Déficit Intelectual

14/04/2009 • Por • 1,858 Acessos

Em um país hipócrita, as estatísticas tendem a ser igualmente despretensiosas e imprecisas. Ao tentar parecer melhor para o cenário nacional, mundial e até para se enganar, os números divulgados para o público são muito longe da realidade.

Em um Senado absurdamente grande, saturado de membros desnecessários gastando o dinheiro do contribuinte com superficialidades (tal como emprestar o celular pago pelo governo para a filha em uma viagem e usar a verba aérea para pagar viagens de amigos), não seria uma grande surpresa descobrir que a tal crise econômica está muito mais ligada ao sistema governamental de que dispomos do que da falta de verba em si. Obviamente nós sentiríamos os efeitos do déficit econômico mundial, no entanto, tamanha nossa distância do foco do problema, teria demorado muito mais tempo para que de fato sentíssemos um baque considerável, tempo no qual poderíamos encontrar meios de amenizar ou mesmo solucionar a situação interna. Isso não é, e não foi, possível simplesmente porque nosso comodismo nos impede de enfrentar uma situação já insustentável há décadas, tão arraigada no âmago da nação (e de nossos bolsos) quanto poderia.

Mas infelizmente o problema não acaba por aí (sim, digo infelizmente porque não acredito que dinheiro seja o maior problema de nenhuma situação), a displicência governamental faz com que a verba que deveria ser aplicada em setores produtivos seja desviada, prejudicando o cumprimento de todas as competências legais do Estado e todo o andamento de uma sociedade.

Ultimamente as autoridades tem se orgulhado ao exaltar o fato de que o índice de analfabetismo está em queda abrupta nos últimos anos, o que, porém, não é divulgado é o real quadro em que se encontra a instituição educacional no Brasil.

O índice de analfabetismo é medido, basicamente, pela quantidade de pessoas que consegue assinar seu nome em documentos oficiais, o que é uma abordagem completamente falha, uma vez que escrever o próprio nome não devia ser um atestado de alfabetização em nenhum aspecto, mesmo uma criança pode memorizar o formato das letras de seu nome e de seus pais sem nem mesmo saber o significado das palavras que escreve. Com isso, os analfabetos do Brasil estão migrando para outra esfera, conhecida como analfabetos funcionais.

Muitas crianças que não recebem a atenção adequada durante o processo de alfabetização tendem a não compreender o significado das palavras, esforçando-se apenas para “desenhar” as mesmas formas que são postas no quadro pelo professor. Em um ambiente onde a devida assistência é prestada ao aluno, essa situação não se prolongaria, porém, como o ensino da rede pública é notoriamente insuficiente no Brasil, há casos de crianças que se omitem, pensando que o problema se encontra em sua própria capacidade intelectual. Eles não compartilham sua situação, esforçando-se em contornar a situação ao não chamar atenção e se excluir voluntariamente do convívio social escolar na intenção de não ser chamado para ler na frente de seus colegas e respondendo (na verdade escolhendo aleatoriamente, pois não compreendem o enunciado) apenas as perguntas de múltipla escolha nas provas.

Essa é mais uma comprovação de que muitas coisas ainda estão sendo camufladas, não revelando a verdadeira situação e, portanto, prejudicando o futuro de toda a sociedade brasileira. Isso está no mesmo patamar de pensar que apenas dar casa e comida para um indivíduo é o suficiente para moldar seu caráter, justificar o analfabetismo com outro tipo de analfabetismo é estender ainda mais um problema deveras preocupante. Mais que uma crise econômica, acredito que é bem claro que temos uma grande crise intelectual em curso, que, ao contrário da primeira, aparentemente se perpetuará por tempo indeterminado.

Perfil do Autor

Mariana frança

Sensei Mariana França, estudiosa das artes e filosofia japonesas, representante da Gouki Shinryu heihou, escola de bujutsu. www.heihou.com.br