Educação Física Na Escola, Cultura Corporal E Qualidade De Vida

30/10/2009 • Por • 4,603 Acessos

EDUCAÇÃO FÍSICA NA ESCOLA, CULTURA CORPORAL

E QUALIDADE DE VIDA

Michely Matias Lopes

RESUMO

Esta obra tem como finalidade mostrar como os aspectos culturais, sociais, políticos e afetivos influenciam na prática da Educação Física escolar. E para fundamentar essa afirmação, trazemos ao longo do texto os conceitos que apontam para essa importância. As atividades com finalidades de lazer, expressão de sentimentos, afetos e emoções, manutenção da saúde e da qualidade de vida, atualmente são consideradas fundamentais para o desenvolvimento da cultura corporal. Assim, a área de Educação Física hoje contempla múltiplos conhecimentos produzidos e usufruídos pela sociedade a respeito do corpo e do movimento. A Educação Física escolar deve dar oportunidades a todos os alunos para que desenvolvam suas potencialidades, de forma democrática e não seletiva. Finalizamos mostrando que as aulas de Educação Física devem superar a visão de que o ensino das modalidades e técnicas deve pautar-se nos modelos do esporte de alto rendimento, apontando para uma visão que considere o contexto no qual os alunos estão inseridos.

Palavras Chaves: Cultura Corporal, Qualidade de vida, Educação Física, Oportunidade, Desenvolvimento, Potencialidade.

LOPES, Michely Matias – Professora de Educação Física

E-mail: michelymatias@hotmail.com

1- INTRODUÇÃO

O objetivo deste trabalho é mostrar a influência dos aspectos culturais sobre a prática da Educação Física na escola. Utilizando como base teórica as idéias do antropólogo americano Cliffor Geertz sobre o conceito de cultura.

O conceito de cultura proposto por Geertz (1989, p.15), afirma que para entender o que é cultura, e como ela influencia as ações de um determinado grupo, é preciso identificar e perceber como as pessoas são, como se relacionam, como agem e interagem, é, portanto, ir além do visível, é mergulhar, de fato, no significado das ações desenvolvidas pelos indivíduos em suas sociedades. Percebe-se a partir dessa visão, que mais do que uma decorrência biológica, a questão cultural é essencial para o desenvolvimento humano.

A Educação Física, visando melhorar a condição de vida, favorece a educação do corpo, tendo como meta a constituição de um físico saudável e equilibrado organicamente, menos suscetível à doenças. Esse trabalho tem seus fundamentos nas concepções de corpo e movimento. Atualmente busca-se a superação dessa concepção, pois deve-se considerar também as dimensões cultural, social, política e afetiva, presentes no corpo, que interagem e se movimentam como sujeitos sociais e cidadãos. Portanto, a Educação Física deve ser entendida como uma cultura corporal.

Dentre as produções dessa cultura corporal, algumas foram incorporadas pela Educação Física em seus conteúdos: O jogo, o esporte, a dança, a ginástica e a luta. Estes têm em comum a representação corporal, com características lúdicas, de diversas culturas humanas. Assim, a área de Educação Física hoje contempla múltiplos conhecimentos produzidos e usufruídos pela sociedade a respeito do corpo e do movimento. Entre eles, se consideram fundamentais as atividades com finalidades de lazer, expressão de sentimentos, afetos e emoções, com possibilidades de promoções, recuperação e manutenção da saúde e da qualidade de vida.

De acordo com PCN (2001, p. 27 a 33), a Educação Física escolar deve dar oportunidades a todos os alunos para que desenvolvam suas potencialidades, de forma democrática e não seletiva. Independente do conteúdo escolhido, os processos de ensino aprendizagem devem considerar as características dos alunos em todas as suas dimensões (cognitiva, corporal, afetiva, ética, estética, de relação interpessoal, e inserção social). Portanto o processo de ensino aprendizagem em Educação Física, não se restringe ao simples exercício de certas habilidades e destrezas, mas sim de capacitar o indivíduo a refletir sobre as suas possibilidades corporais e, com autonomia, exercê-las de maneira social e culturalmente significativa e adequada.

2 – DESENVOLVIMENTO

A Educação Física é um componente importante na construção da cidadania, na medida em que seu objeto de estudo é a produção cultural da sociedade, que introduz e integra o aluno nesta área da cultura, formando o cidadão que vai produzi-la, reproduzi-la e transformá-la, instrumentalizando-o para usufruir dos jogos, dos esportes, das danças, das lutas e das ginásticas em benefício do exercício crítico da cidadania e da melhoria da qualidade de vida.

A Educação Física escolar deve considerar a diversidade como um princípio que se aplica à construção dos processos de ensino e aprendizagem e orienta a escolha de objetivos e conteúdos que se estabelecem com a consideração das dimensões afetivas, cognitivas, motoras e socioculturais dos alunos. Essas alternativas de ensino da Educação Física que efetivamente promovem a inclusão do aluno na construção de um conhecimento que o permite compreender e transformar a sua realidade.

2.1 - EDUCAÇÃO FÍSICA NA ESCOLA

Os profissionais da área devem ter uma proposta de trabalho ou um projeto educativo desenvolvido, que valorize o potencial formativo que a Educação Física tem para a educação global dos alunos. O que se pretende é que o aluno saiba fazer, entenda o que faz, como aprendeu, como pode continuar aprendendo sobre aquilo que o interessa, e que amplie seu olhar sobre as práticas da cultura corporal.

Os jogos, os esportes, as danças, as lutas e as diversas formas de ginástica estão presentes na nossa cultura, influenciando o comportamento, transmitindo valores, fazendo parte do dia-a-dia das pessoas, seja como prática nos momentos de lazer, seja como possibilidade para a atuação profissional. Na escola, o ensino da Educação Física pode e deve incluir a vivência dessas modalidades como conteúdos, não só os diferentes jeitos de fazer e aprender, mas também os diferentes tempos necessários para aprendizagem, baseados em situações reais do cotidiano escolar.

2.2 - CULTURA CORPORAL

O significado atribuído à cultura por Geertz (1989) dá subsídios para as discussões sobre as formas de manifestações culturais que estão relacionadas ao “corpo”. Formas que são absorvidas ativamente, recebendo um sentido, um significado no próprio processo de recepção e, portanto, vão adotando significados diferentes em sociedades distintas. O comportamento das pessoas também é “condicionado”, em grande parte, pelas regras sociais estabelecidas culturalmente. Regras estas construídas com base num significado simbólico que toma forma aos poucos.

Rodrigues (1986) afirma ser inegável a existência de conjuntos de motivações orgânicas, que conduzem os seres humanos a determinados tipos de comportamento. Mas o autor alerta que, a cada uma dessas motivações biológicas, a cultura atribui uma significação especial, em função da qual assumirá determinadas atitudes. Percebe-se, como conseqüência disso, que não há comportamento que não passe pela influência cultural e é sobre a égide dessa influência que os corpos também são formados.

Na obra de Daolio (1995, p.39) percebe-se um entendimento parecido a esse quando o autor afirma que o homem, por meio do seu corpo, pode assimilar e se apropriar dos valores, normas e costumes sociais, num processo de incorporação”. Essa incorporação nada mais é do que o processo pelo qual os seres humanos passam a internalizar em seus corpos os valores sociais que estão contidos na sociedade. Por isso que a cultura deve ser entendida como um dos principais conceitos para a Educação Física.

O corpo não foge as influências culturais, que ele é o meio de expressão fundamental do ser humano, sendo assim, não há possibilidade de existência de uma dimensão física isolada da sua totalidade.

Com essa afirmação inferimos que, se por um lado o desenvolvimento humano pode ser semelhante em alguns aspectos, por outro, a maneira com que ele se desenvolve provavelmente será diferente em virtude de vários fatores determinantes, entre eles, os condicionantes socioculturais.

O Coletivo de Autores (1992, p.39). Segundo eles o professor precisa fazer com que aluno entenda que

“o homem não nasceu pulando, saltando, arremessando, balançando, jogando etc. Todas essas atividades corporais foram construídas em determinadas épocas históricas, como respostas a determinados estímulos, ou desafios, ou necessidades humanas”.

Essa percepção dos autores reforça a necessidade de se compreender que o ser humano é mais do que um ser determinado biologicamente, uma vez que, ele é fruto da cultura em que vive.

A contribuição das discussões sobre as questões culturais são fundamentais para a Educação Física, e isso está justamente na possibilidade de propiciar uma mudança no seu olhar sobre o corpo para, conseqüentemente, não observá-lo mais como um amontoado de ossos, músculos, articulações, nervos e células.

A visão de um corpo essencialmente biológico afasta a área de uma compreensão ampla do ser humano, da compreensão de que são os significados atribuídos pela sociedade que definem o que é corpo e como ele age nas mais diferentes situações. Tal visão é explicitada por Mauss (1974) quando o autor afirma que cada pessoa irá servir-se de seus corpos por intermédio de técnicas adquiridas ao longo de sua existência e transmitidas pela sociedade em que estão inseridas.

2.3 - QUALIDADE DE VIDA

A educação física é uma disciplina de caráter teórico-prático que trata de assuntos relativos à cultura do movimento humano. No seu corpo de conteúdos podem ser abordados assuntos relacionados à saúde, valores éticos, sociais e políticos do corpo, da atividade física e do esporte, bem como a própria prática dos esportes, das danças, das lutas e dos jogos.

A educação física deve proporcionar informações e estimular os estudantes à adoção de comportamentos favoráveis para a manutenção ou aprimoramento de componentes do estilo de vida relacionados à saúde. Para isso, se utiliza do processo de ensino-aprendizagem através de vivências sistematizadas de diversas dimensões da cultura do movimento humano.

A educação física está estruturada em componentes que contribuem para a saúde e qualidade de vida, no entanto diversas investigações têm questionado as suas intervenções “educacionais” no que se refere à garantia de um contexto que promova não só o desenvolvimento de habilidades físicas, mas também de habilidades cognitivas, afetivas, e sociais que por fim reflitam em comportamentos mais conscientes e positivos em relação à saúde e qualidade de vida, enfatizado os conteúdos técnicos e fisiológicos das ciências do movimento humano, criando um esteriótipo tecnicista e pouco significativo as suas intervenções. Entretanto, as diversas crises sofridas por essa área profissional, fizeram com que várias questões advindas da conscientização sobre a complexidade das ações humanas, fossem trazidas para essa área tão ampla do conhecimento humano.

Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1998,b: 36):  As relações que se estabelecem entre Saúde e Educação Física são perceptíveis ao considerar-se a similaridade de objetos de conhecimento envolvidos e relevantes em ambas às abordagens. Dessa forma, a preocupação e a responsabilidade na valorização de conhecimentos relativos à construção da auto-estima e da identidade pessoal, ao cuidado do corpo, à consecução de amplitudes gestuais, à valorização dos vínculos afetivos e a negociação de atitudes e todas as implicações relativas à saúde da coletividade, são compartilhadas e constituem um campo de interação na atuação escolar.
Questões como saúde, ecologia, tecnologia e qualidade de vida passam a formar em alguns profissionais da educação física, uma visão mais ampla e sistêmica da complexa realidade presente nas relações e comportamentos humanos.

Essa nova visão de educação física requer multi e interdisciplinariedade, na tentativa de juntar os pedaços de um homem fragmentado, buscando a superação de uma concepção de ser humano essencialmente biológico para ser concebido segundo uma visão mais holística, onde se considera os processos históricos de ordem social, cultural, política, econômica e tecnológica. Nesse contexto, saúde e qualidade de vida não podem ser tratadas exclusivamente como biológicos ou psicológicos.

3 - CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste contexto, percebe-se que, mais do que uma conseqüência biológica, a cultura é fundamental para a “evolução” do ser humano, pois toda ação humana é considerada um ato social que obtém significados diferentes dependendo da sociedade em que ocorre.

A Educação Física é um componente importante na construção da cidadania, é ela que introduz e integra o aluno nesta área da cultura, formando o cidadão que vai produzi-la, reproduzi-la e transformá-la, para usufruir dos jogos, dos esportes, das danças, das lutas e das ginásticas em benefício do exercício crítico da cidadania e da melhoria da qualidade de vida.

As aulas de Educação Física devem superar o ensino, apenas, das modalidades e técnicas esportivas e, principalmente, o ensinar por ensinar. Os professores devem estar atentos aos interesses dos alunos, reconhecendo e respeitando o aporte cultural de cada um, garantindo com isso, o ensino contextualizado das manifestações relativas a cultura de movimento, possibilitando dessa forma, com que os alunos adquiram um senso crítico em relação a como são transmitidas tais atividades.

Para contemplar todos os aspectos ideológicos e sócio-históricos que fundamentam o olhar crítico presente na Cultura Corporal, todo o repertório de atividades, utilizado nas aulas de Educação Física, deve ser trabalhado, levando-se em consideração as características cognitivas, afetivas, corporais, éticas, estéticas e interpessoais dos alunos e o real poder contextual e de inserção social que eles apresentam.

A qualidade de vida é um termo empregado para descrever a qualidade das condições de vida levando em consideração fatores como a saúde, a educação, o bem-estar físico, psicológico, emocional e mental.

4 – BIBLIOGRAFIA

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação a Distância. Cadernos da TV Escola. Convívio escolar. Técnicas didáticas. Educação Física. Brasília. MEC/SEF, 1998.

PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS – Educação Física - Ministério da Educação – Volume 7, Brasília, 2001

COLETIVO DE AUTORES. Metodologia do ensino de Educação Física. São Paulo: Cortez, 1992.

DAOLIO, J. Da cultura do corpo. Campinas: Papirus, 1995.

GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1989.

MAUSS, M. Sociologia e Antropologia. São Paulo: EPU, 1974.

RODRIGUES, J. C. O tabu do corpo. 4ª ed. Rio de Janeiro: Dois Pontos,1986.

Perfil do Autor

Michely Matias Lopes

Michely Matias Lopes Profª. Educação Física E-mail: michelymatias@hotmail.com Contato: 8404-2049