Dificuldades nas produções de textos escritos no contexto escolar

06/05/2010 • Por • 4,603 Acessos

    É sabido que a produção de textos escritos na escola tem sido um imenso sacrifício não só para os alunos, mas também para os professores que muita das vezes, tornam-se impotentes diante de tal problemática; pois escrever bem "não é tarefa fácil e prazerosa" ( Geraldi, 2004, p. 15). Os fatores que determinam as dificuldades nas produções textuais são de ordem diversa. Dentre tais, estão fatores pedagógicos e sócio-econômicos". Deter-se-á aqui mais a fatores de cunho pedagógico, embora seja dificil não falar de fatores econômicos e sociais, pois a vida do ser humano está atrelada a tais fatores. A prática pedagógica de muitos profissionais que trabalham na área de Língua Portuguesa precisa ser revista, em virtude do imenso fracasso que se perpetua no cotidiano escolar, e as dificuldades encontradas pelos alunos ao produzirem textos escritos são consequências das metodologias inadequadas aplicadas no ensino de língua materna. Para refazer a prática pedagógica na sala de aula, faz-se necessário repensar a linguagem, ou seja, precisa-se que os atores envolvidos processo ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa, possam contextualizá-la, não a concebendo somente como expressão do pensamento, nem tampouco como mero instrumento de comunicação. Mas o ensino do Português deve ser encarado como espaço de interlocução, isto permite ao usuário da língua, entender o mundo e agir sobre ele através de um prisma dialógico. Para Geraldi (1995), o sujeito é social, portanto a linguagem também é social. O autor em questão, acrescenta que na concepção dialógica da linguagem o sujeito nunca está pronto, haja vista que ele completa-se e se constrói, a partir do domínio pleno da linguagem. Infelizmente, segundo Kock (1998) as produções que envolvem produção textual no cotidiano escolar, muita das vezes, não concebe o texto como uma atividade verbal a serviço de fins sociais. No dizer de Ilari (1997), as atividades que envolvem produção textual tem sido usado como , uma espécie, de ajuste de contas entre docentes e discentes, isto porque tais atividades servem para condenar o aluno, pois o professor geralmente deixa todo assinalado os erros de ortografia, de concordância e de regência, como forma de castigo. Neste caso o professor não considera o erro como tentativa de acerto, muita das ocasiões não incentiva o estudante a reescrever seu texto e não considera os aspectos semânticos, ou seja, as intenções do autor do texto. Nas produções textuais não se deve priorizar somente um tipologia textual, como atualmente vem ocorrendo com a prioridade da dissertação em detrimento das demais,haja vista que, em virtude do texto dissertativo estar sendo mais cobrados pelos vestibulares do Brasil os professores, viram-se obrigados, até mesmo pela cobrança da sociedade, a focalizarem suas estratégias de produções textuais em torno de "macetes" refletidos em exercícios mecânicos e descontextualizados que servem para atender as exigências dos próprios docentes. Diante disso é importante salientar o que assevera Kock (1998, p. 22), quando diz "o texto deve ser uma atividade intencional que o falante, de conformidade com as condições sobre as quais o discurso é produzido, empreende tentando dar a entender seus propósitos ao destinatário através da manifestação verbal". Deve-se envolver nas atividades de produção textual as mais diversas possibilidades de produção, pois os textos são instrumentos de comunição. E para os PCN's eles devem ser a unidade de ensino da Língua materna. Vale enfatizar que o texto só ganha valor quando está inserido num real processo de interlocução. Além da metodologia tradicional que tem se tornado um dos principais fatores pelo fracasso do desenvolvimento da escrita por parte dos alunos, existe um outro fator, que muito contribui para tal negatividade educacional, é a inexistência de bibliotecas em muitas escolas deste pais, quando existe há carência de exemplares que tratem de variados temas, ou ainda o espaço físico não favorece o leitor para que possa fazer uma boa leitura. Ressalta-se também que há carência de bibliotecas públicas em muitas cidades como, por exemplo, no interior da Amazônia. Isto significa dizer que os professores padecem com a falta de apoio pedagógico. Tendo em vista que a leitura representa um dos suportes básicos para que o jovem aprendiz torne-se um bom produtor de texto, pois através da leitura o aluno enriquece seu vocabulário, observa as construções sintáticas de escritores mais experientes, dentre outros fatores benéficos que a leitura proporciona ao leitor. Os professores são beneficiados com a presença de uma biblioteca com diversificados exemplares bibliográficos, pois dessa forma podem dispor de outras fontes de informação além dos livros didáticos. Além da carência de bibliotecas, professores e alunos padecem com a falta de laboratório de informática na maioria das escolas públicas que se conhece. Sabe-se que a "internet" pode proporcionar muitas informações ( nos interessa as benéficas), e a informação é um ingrediente básico para quem escreve no mundo globalizado em que se vive.

 Metodologia adequadas a realidade do aluno

     Cabe a escola através dos cursos de capacitação preparar seus professores para que estes possam adequar suas metodologias a realidade em que os alunos estão inseridos. A disciplina Língua Portuguesa, apesar de fazer parte do núcleo comum do currículo escolar brasileiro, não significa que tal disciplina seja trabalhada da mesma forma de norte a sul deste país. Portanto pertencer ao núcleo comum, não denota ser uma "camisa de força", ou seja, o currículo enquanto parâmetro não se constitui em algo "pronto e acabado" (Terig, 1999), cabendo ao professor adequar os conteúdos a realidade regional e sócio- econômica em que vive o aluno. Sabe-se que a grande maioria dos estudantes que frequentam as escolas públicas, são oriundos das camadas populares da sociedade, ou seja, são pessoas que possuem baixo poder aquisitivo, em sua grande maioria filhos de pais com pouca escolaridade. Tais discentes trazem suas marcas linguística próprias do ambiente familiar da qual é oriundo. Muita das vezes essa linguagem que a criança traz de casa serve de chacota na escola. Para Soares (1992, p. 6) ocorre o seguinte:

 "(...) o conflito entre linguagem de uma escola fundamentalmente a serviço das classes privilegiadas, cujos padrões linguísticos usa e quer ver usado, e a linguagem das camadas populares que essa escola censura é estigmatizada, é uma das principais causas do fracasso dos alunos pertencentes a essas camadas, na aquisição do saber escolar".

    Diante de tal problemática, cabe ao professor de língua materna, ter pleno conhecimento de que o Português é uma língua que é homogênea em sua estrutura, mas que, ao ser falado possui inúmeras variações. Tais variações podem ser provenientes de vários fatores como: sociais, regionais, de idade, sexo, dentre outros. Mas o objetivo da escola é proporcionar o domínio pleno de todas as formas de expressão provenientes da língua materna, segundo Bechara (2005) a grande missão do professor de Língua Portuguesa é transformar o aluno em um poliglota dentro de seu próprio idioma. Embora tenha que centrar seu objetivo no domínio da forma padrão presente sobretudo na escrita, o professor não deve desprezar a modalidade que o aluno traz de seu convívio familiar. É função da escola proporcionar à criança o acesso ao registro prestigiado da língua, na cultura letrada em que se vive. Tal processo pode ocorrer a partir de situações criadas pelo professor, em que o aluno utilize o registro padrão e de outros que ele já conhece contextualizando o trabalho com as variantes da Língua.

    Portanto, constata-se que inúmeros são os fatores que contribuem para o fracasso do desenvolvimento da escrita por parte dos estudantes. Citou-se no desenvolvimento deste texto alguns, talvez os mais cruciais, que devem ser combatidos. Pois para que a pessoa conquiste a cidadania é preciso ser interprete e construtora de seu próprio texto: a vida. É preciso ter o mais elevado nível de leitura, da "palavra e do mundo", como diria o saudoso Paulo Freire. O ser humano, necessita adquirir competência para relacionar o texto ao contexto, aos conhecimentos, aos sentimentos, aos valores, às ideologias. E também ser capaz de concatenar as ideias através da tessitura de um texto escrito, compreendendo a função social que perpassa a língua escrita nos ambientes e atividades do dia-a-dia do ser aprendiz.

 

Referências

BECHARA, Evanildo. Ensino da Gramática. Opressão ou Liberdade. São Paulo. Editora Ática.2005.

 FREIRE, Paulo. Pedagogia da Tolerância, organização e notas Ana Maria Araújo Freire- São Paulo: Editora UNESP, 2004.

GERALDI, Vandederley (org). O texto na sala de aula. São Paulo. Editora Ática. 2004. ILARI, Rodolfo. A Linguística e o Ensino de Língua Portuguesa. 4 ª Ed. São Paulo. Martins Fontes, 1997.

 KOCK, Ingedore Villaça. O texto é a construção dos sentimentos. São Paulo: Contexto, 1998.

 SOARES, M. Linguagem e Escola, uma perspectiva social. Sào Paulo, Ática, 1986.

TERIGI, F. Curriculum: itinerário para preencher um território. Buenos Aires: Santillana, 1999.