Públicas.

Querem  ver como as cotas são necessárias para alunos negros-pobres? Os negros ricos estudam nas melhores escolas e não precisam disso.

Pense em uma corrida de 100 metros. Vence quem chegar ao final em menor tempo. Temos, entre os competidores, os seguintes indivíduos: um anão, uma senhora idosa com 76 anos, um senhor idoso com 80 anos, um paraplégico, um menino de 5 anos, uma moça atleta de 20 anos, um rapaz atleta de 20 anos. Todos são brancos. O prêmio é uma bolsa de estudos nos Estados Unidos. Todos querem ganhar a bolsa.

Responda agora às inocentes perguntas:

1) Admitindo-se que todos merecem ganhar o prêmio, pois querem muito, quem serão os prováveis ganhadores em primeiro, segundo e terceiro lugares?

2) Você acha que os sete participantes estão em igualdade de condições para uma corrida de 100 metros?

3) De que maneira um Juiz poderia ajudar a minimizar as deficiências naturais dos competidores, para que as regras ficassem mais justas para todos?

4) Os corredores profissionais deveriam ficar de fora? Os idosos deveriam ficar de fora? A criança e o anão deveriam também?

Qualquer pessoa inteligente e de bom senso sabe que seria injusto colocar pessoas tão desiguais em uma corrida.  Mas antes das cotas, era assim que as Universidades Públicas agiam ao selecionar candidatos para as disputadas vagas nos cursos de Medicina, Direito, Engenharia e Computação nas melhores Universidades Públicas do Brasil. Comparativamente, estavam dizendo que os rapazes que estudaram na Escola Pública Antônio Carlos Magalhães XIV no bairro do Lobato, periferia de Salvador, tinham as mesmas competências e habilidades dos alunos das escolas Gallois ou Leonardo da Vinci de Brasília (colégio onde estudam filhos dos senadores da República). Para quem ficariam as poucas vagas existentes na UNb?

Os burocratas racistas querem fechar os olhos e não levam em conta que alunos que estudam nas piores escolas da periferia das grandes cidades ou cidades interioranas, onde nem cadeira os alunos têm para se sentar, possuem as mesmas condições de competitividade que os alunos urbanos de escolas particulares ondem estudam os mais ricos. É injusto, desumano, indigno e vergonhoso. Não existe, no momento, condições globais para transformar as  100 mil Escolas Públicas do Brasil em centros de educação de qualidade. Levaremos 30 anos para uma reforma plena do sistema educacional publico, se forem envidados mais e mais recursos para a Educação.  Algo precisava ser feito e foi. E está sendo feito. Não importa muito se o rapaz ou moça negra é discriminada na Universidade porque entrou pelas cotas. Ela seria ainda mais discriminada, como burra, incompetente, sem inteligência, se nunca entrasse lá de qualquer jeito. Os alunos negros que se tornarão médicos, engenheiros, advogados e cientistas, sentem orgulho em terem tido uma chance. Quando lhe foram dadas as oportunidades, aproveitaram; quando as deficiências do ensino que receberam aos longo de anos, foi corrigida pela classificação um pouco abaixo da média geral no Vestibular, conseguiram resultados significativos. Ocuparam as vagas que foram reservadas para eles. Uma competição de 100 metros entre anões deve ser diferente daquela que é usada para pessoas de altura normal. Pessoas idosas devem competir com pessoas idosas. Assim, o sistema de cotas, ajuda a corrigir a distorção em uma área tão sensível como é a Educação. Permitir que mais e mais pessoas, discriminadas pela cor da pele, ingressem no mercado de trabalho de nível superior, é algo louvável.

O que todos nós gostaríamos mesmo era de que nunca fossem necessárias cotas de educação, de emprego ou qualquer outro bem essencial para negros, índios, pobres ou portadores de deficiências. A lei amparou a estes últimos no que diz respeito ao emprego e está certo. Eles não são inferiores intelectualmente, mas tiveram mais dificuldades para alcançar o saber que os demais. Uma cota de até 10% das vagas para os deficientes é justa. Uma cota igual para os negros deveria também ser adotada. Do contrário, ainda teremos que esperar muitos anos,  para que surjam novos Obamas, Pelés, Oprahs, Hamiltons, Paulo Pains, e outros expoentes negros. Queremos Josés, Marias e Joãos, honrados pela Educação, pelo trabalho e valorizados como é devido a todos os seres que habitam este mundo.

Pode ser que o sistema de cotas para alunos negros pobres não seja o melhor caminho para que se corrija o prejuízo histórico de privação intelectual imposta a 5 gerações, mas é o único que atualmente existe e isso faz uma grande diferença na vida dos beneficiados. Apenas essa razão seria suficiente para que o sistema de cotas existisse.

 

Perfil do Autor

Mathias Gonzalez

Mathias Gonzalez, brasileiro e naturalizado australiano, autor de 132 livros dedicados à filosofia, psicologia e educação. -> Psicólogo...