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Da Memória À História

Por: NERI DE PAULA CARNEIRO Ranking do Autor Ouro Autor nos TOP 100 | Publicado em: 09-04-2008 | Comentários: 0 | Acessos: 280 | Avaliação:  (172) Ranking do Artigo Azul (?)

DA MEMÓRIA À HISTÓRIA
Vamos partir de uma constatação: o ser humano não quer morrer. Entretanto sabe-se limitado e finito. Em razão disso quer imortalizar-se. A imortalidade não sendo atingível, visto ser um atributo divino e não sendo possível a divinização, o ser humano cria mecanismos pelos quais pretende se perpetuar. Que é o adágio popular dizendo que todo ser humano, antes de morrer, deseja fazer um filho, plantar uma árvore e escrever um livro, se não o incontido desejo de imortalidade? Já que vai morrer, mas não querendo morrer, tenta se fazer imortal em sua obra.
Emblemático, sobre essa ânsia pela imortalidade, são os versos da música “Canto para minha morte” de Raul Seixas e Paulo Coelho:
Oh morte, tu que és tão forte,
Que matas o gato, o rato e o homem.
Vista-se com a tua mais bela roupa
quando vieres me buscar
Que meu corpo seja cremado e que minhas cinzas alimentem a erva
E que a erva alimente outro homem como eu
E eu continuarei neste homem,
Nos meus filhos, na palavra rude
Que eu disse para alguém de quem não gostava
Até no uísque que não terminei de beber aquela noite... (SEIXAS; COELHO, 1976, grifo nosso)
“Eu continuarei”, afirma a letra da música, mas trata-se de uma continuação em outro. A sobre-vivência humana acontece, portanto, no outro; a sobre-vida não ocorre pela permanência do vivo, mas por intermédio de sua lembrança evocada nos monumentos que erigiu a si ou aos seus. O morto permanece vivo na memória ou nas suas realizações. A esse respeito podemos retornar às palavras de Marilena Chauí, comentando os poderes da deusa Mnemosyne. Diz a autora que essa deusa:
tinha o poder de conferir imortalidade aos mortais, pois quando o artista ou o historiador registram em suas obras a fisionomia, os gestos, os atos, os feitos e palavras de um humano, este numca será esquecido e, por isso, tornando-se memorável, não morrerá jamais” (CHAUI, 1005. p. 138. grifos nosssos)
Retornando à mesma música de R. Seixas e P. Coelho, chegamos a outra constatação: a morte é certa embora incerta quanto à sua chegada. Embora indesejada, por ser um fim, pode representar a chave para desvendar o segredo da existência. Assim, mesmo indesejada, é esperada, mas na dúvida, permanece a vontade da imortalidade:
Vou te encontrar vestida de cetim,
Pois em qualquer lugar esperas só por mim
E do teu beijo provar o gosto estranho
Que eu quero e não desejo,
Mas tenho que encontrar
Vem, mas demore a chegar.
Eu te detesto e amo morte, morte, morte
Que talvez seja o segredo desta vida. (SEIXAS; COELHO, 1976)
O que pretendemos mostrar é que o ser humano preserva-se em busca da imortalidade, em busca de uma espécie de divinização. E, para perpetuar-se, cria monumentos, redige textos, produz arte... Faz tudo isso porque sabe que os outros humanos o verão na obra produzida e se recordarão de sua passagem pela vida: “E eu continuarei neste homem”, diz a música. E, dessa forma, mesmo morto, permanece vivo... ao menos na memória.
Mas como permanecer na memória, se ela, enquanto recordação e lembrança, pode apagar-se? Comentando afirmação de H. Bérgson, o “filósofo da intuição”, sobre a memória, Ecléa Bosi afirma que:
A memória permite a relação do corpo presente com o passado e, ao mesmo tempo, interfere no processo ‘atual’ das representações. Pela memória, o passado não só vem à tona das águas presentes, misturando-se com as percepções imediatas, como também empurra, ‘desloca’ estas últimas, ocupando o espaço todo da consciência. A memória aparece como força subjetiva, ao mesmo tempo profunda e ativa, latente e permanente, oculta e invasora (BOSI, 1998, p. 46-47).
A autora continua dizendo que, para o filósofo francês, a memória seria responsável pela “conservação” das experiências levando-nos a “reproduzir” o já vivido. “A memória é essa reserva crescente a cada instante e que dispõe da totalidade da nossa experiência” (BOSI, 1998, p. 47). Por isso, dizemos que a ponte entre o presente e o passado é feita pela memória.
Também a partir dos conceitos Bergsonianos sobre a memória Marilena Chauí afirma que graças à memória:
Somos capazes de lembrar e recordar. As lembranças podem ser trazidas ao presente tanto espontaneamente como por um trabalho deliberado de nossa consciência. Lembramos espontaneamente quando, por exemplo, diante de uma situação presente nos vem à lembrança alguma situação passada. Recordamos quando fazemos o esforço para recordar. (CHAUÍ, 2005, p. 142, grifos no original)
Outro pesquisador, o francês Jacques Le Goff, afirma que o estudo da memória não é exclusividade da história, mas também da antropologia, da psicologia e da educação, mas ela ganha uma significação particular na história onde “o estudo da memória social é um dos meios fundamentais de abordar os problemas do tempo e da história” (Le Goff, 1996, p. 426). Além disso, diz o autor, “hoje os historiadores se interessam cada vez mais pelas relações entre história e memória” (ibidem, 1996, p. 7). Não podemos esquecer, entretanto, que devido a essa dimensão coletiva, a memória ultrapassa a simples lembrança. A memória coletiva, coletada de entrevistas ou a partir dos monumentos ganham status de documento histórico. Dessa forma, diferentemente do pressuposto positivista em que apenas o documento positivo tem valor histórico, quem se fundamenta em outras perspectivas teóricas pode considerar que “os documentos chegam a abranger a palavra, o gesto. Constituem-se arquivos orais” (LE GOFF, 1996, p. 10). Daí um dos atuais métodos de pesquisa histórica, a história oral, que se baseia não no documento passivo e positivo, mas nos depoimentos daqueles que viveram a história ultrapassando a perspectiva positivista de documento. Daí a abordagem histórica desenvolvida a partir do cotidiano, das mentalidades...
Na perspectiva proposta por Le Goff a memória envolve principalmente aqueles elementos registrados nas inscrições grafadas desde a antiguidade formando-se os monumentos que retratam um fato específico. Assim a memória é um “monumento comemorativo de um acontecimento memorável” (ibidem, 1996, p. 431). A memória ganha um caráter de monumento e como tal deve ser visitada pelo historiador “todo documento tem em si um caráter de monumento e não existe memória coletiva bruta” (ibidem, p. 433). Ela é sempre lapidada pelo contingenciamento da lembrança, distância temporal e social, entre outras distâncias. Podemos dizer que o pesquisador, em seu instante vivenciado – no seu presente fluído e dinâmico que a tudo arremessa para o passado –, está separado de seu objeto de estudo por quatro dimensões de distâncias: cronológica, pois não estuda o seu instante vivido, mas o passado inacessível; geográfica, pois as ações humanas que estuda não ocorreram ao seu derredor; cultural, pois por viver em outro tempo o historiador embebe-se em outros elementos culturais, outros valores; e ideológica, pois está sempre se fundamentando em uma perspectiva teórica de interpretação da realidade e essa teoria se fundamenta em uma cosmovisão ao mesmo tempo em que ao escolher seu suporte teórico o faz a partir de alguma concepção de mundo.
Nossa questão, portanto não se localiza na lembrança, mas na recordação uma vez que esta necessita de esforço, como diz Chauí (2005). Esse esforço não depende somente do sujeito. Aliás, é para ajudar em seu esforço de recordação que os seres humanos criaram mecanismos auxiliares: os documentos, os monumentos, a arte, e todas as formas de se perpetuarem ou perpetuarem seus atos. O que são os monumentos? Criações humanas erigidas para auxiliar e aguçar a memória e despertar nas pessoas a recordação de algo que, na ótica de quem criou o monumento, não deve ser esquecido, como lembra o verso da música: “E eu continuarei neste homem”. Dessa forma o monumento é um estímulo que ajuda no esforço da memória para a recordação. Chaui afirma que a Memória tem duas dimensões. A primeira é pessoal, é a introspecção pela qual cada pessoa recorda-se ou é levado a recordar. A outra é coletiva e social: “é preciso mencionar a sua dimensão coletiva ou social, isto é, a memória objetiva gravada nos monumentos, documentos e relatos da história de uma sociedade” (CHAUÍ, 2005, p. 138, grifos nossos).
A dimensão social é que confere notoriedade ou convida a transformar o monumento, uma expressão da memória, em patrimônio. As representações presentes no monumento, em virtude de várias circunstâncias, passam a ser importantes para algumas pessoas ou para uma sociedade. Assim o monumento, ou os diferentes documentos, ultrapassam o significado de si mesmo e ganham uma significação social. Ganham status de Patrimônio, como afirma Patrícia Mariuzzo, na revista eletrônica Consciência:
Monumentos são parte do patrimônio cultural de um povo ou de uma nação, eles servem como um elo entre presente e passado dando um sentido de continuidade. A preservação do patrimônio pressupõe um projeto de construção do presente, e por isso vale a pena na medida em que este patrimônio esteja vivo no presente, vivo para que as pessoas que o cercam possam de algum modo usufruir dele (MARIUZZO, 2004)
Uma vez que não temos como nos relacionar com o passado em si mesmo, mas, ao mesmo tempo queremos mantê-lo junto a nós, criamos todas as formas de nos perpetuarmos, notadamente os monumentos aos quais transformamos em patrimônio, a fim de estabelecermos uma ponte entre o aqui e agora em que nos encontramos com o agora de outro tempo quando o fato memorável ocorreu, chamando a atenção da pessoa ou do grupo que criou o monumento para que outros, em outro tempo, re-vejam o fato. Mas o que determina a relação com o passado é o interesse cotidiano do presente, como afirma Patrícia Mariuzzo: “Os monumentos ou o patrimônio histórico devem ser meios de nos ligar ao nosso passado, devem, portanto, fazer sentido no nosso cotidiano” (ibidem, 2004). Esses bens culturais, monumentos, produção artística, documentos oficiais ou outros elementos e documentos que perfazem o Patrimônio de uma coletividade podem ser entendidos como os bens culturais dessa comunidade.
A esse respeito Oriá, afirma que já não se entende o monumento ou o patrimônio apenas como as obras arquitetônicas ou de grande apelo histórico. A produção humana em seu conjunto – portanto a cultura – passa a ser objeto de preservação:
Atualmente se preserva um bem cultural não só pelo seu valor estético, arquitetônico ou histórico. Ele é preservado se tem significação para a comunidade em que está inserido e se essa preservação possibilita a melhoria da qualidade de vida de seus moradores e contribui para a construção de sua identidade cultural e o exercício da cidadania (ORIÁ, 2001. p. 138)
Em que consiste isso que estamos chamando de patrimônio de um povo? É a própria vida desse povo, são os elementos culturais, retratados em monumentos, são as produções documentais, são enfim, todas as produções humanas erigidas a fim de que permaneça na memória, sendo preservado como patrimônio:
O patrimônio histórico e artístico de um povo é mais do que um conjunto de antiguidades ou mera coleção de curiosidades que a corrente do tempo foi largando pela vida. Ele é responsável pela continuidade histórica de uma comunidade que se reconhece como tal e corporifica seus ideais e valores, transcendendo as gerações. (CARSALADE, 2007)
Em outras palavras, isso implica dizer que o bem patrimonial, cultural, as fontes históricas, são uma das formas de preservar o próprio ser humano, pois, como dissemos antes, tudo tem história e nessa história estão presentes muitas pessoas. Ao erigir o monumento o ser humano pretende perpetuar-se como memória perene. Ao reconhecer essa produção como patrimônio os humanos estão fazendo com que essas “ideais e valores” ultrapassem o tempo “transcendendo as gerações”. Por quê? Porque as pessoas não querem morrer; para se eternizar em sua obra!

REFERÊNCIAS
ALMEIDA, A. Mortara; VASCONCELLOS, Camilo de Melo. Por que visitar Museus in BITTENCOURT, Circe (org). O Saber Histórico na Sala de Aula. 5 ed. São Paulo: Contexto. 2001.
BLOCH, Marc, Apologia da História ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Zahar. 2001.
BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: lembrança de velhos. 5 ed. São Paulo: Cia das Letras, 1998
CARSALADE, Flávio de Lemos. Educação e Patrimônio Cultural. Disponível em acessado em 23 de março de 2007
CHAUÍ, M. Convite à filosofia. 13 ed. São Paulo: Ática. 2005.
ARANHA, Maria L. Arruda; MARTINS, Maria Helena P. Filosofoando: introdução à filosofia. 2 ed. São Paulo: Moderna, 1997
LE GOFF, Jacques. História e Memória. 4 ed. Campinas: ed. Unicamp. 1996.
ORIÁ, Ricardo. Memória e Ensino de História, in BITTENCOURT, Circe (org). O Saber Histórico na Sala de Aula. 5 ed. São Paulo: Contexto. 2001
SEIXAS, Raul; COELHO, Paulo. Há 10 mil anos atrás, Guanabara: Philips, 1976. 1 disco (39:40 min) 33 1/3 rpm, microssulco, estéreo, 6349 300.

Neri de Paula Carneiro – Mestre em Educação
Filósofo, Teólogo, Historiador
Leia mais: http://falaescrita.blogspot.com/
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NERI DE PAULA CARNEIROPerfil o autor:

Concluí mestrado em Educação (UFMS), especialização em Educação (UNESC-Cacoal-RO), especialização em Metodologia do Ensino Superior (UNIR-RO), especialização em Metodologia de Leitura Popular da Bíblia (CEBI-RS). Concluí os cursos de graduação em Filosofia, Teologia, História. Sou Professor de História e Filosofia pela rede pública estadual (R. Moura-RO); professor de Filosofia na Faculdade de Pimenta Bueno - FAP (Pimenta Bueno-RO), na Faculdade de Rolim de Moura - FAROL (R.Moura-RO), na UNESC (Cacoal-RO). Radialista e colaborador em jornais da região de Rolim de Moura – RO.
Publiquei alguns livros de circulação regional além de artigos em revistas científicas de Rondônia.

Meus textos são publicados regularmente no jornal Folha da Mata (Rolim de Moura-RO) nos blogs: http://falaescrita.blogspot.com e http://ideiasefatos.spaces.live.com e no site www.webartigos.com

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