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Dar Esmola

Por: NERI DE PAULA CARNEIRO Ranking do Autor Ouro Autor nos TOP 100 | Publicado em: 30-03-2008 | Comentários: 1 | Acessos: 327 | Avaliação:  (169) Ranking do Artigo Azul (?)

Dar Esmola

Já afirmei, várias vezes, que uma das piores criações humanas foi a esmola. E o cristianismo colaborou...
Pode ficar desconcertado, assombrado, assustado, indignado, admirado, boquiaberto, estupefato... ou o que você quiser. Mas continuo insistindo e reafirmo: uma das piores criações humanas foi a esmola.
“Mas como você diz um absurdo desses?”, é o que muita gente vai pensar, ao ler estas linhas. Alguns nem vão terminar a leitura. Sua falsa moralidade ou seu espírito hipocritamente cristão vai me tomar por maluco ou herege, ou ateu, ou desalmado, ou vai pensar que eu esteja tomado por um não sei o que de maldade.
Nem mesmo isso me faz mudar a opinião. Continuo afirmando que a esmola é uma das piores criações humanas. E não estou me baseando em Nietzsche para fazer essas afirmações, pois se nele me fundamentasse minhas afirmações seriam bem mais radicais!
Se quiser parar a leitura, pode ficar à vontade. Mas isso só confirmaria o seu equivoco, deixando de saber o meu ponto de vista. Além disso, parar de ler apenas confirma que você não está preparado para a verdade: ou é moralista, ou não tem senso de moralidade.
Se você é humano, continue a leitura e acompanhe o raciocínio. Estou afirmando que a esmola é uma das piores criações que a espécie humana já produziu, mas não estou dizendo que a caridade, que a solidariedade, que o amor não devem existir. Minha briga é contra a esmola.
Tanto a esmola que é oferecida nas igrejas, na falsa forma de dízimo, ou de ofertas votivas, ou seja lá o que for. Também aqui estão incluídas as esmolas dadas nas portas de bancos, ou nas portas das casas, ou naquelas situações em que um esmolambado se achega e pede... Dar esmola é um péssimo ato.
Lá na igreja o cara oferece o dízimo ou as outras contribuições não por que está convencido de sua importância, mas por que vieram lhe dizer que deve fazer isso. E para não ficar mal visto pelo padre, pelo pastor ou pelos coordenadores da comunidade, o cara vai lá, faz sua ficha e começa a contribuir. O que o moveu? Não a solidariedade, nem a caridade, nem outras possíveis virtudes, mas a vontade de ficar bem visto! Está oferecendo a sobra e não sua essência. Lembre-se de Jesus comentando o gesto do ricaço que deu de sua sobra e da velhinha que deu parte do seu sustento! Dar a sobra não é virtude, é uma forma de ostentar poder, é soberba, é exibicionismo... Nem é convincente a afirmação generalizada de que o dízimo, na mais pura, sincera e contrita vontade de “devolver a Deus parte do que ele nos deu”. Por um motivo simples: quem vai usufruir disso não é Deus; além disso onde já se viu falar que Deus quer receber algo em troca de tudo que nos dá. Se quisesse retribuição não seria Deus...
O mesmo argumento, só que mais radical ainda, vale para aquele gesto em relação ao que vem pedir algo em uma das várias situações do cotidiano. Logo que vê o pedinte, o cara mete a mão no bolso e dá um trocado. Deu porque se solidarizou com o pedinte? Claro que não! Deu porque não queria ser importunado. Deu porque queria se livrar do mau-cheiro, da roupa suja... Deu porque não quis se envolver!
A questão é outra.
O que leva alguém a se tornar um pedinte? Eis algumas situações: o fato de saber que tem alguém que dá. O fato de não ter tido uma oportunidade na vida. O fato de ter sido preterido pelas condições de nascimento, sem acesso ao estudo ou a um trabalho digno. O fato de receber dos programas sociais do governo, num dos tantos programas de “bolsa” isto ou aquilo; um desses tantos programas que cria parasitas...
Nessas situações o cara pensa assim: “se posso ganhar sem trabalhar, por que trabalhar?” Assim sendo, é mais fácil pedir e viver dos restos, do que labutar trabalhosamente e receber uns parcos trocados em troca do trabalho prestado. Lembro uma frase que li, não sei onde: “esmola pra um homem que é são, ou o mata de vergonha ou vicia o cidadão!”. Lembro, também, daquela música que diz que “sem o seu trabalho, o homem não tem honra; e sem a sua honra, se morre, se mata...”. Por paradoxal que possa parecer, não é a esmola que ajuda o cidadão. Essa o humilha, o minimiza. A esmola é a suprema prova de que vivemos num mundo em que manda quem tem e os outros que se explodam.
Ou você já viu alguém que deu “uma esmolinha, pelo amor de deus”, depois ir junto com o cara ajudá-lo a encontrar um trabalho digno? Ou alguém já fez campanha para que os salários sejam dignificantes ao ponto de não ser mais compensador pedir ou roubar? Não se pode esquecer que a situação de miséria é uma das causas de violência social, pois nem todos os marginalizados se sujeitam a viver da humilhação da esmola.
Ou seja, trabalhar é difícil e nem sempre compensador, além de ser cansativo e ter que suportar aporrinhamento de algum patrão xarope que não reconhece o esforço do trabalhador. (Lembrando que tem trabalhador que não merece esse nome pois só pensa em morcegar!). A questão é que, muitas vezes, o valor do trabalho é desconsiderado. A política de salário mínimo mata a vontade de trabalhar. Principalmente quando vemos aqueles que aumentam seus próprios vencimentos já extorsivos aos cofres públicos desconsiderando a vida do trabalhador.
A quem a esmola faz mal? A quem recebe e a quem dá!
A quem recebe porque é levado a se acostumar com a miséria e a humilhação. A quem dá porque acaba pensando que fez um grande favor ao pedinte, quando lhe fez um mal. Além de, naquele que dá, criar uma carapaça moral a partir da qual o sujeito pensa que fazer caridade é dar de suas sobras. E esse é o problema da esmola: não ajuda a superar a situação, mas a alimenta; é um instrumento de manutenção da situação de iniqüidade.
É evidente que necessitamos de caridade e solidariedade. Mas esses valores devem ser cultivados ajudando aquele que a recebe crescer e sair da situação de miséria e marginalidade. Para que deixe de viver de esmola para viver da força de seu braço.
Prof. Ms. Neri de Paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador
Leia mais: http://falaescrita.blogspot.com/
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NERI DE PAULA CARNEIROPerfil o autor:

Concluí mestrado em Educação (UFMS), especialização em Educação (UNESC-Cacoal-RO), especialização em Metodologia do Ensino Superior (UNIR-RO), especialização em Metodologia de Leitura Popular da Bíblia (CEBI-RS). Concluí os cursos de graduação em Filosofia, Teologia, História. Sou Professor de História e Filosofia pela rede pública estadual (R. Moura-RO); professor de Filosofia na Faculdade de Pimenta Bueno - FAP (Pimenta Bueno-RO), na Faculdade de Rolim de Moura - FAROL (R.Moura-RO), na UNESC (Cacoal-RO). Radialista e colaborador em jornais da região de Rolim de Moura – RO.
Publiquei alguns livros de circulação regional além de artigos em revistas científicas de Rondônia.

Meus textos são publicados regularmente no jornal Folha da Mata (Rolim de Moura-RO) nos blogs: http://falaescrita.blogspot.com e http://ideiasefatos.spaces.live.com e no site www.webartigos.com

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1. Antonio Brás Constante (07:49, 31.03.2008)
Olá jovem Neri,
Muito boa sua linha de raciocinio. A esmola é um dos tipos de droga social que vícia, e não traz resultados práticos.
Grande abraço.
ABC

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