Dar Esmola

Publicado em: 30/03/2008 | Comentário: 2 | Acessos: 5,492 |

Dar Esmola

Já afirmei, várias vezes, que uma das piores criações humanas foi a esmola. E o cristianismo colaborou...
Pode ficar desconcertado, assombrado, assustado, indignado, admirado, boquiaberto, estupefato... ou o que você quiser. Mas continuo insistindo e reafirmo: uma das piores criações humanas foi a esmola.
“Mas como você diz um absurdo desses?”, é o que muita gente vai pensar, ao ler estas linhas. Alguns nem vão terminar a leitura. Sua falsa moralidade ou seu espírito hipocritamente cristão vai me tomar por maluco ou herege, ou ateu, ou desalmado, ou vai pensar que eu esteja tomado por um não sei o que de maldade.
Nem mesmo isso me faz mudar a opinião. Continuo afirmando que a esmola é uma das piores criações humanas. E não estou me baseando em Nietzsche para fazer essas afirmações, pois se nele me fundamentasse minhas afirmações seriam bem mais radicais!
Se quiser parar a leitura, pode ficar à vontade. Mas isso só confirmaria o seu equivoco, deixando de saber o meu ponto de vista. Além disso, parar de ler apenas confirma que você não está preparado para a verdade: ou é moralista, ou não tem senso de moralidade.
Se você é humano, continue a leitura e acompanhe o raciocínio. Estou afirmando que a esmola é uma das piores criações que a espécie humana já produziu, mas não estou dizendo que a caridade, que a solidariedade, que o amor não devem existir. Minha briga é contra a esmola.
Tanto a esmola que é oferecida nas igrejas, na falsa forma de dízimo, ou de ofertas votivas, ou seja lá o que for. Também aqui estão incluídas as esmolas dadas nas portas de bancos, ou nas portas das casas, ou naquelas situações em que um esmolambado se achega e pede... Dar esmola é um péssimo ato.
Lá na igreja o cara oferece o dízimo ou as outras contribuições não por que está convencido de sua importância, mas por que vieram lhe dizer que deve fazer isso. E para não ficar mal visto pelo padre, pelo pastor ou pelos coordenadores da comunidade, o cara vai lá, faz sua ficha e começa a contribuir. O que o moveu? Não a solidariedade, nem a caridade, nem outras possíveis virtudes, mas a vontade de ficar bem visto! Está oferecendo a sobra e não sua essência. Lembre-se de Jesus comentando o gesto do ricaço que deu de sua sobra e da velhinha que deu parte do seu sustento! Dar a sobra não é virtude, é uma forma de ostentar poder, é soberba, é exibicionismo... Nem é convincente a afirmação generalizada de que o dízimo, na mais pura, sincera e contrita vontade de “devolver a Deus parte do que ele nos deu”. Por um motivo simples: quem vai usufruir disso não é Deus; além disso onde já se viu falar que Deus quer receber algo em troca de tudo que nos dá. Se quisesse retribuição não seria Deus...
O mesmo argumento, só que mais radical ainda, vale para aquele gesto em relação ao que vem pedir algo em uma das várias situações do cotidiano. Logo que vê o pedinte, o cara mete a mão no bolso e dá um trocado. Deu porque se solidarizou com o pedinte? Claro que não! Deu porque não queria ser importunado. Deu porque queria se livrar do mau-cheiro, da roupa suja... Deu porque não quis se envolver!
A questão é outra.
O que leva alguém a se tornar um pedinte? Eis algumas situações: o fato de saber que tem alguém que dá. O fato de não ter tido uma oportunidade na vida. O fato de ter sido preterido pelas condições de nascimento, sem acesso ao estudo ou a um trabalho digno. O fato de receber dos programas sociais do governo, num dos tantos programas de “bolsa” isto ou aquilo; um desses tantos programas que cria parasitas...
Nessas situações o cara pensa assim: “se posso ganhar sem trabalhar, por que trabalhar?” Assim sendo, é mais fácil pedir e viver dos restos, do que labutar trabalhosamente e receber uns parcos trocados em troca do trabalho prestado. Lembro uma frase que li, não sei onde: “esmola pra um homem que é são, ou o mata de vergonha ou vicia o cidadão!”. Lembro, também, daquela música que diz que “sem o seu trabalho, o homem não tem honra; e sem a sua honra, se morre, se mata...”. Por paradoxal que possa parecer, não é a esmola que ajuda o cidadão. Essa o humilha, o minimiza. A esmola é a suprema prova de que vivemos num mundo em que manda quem tem e os outros que se explodam.
Ou você já viu alguém que deu “uma esmolinha, pelo amor de deus”, depois ir junto com o cara ajudá-lo a encontrar um trabalho digno? Ou alguém já fez campanha para que os salários sejam dignificantes ao ponto de não ser mais compensador pedir ou roubar? Não se pode esquecer que a situação de miséria é uma das causas de violência social, pois nem todos os marginalizados se sujeitam a viver da humilhação da esmola.
Ou seja, trabalhar é difícil e nem sempre compensador, além de ser cansativo e ter que suportar aporrinhamento de algum patrão xarope que não reconhece o esforço do trabalhador. (Lembrando que tem trabalhador que não merece esse nome pois só pensa em morcegar!). A questão é que, muitas vezes, o valor do trabalho é desconsiderado. A política de salário mínimo mata a vontade de trabalhar. Principalmente quando vemos aqueles que aumentam seus próprios vencimentos já extorsivos aos cofres públicos desconsiderando a vida do trabalhador.
A quem a esmola faz mal? A quem recebe e a quem dá!
A quem recebe porque é levado a se acostumar com a miséria e a humilhação. A quem dá porque acaba pensando que fez um grande favor ao pedinte, quando lhe fez um mal. Além de, naquele que dá, criar uma carapaça moral a partir da qual o sujeito pensa que fazer caridade é dar de suas sobras. E esse é o problema da esmola: não ajuda a superar a situação, mas a alimenta; é um instrumento de manutenção da situação de iniqüidade.
É evidente que necessitamos de caridade e solidariedade. Mas esses valores devem ser cultivados ajudando aquele que a recebe crescer e sair da situação de miséria e marginalidade. Para que deixe de viver de esmola para viver da força de seu braço.
Prof. Ms. Neri de Paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador
Leia mais: http://falaescrita.blogspot.com/
http://ideiasefatos.spaces.live.com
http://www.webartigos.com/

(Artigonal SC #373429)

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    Fonte do artigo: http://www.artigonal.com/educacao-artigos/dar-esmola-373429.html

    Palavras-chave do artigo:

    Esmola

    ,

    solidariedade

    ,

    caridade

    ,

    valorização pessoal

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    NERI  P. CARNEIRO

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    Por: NERI P. CARNEIROl Religião & Esoterismo> Religiãol 22/01/2009 lAcessos: 955 lComentário: 1
    NERI  P. CARNEIRO

    Em se tratando de estudos bíblicos nem tudo são certezas e unanimidade. Existem contradições em relação às opiniões e conclusões. Uma delas é em relação a Lucas e à autoria do evangelho de Lucas e os Atos dos Apóstolos. A tradição cristã atribui tanto o texto do quarto Evangelho como o de Atos dos Apóstolos a Lucas, médico mencionado por Paulo em 2Tm 4,11; Cl 4,14 e Fm 24. Alguns autores, entretanto, preferem dizer que ambos são personagens distintos

    Por: NERI P. CARNEIROl Religião & Esoterismo> Religiãol 22/01/2009 lAcessos: 3,922
    NERI  P. CARNEIRO

    A historicidade da Bíblia é, muitas vezes, colocada como argumento de fé. Muitas vezes a Bíblia é usada de forma definitiva, sem considerar elementos simbólicos e textuais que não podem ser desconsiderados. Se for encarada dessa forma tanto a fé como a razão tem que se submeter a algumas contradições textuais que estão presentes no texto bíblico.

    Por: NERI P. CARNEIROl Religião & Esoterismo> Religiãol 22/01/2009 lAcessos: 2,067 lComentário: 1
    NERI  P. CARNEIRO

    Os retratos das comunidades, que muitas vezes são utilizados par mostrar a perfeição da Igreja nascente em oposição aos pecados das nossas comunidades ou igrejas, na realidade são o que chamamos de sumários. Esses conjuntos de textos, pequenos resumos, aparentemente não são obra de Lucas e não faziam parte do texto original. São, sim uma espécie de síntese do que os redatores ou autores do texto pensavam a respeito de como estava organizada a comunidade cristã.

    Por: NERI P. CARNEIROl Religião & Esoterismo> Religiãol 22/01/2009 lAcessos: 1,647
    NERI  P. CARNEIRO

    A Igreja e os cristãos de hoje se acostumaram a idealizar a primeira comunidade cristã, a partir da afirmação de Atos 2,42-47 e de 4,32-37. Esses, como outros conjuntos de textos são chamados de sumários, pois são uma espécie de síntese do pensamento do autor do texto. Mas antes de analisarmos os sumários, vamos analisar esse “retrato” das comunidades, aparentemente perfeitas

    Por: NERI P. CARNEIROl Religião & Esoterismo> Religiãol 22/01/2009 lAcessos: 5,128

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    -2
    1. Antonio Brás Constante 31/03/2008
    Olá jovem Neri,
    Muito boa sua linha de raciocinio. A esmola é um dos tipos de droga social que vícia, e não traz resultados práticos.
    Grande abraço.
    ABC
    -1
    2. Lucas dos Santos 23/03/2010
    muito bom o texto, gostei !
    So uma duvida ... certo dia vi um homem e uma mulher (com um cigarro na mao), pedindo cinquenta cintavos para pegar o onibus pra voltar para voltar para a cidade de origem...das duas uma, ou ele tava mentindo ou realmente precisava voltar... entao, seria certo dar essa ``esmola```para ele ? pq do jeito q estava parecia q ele nao tinha escolha...oq acha?
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