Educação Musical Sensibilizadora Ou Tecnicista?

Publicado em: 20/10/2009 | Comentário: 0 | Acessos: 167

 

Em 18 de Agosto de 2008, depois de 12 anos de sua criação, o artigo 26 da Lei nº 9.394 que cria a LDB é alterada através da Lei nº 11.769:

 

Art. 1º  O art. 26 da Lei n  9.394, de 20 de dezembro de 1996, passa a vigorar acrescido do seguinte: § 6º  A música deverá ser conteúdo obrigatório, mas não exclusivo, do componente curricular de que trata o § 2º deste artigo.”

Art. 2º (VETADO) O Ensino de música será ministrado por professores com formação específica na área

Art. 3º  Os sistemas de ensino terão 3 (três) anos letivos para se adaptarem às exigências estabelecidas nos arts. 1º e 2º desta Lei (BRASIL Lei  11.769 de 18 de Agosto de 2008, publicado no Diário Oficial da União em 19/08/2008).

 

Com esta nova alteração na LDB, a música deverá ser incluída no currículo da educação básica a partir de 2011. Uma questão que até o momento ainda não foi debatido amplamente e deveria ser o ponto de partida para que a lei nº 11.769 seja cumprida é, qual a modalidade de Ensino Musical será adotada.

 

Psicologização da música

São várias as especulações sobre as contribuições da música sobre o intelecto humano, as mais comuns se referem ao desenvolvimento da concentração, da inteligência, para relaxamento, na disciplina, etc..  O assunto é desenvolvido sem um maior aprofundamento teórico, geralmente por pessoas sem experiência prática em música, nem ao menos de forma sensibilizante e a afirmação ocorre na tentativa de justificá-la como conteúdo a ser apreendido.

O fato é que a música se justifica por si só, é uma linguagem que foi desenvolvida e transmitida pela humanidade através dos tempos e tem funções diferentes em determinadas sociedades e épocas.  Sua significação é extremamente subjetiva, a tentativa de explicar e generalizar a impressão de sentimento (emoções) ao se ouvir música, e a atribuir a ela o desenvolvimento de habilidades de cognição, foge ao propósito pedagógico da música na educação formal.

A música ou som, quando usada em determinadas situações clínicas e terapêuticas pode ser usada como instrumento de diagnóstico e tratamento, através abertura de canais de comunicação, e em processos regressivos em pacientes com distúrbios mentais ou neurológicos, porém esta é uma área delicada que abrange outras áreas de conhecimento como psiquiatria, psicologia e musico terapia.

É importante considerar o risco da psicologização da música quanto à supervalorização de determinados gêneros e formas em detrimentos de outros dentro do âmbito escolar, e desta forma cristalizar no individuo valores ideológicos superficiais e artificiais a respeito da música.

 

Educação musical sensibilizadora

O ser humano é musical por natureza, pois através do canto consegue produzir, sustentar e modular ondas sonoras, utilizando o seu corpo como objeto produtor de som sem o auxilio de qualquer outro instrumento, respeitando suas limitações (extensão vocal, e timbre).

Registros indicam manifestações musicais presente desde a mais remota época, em várias civilizações. Os mais antigos estão ligados mitologia Grega e a personagens Bíblicos.

Para entender os possíveis motivos que levou o ser humano a desenvolver uma linguagem para a representação musical, partimos da consideração de que a ação do som acontece no tempo. Um evento sonoro só é percebido no momento em que ele é executado e enquanto esta ação atua em um espaço, durante um período de tempo. A partir deste ponto, o registro sonoro é impresso na memória.

Na antiguidade da cultura ocidental o desenvolvimento de uma escrita musical foi à única forma de registro e representação do fenômeno som fora da memória humana, e esta grafia conseguiu chegar a sua perfeição no período da Renascença sendo depois universalizada através dos tempos.

Mesmo com a sofisticação da escrita musical e do desenvolvimento de vários tipos de instrumentos musicais, uma coisa ainda era essencial para a produção musical: O músico.

Esta condição começa a mudar no século XIX com o invento da primeira forma de registro e reprodução sonora, este aparelho conhecido como fonógrafo foi desenvolvido por Thomas Alva Edison e consistia em um aparelho acústico mecânico no qual as informações eram gravadas e reproduzidas a partir de cilindros e discos de cera.

Com a possibilidade do registro sonoro para sua reprodução através de meios mecânicos, elétricos, eletrônico ou digital, o músico ainda se faz necessário, porém agora só no início do processo, na composição ou no registro dos sons.

Em nossa contemporaneidade foram desenvolvidos Softwares de computadores para música que assimilaram o código da escrita, transformando a linguagem musical em informação digital, de maneira que um músico compositor pode escrever para vários instrumentos e solicitar que o programa execute a peça musical simulando a apresentação de uma orquestra ou banda musical.    

A conclusão é que o domínio do som para a reprodução e a apreciação musical não fica mais restrito a escrita tradicional ou na execução pelo músico.

Através de estudos musicais teóricos e auditivos, das facilidades de acesso à diversidade da música mundial, pesquisando seu desenvolvimento histórico, meios multimídias (DVD Equipamentos de áudio etc...) e conhecimento pedagógico específico sobre as faixas etárias em que vai atuar, o professor tem condições de trabalhar música num nível sensibilizador sem necessariamente ser um músico. 

A sensibilização pode ser desenvolvida através de conceitos sobre as características do som, compreensão dos elementos fundamentais e concretos no fazer sonoro (oficinas), multiculturalismo de gêneros musicais, a importância da música no desenvolvimento das civilizações, softwares de jogos pedagógicos musicais entre outros.

 

Educação musical tecnicista

O ensino e a aprendizagem considerando o fazer musical sob uma ótica estética, levando em consideração a escrita tradicional e os conceitos que fundamentam as teorias musicais ocidentais é que podemos considerar como educação musical tecnicista.

Pensar numa metodologia tecnicista em música na educação formal leva as outras questões fundamentais para a realização da ação: que tipo de instrumento musical será utilizado prioritariamente na escola?

Provavelmente quando Villa Lobos concebeu o seu projeto para a educação musical ele tenha priorizado o Canto Orfeônico devido ao pensamento de uma educação musical em massa, porém mesmo trabalhando apenas a escrita e o canto, se fez necessário na época a abertura de cursos específicos em formação de professores de canto orfeônico para dar conta da demanda:

O decreto lei 9494 de 22 de julho de 1946 que criou a lei orgânica do ensino de canto orfeônico tinha como finalidade a preparação de professores para trabalhar a música na escola.

O texto da lei tinha descrito de forma detalhado a estrutura do estabelecimento de ensino a ser criado, as finalidades, todo o programa a ser desenvolvido dividido em disciplinas, grade curricular, formas de admissão, avaliação etc..

As ações eram rigidamente inspecionadas sob o ponto de vista administrativo, tendo em vista zelar pela exata observância dos programas e outras disposições legais de natureza pedagógica. Apesar da ótima qualidade das supostas disciplinas e conteúdos apresentados no programa e entre elas pode-se citar: História da educação musical, Etnografia musical, Biologia educacional, Psicologia educacional, Filosofia da educação, e até Terapêutica pela música entre outras, a ideologia presente no discurso era de um civismo nacionalista típico da época.

Para pensar numa educação musical tecnicista contemporânea devemos partir do pré-suposto de uma universalização da escrita, e neste caso a didática utilizada seria a da escrita musical tradicional e de elementos e conceitos pertinentes à linguagem, como melodia, harmonia, ritmo, tonalismo, serialismo, cromatismo entre outros. 

Porém como pensar numa educação musical Humanizante frente à ideologia Eurocêntrica presente principalmente nos meios Acadêmicos de educação musical de tradição mais conservadora, que recusam ainda hoje reconhecer gêneros musicais populares nacionais em seu repertório de estudo, a exemplo do Choro?        

Frente à diversidade cultural encontrada em nossas escolas de educação formal sem dúvida este será um dos maiores desafios, pois é impossível desvincular o objeto música, das tradições e manifestações culturais populares e religiosas.

Existe a necessidade de se pensar primeiro em uma sensibilização musical crítica, não só dos alunos, mas também dos professores, respeitando a diversidade, para depois pensar em transformar nossos alunos em pequenos músicos leitores de partituras. Caso esta reflexão não ocorra corre-se o risco de se criar mais uma disciplina de enorme rejeição dentro da escola.

 

Música como objeto interdisciplinar

A compreensão da linguagem e da escrita musical acontece através da decodificação do código musical e interpretação de seus símbolos, que envolve conceitos matemáticos e da escrita da língua mátria, pois para cada símbolo musical existe um nome que o representa.  

            Outra possibilidade de trabalhar a interdisciplinaridade com música são as características do som, pois o mesmo é encontrado na natureza (Som do trovão, do vento, da água na cachoeira, das folhas da arvore ao vento etc..), provavelmente tenha sido o som da natureza que tenha inspirado o homem a dominá-lo e a fazer música para manifestar-se.

A música desenvolveu-se através do tempo em todas as civilizações, e dentro deste contexto é possível trabalhar elementos históricos e geográficos vinculados a esta manifestação.  

 

(Artigonal SC #1357070)

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    Fonte do artigo: http://www.artigonal.com/educacao-artigos/educacao-musical-sensibilizadora-ou-tecnicista-1357070.html

    Palavras-chave do artigo:

    MÚSICA EDUCAÇÃO

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